Radis Comunicação e Saúde

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Histórias de quem lê Radis

Leitor é muito mais do que um receptor de textos. Pelo menos no caso da Radis, é um parceiro, uma voz atuante, um bem precioso. Suas sugestões, seus retornos, observações, críticas e (na imensa maioria das vezes, diga-se de passagem) elogios são sempre bem-vindos. É para ele — e, afinal, também com ele — que cada edição é cuidadosamente pensada e produzida. O leitor da Radis marca sua participação na produção da revista, seja opinando sobre questões relevantes que podem gerar pautas e até orientando a cobertura de eventos relacionados à sua especialidade, seja alertando a redação sobre abordagens que não recebem a devida atenção da grande imprensa nas questões de saúde.

Dar espaço e voz ao leitor é prática do Programa RADIS desde 1982, quando foi lançada a revista Súmula, primeira das quatro publicações que dariam origem à revista Radis. De lá para cá a presença do leitor como ator importante do cenário da saúde pública do país só veio a se acentuar.

São estudantes, professores, profissionais de instituições de saúde, de educação e da mídia, parlamentares, ONGs, governos em todos os níveis, todas as secretarias municipais e estaduais do país, todos os conselhos de saúde, secretários, prefeitos e outros dirigentes, sindicatos, associações de moradores... Só mesmo as reticências para indicar a gama de leitores da Radis. São 72 mil assinantes, um número que se multiplica, por dois, por três, por quatro... Afinal, cada exemplar da Radis costuma passar por várias mãos.

Grande parte das inúmeras cartas de leitores que chegam à redação registra o quanto Radis fez ou faz parte de momentos importantes de suas vidas, como fonte inspiradora de um trabalho acadêmico, como referência fundamental para elaboração de uma pesquisa, para orientar um trabalho de campo, como fonte de informação fidedigna para realizar trabalhos comunitários, entre muitas outras maneiras. Por isso, para comemorar os cem exemplares da revista, dedicamos nossa matéria de capa ao leitor, e fomos buscar mais detalhes de suas experiências com a Radis.

Reunimos aqui as histórias de Gilson, Marcos, Luiza, Ney, Roseni, Carolina, Eduardo, Everson, David, Veronica e Galvão, alguns deles leitores antigos, que têm ligação com o Programa RADIS, desde suas primeiras publicações. E já pudemos ter uma ideia da abrangência da revista — que faz a diferença, seja em Manaus, no Rio de Janeiro, em Canindé ou nos Estados Unidos. Sem falar naqueles que põem a Radis para circular na internet. Só de referências numa busca do Google, encontramos 274 mil. Vale acompanhar a seguir.

Gilson e a comunidade Radis no Orkut

Fotografia: Arquivo pessoal.

Quando Gilson Galhardo folheou pela primeira vez a revista Radis (edição nº 4), na bagunçada mesa de centro de um sindicato onde dava aulas de informática em 2002, ele descobriu que ali encontraria informações úteis para sua formação em técnico de segurança do trabalho. Hoje, já formado pela Escola Técnica Professor Alfredo de Barros Santos, em Guaratinguetá (SP), ele sabe da importância de sua profissão para o desenvolvimento e implementação dos programas de prevenção de acidentes, tarefa realizada com os subsídios encontrados nas matérias da Radis. Gilson tem à mão até mesmo os mais antigos exemplares da revista.

O carinho pela Radis se expressa em uma comunidade que ele criou no Orkut e que reúne 320 integrantes de todo o país, acolhendo “todos que são leitores de uma das melhores revistas em saúde”, como registra o texto de apresentação. Na comunidade do Orkut, Gilson — que é também autor de um blog (www.efeitogilson.blogspot. com) —, convida os internautas a utilizar o espaço para comentar temas, dar sugestões e trocar ideias sobre os mais diversos assuntos abordados pela Radis, e que ele apresenta como tópicos para discussão: a luta antimanicomial, a situação dos hospitais federais no Rio de Janeiro, ações contra tuberculose, fundações estatais e código de ética médica, entre outros.

Apesar do pouco tempo que tem disponível para navegar pela internet, Gilson promete “esquentar” a comunidade no primeiro semestre de 2011, e chama atenção para as vantagens do espaço virtual: “É possível participar melhor”, diz o divulgador da revista.

“Não existe melhor fonte de informações concretas do que a Radis”, atesta Gilson, que profere palestras sobre segurança no trabalho em empresas, escolas e ONGs. Entre as matérias da revista, ele destaca Amianto, a fibra que mata (Radis 29), sobre os perigos oferecidos pelo uso do material em telhas e caixas d´água. “Nem imaginava que cinco anos depois utilizaria as informações em minhas palestras sobre proteção respiratória”, diz.

