Fotografia: Acervo pessoal.

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Como foi a rotina em Brasília de um dos 78 estudantes selecionados para participar do programa Parlamento Jovem Brasileiro

Tiago Marques tem 16 anos e uma vontade de mudar o mundo. Tirou o título de eleitor, mas ainda não votou para prefeito, vereador, deputado ou presidente. No entanto, Tiago já foi deputado federal. Não que a legislação brasileira tenha sofrido alteração — a idade mínima para se candidatar a uma cadeira no parlamento continua sendo de 21 anos. O paradoxo pode ser explicado. Ele participou de um programa que anualmente seleciona jovens de escolas públicas e particulares de todo o país para viver a rotina de um parlamentar durante cinco dias em Brasília. Em 2019, Tiago, estudante do segundo ano da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) foi um dos 78 escolhidos. Pediu à mãe que lhe comprasse um terno. E partiu para sua jornada como deputado.

A história começa antes. Quando ouviu falar do Parlamento Jovem Brasileiro (PJB) — programa chancelado pelo Congresso em vigor desde 2010 —, Tiago achou a ideia “maneira”, contou à Radis um mês depois de voltar de Brasília. Mas nem de longe imaginou quão transformadora seria a experiência. Para concorrer, precisava elaborar um projeto de lei (PL) cujo tema tivesse relevância nacional. Sem saber bem como fazê-lo, virou noites em claro lendo artigos sobre os desafios da implementação do SUS e da atenção básica e contou com a ajuda de professores e da irmã, advogada, para redigir de próprio punho uma proposta ousada.

O projeto de lei que ele submeteu à seleção estabelecia que qualquer pessoa indicada para cargos de ministro, secretário e gestor de serviços de saúde só poderia exercer a função depois de comprovadas sua aptidão técnica e qualificação para a função. Caberia aos conselhos de saúde a tarefa de sabatinar os indicados sempre que necessário. A ideia, ele explicou, surgiu depois de perceber que muitos gestores em saúde parecem ter “caído de paraquedas” no setor. “Qualquer um pode ser gestor, basta ter indicação política, é a velha troca de favores”, disse, inconformado.

O projeto de Tiago foi selecionado entre 252 propostas de todo o país e ele se tornou um dos sete representantes do Rio de Janeiro na mais recente edição do PJB. De acordo com as regras do programa, o número de vagas para deputados jovens por Estado e pelo Distrito Federal é proporcional ao número de deputados federais eleitos.

A maratona estava apenas no início. Antes de seguir para o Congresso, os selecionados passaram por um período preparatório online em que precisaram cumprir uma rotina de exercícios para entender sobre a constitucionalidade dos projetos, análise do mérito e do impacto orçamentário, preparação de relatório e de pareceres. Além de redigir o seu próprio projeto, cada jovem também se tornou o relator de projetos dos colegas e teve de elaborar um parecer favorável ou contrário ao PL analisado. Tiago fez a relatoria de um projeto que instituía o Programa Nacional de Segurança Pública nas Escolas. “Propunha sistema de monitoramento e TV, detector de metal e a presença de profissionais de segurança dentro das escolas”, explicou.

Apesar de o tema da segurança andar de mãos dadas com o da Educação, o estudante não conhecia o suficiente sobre o assunto. “Não sabia os conceitos, não conhecia nenhum teórico ou pesquisador da área”, disse Tiago. “Mas eu sabia que aquela solução proposta só atacava as consequências e não as causas do problema e que o projeto não deveria ser aprovado. A solução está na educação e não em mais violência”. Cercou-se de livros, leu tudo o que pode sobre cultura da paz e não violência. Outra vez, conversou com professores. Precisava estar bem preparado para os embates que aconteceriam durante a jornada parlamentar. Como um bom deputado, teria que batalhar tanto pela aprovação de seu projeto de lei quanto para convencer os nobres colegas a votarem com o seu parecer que rejeitava o PL sobre segurança nas escolas.

