Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

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Profissionais que tratam e previnem lesões buscam ampliar atuação com foco global sobre o corpo

Um ombro que dói, o pé torcido e a respiração que fica difícil são alguns dos problemas de saúde que recebem a atenção dos fisioterapeutas. E foi o trabalho desses profissionais que deu um pouco mais de independência a Maria Amélia Camilo da Silva, 61 anos. Moradora do Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, a dona de casa estava internada havia sete meses no Hospital Federal do Andaraí (HFA), na Zona Norte carioca, primeiro no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), e depois na enfermaria, recebendo atenção regular de fisioterapeutas da unidade. “Depois do tratamento, estou com as pernas mais firmes”, diz à Radis. Ao seu lado, a filha Adriana Souza Senra comemora o resultado. “Ela não conseguia virar, sentar, não comia sozinha. Agora já está fazendo tudo isso”.

Segundo o Conselho Federal de Fisioterapia e Terapia Ocupacional (Cofitto), o fisioterapeuta é um profissional de Saúde, com formação acadêmica superior, habilitado para a construção do diagnóstico fisioterapêutico, a prescrição e a aplicação das condutas a serem seguidas pelo paciente e o acompanhamento da evolução do quadro clínico funcional até as condições para alta do serviço.

Os dados do Cofitto revelam que há cerca de 240 mil profissionais registrados e que atuam em todos os níveis de atenção. De acordo com o Ministério da Saúde, em junho de 2016, havia cerca de 47 mil fisioterapeutas atuando nos programas federais.

Adriana Souza Senra comemora independência da mãe após sessões de fisioterapia: “Ela não conseguia se virar"

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

MOVIMENTO E VIDA

Parte da vida do fisioterapeuta Rogério Tavares dos Santos foi passada no ambiente do hospital. Formado em 1996, no Rio de Janeiro, o profissional, mais tarde, optou pela fisioterapia cardiorrespiratória e hoje é chefe do Serviço de Fisioterapia do HFA. Ele vê mudanças trazidas pela profissionalização da atividade. “Na época em que me formei, bastavam os cursos e estágios. Hoje tem que ter título de especialização para trabalhar em CTI. Uma equipe de terapia intensiva não existe sem o fisioterapeuta”, comenta.

Rogério se declara apaixonado pela profissão e revela que é do contato com os pacientes que extrai o combustível para superar os problemas que, segundo ele, são muitos. Por exemplo, no número de profissionais do setor: há 56 fisioterapeutas atuando em todas as áreas do hospital quando o contingente confortável seria de 80. “Estou sempre com o cobertor curto”, brinca. Apesar das dificuldades, afirma que não troca o serviço público pelo privado. “O profissional consegue ser mais livre e proativo no serviço público. Não é todo hospital privado que fomenta a iniciação científica”.

“Quem conhece a fisioterapia de verdade, acredita”, pondera Rogério. Em um dos atendimentos, ele conta que a equipe conseguiu recuperar um paciente de 32 anos com risco de morte após uma tentativa de suicídio. “Tempos depois, esse paciente veio agradecer por poder ver a filha crescer. Esse dia foi forte e impagável. É isso que alimenta a gente. O que eu recebo de volta é uma grande satisfação, a sensação do dever cumprido, que a gente está aqui por um propósito, e que deu certo”.

TRATAMENTO EFICAZ

No HFA, o cardiologista Geraldo Chedid é testemunha de como a Fisioterapia evoluiu e ocupou espaço na composição das equipes de saúde. “Hoje o trabalho deles é imprescindível tanto no cuidado na assistência do paciente quanto na ventilação mecânica. Eles são os responsáveis pelo manuseio dos respiradores e essa ação é de extrema importância”, assegura ele, chefe da unidade coronariana. Segundo Geraldo, a entrada dos fisioterapeutas em cena deu mais tranquilidade e permitiu que os médicos passassem a dedicar mais atenção à clínica do paciente que necessita de ventilação mecânica. “Isso sem contar a melhora na parte motora de pacientes que ficam vários dias acamados. São muitos ganhos”.

O aposentado Fausto Pereira, 73 anos, era um dos pacientes internados no CTI do HFA em outubro. Depois de passar por uma cirurgia cardíaca, ele começava a caminhar por uma nova estrada. “Estou tendo um atendimento bom. Antes, eu tinha feito um trabalho de fisioterapia para tendinite no ombro. Agora, eu tenho que caminhar e movimentar bem os pés”, relatou ao dizer que toda atividade que fazia era orientada e monitorada pelos fisioterapeutas.

EDUCAÇÃO PERMANENTE

A curiosidade ao olhar o movimento humano e as dificuldades de quem o perdia estimularam Ana Christina Brasil a buscar a profissão. “Sempre pratiquei atividade física e vi que a fisioterapia trabalhava o movimento e procurava recuperá-lo em toda a sua potencialidade, nos deslocamentos, nas atividades diárias do cotidiano, em toda a sua amplitude. Foi o que me atraiu na profissão”, conta.