Gilson também utiliza matérias cujas temáticas não são diretamente ligadas à segurança no trabalho, mas que abordam doenças que demandam ações de prevenção, como DST/ aids, hanseníase e tabagismo, “temas bem-vindos em qualquer empresa”. Ele justifica: “A maioria pensa que aquilo nunca vai acontecer com eles”.

Marcos e a informação (com credibilidade) pelas ondas do rádio

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

Na pequena sala onde funciona a Rádio Queimados FM 106,1, no Rio de Janeiro, o radialista Marcos Antônio conta com uma fonte de consulta permanente para produzir as notícias sobre saúde, educação, meio ambiente e cidadania, do programa Show de Notícias, que criou e apresenta às quartas-feiras, das 14h às 16h: as páginas da seção Súmula da Radis. Assessor de imprensa da Divisão de Controle de Vetores de Queimados, município da zona oeste fluminense, Marcos faz o programa como voluntário há três meses e ainda está estruturando a rádio comunitária ligada à Associação Socioambiental Planeta Água, uma ONG local.

Antes de cada programa ir ao ar, Marcos, que também é especialista em Gestão da Saúde, com aperfeiçoamento em Nutrição, pela Fiocruz, seleciona trechos das notas da Súmula, passa para o papel resumidamente, lê e comenta ao vivo. Claro que as matérias das outras páginas da revista também são devidamente checadas e, muitas vezes, trazidas para o debate. Os ouvintes, por sua vez — a rádio alcança 25 bairros de Queimados — podem ligar para dar sua opinião. “O conteúdo retirado da revista deve ter grande repercussão”, acredita ele, que, ainda não tem como medir a audiência, devido ao pouco tempo do programa no ar.

Para justificar, ele cita o retorno que teve dos ouvintes ao apresentar em seu programa dados da matéria sobre agrotóxicos (Radis 95). A reportagem, que tratou do cenário de utilização dessas substâncias no Brasil, o maior consumidor de agrotóxicos do mundo, estimulou o debate acerca do diflubenzuron, larvicida usado pelos agentes de controle de vetores de Queimados contra o Aedes aegypt, mosquito transmissor da dengue.

Além de servir de fonte para o Show de Notícias, a Radis integra o acervo da biblioteca comunitária da Associação Planeta Água. “Os alunos costumam usar a revista em caso de trabalhos mais apurados”, conta Fátima Candida Sacramento, presidente da ONG e gestora da Rádio Queimados.

Radis acompanha Marcos Antônio há mais tempo. Ele lembra até do aspecto visual da capa da edição 64 (dezembro de 2007), sobre dengue, que ajudou na construção de campanhas educativas na comunidade. “Era o braço de um mosquito com uma luva de box vermelha”, descreveu com precisão.

Leitor fiel das publicações do Programa RADIS, ele também guarda com carinho e ressalta a relevância da antiga Súmula, em sua edição 87, de março de 2002. A publicação, na época, serviu de manual para muitos profissionais de saúde, pois tratou de forma abrangente da degue — como diagnosticar, tratar e prevenir, epidemias históricas e o caso dos mata-mosquitos, demitidos em 1998. “Essa Súmula virou um dicionário pra mim. Eu a usei inclusive em meu trabalho de conclusão do curso de especialização”, conta, acrescentando que sempre usou as publicações do RADIS em seus trabalhos acadêmicos.

Marcos tem a Radis como principal veículo de atualização e acesso “com credibilidade” a informações. “Eu não quero a informação apenas da mídia comercial. Eu sou cidadão e tenho direito à informação. Por isso, assinei a revista”, resume.

Luiza: leitores que se reconhecem nas páginas

Fotografia: Sully Sampaio.

Quando a Radis deslocou sua equipe de reportagem até a Amazônia para acompanhar as aulas da primeira turma do Curso Técnico de Agente Comunitário Indígena de Saúde na região do Alto Rio Negro, ninguém na redação imaginava que a matéria resultante (edição 80) incentivaria um novo uso para a revista. A reportagem serviu como estratégia pedagógica do processo de formação iniciado na aldeia Vila Nova, às margens do rio Xié. Os 175 alunos que concluíram o módulo introdutório foram orientados pelos professores a ler toda a matéria durante o período de recesso do curso.

Um dos objetivos era reforçar a formação em nível médio dos alunos, ampliando seu domínio da língua portuguesa —, incentivando-os a procurar significado de palavras no dicionário, compreender e sintetizar o conteúdo da reportagem — bem como prepará-los para que compartilhassem os novos conhecimentos em suas comunidades. A ideia foi aproveitar o material que falava sobre os próprios alunos, despertando sua curiosidade: “Entendemos como uma oportunidade imperdível para praticar o estudo do português falado e escrito, e de tornar o processo formador mais interessante e adaptado ao contexto local, onde as pessoas raramente dispõem de material que as retrate”, explica a sanitarista e antropóloga Luiza Garnelo, coordenadora do curso, professora de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Amazonas e pesquisadora da Fiocruz.

