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História em quadrinhos expõe cotidiano de um casal sorodiscordante

Um dos efeitos colaterais da abordagem exclusivamente médica da saúde é a desumanização. Quando o conjunto de informações técnicas sobre a doença — diagnósticos, prevalências, protocolos, evidências e demais dados —assume o protagonismo nas relações de saúde, colocam-se em segundo plano as singularidades das relações humanas. Mostrar a vida que existe para além dos prontuários é a primeira contribuição dada por “Pílulas azuis”, narrativa autobiográfica assinada pelo suíço Frederik Peeters.

Em quadrinhos desenhados em preto e branco, o autor narra a história de desafios e de amor protagonizada por ele, sua mulher Cati e o filho dela, que são soropositivos. Escrita em 2001 e lançada no Brasil em 2015, a narrativa continua atual por discutir, sem sentimentalismos, angústias, dificuldades e realizações comuns aos casais chamados “sorodiscordantes”: revelar ao parceiro a condição sorológica, acompanhar eventuais idas ao hospital, conviver com o medo da morte, a desinformação sobre riscos e os preconceitos da sociedade, discutir as limitações do cotidiano, fazer planos para o futuro dos filhos.

Ao mesmo tempo, a história de Fred, Cati e seu pequeno filho também contribui para mostrar como a vida da família, a despeito do vírus, segue uma rotina similar a de tantas outras, com momentos de amor e de desejo, contas para pagar e negociações de convivência. Cati se preocupa com a saúde e o futuro do filho; Fred tem dúvidas sobre até que ponto pode expor a parceira diante de sua família; os dois compartilham medos disparados por um preservativo que falha. A vida real é desenhada por Frederik a partir de seus próprios medos, simbolizados por figuras nada sutis como a de um rinoceronte ou a de um mamute. “O senhor tem tanta chance de ter pego aids quanto de cruzar com um rinoceronte branco ao sair daqui”, ironiza o médico ao casal, em uma das muitas consultas de rotina.

A postura positiva e aberta do profissional de saúde é outra contribuição dada pela história, ao destacar a importância da confiança na evolução de qualquer tratamento. Ao fim, o autor estabelece também um pacto com o leitor, com quem divide inseguranças, cobranças e carências, sentimentos comuns a qualquer relação de amor. “Às vezes me pergunto se não me sinto bem nessa história porque faço o papel do bonzinho... Não sou eu que tenho HIV... Sou eu quem ampara, quem apoia... Sou obrigado a ver as coisas pelo lado positivo para contrabalançar”, questiona Fred ao mamute imaginário. “Em minha humilde opinião de mamute, você está projetando seus conflitos interiores sobre o mundo”, responde o interlocutor.

A edição brasileira de “Pílulas azuis” (Editora Nemo) traz ainda um capítulo adicional, onde o autor revela como a família tem lidado com o HIV nos treze anos seguintes a 2001, data da primeira publicação, e que inclui entrevistas com Cati, o filho, já com 16 anos, e a outra filha do casal, nascida depois. “Você se sente diferente dos outros?”, questiona o pai. “Não, de modo algum! Só tenho que tomar três pílulas por dia”, responde. E sobre sua condição, avalia: “Sabe, ao contrário do que tenha imaginado, não é tão difícil de viver”.

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