Entrevista com Paulo Petersen

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Janeiro de 2019 | por Liseane Morosini

“A agricultura familiar não produz só alimento, mas trabalho digno e cultura, conserva a biodiversidade e os ecossistemas e produz a paz, porque diminui os conflitos”,

aponta o engenheiro agrônomo Paulo Petersen, coordenador executivo da Associação para a Agricultura Familiar e Agroecologia (ASPTA). Integrante do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), ele afirma que a agroecologia é muito mais eficiente que o agronegócio, já que é baseada na compreensão dos ecossistemas, da biodiversidade e das dinâmicas ecológicas locais. Em entrevista à Radis, realizada em Paraty, ele defendeu que é preciso enfrentar o agronegócio, incentivando a adoção da agroecologia como uma prática sustentável, que respeita a diversidade, a ligação das comunidades tradicionais e dos agricultores com o território e que valoriza a forma de se alimentar local.

Por que optar pela proposta agroecológica para a agricultura?

A agroecologia nasce como uma resposta à industrialização dos sistemas agroalimentares e entende que a agricultura, historicamente, foi desenvolvida em conexão com os ecossistemas. Essa é uma prática que bebe da sabedoria popular. Ela procura compreender os ecossistemas, a biodiversidade, as dinâmicas ecológicas locais. É uma agricultura eficiente, economicamente, ao mesmo tempo em que consegue regenerar a capacidade desses ecossistemas de permanecerem férteis. É uma inovação que produz economicamente e reproduz ecologicamente. Nessa prática, quem produz uma semente própria, produz um insumo que vai virar a produção do próximo ano. Não é apenas algo que vai ser consumido e virar renda como no modelo da agricultura industrial.

O que é a agricultura camponesa?

É a base social e cultural da agroecologia e que possui uma lógica econômica diferente da lógica típica do agronegócio. Não é só uma questão de tecnologia: esse é um trabalho organizado em função dos ciclos da natureza e que permite que a agricultura se reproduza ano após ano. A agroecologia reforça também que não existem receitas universais: essa prática tem que ser ajustada a diferentes localidades e deve dialogar com os saberes locais. Ela provoca uma mudança na forma de entender o conhecimento e nem sempre é reconhecida como ciência, inclusive pela economia, que estabeleceu que “a economia só é aquilo que vai aos mercados”. Entendo que na economia camponesa há muita riqueza que é produzida e circulada, que não depende de mercados, mas está ligada ao autoconsumo, às trocas, à forma de organização, de autoajuda, à cooperação.

Porque a agroecologia implica em uma nova relação com o território?

O Brasil foi estruturado sobre a égide do latifúndio e da monocultura, com a perspectiva de exportação. Isso explica a nossa concentração fundiária, o latifúndio. A agroecologia é uma nova apropriação desses territórios, e para que essa prática seja estabelecida é preciso garantir a relação permanente desses produtores com o território. Uma das grandes agendas do movimento agroecológico, no Brasil, é a reforma agrária e a defesa dos direitos territoriais dos povos e das comunidades tradicionais. É preciso dar estabilidade para que eles construam um capital ecológico, para estabelecer essa relação de reciprocidade com o território.

Quais são as principais diferenças entre agroecologia e agronegócio?

O agronegócio pensa e estrutura o desenvolvimento tecnológico e a forma de ocupação dos espaços como um negócio para extrair mercadorias. Extrai e produz. Com isso, destrói os ecossistemas, o que gera mudança climática, acaba com a biodiversidade e a condição de o território permanecer produtivo no futuro. É uma extração de curto prazo sem compromisso com a regeneração das condições ecológicas, tampouco com o meio de vida das pessoas, dos territórios. Entendemos que essa é uma agricultura insustentável porque destrói as condições biofísicas, e a agricultura depende delas. Além disso, tem uma lógica expansiva e fome de mais terra. Para responder a uma pequena margem de lucro que o agronegócio tem por área, tem que expandir para cima dos ecossistemas, das florestas. Veja que os direitos aos territórios dos povos tradicionais são negados porque suas terras são vistas como fronteiras de expansão do agronegócio.

É possível resistir a esse avanço?

O Estado é cada vez mais controlado pelo interesse das grandes corporações, no Brasil e no mundo. Eles prevalecem e moldam as leis, favorecendo a lógica expansiva. Nós temos usado a palavra resistência. Ela é uma palavra-chave no momento em que estamos vivendo, porque a defesa dos territórios e a reforma agrária estão paralisadas há muitos anos. Nesse momento histórico, resistir é fundamental. Resistir, porque nós já resistimos no passado, conseguimos retomar vários territórios com a reforma agrária. Mas fizemos uma reforma agrária pela metade, sem políticas públicas de apoio. Muitas vezes, quando existiram, levaram para os assentamentos os transgênicos, os agrotóxicos, a monocultura. Ou seja, houve um movimento para subordinar a agricultura familiar à lógica do agronegócio. Por isso que falamos que é preciso fazer uma reforma agrária popular, agroecológica, que vá além da distribuição da terra e que reestruture com profundidade a economia dos territórios.