Luiza Garnelo. Fotografia: Sully sampaio.

Luiza observa que a orientação dada aos agentes em formação também busca estimular seu juízo crítico, ampliar sua habilidade de educação em saúde e a comunidade. Ela conta que, como a matéria retrata um contexto familiar aos moradores das comunidades, estes ficaram bastante interessados no assunto, já que se reconheciam nas fotos e nos depoimentos daqueles que lhes são próximos — agentes, professores e chefes de aldeias. Durante a etapa formativa, em Tunuí Cachoeira, o agente comunitário indígena Manoel Paiva, de Jurupari Cachoeira, e demais ACIs da região do rio Aiari foram alguns dos estudantes que leram a revista, apresentaram resumo e levaram as informações à comunidade.

Luiza lembra que se trata de uma população que vive em região remota, próxima à fronteira com a Colômbia (conhecida como Cabeça do Cachorro, no noroeste do Amazonas), raramente incluída na pauta da mídia tradicional. “Quando aparecem notícias sobre as populações indígenas é para falar de mortes, epidemias, invasões, enfim, para falar de desgraças”, diz. Ela aponta que a oportunidade de ver filhos, maridos e conhecidos retratados em um contexto positivo, “expressando pela própria voz suas ideias, experiências e opiniões sobre o processo formador e o trabalho de agente de saúde”, representa um evento singular na vida dessas pessoas.

Além das contribuições ao processo de ensino-aprendizagem, a professora cita outro aspecto importante observado com a cobertura jornalística feita pela Radis, de conferir visibilidade ao trabalho formativo que se desenvolve na região, proposta inovadora que precisa construir credibilidade frente aos modelos convencionais. “Uma matéria como essa, numa revista com a penetração que tem a Radis representou ótima oportunidade para divulgar nossa proposta pedagógica”.

O resultado se traduziu no surpreendente número de e-mails recebidos pela professora, de todo o país, depois que a matéria foi publicada. Alguns leitores, solicitavam que o curso se estendesse para suas regiões. O que surpreendeu Luiza foi o contato de pessoas que não trabalham com populações indígenas. “A matéria falou algo que se aproximava de suas realidades e produziu um desejo de fazer contato e partilhar algo conosco”.

Luiza considera que a reportagem — mesmo não tendo sido a primeira sobre saúde indígena publicada pela Radis — é emblemática, já que sinaliza que a temática foi incluída como pauta rotineira da revista. “Para quem atua nesse campo, isso representa espaço precioso”, diz. Ela adverte que há um grande desconhecimento das autoridades sanitárias sobre o assunto e uma tendência a relegar os graves problemas de saúde dos povos indígenas a um plano de menor importância na tomada de decisão nos níveis mais altos de gestão do SUS.

No ar, profissionais da saúde em ação, com Ney

Fotografia: Arquivo pessoal.

Minha Radis predileta

Tuberculose

Sou leitora assídua da Radis e utilizei as informações da edição sobre tuberculose (69) no projeto para o doutorado em Doenças Infecciosas/Biossegurança do Ipec.

• Francelina Alvarenga Lima e Silva, Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Ensp e doutoranda do Ipec, RJ

Saúde do homem

A edição sobre saúde do homem (74)  me impulsionou a tratar desse tema no mestrado. Pesquiso o acesso, a procura e a adesão aos serviços de saúde como preditores de diferenças entre os gêneros.

• Cleice Daiana Levorato, Dois Córregos, SP

Infância protegida

Minha edição preferida foi a 70 (Infância Protegida) . Utilizo a Radis para conversar com amigos a respeito da nossa situação como personagens do sistema de saúde. Sempre levo as revistas comigo para gerar debate com os assuntos abordados!

• Milton Botelho Neto, acadêmico de Medicina pela Universidade Federal do Ceará, Sobral, CE

Agrotóxicos

Chamou muito minha atenção a matéria sobre agrotóxicos . Meu filho é agrônomo e emprestei essa edição a ele para que lesse também. Gosto da revista inteira, porque combina a técnica e a política desaúde. Rio com as piadinhas dos cartuns.

