Fotografia: Acervo Radis.

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Pioneirismo e ousadia marcaram trajetória do médico, gestor e militante, que atuou contra a exploração e a dominação

O usado, culto, humanista, figura única, um grande homem. Esses são alguns dos adjetivos que ocorrem aos amigos e companheiros que conviveram com David Capistrano da Costa Filho, uma das principais lideranças da Saúde, que desenvolveu e implementou políticas públicas precursoras e inovadoras, que acabaram por se tornar referência em todo o mundo. “Ele era um ‘fazedor’”, resume o médico Paulo Amarante, pesquisador da Ensp/Fiocruz, presidente da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme). “Tem muita gente que deixa admiradores. David formou quadros, como poucas pessoas formaram, para todas as esferas de gestão”.

Radis143 sanitaristas brasileiros 2O ministro da Saúde, Arthur Chioro, é um deles. Em sua posse, em fevereiro, Chioro reconheceu a “forte influência do grande mestre David” no início da sua carreira profissional. O ministro trabalhou com David quanto este foi secretário de Higiene e Saúde, em Santos (1989-1992). “O fato de ele ser secretário pesou bastante na minha volta à cidade”, conta Chioro, na época afastado do lugar onde nascera. “David era uma grande liderança não só do ponto de vista médico sanitário, como sanitarista, mas também como ator político. Era extremamente inteligente e bem formado. Sua ousadia tinha o tamanho da indignação e o acreditar que um mundo diferente era possível. Era indignado com a injustiça, a dor, o sofrimento das pessoas, com o conformismo e com a impossibilidade de mudar as coisas”, declarou.

Líder estudantil, médico, jornalista, autor e editor de livros, articulador político, conferencista, enumerou o escritor e jornalista Marcelo Mário de Melo, em matéria publicada no Jornal do Commercio, do Recife, sua cidade natal. Além disso, David Capistrano colaborou para a elaboração do texto que deu origem ao capítulo sobre o SUS na Constituição de 1988; e foi mentor e articulador da criação do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), da Revista Saúde em Debate e da Coleção Saúde em Debate, dando nome à biblioteca da entidade.

Nascido em berço comunista, David Capistrano foi militante do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) e do Partido Comunista Brasileiro (PCB), com o qual rompeu, indo para o Partido dos Trabalhadores (PT), onde foi eleito para a direção estadual paulista e para o diretório nacional. Acabou também rompendo com o partido, desiludido com os rumos que este tomava, na década de 1990. Foi secretário de Saúde de Bauru (gestão Tidei de Lima/PMDB) e, em Santos, além de secretário (gestão Telma de Souza/PT), foi prefeito pelo PT (1993-1996). “Minhas divergências com ele foram de modelo de gestão. Ele faz muita falta”, afirmou a ex-prefeita Telma de Souza, por ocasião dos dez anos da morte de David.

Funcionário do estado, voltou depois a trabalhar como médico sanitarista e desenvolveu com o médico Adib Jatene o Programa Qualis/Saúde da Família, que reordenou o sistema de atenção à saúde no município de São Paulo. Em 2000, assessorou o Ministério da Saúde, convidado pelo ministro e amigo José Serra. Sua morte prematura, aos 52 anos, ceifou o país de um líder. “Um político de estilo agressivo, avesso às conciliações, sua presença causava, com alguma frequência, desconforto e inquietação. Mas na hora da ausência definitiva, o sentimento de vazio arrebatou até seus litigantes mais costumeiros. Afinal, morrera um grande brasileiro. Morrera um grande comunista”, registrou o jornalista Breno Altman, em memorial na internet, que homenageia David.

Militância

Nascido em 1948, Davizinho, como costumava ser chamado, era filho de David Capistrano, comunista histórico e deputado estadual pelo PCB em Pernambuco (1947), e Maria Augusta, dirigente do Partido Comunista na Paraíba e candidata à Constituinte de 1946. Esse perfil militante o levou nove vezes para a prisão durante o regime militar – a primeira delas aos 16 anos, em abril de 1964, de acordo com informações dos arquivos da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos.

Radis 143 sanitaristas brasileiros 3Equipe de dirigentes da Secretaria de Higiene e Saúde de Santos: David, de pé à esquerda (blusa branca), Chioro no alto, ao centro, e Tykanori, na ponta direita (camiseta branca). Fotografia: Memorial David Capistrano.

