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Fotografias: Acervo pessoal.

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O impacto da covid-19 na vida da família continua mesmo depois da alta do hospital, relata a socióloga Caroline Couto

Rogério Couto (na foto, com as filhas Daniele e Carolina, e o neto, João Miguel) tem o apoio da família na recuperação da covid-19.

O contato feito pela Radis em diferentes redes sociais não foi respondido de imediato. Horas mais tarde, chega, por meio do Whatsapp a mensagem: “Pode me ligar às 20h? Estamos numa situação aqui de cuidados, agora à tarde”. Quem retornava o pedido de entrevista era a socióloga e professora Caroline Couto, 36 anos, cujas vida e família foram severamente afetadas pelo novo coronavírus.

Em março deste ano, ela e o companheiro Zeh Gustavo deixaram Cuiabá, onde moram desde 2018, em direção ao Rio, com o objetivo de aproveitar o final das férias. O que ambos não imaginavam é que a viagem iria ter como consequência a contaminação do casal, do pai dela, Rogério Couto, e de sua madrasta, Ângela Esteves. Três meses depois, a família ainda sofre os impactos da decisão, tomada quando ainda não se recomendava isolamento social: Zeh Gustavo e Ângela se recuperaram em casa, mas pai e filha precisaram de tratamento hospitalar.

No dia 16 de junho, quando conversou com a Radis, Caroline ainda cuidava do pai, o mais afetado pela covid-19. Depois de dois meses internado, quando precisou ser intubado, ele ainda sofria em casa com escaras pelo corpo e com dificuldades para se locomover. “Meu pai passou por uma série de dificuldades, teve algumas infecções hospitalares que pioraram seu quadro, mas está conseguindo superar”, informa Caroline, explicando que a rotina de cuidados tem mobilizado toda a família. À tarde, quando recebeu a solicitação de entrevista, ela ajudava o pai a fazer sua higiene pessoal.

Aos 74 anos, Rogério foi o primeiro do grupo a apresentar sintomas. Preocupado com a febre que sentia, ele e a mulher, Ângela Esteves, com 63, procuraram um hospital particular, na Barra da Tijuca, bairro da região Oeste do Rio de Janeiro. Naquele momento, após um exame de raio X, ele foi diagnosticado com princípio de pneumonia e orientando a se cuidar em casa. Como Ângela também não se sentia bem e apresentava um pouco de febre, os dois decidiram ficar em casas separadas, já que não sabiam o que de fato os tinha afetado. Depois disso, ele começou a apresentar dificuldades de respirar, mas relutou a procurar novamente um hospital, com medo de se contaminar com a covid-19.

Ao mesmo tempo, Caroline e Zeh Gustavo, já de volta a Cuiabá, também começaram a sentir os primeiros sinais de que algo não andava bem. A princípio, ela atribuiu seu desconforto a uma crise de sinusite; lembra de ter tido episódios de febre baixa, mas ainda assim, não se preocupou. Logo começou a reparar um incômodo no peito quando respirava. Se respirasse fundo, tossia. Informada sobre a suspeita de que o pai e a madrasta poderiam estar contaminados (Rogério aguardava o resultados do exame, feito em sua primeira consulta; Ângela se recuperava em casa), ela também procurou atendimento médico.

Caroline foi atendida em um hospital particular, no bairro Bosque da Saúde, na região leste de Cuiabá, onde uma tomografia indicou “uma pneumonia típica da covid-19”, conta ela. Os médicos decidiram interná-la e ali ela passou três dias, onde foi medicada e submetida a sessões de fisioterapia respiratória. “Fui melhorando”, relata, lembrando que os primeiros dias foram muito difíceis, já que sentia muita dificuldade para respirar. Com o diagnóstico dela, Zeh Gustavo, que tem bronquite, apressou-se em pagar um exame particular, no mesmo hospital, que também mostrou uma pneumonia. Como o caso dele era leve, foi medicado e orientado a voltar para casa.

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Recuperando-se, ainda no hospital, Rogério recebe o carinho dos filhos: três meses de angústia em família.

Nesse ínterim, no Rio de Janeiro a situação de Rogério se agravou. A família o levou a outro hospital particular, desta vez na Tijuca, zona Norte da cidade, onde ele foi internado. Segundo Caroline, foram muitas as dificuldades que ali enfrentou. Rogério era acompanhado pela outra filha, Daniele, que é fisioterapeuta. As irmãs se comunicavam diariamente, mesmo quando Caroline ainda estava internada (ela conseguiu manter seu telefone no hospital).

Mas a comunicação não era fácil. No Rio, Daniele repassava as informações que recebia dos médicos, também pelo telefone. Segundo ela, a comunicação feita pelo hospital não tinha regularidade e as informações eram imprecisas. “Parecia um telefone sem fio”, define. Ela também critica o modo como as informações foram repassadas: em alguns momentos, quando ligavam para o hospital em busca de notícias, recebiam apenas o que estava registrado no prontuário de Rogério. “Há muita mudança de equipe no hospital. Quem recebe uma ligação, não vai ao quarto do paciente, informa apenas o que está escrito no papel”, analisa. Segundo ela, em razão disso muitas vezes as duas irmãs tomaram sustos desnecessários.