• Lília Sionéia Béccheri, diretora de Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal de Saúde de Ourinhos, SP

Sábado é dia de Agentes em Ação, pelo menos em Canindé — município do Ceará com 75 mil habitantes, conhecido no país por sediar a festa de São Francisco das Chagas. A expressão dá nome a programa da rádio Jornal de Canindé (AM 540) que vai ao ar todos os sábados, das 14h às 15h. Quando foi criada, em 2007, a atração era quinzenal, com duração de 15 minutos. Um ano depois, passou a ser semanal, tendo uma hora de debate sobre as ações dos agentes comunitários de saúde da região.

O que não mudou foi o aproveitamento da Radis para “inspiração de pautas e fonte de conteúdo”, segundo Ney Alcântara, um dos idealizadores do programa e ex-presidente do Conselho Municipal de Saúde.“Sempre que a revista traz um tema interessante e pertinente para a realidade local a gente usa”, diz. Um exemplo: durante a epidemia da gripe H1N1, a Radis sobre o assunto (nº 93) foi consultada para tirar dúvidas dos ouvintes, que demonstravam receio de tomar a vacina contra a doença.

O apresentador propõe um tema a cada edição e, para debatê-lo, recebe no estúdio secretários de saúde, enfermeiros, médicos, líderes comunitários e assistentes sociais. O público pode participar via telefone ou carta.

A intenção por trás da criação do programa era falar com a categoria e com a população em geral, divulgando o trabalho dos agentes na região, conta Ney. Em julho, ele foi eleito presidente da Associação de Agentes Comunitários de Saúde de Canindé apresentando como uma de suas plataformas o fortalecimento do programa. Entre os planos, está o da compra de gravador para preparar entrevistas. Hoje, a equipe do Agentes em Ação é formada pelos agentes Everardo Uchoa, a quem cabe a apresentação, o próprio Ney e Miguel Augusto, que dividem a produção e as entrevistas.

Em Canindé, 121 agentes comunitários atendem cerca de 70% das famílias, de acordo com Ney. Em breve, ele conta, a prefeitura deve convocar para o serviço outros 32 aprovados em concurso público, o que aumentará a cobertura para quase 90%. Por lá, os principais problemas de saúde são hipertensão arterial, diabetes, diarreia, verminoses e micoses. “O rádio é um veículo para a educação em saúde e para a mobilização social”, diz. “Tentamos mostrar que o serviço de saúde não é favor, mas direito de todos e dever do Estado, e que as pessoas têm de se apoderar desse direito”.

No cariri, joânio dá o tom

A 700 quilômetros de Canindé, já na Paraíba, a experiência de transformar as informações da Radis em programa de rádio se repete no município de Sumé, na região do Cariri. O enfermeiro Joânio Lopes Martins participa quinzenalmente do Jornal do Cariri, atração da rádio Cidade. “Uso a revista como referência e, a partir dela, proponho uma discussão no ar, tocando nos pontos de interesse de população”, conta.

Entre os temas já abordados estão câncer (52), e aborto (66), violência doméstica (92), agrotóxicos (95). O aborto, aliás, voltaria a ser debatido após a eleição presencial: “O tratamento dado pelos candidatos à presidência foi muito fútil, queremos falar a partir da visão da saúde pública”.

Influência na formação acadêmica de

Roseni destaca a capacidade de mobilização das publicações do RADIS. Fotografia: Arquivo pessoal.

Aligação de Roseni Pinheiro, coordenadora do Laboratório de Pesquisas sobre Práticas de Integralidade em Saúde da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Lappis/Ue.rj), com a Radis tem raízes nas mesmas origens da revista: as primeiras publicações do Programa RAInfluência na formação acadêmica de Roseni DIS. Roseni estava no início da graduação de Enfermagem da Uerj e organizando o 1º Seminário da Reforma Sanitária na instituição, envolvida ainda com a 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986, quando conheceu Tema, Súmula, Proposta e Dados. “As revistas que o programa produzia na época, especialmente, Tema e Proposta/Jornal da Reforma Sanitária, me inspiraram conhecimentos acerca do debate na Saúde Coletiva”, relembra. Além disso, foram influência permanente durante toda a graduação, conta. “Eu me atualizava por elas. Tomei conhecimento de como a saúde coletiva estava se materializando na época”.

Para Roseni, as publicações do RADIS sempre tiveram grande capacidade de mobilização, trazendo à tona nomes como Sergio Arouca e Hésio Cordeiro e todo o movimento da Constituinte, em 1987, e da Constituição de 1988. “Com seu viés político e acadêmico, acabou sendo ferramenta didático-pedagógica da Saúde Coletiva e do próprio SUS”, considera. “É também uma ótima ferramenta para a graduação e para a pesquisa”, acrescenta.