Em função de sua militância, David, pai, passou boa parte da vida perseguido e na clandestinidade. Com o golpe militar, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde David Filho formou-se em Medicina, em 1972, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como orador dos doutorandos, em seu discurso Sede de justiça e fome de liberdade, antecipou pontos que marcariam sua trajetória como defensor da saúde pública: a defesa da institucionalização da medicina e o combate a sua privatização e consequente comercialização.

Do Rio, o jovem pediatra foi para São Paulo, em 1974, para buscar a formação de sanitarista com Sergio Arouca, então professor de Medicina Social e Preventiva da Universidade de Campinas, e depois com Kurt Kloetzel, professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí e chefe do Centro de Saúde e Manicômio Judiciário do município de Franco da Rocha, onde David acreditava que pudesse estar preso seu pai. “Havia suspeitas de que presos políticos estariam sendo internados naquele hospital psiquiátrico”, como relatou o médico Daniel Klotzel, filho de Kurt, ao lembrar da amizade do pai com David Capistrano, durante homenagem ao sanitarista no 10º Congresso Paulista de Saúde Pública, em 2007. “Por suspeitar (e esperançoso) que seu pai, desaparecido pudesse estar no Centro de Saúde, David pleiteou emprego no local e logo a amizade se iniciou”. Em 1975, contou, ainda, David foi preso e, no mesmo dia, o centro foi fechado. Na porta, um cartaz dizia: “Estamos fechados, pois nosso pediatra foi preso”. Preso e torturado em São Paulo, com mais 400 militantes do PCB.

O jornalista e amigo Sérgio Gomes compartilhou a cela com ele e mais três presos, conforme contou em entrevista ao jornal eletrônico Novo Milênio (2012). Na prisão, o grupo passou a discutir e elaborar políticas, em especial, na área da Saúde, e definiu que, quando saísse, montaria o Cebes. “Escrevíamos tudo em papéis de maço de cigarros. O que veio a ser o Sistema Único de Saúde (SUS) nasceu ali”, considerou. As ideias todas estavam ali e David era referência”, relatou Gomes.

Desaparecido David não encontrou o pai e só soube de seu paradeiro alguns anos depois, coincidentemente, enquanto acompanhava a apuração dos votos de sua candidatura à Prefeitura de Santos, em 1992. “Quando a vitória foi assinalada, [David] teve uma crise de choro. Sim, coincidência. Porque não se tratava de lágrimas eleitoras,” diz o registro da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos. Naquele momento, o sanitarista teria lido na revista Veja declaração do torturador Marivaldo Dias Chaves do Canto confirmando que seu pai e o amigo José Roman haviam sido torturados e assassinados, tendo seus corpos esquartejados em um centro de tortura em Petrópolis, no Rio de Janeiro. Os restos mortais dos dois militantes nunca foram encontrados. Maria Cristina, irmã de David, também foi barbaramente torturada em 1971. A mãe de David nem por isso se curvou: durante a ditadura militar, esteve à frente do Movimento pela Anistia, participou do movimento de mulheres pela anistia e da luta pela localização dos desaparecidos políticos.

Política de saúde mental

Em fevereiro de 1991, o jornal Proposta, do Programa Radis (Ensp/Fiocruz), veículo dos ideais da Reforma Sanitária, criado em 1987, reportava o processo de municipalização da Saúde em Santos, tendo o secretário David Capistrano à frente, e os avanços na nova organização dos serviços. Segundo o jornal, em dois anos, os recursos próprios para a saúde – excluídos os repasses estaduais e federais – teriam saltado de 5,9% para 14,51% do orçamento municipal.

Radis 143 sanitaristas brasileiros 3Fotografia: Repoduçao - Jornal Proposta / Acervo Radis.

O jornal trazia também matéria sobre a participação popular no município, que resultou em uma intervenção na Casa de Saúde Anchieta, ocorrida em 1989. A população foi em massa às ruas manifestar-se a favor das mudanças no único hospital psiquiátrico da região – conhecido como “a casa de horrores”. A proposta não era apenas a humanização do manicômio, mas a desmontagem da estrutura asilar. Roberto Tykanori, hoje coordenador Nacional de Saúde Mental do Ministério da Saúde, era diretor do hospital, e, da convivência de dez anos com David Capistrano, exalta a participação do médico na reformulação da política do setor de saúde mental. “Como sanitarista, ele encampou uma área que não fazia parte da chamada agenda do campo sanitário, da reforma psiquiátrica. A intervenção na Casa de Saúde Anchieta foi fundamental para impulsionar a reforma psiquiátrica no país porque foi uma experiência concreta de modificação, transformação e superação desse modelo”, relatou à Radis.

