Radis Comunicação e Saúde

Tempo de leitura: 4 - 7 minutos

Comida, direitos básicos e atenção em saúde mental nas ruas do Rio de Janeiro

Lorani Sabatelly é uma agente redutora de danos. Quando sai às ruas hoje, toda paramentada, “parecida com uma astronauta”, para oferecer acesso e cuidado durante a pandemia a uma população trans e travesti, é como se olhasse no espelho. Há cinco anos, era ela do outro lado. Naquelas mesmas esquinas, viveu noites confusas e chegou a fazer uso de substâncias psicoativas — “tudo isso num momento em que a travestilidade era considerada loucura”, ela diz. Ao se tornar usuária de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), acabou buscando a sua própria formação em saúde. Agora, como profissional, devolve às ruas toda a ética do cuidado que aprendeu. “Vejo a minha história todinha passando diante dos meus olhos”. 

Lorani integra a equipe do Serviço Noturno — uma das atividades do Caps Miriam Makeba — que duas vezes por semana se dirige a uma região periférica na cidade do Rio de Janeiro, onde há uma concentração de meninas trans em situação de vulnerabilidade. Antes de sair à rua, por vota das 19h, a equipe multiprofissional faz uma reunião de trabalho para discutir as principais demandas a partir do relato da saída anterior e identificar as situações de crise e quais os casos que precisam de uma atenção especial. A principal demanda que encontraram nas ruas, em meados de março, não foi nem a ausência de insumos como preservativos nem a falta do álcool em gel e da máscara, indispensáveis em tempos de covid-19. A principal demanda, elas contam à Radis, era por comida.

Em uma das primeiras idas ao território, a cena encontrada foi esta: bem vestida e inteiramente montada para a noite, batom nos lábios, a moça estava à espera de clientes, mas bastou a van da ONG que distribuía quentinhas estacionar ali perto, que ela abandonou o ponto de trabalho e às pressas, correndo sobre o salto alto, tentou garantir a sua. “Ali, ficou muito claro que não teríamos como ajudá-las, se a gente não conseguisse garantir a alimentação, antes de qualquer outra coisa”, conta Lucimar Dantas, uma das duas psicólogas que atuam no projeto. Assim foi. 

Depois, vieram as outras demandas de cuidado tanto em relação à saúde quanto aos direitos básicos: acesso à documentação, orientações em relação ao auxílio emergencial, ajuda clínica com a hormonioterapia ou questões relacionadas ao abuso de álcool e outras drogas, tira-dúvidas quanto à transmissão da covid-19, inserção no mercado de trabalho, continuidade da formação escolar. Mas também, e bastante, assistência em relação aos cuidados em saúde mental.

Muitas das meninas atendidas pelo projeto, tinham acesso a atendimento psicológico em alguns espaços da rede pública, mas por conta da pandemia, tiveram suas consultas remarcadas. Acabaram se sentindo muito sozinhas, à deriva. “Elas nos falam muito da solidão e do quanto isso interfere incisivamente no adoecimento psíquico. Com o isolamento social, de alguma forma a solidão fica mais aparente”, avalia Lucimar. “Elas dizem sentir falta do abraço”. A psicóloga percebe um aumento nas crises de ansiedade e também no uso abusivo de álcool. Uma delas lhe relatou que, nos últimos tempos, para suportar a carga pesada que vem com a quarentena (como por exemplo, a dificuldade de renda e trabalho), “preferia ficar intoxicada para dar conta da dureza do dia a dia”. Outra lhe disse que não fazia uso de qualquer substância, “mas que agora, para estar naquele trabalho, precisava estar alcoolizada”.