Entre as cem edições da revista Radis, Roseni tem uma na ponta da língua para destacar: a de número 18 (fevereiro de 2004), que trouxe a cobertura da 12ª Conferência Nacional de Saúde. Ela observa, no entanto, que nos últimos anos a área da Saúde vem passando por um processo de fragmentação, que acaba se refletindo na Radis também. “Antes, você tinha no campo da Saúde um movimento unitário, formado por pessoas com um mesmo eixo de luta. O campo da Saúde Pública se fragmentou”, analisa. “A Radis nunca foi revista de moda”, aponta Roseni, para quem o Programa RADIS sempre foi e deve continuar sendo propositivo.

Carolina: líderes religiosos aliados da saúde

Carolina: nas matérias, profundo respeito a todas as categorias da saúde. Fotografia: Arquivo pessoal.

“A academia negligencia a dimensão espiritual e a igreja tem muita dificuldade de aceitar a dimensão da ciência”. Foi a partir dessa constatação que a enfermeira Carolina Bocchi Maia, desenvolveu, há nove anos, quando era professora da Universidade Federal do Paraná, um curso de capacitação de líderes religiosos de diversas denominações sobre temas como uso indevido de drogas, DST/aids e sexualidade. Certa de que “a ciência sozinha não dá conta de todas as questões, e a espiritualidade sozinha também não”, Carolina trabalha com esse grupo, em Curitiba, desde então, buscando “aproximar a ciência e a fé”.

Nos debates, privilegia-se a visão da ciência, e a Radis, “veículo confiável de informações” se inseriu como voz da saúde pública no projeto, agora desvinculado da universidade, mas ainda levado à frente por Carolina. “Discutimos textos da revista, que consegue democratizar o acesso ao conhecimento científico”, explica Carolina. “A revista fornece subsídios para uma reflexão aprofundada que estimula a tomada de atitudes”, observa. “As matérias são permeadas por um profundo respeito a todas as categorias profissionais asaúde, e têm um toque permanente de respeito às diferenças”.

Para Carolina, os líderes religiosos são importantes parceiros na prevenção do abuso de drogas, por exemplo. “Minha sensação é que grande parte da população acredita mais neles do que nos profissionais de saúde”, diz. “O primeiro preconceito que temos de romper é o nosso com eles”, afirma.

Parceira de Eduardo no trabalho de mobilização social

Fotografia: Arquivo pessoal.

Minha Radis predileta

MST

Minha reportagem preferida é sobre o MST (88). Trabalho com movimento social e aproveito o conteúdo da Radis em palestras e debates.

• Adriano Orlando Casado Marques, assistente social do Cadastro Único dos Programas Sociais do governo federal, Santana do Cariri, CE

Violência

Gostei muito da revista sobre violência  (92). Utilizo em todos os cursos de atualização de Assédio Moral e Gênero, Direito e Saúde no Grupo Direitos Humanos e Saúde Helena Besserman, da Ensp/Fiocruz, e nos cursos do Movimento de Mulheres de São Gonçalo, em parceria com o DIHS.

• Rita Costa, Rio de Janeiro

Crack

É difícil identificar uma única matéria como preferida, pois todas me transmitem algo novo e interessante. Uma que veio em ótima hora foi a publicada em abril de 2010 (92), sobre o crack , pois meu TCC trata desse assunto.

• Tabita Gonçalves Bernardes, Cariacica, ES

Tuberculose e CNSs

Minha edição predileta, entre tantas de ótima qualidade, é a de maio de 2008 (69), cujo tema central foi a tuberculose . Destaco também as edições que trataram das conferências de saúde e do controle social.

• Luiza Maria Lorenzini Gerber, assistente social, Florianópolis, SC

Saúde indígena

As reportagens sobre saúde indígena (80, 84, 98) são as que mais me chamam a atenção. Leio as revistas, e me emociono com alguns textos. Como presto assessoria para cinco secretarias municipais de Saúde de Santa Catarina, mando meu exemplar cada mês a um município.

• Fransuizi Maria Lopes Portillo, regional de saúde de Jaraguá do Sul, SC

Em seu trabalho de mobilização social, em questões sobre dengue, desarmamento e desenvolvimento local, Eduardo Quadros, assessor de comunicação e mobilização social da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza, sempre usa alguma matéria da Radis. “A revista consegue ao mesmo tempo trazer uma abordagem acadêmica e jornalística”, avalia. Trabalhando recentemente em uma oficina de capacitação com jovens indígenas de Pernambuco, Duda, como é conhecido, foi mais um a trabalhar com a Radis 80 (abril/2009), com reportagem especial sobre o 1º curso técnico de agente comunitário indígena, realizado no Alto Rio Negro, Amazonas. “Essa matéria trouxe imagens, depoimentos e uma abertura crítica”, comenta.