A situação ficou mais tensa quando Rogério foi transferido para o Centro de Tratamento Intensivo (CTI). Em Cuiabá, ainda internada, Caroline só pensava em voltar ao Rio, estar perto da família. Mas não podia. Mesmo depois de liberada do hospital, ela precisou esperar a própria recuperação (continuou a fisioterapia respiratória em casa) e respeitar o período mínimo de isolamento, que é de duas semanas. Professora da rede estadual de ensino do Mato Grosso, apoiou-se na companhia de Zeh Gustavo, que é revisor e continuava trabalhando em home office. “Não poder se comunicar com meu pai gerou uma angústia muito grande”, descreve.

No meio de tanta incerteza, um alento: Caroline destaca que a direção da escola onde ela trabalha informou o adoecimento do casal a um posto de saúde, que fica na região do Centro Político Administrativo (CPA), bairro que concentra a sede do Executivo estadual, em Cuiabá. Quando retornou à casa, ela diz ter recebido orientação regular de uma equipe da Estratégia Saúde da Família, que em alguns momentos fazia contato por telefone, em outros os visitava. “Foi bom sentir esse apoio, saber da preocupação local com nosso estado de saúde”, salienta.

No Rio de Janeiro, a realidade de Rogério era diferente. A família não sentia segurança no atendimento que o pai recebia no hospital. “Saímos muito insatisfeitos de lá”, desabafa. Segundo ela, parecia que os profissionais tinham receio de se contaminar, e mostravam despreparo ao tomar decisões sobre medicações e exames. Um dos momentos mais difíceis, recorda, foi quando o pai foi liberado do CTI e, pouco depois teve que ser levado de volta, por conta de uma infecção hospitalar. “Achei que meu pai iria morrer”, desabafa.

Neste momento, a família tomou uma decisão que, para Caroline, salvou a vida do pai. Contrataram por fora uma médica infectologista para que acompanhasse Rogério. Ela narra que a profissional chegou a entrar no CTI para acertar a medicação e até ajustar o aparelho respiratório. “Sem o trabalho dela talvez ele não tivesse resistido”, avalia. E assim transcorreram dois meses com Rogério no CTI. Tomou antibióticos, recebeu cloroquina, teve que ser submetido a diálise. “Estar em outra, cidade naquele momento, foi um verdadeiro filme de terror”, descreve.

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Já em casa, Rogério continua o tratamento para as sequelas da covid-19, e comemora a vitória sobre a covid-19.

Já de volta ao Rio, Caroline contabiliza muitas mudanças na rotina e avalia sua própria vida. “Conseguimos passar por tudo isso, mas ainda não acabou”, ressalta. Ela, Zeh Gustavo e Ângela dividem os cuidados com Rogério, que ainda se recupera. Ele sofre com as escaras [lesões na pele causadas pela deficiência prolongada na irrigação de sangue e na oferta de nutrientes em determinada área do corpo em virtude da pressão externa] nos trocânteres [região na parte superior do fêmur, o maior osso da perna], nos cotovelos e nos calcanhares, uma delas sendo de grau 4, com exposição óssea.

Diariamente, é levado por um dos filhos a uma clínica, onde é submetido a uma oxigenoterapia hiperbárica [modalidade terapêutica na qual o paciente respira oxigênio puro, numa câmara, indicada para combater infecções e acelerar a cicatrização de feridas crônicas e agudas]. Por estar com a mobilidade comprometida, Rogério ainda tem que fazer sessões diárias de fisioterapia e necessita de ajuda para tarefas simples, como ir ao banheiro. “Meu pai, apesar da idade, era um homem ativo, independente, que fazia sua caminhada todo dia”, diz Caroline, explicando que a situação a obrigou a realizar tarefas que reconhece não ter a menor vocação. “No começo foi assustador. Não tenho o menor talento para medicina, mas hoje tenho que lidar com escaras, fazer curativos. Já estou até me acostumando”.

A rotina da família inclui preservar Rogério das más notícias. Até o momento da entrevista, ele não havia sido informado, por exemplo, da morte da cunhada, irmã de Ângela, no interior de Minas Gerais, no mesmo período em que ele estava internado. “Se foi covid? Não se sabe e não saberemos”, diz Caroline. Segundo ela, nenhum exame foi feito, mas a vítima sofria com problemas pulmonares. Esteve no hospital e foi desenganada; diante de uma melhora, foi liberada para voltar à casa, onde faleceu de um ataque cardíaco.

Entre tantas “camadas emotivas” que tem que lidar, Caroline tenta se manter forte, emocionalmente, fortalecendo os laços familiares, compreendendo o processo de envelhecimento do pai e cuidando da própria saúde. Mantém as sessões de psicoterapia, via internet, e tenta não descuidar da rotina de exercícios físicos, mesmo dentro de casa. “Ano passado passei por um quadro de depressão”, relata, explicando que além do processo de adaptação a um novo estilo de vida, em outra cidade, foi difícil lidar com os ataques desferidos contra sua área de atuação, a Educação.

O contexto nacional, no entanto, é o que mais a preocupa. “Eu penso em todas as pessoas que vivem ao meu redor, pessoas que ainda podem se contaminar. O Brasil ainda não está preparado para enfrentar esta pandemia”, avalia. Mesmo confrontada por tantas adversidades, Caroline diz encontrar aspectos positivos na situação. Estar ao lado do pai, no momento de sua recuperação, por mais que seja estressante, também está sendo visto como uma oportunidade de crescimento. “Eu me sinto bem por poder ajudar”, reflete.

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