Muitas lhes falam sobre as mães, irmãos, companheiros, que antes não tinham nenhum tipo de transtorno mental, e agora desenvolveram crises de ansiedade. Em qualquer um desses casos, inclusive em relação aos familiares, a equipe faz a articulação com vários dispositivos da rede de cuidado em saúde mental — a unidade de acolhimento adulto Metamorfose Ambulante, o Consultório na Rua, as unidades básicas de saúde e os serviços de assistência social como CRAS e CREAS. Mas, em alguns casos, a equipe se divide para dar suporte ali mesmo, na rua, sob marquises, um olho na paciente, outro na violência do entorno, a partir das necessidades individuais. Como naquela vez em que uma menina confessou que não estava ali para trabalhar, mas tinha tanto medo de ficar em casa que foi para a rua para não ficar sozinha. “Ela chegou a dizer que ‘estava ficando doida’ de tanta solidão e que inclusive tinha medo dos cachorros que moravam com ela”. 

Noutros casos, a equipe chega mais cedo ao território e faz visitas domiciliares. “Embora a gente leve muitos insumos e faça vários encaminhamentos, acho que o principal insumo que levamos é a nossa presença constante, regular, atenta e, acima de tudo, afetiva”, prossegue a psicóloga. As meninas acabam desenvolvendo uma relação muito próxima com a equipe. “Todas elas têm nossos contatos. Quando uma adoece, elas telefonam ou mandam recado pelas usuárias”. Isso enche de orgulho Loraine — a redutora de danos que abriu esta reportagem. “A pessoa tans e travesti, muitas vezes, não consegue expressar o sofrimento. E nós, felizmente, estamos conseguindo fazer com que elas retirem do bolso esse sofrimento para amenizá-lo”. Ela agradece a confiança depositada no grupo. “Eu sou uma pessoa resiliente. Acho que chegar ali e conseguir explicar para aquelas meninas o que é a redução de danos, que é a lógica que rege o nosso trabalho, me deixa extremamente feliz”.


Radis217 saude mental cuidado noturno 2

Radis217 saude mental cuidado noturno 2


Transfobia e outros medos

Radis quis saber quais os principais desafios de um projeto que funciona como extensão das atividades do Caps para enfrentar o sucateamento do SUS e combater o estigma sofrido pela população trans e travesti. Lucimar Dantas diz que a maior dificuldade é garantir, de fato, acesso e cuidado a essa população, uma vez que, além do desmonte maciço dos serviços de saúde, a transfobia institucional também é um monstro a ser combatido. “A transfobia está presente em toda a sociedade, inclusive no SUS”, aponta. “Estamos sendo solicitados para ofertar cuidado. Mas para que isso aconteça é preciso que as equipes das unidades de saúde estejam sensibilizadas”. Ela lembra de um momento recente em que a equipe participava de uma live para falar sobre o Serviço Noturno, quando foi surpreendida por um intenso ataque homofóbico e transfóbico, ali mesmo, no espaço virtual. “Ficamos muito assustadas, tivemos que adiar o debate online. Imagina o que essas meninas vivem no seu cotidiano”.

Lorani Sabattely concorda que sensibilizar os profissionais de saúde para atender essa população é um desafio imenso, o maior deles. Mesmo agora, durante a pandemia, elas têm percebido o quão difícil é fazer com que as meninas se dirijam aos serviços quando estão com algum sintoma da covid-19. “Por conta do medo de sofrerem violência desde a entrada até o atendimento”. Muitas vezes, a equipe do projeto as acompanha. Mas Lorany lembra de outra dificuldade: dar conta das demandas que começam a aparecer em outros territórios. O trabalho tem repercutido tanto que a equipe já recebe solicitações de outras regiões da cidade.

Lucimar teve covid-19. A reportagem perguntou sobre o medo de estar na rua, à noite, a trabalho, quando a orientação é ficar em casa. “A gente sempre conversou muito sobre o medo e a gente nunca foi trabalhar sem ele. Era um medo posto, que estava ali, não só no trabalho, mas na vida. A partir de agora, ia existir o medo”, ela responde. A questão era o que fazer com isso. “O que o Serviço Noturno nos ensina é que a gente pode sentir medo, mas não paralisar. E nunca deixar de fazer o trabalho que a gente acredita, construindo os arranjos necessários para se proteger e proteger aqueles que a gente acessa na rua”.

Leia também