Ele conta que a revista, que guarda há mais de um ano, circulou de mão em mão. “O grupo se reconheceu nela”, revelou. “Normalmente, vemos reportagens de não indígenas falando de indígenas. A matéria da Radis, não: são eles falando deles mesmos”, compara. De tanto usá-la, salientou, “a revista está até amassadinha”.

No Seminário Internacional de Desarmamento Voluntário, sediado no Brasil em outubro deste ano, Duda — que coordena a Campanha Permanente de Desarmamento Voluntário no Brasil — usou como fonte de consulta a matéria de capa da Radis 92 (abril/2010), que trata da temática da violência. “Fiz uma apresentação e usei muitos dados dessa reportagem”, informou.

Inspiração para os trabalhos de Everson

David: equipe da Radis ciceroneada em congresso e capa para saúde veterinária na edição 90. Fotografia: Arquivo pessoal.

A Radis é uma fiel companheira das atividades acadêmicas de Everson Vagner de Lucena Santos, fisioterapeuta do Núcleo de Apoio à Saúde da Família de Patos, na Paraíba, que concluiu especialização em Saúde Coletiva este ano. Edições da revista serviram de inspiração e de fonte de informação para trabalhos realizados por ele e seus colegas, que renderam prêmio e reconhecimento.

Foi a reportagem de capa da Radis 91, sobre a 1ª Conferência Nacional de Saúde Ambiental, que levou Everson a pesquisar o destino do lixo de seu município. No lixão de Patos, ele e seu grupo observaram que os resíduos eram depositados diretamente sobre a camada de solo, podendo provocar danos ao meio ambiente e à saúde.

O terreno não contava com dispositivos para drenagem interna, o que aumentava a infiltração do chorume (líquido poluente originado da decomposição de resíduos orgânicos) na sua base ou o escoamento superficial sem qualquer controle. Everson conta animado que a apresentação dos resultados do trabalho repercutiu no município e gerou debate que levou a mudanças na destinação do lixo.

A leitura de outras matérias da revista resultaram na produção de uma comunicação oral sobre saúde do idoso, no Congresso Científico da Universidade Potiguar, em Natal (RN), que foi premiado na categoria Saúde Coletiva. Radis é citada algumas vezes na bibliografia. “As matérias da Radis são sempre uma resposta para os desafios atuais, fundamentais para os profissionais, estudantes e comunidade em geral”, aponta Everson.

David e a sugestão de pauta acatada

David: equipe da Radis ciceroneada em congresso e capa para saúde veterinária na edição 90. Fotografia: Arquivo pessoal.

O médico veterinário maranhense David Soeiro é um leitor da Radis que muito contribuiu para aproximar a revista de um tema nem sempre lembrado pelo jornalismo em saúde: a saúde pública veterinária. Ele procurou a redação da Radis, no campus da Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, para sugerir a cobertura do 3º Congresso Nacional e do 1º Encontro Internacional de Saúde Pública Veterinária, realizado em outubro de 2009, em Bonito (MS).

Mestrando em Epidemiologia em Saúde Pública, na Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), ele alertou a redação sobre a ausência de discussão sobre saúde pública veterinária e convidou a revista a encampar o debate, a partir da cobertura dos dois encontros. Radis cobriu, David foi excelente cicerone, debateu a programação com a equipe, indicou e intermediou boas entrevistas, como a realizada com Nélio Batista de Moraes, presidente da Associação Brasileira de Saúde Pública Veterinária (ABSPV), e a reportagem acabou virando capa da edição 90 (fevereiro/2010), trazendo novas perspectivas ao debate sobre saúde pública.

David conheceu a Radis em 2004, quando estagiava no projeto Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde do Brasil (VER-SUS/Brasil), em São Luís (MA). Foi lá que David se aproximou da realidade da organização dos serviços de saúde e conheceu aspectos de gestão do sistema, das estratégias de atenção, do controle social e dos processos de educação na saúde. Esses conteúdos, ele também viu retratados em textos da Radis. Assinante da revista desde então, ele se sentiu à vontade para sugerir a matéria sobre saúde veterinária: “Pensava em uma matéria como esta, desde que fiz a assinatura. As pessoas ainda desconhecem nosso trabalho no contexto da saúde pública”, explica. Ele destaca como foi importante participar do processo de construção da matéria, da sugestão da pauta à produção da reportagem. Hoje, David confere na internet cada novo lançamento da Radis, todo início de mês. Para ele, a revista é importante para quem quer se atualizar nas questões em pauta sobre saúde pública no país, o que permite “um panorama geral do que vem acontecendo em áreas diferentes do meu campo de trabalho”.

Jornalismo para a jornalista Veronica

Fotografia: Arquivo pessoal.