Ana Christina é diretora técnica de Apoio Clínico do Hospital Distrital Evandro Ayres de Moura, em Fortaleza, além de professora universitária. Com 28 anos de formada, ela diz que pôde acompanhar a evolução de uma profissão que cada vez mais pede investimento permanente em educação. “Quando eu me formei, havia muito empirismo. Hoje, meus alunos se formam e ingressam diretamente em uma especialização, muitos procuram o mestrado. Essa é uma carreira que requer muito estudo”.

Ana Christina fez especialização na área traumato- -ortopédica. Além de sua especialidade, ela revela que há outras 15 reconhecidas pelo Cofitto: acupuntura; aquática (novo nome de hidroterapia); cardiovascular; dermatofuncional; esportiva; gerontologia; trabalho; neurofuncional; oncológica; respiratória; osteopatia; quiropraxia; saúde da mulher; e terapia intensiva.

Segundo ela, o campo de trabalho é vasto. Na atenção básica, Ana Christina destaca a utilização das práticas integrativas de cuidado, como acupuntura e osteopatia, e técnicas manuais, como cinesioterapia (atividade muscular passiva e ativa do paciente) e reabilitação postural. No nível secundário, ela cita que os profissionais utilizam equipamentos, como laser e ultrassom, e também realizam procedimentos manuais. “Nas policlínicas nós ajudamos a melhorar quadros de infecções respiratórias, por exemplo”. Já no nível terciário, os profissionais vão além das enfermarias e atuam também em Centros de Tratamento Intensivo (CTI), unidades intermediárias e coronarianas. Ana destaca que há casos em que gestores e donos de clínicas conveniadas ao SUS colocam um leigo para utilizar um equipamento. “Isso é um equívoco e pode afetar a saúde do paciente”, alerta.

Além disso, ela lembra o compromisso profissional de quem trabalha com a saúde pública. “Como é que o sistema paga pela intervenção do fisioterapeuta e um leigo realiza a assistência?”

Campo de trabalho dos fisioterapeutas é vasto e inclui reabilitação postural

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

CIÊNCIA E VIDA

Considerada uma importante atividade de saúde, a Fisioterapia envolve mecanismos terapêuticos próprios, sistematizados em várias áreas de estudo. “Há muito de ciência no que fazemos”, revela Pedro Gabriel Valle, que atua no Rio de Janeiro. Segundo ele, a profissão tem alto valor científico e menor custo de operação, já que na prática os fisioterapeutas utilizam poucos equipamentos e empregam muitas técnicas manuais. “Não é uma profissão escrava da tecnologia e tem um custo operacional baixo. Aplicamos muito o cuidado humano”.

Pedro aponta que a atividade tem um custo financeiro menor e leva à redução do custo operacional da assistência. “Nós sabemos que há um prejuízo em não ter um número correto de fisioterapeutas nas unidades de saúde. Como não há estudos, a dúvida paira sobre o tamanho desse prejuízo”.

Foram os filmes que atraíram Wilen Heil e Silva para a profissão. Ainda criança, ele conta que via nos filmes a síntese da paixão que o move até hoje. “As pessoas se acidentavam e precisavam retomar a vida. Depois que descobri que a fisioterapia devolvia saúde às pessoas, resolvi buscar formação para atuar na área”. Wilen conta que a profissão tem foco global. “Entendo que a fisioterapia tem uma missão que vai além de tratar as doenças e que se preocupa em gerar uma sociedade mais saudável afastando o aparecimento delas. O fisioterapeuta trabalha com o toque e com suas mãos movimenta vidas”.

SEGURANÇA NO SUS

Em 2002, Leonardo Fonseca, chefe do serviço de fisioterapia do Hospital Federal dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, começou a trabalhar no serviço privado, mas depois buscou a estabilidade do serviço público. “Queria uma situação de trabalho que desse segurança”. O profissional chegou ao HSE em 2005. “Em 2010 conseguimos criar o serviço de fisioterapia e depois partimos para a valorização do pessoal no ambiente hospitalar”. Hoje, ele conta que são 35 fisioterapeutas. “O número de profissionais faz diferença na quantidade de pacientes atendidos e na qualidade da assistência. Entendo que se a equipe deixar de atender um paciente, este não é um serviço que oferece qualidade total”, reconhece. Leonardo revela que, pelas contas do Cofitto, um fisioterapeuta consegue atender bem 10 pacientes a cada 6 horas. “Só que quando se busca qualidade a conta não fecha dessa forma”, observa.

Trabalhando no serviço público, ele reconhece os limites do trabalho. “Não há verba para educação continuada e treinamento e os salários não são compatíveis”. Mas, segundo ele, a fisioterapia é fonte de muita felicidade. “Tem um ganho intangível na recompensa pessoal ao ver um paciente antes acamado e sem função alguma conseguir levantar, andar e tomar conta de si. É um ganho não financeiro que é incontável. O foco do nosso trabalho é preservar, manter, estabilizar e evitar a perda da função. E quando isso acontece é fantástico”