Segundo a reportagem do jornal Proposta, ao fim das celas fortes, do eletrochoque e outras violências, seguiu-se a criação dos Núcleos de Atenção Psicossocial (Naps) – hoje Centros de Apoio Psicossocial (Caps) –, que atendiam pacientes e suas famílias 24 horas. De forma inovadora, o município passou também a contar com atendimento domiciliar e foram criados embriões de cooperativas, usina de lixo reciclável e o Projeto Tam-Tam com ex-internos, terapeutas e a comunidade.

Tykanori lembra o dia em que David conversou por mais de duas horas com uma pessoa sobre o funcionamento de um hospital que estava visitando, sem saber que se tratava de um paciente psiquiátrico. Ao tomar conhecimento disso, ele se deu conta do preconceito que se nutria em relação às doenças mentais. “Então, falou em fazermos uma grande revolução. Começamos a conversar muito sobre a experiência italiana em saúde mental”.

O pioneirismo esteve presente também em outras ações. Arthur Chioro recorda, que, em 1993, David conseguiu zerar os indicadores de cárie nas crianças de cinco anos. “Na cidade inteira e não só em uma perspectiva estética”, ressalta. Santos foi também o primeiro município a criar registro de casos de câncer, para traçar uma estratégia de prevenção e enfrentamento. “Quando todas as prefeituras ficavam restritas a lidar com tuberculose, hanseníase e vacinação, David estava lá na frente pensando o envelhecimento”. Tikanory lembra um programa voltado para bebês em situação de risco em Bauru. Envolveu pais, mães e comunidade, a fim de que compreendessem a importância do cuidado precoce. “Com isso, configurou uma política que não tratava só de burocracia, de ações técnicas, e que gerava um valor social”, diz.

Amizade duradoura

O médico Davi Rumel era secundarista quando conheceu o militante David Capistrano, em 1972, e com ele engatou uma amizade duradoura. Davi observa que o sanitarista implementou programas que hoje fazem parte do desenho da atenção básica, como mapeamento do território e trabalho em rede. Lembra, ainda que, de forma precursora, sob o comando de David, foi feita distribuição do coquetel de medicamentos anti-aids, de preservativos e de seringas descartáveis para usuários de drogas, medida que hoje faz parte da política de redução de danos aos dependentes químicos. David cuidou da incorporação das pessoas que viviam com HIV e aids, “porque não se conformava que uma nova doença mostrava toda a impotência da medicina e do sistema de saúde”, completa Chioro.

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“Um líder, humanista, político-sanitarista que cumpriu um papel de extrema relevância como médico, como gestor, como quadro político no contexto da redemocratização do país e da conquista do SUS. Um democrata, um grande brasileiro”, define o médico José Temporão, ex- -ministro da Saúde e diretor executivo do Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (Isags). Um desbravador, que passou a vida se aventurando em caminhos diferentes do habitual, considera o professor Gastão Wagner Campos. “Desejava transformar a Terra em um lugar em que o homem e a mulher não estivessem submetidos a exploração e dominação. David foi um gênio da luta popular; acreditava na vida, na alegria e no prazer; e, como é peculiar aos criadores, não media os limites com a mesma régua que a do bom senso. Foi um especialista em tomar o céu de assalto”, disse Gastão, por ocasião do Prêmio David Capistrano Filho que, desde 2003, homenageia o sanitarista ao reconhecer e estimular ações inovadoras no campo da humanização no SUS.

Durante 15 anos, David Capistrano lutou contra a leucemia, que resultou em um problema crônico em seu fígado. Morreu prematuramente, em 10/11/2000. “Ele já tinha desistido de brigar pela vida”, diz Davi Rumel. “Sérgio Gomes e eu tivemos uma conversa com ele e dissemos que ele tinha que fazer um transplante entre vivos e que não poderia morrer antes da mãe, por conta das perdas que ela havia passado”. O argumento, decisivo, fez com que familiares e Sérgio fossem considerados como potenciais doadores. A compatibilidade foi dada por Davi Rumel, que doou parte do seu fígado. “A ideia é que desse certo e que a gente pudesse contar com essa figura brilhante para a vida toda”, esperava. David Capistrano morreu dois meses depois. E, a contar pelos depoimentos de quem com ele conviveu, teve uma vida coerente com uma frase que proferiu em 1966: “Só me sinto homem, radicalmente distinto de todos os animais, na condição de amigo. A mais alta e a mais dignificante das condições: amigo”.

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As imagens utilizadas nesta matéria fazem parte do Acervo Radis.

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