Minha Radis predileta

Brasil em números

Acabo de utilizar com grande aceitação a matéria O Brasil em números (23). O texto subsidiou a discussão dos doutorandos do programa de saúde pública inscritos na disciplina Epistemologia, métodos e técnicas de pesquisa em Saúde Coletiva.

• Monica Malta, pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da Ensp, RJ

H1N1 I

Tenho muitas edições preferidas. Desde que comecei a receber a revista, em 2007, guardo todas — nem gosto de emprestar para não amassar. A matéria sobre a gripe H1N1 esclareceu minhas dúvidas e as de meus colegas. Já usei a Radis para dar palestras em escolas e em grupos de igreja da minha cidade.

• Elvanio Coelho, técnico de enfermagem de Upabuçu, Itiriçu, B

H1N1 II

A minha reportagem preferida é sobre o H1N1, porque tenho filho pequeno e o texto esclareceu minhas dúvidas. Espero que a revista continue com esse conteúdo ímpar, ajudando no meu aprendizado.

• Fernanda Munduruca, enfermeira, Feira de Santana, B

Câncer, violência, semiárido...

Utilizei a matéria sobre o câncer como referência na minha monografia. Já formada, uso a revista agora na minha segunda especialização, em Serviço Social e Saúde Coletiva. Também gosto das edições sobre conselho tutelar, violência contra a mulher (92) e o semiárido (94).

• Leedyan Casaes, assistente social, Feira de Santana, B

Saúde mental

Venho acompanhando de forma fragmentada as edições da revista, uma vez que não sou assinante. Participei das conferências municipal e estadual de Saúde Mental e foi muito importante o retorno da Radis sobre a etapa nacional. O nível de informações a mim passadas é fabuloso.

• Glaubert Gomes de Souza, coordenador da Vigilância em Saúde de Pedra Azul, MG

Para a jornalista Veronica Almeida, responsável pela coluna Mais Saúde, do Jornal do Commercio, de Recife (PE), Radis é uma “inseparável companheira”, sem exagero: “é difícil me desfazer dos exemplares lidos, guardo quase todos em casa”, diz ela, especializada em Saúde Publica pela Fiocruz. “Mas antes mesmo de eu fazer o curso já havia descoberto essa fonte segura para me informar e formar conceitos”, conta.

Radis é “fonte de consulta permanente” de Veronica, em seu trabalho. Aproveito a Radis não só para me atualizar, como divulgo na coluna informações que descubro pela revista”. Radis também já foi uma espécie de voz de Veronica, trazendo em matéria de capa uma sugestão de pauta sua (Radis 84, sobre o povo xucuru) e divulgando o lançamento da coluna que iniciara no Jornal do Commercio.

O que Verônica mais admira na publicação, afirma, é a postura independente na defesa do SUS, dos direitos coletivos e da equidade. “Radis reúne dados técnicos, não faz propaganda de governo, discute temas polêmicos de políticas públicas e cada vez mais tem feito a diferença quando aborda saúde de forma ampla e ouvindo grupos geralmente excluídos, como índios, negros, rurais etc.”. Ela lembra ter ficado emocionada com a matéria sobre Terapia comunitária no Ceará (Radis 67), publicada em 2008 — “exemplo de como é necessário estar atento ao conceito de saúde que respeita a cultura dos povos” —, e, posteriormente, com as reportagens sobre povos indígenas (Radis 80, 84 e 98) —“tema que a grande mídia ainda ignora, esquecendo onde tudo começou”.

Se depender de Verônica, o número de leitores da revista vai continuar crescendo. “Leio e recomendo a leitura para amigos e profissionais de saúde”.

O pé de Galvão no Brasil

Galvão, nos EUA: com a Radis, um outro diálogo com os colegas brasileiros”. Fotografia: Arquivo pessoal.

Radis é a conexão de Luiz Augusto Galvão, gerente da Área de Desenvolvimento Sustentável e Saúde Ambiental da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), em Washington (EUA), com o Brasil. “Sem a Radis meu diálogo com os colegas brasileiros seria muito diferente”, considera o médico e especialista em Epidemiologia Ambiental e Toxicologia Clínica. “É um meio de informação primária sobre saúde pública, sobretudo para quem está fora do país”, avalia.

Galvão vive nos Estados Unidos desde 1989, quando saiu da coordenação do Centro de Estudos sobre Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana, da Fiocruz, para assumir função na Opas. “Leio a revista integralmente e fico atualizado sobre os temas estratégicos e técnicos em voga na saúde pública no Brasil”, registra ele, “fã incondicional da Radis”.

