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Foto: Tomaz Silva/ABR

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Com surto prolongado e baixa cobertura vacinal, Brasil perde certificado de eliminação da doença

“Eu nunca atendi um paciente com sarampo. Considero tenebroso que eu possa vir a atender”, lamenta o pediatra e infectologista Márcio Nehab, do Instituto Nacional de Saúde da Mulher, da Criança e do Adolescente Fernandes Figueira (IFF), da Fiocruz, no Rio de Janeiro. Esse risco não está descartado desde 19 de março, quando o Ministério da Saúde anunciou oficialmente que o Brasil perderá o status de país livre da doença — após o registro de um novo caso no Pará em 23 de fevereiro, quando a circulação do vírus no país completou um ano, o que indica haver uma transmissão sustentada.

O certificado de eliminação do sarampo foi concedido pela Organização Panamericana da Saúde (Opas) em 2016, devido ao baixo número de casos nos últimos anos e o encerramento de alguns surtos importados de outros países. A doença estava devidamente controlada. Mas novos casos começaram a ser notificados a partir de fevereiro de 2018. Desde então, até 24 de janeiro deste ano, foram 10.302 registros em 11 estados — Amazonas (9.803), Roraima (355), Pará (62), Rio Grande do Sul (46), Rio de Janeiro (19), Pernambuco (4), Sergipe (4), São Paulo (3), Bahia (3), Rondônia (2) e Distrito Federal (1).

Pesa para esse número o fato de a cobertura vacinal de sarampo estar abaixo da meta de 95%. A vacina que previne a doença encontra-se disponível gratuitamente nas unidades básicas do SUS, em duas doses — é a tríplice viral, que também combate a caxumba e a rubéola. De acordo com o Programa Nacional de Imunizações (PNI), a cobertura da primeira dose está em 90,1%, enquanto a da segunda está em 74,9% (Radis 196). No Pará, 83,3% dos municípios não atingiram a meta; em Roraima, 73,3%; no Amazonas, 50%. Somente Pernambuco alcançou a cobertura vacinal acima de 95% e, mesmo assim, apenas para a primeira dose.
“Se nós mantivermos baixas coberturas vacinais, basta uma pessoa doente entrar no nosso país para ocorrer a transmissão. Por isso temos que voltar a ter elevadas coberturas, porque somente dessa forma estaremos com nossa população protegida”, alertou a coordenadora do PNI, Carla Domingues, em entrevista à Radis 196.

Amazonas, Roraima e Pará ainda registram transmissão ativa do vírus, principalmente devido a fluxos migratórios da Venezuela. Segundo o boletim “Situação do sarampo no Brasil”, o genótipo que está circulando por aqui, o D8, é idêntico ao que está circulando na Venezuela — com exceção de dois casos.

Casos de sarampo têm sido reportados em várias partes do mundo. A Organização Mundial da Saúde (OMS) informa que os países dos continentes europeu e africano registraram o maior número deles. “O período de incubação da doença passa de 10 dias, por isso uma pessoa assintomática pode entrar no país e reiniciar a transmissão, caso as taxas de cobertura vacinal estejam abaixo de 95%, que é o que tem acontecido”, explica Nehab.
Nesse período, houve 12 mortes por sarampo em três estados — quatro em Roraima, todas de menores de 5 anos; seis no Amazonas, em que quatro eram menores de um ano de idade; e duas no Pará, ambos menores de um ano.

A doença é causa importante de mortalidade infantil, devido a complicações

O sarampo é uma doença infecciosa aguda, de natureza viral, transmitida de pessoa para pessoa por meio de secreções respiratórias (fala, tosse e espirro). As complicações (infecções respiratórias, otites, doenças diarreicas e doenças neurológicas) contribuem para sua gravidade, atingindo particularmente crianças desnutridas e menores de um ano de idade. Em algumas partes do mundo, é uma das principais causas de morbimortalidade entre menores de 5 anos.

A doença caracteriza-se principalmente por febre alta, acima de 38,5°C, exantema maculopapular generalizado (manchas vermelhas pelo corpo), tosse, coriza, conjuntivite e manchas de Koplik (pequenos pontos brancos que aparecem na mucosa bucal, antecedendo ao exantema).

O comportamento endêmico varia de um local para outro, e depende basicamente da relação entre o grau de imunidade e a suscetibilidade da população, além da circulação do vírus na área. “Se entrarem 10 pessoas em uma sala onde alguém tem o vírus e os 10 não estiverem imunes, nove vão pegar sarampo”, alerta Nehab. “A infectividade da doença é muito alta, uma das maiores que existem na literatura médica, daí a importância da vacinação”.

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ESTADOS QUE APRESENTARAM

CASOS DA DOENÇA EM 2018

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Baixa cobertura vacinal

O Ministério da Saúde informa que ações de vacinação têm sido intensificadas nos locais de ocorrência dos casos para interromper a cadeia de transmissão.
Nehab ressalva que não podem ser vacinadas crianças abaixo de seis meses, grávidas e imunossuprimidos (pessoas com o sistema imunológico debilitado por doenças ou tratamentos). Adultos podem e devem se proteger. “Se você não sabe se já tomou ou não, deve se vacinar”, recomenda.

O médico lembra que existe uma ficha de notificação de casos suspeitos de sarampo, para que o controle da Vigilância Sanitária seja feito de forma rápida, antes mesmo do resultado dos exames laboratoriais. Nesses casos, a vacinação é reforçada na comunidade exposta, a chamada vacinação de bloqueio.

Um navio de cruzeiro com 9 mil passageiros aportou no dia 20 de fevereiro no Porto de Santos, em São Paulo, após a confirmação de um surto de sarampo (Radis 198). Treze tripulantes tiveram casos confirmados, por isso todos os passageiros e tripulantes, incluindo o cantor Wesley Safadão, contratado para se apresentar no cruzeiro, tiveram que se vacinar com a tríplice viral (sarampo, rubéola e caxumba). A vacinação de bloqueio não impede a doença em pessoas que já foram contaminadas e estão em fase de incubação, mas evita a infecção e transmissão daqueles que ainda não foram expostos.

Sintomas

  • Febre alta, acima de 38,5°C
  • Dor de cabeça
  • Manchas vermelhas, que surgem primeiro no rosto e atrás das orelhas, e, em seguida, se espalham pelo corpo
  • Tosse
  • Coriza
  • Conjuntivite
  • Manchas brancas que aparecem na mucosa bucal conhecida como sinal de koplik, que antecede de 1 a 2 dias o aparecimento das manchas vermelhas

Transmissão

Ocorre de forma direta, por meio de secreções expelidas ao tossir, espirrar, falar ou respirar.

Vacinação

  • A vacina que protege contra o sarampo é a tríplice viral, que pode ser encontrada nas Unidades Básicas de Saúde e faz parte do Programa Nacional de Imunização. Quem já tomou duas doses durante a vida, da tríplice ou da tetra, não precisa mais receber a vacina.
  • Crianças de 12 meses a menores de 5 anos de idade: uma dose aos 12 meses (tríplice viral) e outra aos 15 meses de idade (tetra viral)
  • Crianças de 5 anos a 9 anos de idade que perderam a oportunidade de serem vacinadas anteriormente: duas doses da vacina tríplice
  • Pessoas de 10 a 29 anos: duas doses da vacina tríplice viral
  • Pessoas de 30 a 49 anos: uma dose da vacina tríplice


Fonte: Ministério da Saúde