A agricultura familiar responde por quanto da produção nacional?

Embora não haja informações oficiais disponíveis, não duvido que mais de 70% dos alimentos são produzidos por agricultores familiares. Só não considero esse um ponto central porque a agricultura familiar não produz só alimento, mas trabalho digno e cultura, conserva a biodiversidade e os ecossistemas e produz a paz, porque diminui os conflitos. Sabemos que a agricultura familiar é muito mais eficiente do que o agronegócio, em produção por área. Uma monocultura produz muito de uma coisa só. Uma monocultura de milho pode ser altamente produtiva, mas o volume de produção total em um hectare diversificado, agroecológico, é muito maior. E o resultado não é um milho transgênico, cheio de agrotóxicos. É uma produção diversificada em quantidade e qualidade. Não podemos reduzir ou aceitar o debate à produtividade por hectare, porque o indicador não é esse.

Que indicadores devem ser utilizados?

O indicador é diversidade, qualidade e eficiência. Eficiência é produzir mais com os recursos que se tem, porque a alta produtividade do agronegócio dependeu de muito recurso que veio de fora, de petróleo. Boa parte dos fertilizantes são dependentes de petróleo e isso tem que entrar na conta! Nós não teremos, por exemplo, mais petróleo para fazer com que os alimentos passeiem de um lado para outro do planeta, como acontece atualmente. Entendo que a agricultura industrial é altamente ineficiente do ponto de vista ecológico. Claro que existe uma produção por hectare muito elevada, mas é preciso pegar a quantidade final de grão produzido e verificar o quanto entrou de energia no início. Na agroecologia, o aporte de energia é basicamente solar. Há o manejo dos recursos disponíveis, a biodiversidade, energia solar e água junto com o conhecimento local. No agronegócio, os agricultores reproduzem técnicas e se há inovação ela está na mão das corporações.

Há inovação na prática agroecológica?

A capacidade de inovação local é fundamental para manejar os recursos locais e produzir a eficiência, quando se detém o conhecimento. Isso não acontece na agricultura industrial que tem uma lógica econômica que impõe pacotes. Quando o agricultor entra nesse circuito, não consegue mais sair, porque fica preso às dívidas. Para pagar a dívida do ciclo passado, ele contrai uma nova dívida e fica amarrado no sistema financeiro. A agroecologia é uma proposição para mudar esse paradigma e construir autonomia, de conhecimento e recursos. Estamos falando de uma ciência muito avançada, de biotecnologias. Não somos antiquados e sabemos que estamos na fronteira do conhecimento.

Porque a narrativa da modernidade colou no agronegócio?

O agronegócio foi obrigado a criar uma grande campanha ideológica, que agro é pop, mas que só usa palavras de ordem: nós produzimos isso, produzimos aquilo. A agroecologia é apontada como o futuro exatamente porque dá respostas. As evidências empíricas, sistematizadas no mundo acadêmico e nos movimentos populares, demonstram que ela tem não só capacidade de produzir respostas estruturais para o dilema alimentar, mas para um conjunto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Não é só uma saída tecnológica que ela apresenta, mas de reorganização da economia, da agricultura, dos sistemas agroalimentares. Nós trabalhamos com a promoção da saúde, com sistemas agroflorestais e com saneamento. Eu acho que a perspectiva agroecológica só tem sentido se for nessa direção e não é possível pensar essa prática como a retirada dos químicos dos alimentos, os agrotóxicos e os transgênicos. Ela é muito mais do que isso, ela é uma perspectiva de promoção de um ambiente saudável.

É preciso então mudar a lógica da produção à comercialização?

Para ter um enfoque sistêmico, é preciso mudar todas as pontas, respeitando a diversidade e a forma de se alimentar local. Por isso que falamos em relocalizar os sistemas agroalimentares. Os sistemas agroalimentares estão globalizados, todo mundo produz a mesma forma, com as mesmas sementes, as mesmas técnicas e consome as mesmas porcarias. No mundo inteiro! E são poucas empresas que controlam isso tudo. Quando a gente fala em mudanças nos sistemas agroalimentares, é mudança dos impérios alimentares, que estão em todos os lados, da produção até o consumo. É uma ação com propósito transversal e multisetorial. (L.M)