Mesmo redigida em português, a publicação não deixa circular entre os colegas de Galvão que entendem e leem a língua. Entre as edições da Radis, ele destaca a 95 (julho/2010), que tratou dos efeitos dos agrotóxicos no Brasil. “Além de abordar o tema de forma muito legal, a matéria tratou da injustiça ambiental, que é a ponta de lança da questão do meio ambiente no mundo hoje”, analisa. Na Radis 97 (setembro/2010), a matéria O novo governo e o lugar do SUS na agenda brasileira ajudou Galvão a entender o processo eleitoral que terminou com a eleição de Dilma Rousseff.

Ele guarda com carinho também algumas das primeiras publicações do Programa RADIS, já extintas, que trataram de assuntos com os quais esteve envolvido na época em que morava no Brasil. Uma é Tema nº 9, sobre saúde do trabalhador, que denunciava os muitos problemas a que estavam submetidos trabalhadores da indústria brasileira.

Para Galvão, o Programa RADIS sempre foi estratégico e, ao mesmo tempo, inovador. “Uma pincelada colorida no panorama branco e preto da discussão sobre a construção do SUS”, diz, lembrando com carinho dos tempos dos debates na Constituinte, em 1987, da promulgação da Constituição, em 1988, e da Lei 8.080, de 1990. “As informações que as publicações do programa traziam permitiam que todos soubessem o que estava acontecendo e tivessem um conjunto de informações coerente, nos ajudando a avançar”, aponta. “A revista Radis bebeu dessa fonte e consolidou essa experiência editorial riquíssima”.

Galvão aproveitou para sugerir uma pauta para a redação: “Que se faça um número sobre a saúde pública do Brasil no plano internacional”. A revista, segundo ele, pode dar grande contribuição ao movimento que poderia ser chamado SUS Global, aí incluídas a questão do H1N1, a colaboração do Brasil com a África, a produção de medicamentos e a luta do Brasil na questão das patentes internacionais, a colaboração nas assembleias da OMS e da Opas e a questão do movimento pelos determinantes sociais da saúde. Sugestão anotada.

Na internet, uma referência acadêmica e política

Radis caiu na rede pelas mãos de seus leitores. Números do site de busca Google registravam, em novembro de 2010, cerca de 270 mil referências à Radis na internet. O conteúdo da revista é reproduzido em blogs pessoais, sites e portais dos mais diversos setores. O que se lê na Radis vira comentário também em listas de discussão e subsidia opiniões expostas em redes sociais como Twitter, Facebook e Orkut. A revista é também citada nas referências bibliográficas de trabalhos acadêmicos. A seguir, apenas alguns dos muitos exemplos.

Professor de filosofia para o ensino médio, em Paranavaí (PR), Lúcio Lopes é um dos que amplifica discussões levantadas pela Radis. Ele gosta de citar a revista nos textos do blog Filoparanavaí (filoparanavai.blogspot.com), muitos direcionados a estudantes. Algumas instituições utilizam o conteúdo da revista para manter atualizados seus pares, como o PSF Santa Marta, do Rio de Janeiro. No site www.psfsantamarta. com, o grupo disponibilizou a edição 89 (9º Congresso da Abrasco). A Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras drogas (Abead) também indicou cobertura radiana do 7º Congresso de Epidemiologia (Radis 76). O portal Eco-debate, em sua revista Cidadania & Meio ambiente, reproduziu matérias das edições 88 (TDAH), 69 (tuberculose), 95 (agrotóxicos) e 92 (crack). Esta também foi uma das escolhidas pelo blog Toca das Informações que trata da revista em seus posts.

Quando se buscam referências jornalísticas sobre a memória do país, Radis também é referência. O Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em Saúde de Santa Catarina registrou, em seu site, a íntegra da antológica entrevista com Sergio Arouca, em outubro de 2002 (Radis 3), em que defendia: “Reforma Sanitária não se resumiu à criação do SUS”. A organização não governamental Ipas Brasil, que trabalha há mais de três décadas com temas ligados a direitos reprodutivos da mulher, criou, em sua Revista de Saúde Sexual e Reprodutiva link direto para a edição 92 (Violência). Radis aparece também como referência em artigos acadêmicos disponíveis na internet, como Direito humano à alimentação adequada e à segurança alimentar e nutricional da criança e do adolescente, de Maria da Glória Colluci e Marta Marília Tonin, da Faculdade de Direito da Unicuritiba, que cita a matéria Um padrão bem pouco saudável (Radis 56), também referenciada na pesquisa Consumo de itens alimentares da merenda escolar por adolescentes, de Maria de Fátima Ade Oliveira e Maurício Luz. Já o artigo Falta consenso, sobra esperança (Radis 47), subsidiou a monografia sobre células-tronco, de Pamela Cristina Ribeiro Rodrigues, em sua conclusão do curso técnico de nível médio, na Escola Politécnica em Saúde Joaquim Venâncio da Fiocruz. (A.D.L.).