De Rio Bonito a Brasília

O jovem que cursa Gestão da Saúde na ESPJV nasceu em uma família de classe média em Rio Bonito, cidade de 60 mil habitantes da região metropolitana do Rio de Janeiro, e mudou-se para Niterói tão logo ingressou no ensino médio. Diariamente, cruzava a ponte para assistir às aulas em Manguinhos. Mais recentemente, com a ajuda da mãe, uma bióloga, alugou apartamento no Flamengo, bairro da zona Sul, onde agora mora sozinho. Tiago sabe que é um jovem privilegiado, mas considera importante brigar para que as pessoas sintam-se mobilizadas mesmo quando uma causa não lhes atinge mais diretamente, comentou.

Na Poli — como os estudantes chamam carinhosamente a escola da Fiocruz —, juntou-se a outros estudantes na chapa Poliunião, que venceu as últimas eleições para o Grêmio. Como membro da diretoria, frequenta as reuniões do Conselho Deliberativo e da Câmara Técnica — instâncias que compõem o sistema de gestão participativa da Fiocruz — e, como se não bastasse, coordena o coletivo Política, que tem encontros semanais para discutir adivinhem o quê. Foi na militância que Tiago passou a conviver com muitos jovens que têm histórias de vida muito diferentes da sua. Tem amigos que enfrentam diariamente preconceito pela cor da pele e, nessa viagem a Brasília, por exemplo, conheceu quem tivesse enfrentado o horror do abuso sexual.

Uma carreira política no sentido estrito da palavra ele ainda não tinha pensado em seguir. Prefere o sonho de se formar em Economia. “Economia da Saúde, para ser mais exato”, ressaltou, enquanto planeja disputar uma vaga, dentro de dois anos, na concorrida Universidade de São Paulo (USP). Mas anda suspeitando de que a experiência em Brasília tenha lhe despertado outros desejos. Durante um tour pelas dependências do Planalto, ficou incomodado ao descobrir que a rampa projetada por Oscar Niemeyer para que o povo tivesse acesso às galerias agora tem seu uso limitado a ocasiões especiais. “Tem até uma grade ali. Isso torna a política muito distante do povo”.

Participação e polarização

Se a ideia do PJB era simular o cotidiano dos parlamentares eleitos pelo povo, os jovens parlamentares experimentaram um pouco de tudo: da elaboração de pautas à participação de sessões deliberativas em comissões, passando pela análise e votação dos pareceres e projetos de lei até a realização de reuniões partidárias. Já no primeiro dia, os estudantes ocuparam uma sala de comissão situada no Anexo 3 da Câmara, onde deram início à formação dos partidos políticos — era permitido, no máximo, a criação de seis legendas. A maior delas, o Partido da Juventude Protagonista (PJP), tinha mais de 20 integrantes. O de Tiago, com 13 membros, ficou abrigado sob a sigla PAS ou Partido da Aliança Social, cuja plataforma defendia um combo de educação e saúde de qualidade e ainda paz e justiça social, contou Tiago exibindo na tela do celular a logomarca criada por uma das correligionárias em que se via a pomba branca, uma rosa e uma balança.

Por sua trajetória estudantil, Tiago tinha a expectativa de presidir a Comissão de Saúde e Segurança Pública durante o Parlamento Jovem, mas acabou se tornando líder de partido e as funções não podiam ser cumulativas, porque afinal era necessário exercitar a democracia ao máximo. O clima de polarização que assola o país também deu o ar da graça no Parlamento Jovem. “A maioria dos partidos que se formaram era de esquerda. Mas tinha também uma galera bem conservadora que chegava a defender a militarização dos conflitos e até a entrada do Exército em cena”, contou Tiago. Quando começaram as coligações para eleger a Mesa Diretora, as diferenças já não pareciam tão explícitas. “Aí houve gente que juntou os jovens marxistas de movimentos sociais com a galera da direita”.

Ainda não havia acabado a votação para presidente da Câmara, quando Tiago deixou o Salão Negro, onde acontecia a sessão, em direção ao café. Estava ansioso demais para acompanhar os votos cabeça a cabeça. O resultado significava muito para ele. Estava em jogo a eleição da candidata apoiada por seu partido, Maria Antonia Dezidério, uma jovem negra natural de Salvador e integrante do Femina, partido cuja principal bandeira era a defesa do feminismo e com quem ele tinha muitas afinidades ideológicas. Se a jovem ganhasse, significava a vitória do grupo mais progressista, mas também demonstrava que Tiago tinha ido bem no papel de articulador político. Na véspera, ele garantiu ter conquistado pelo menos dois votos de deputados indecisos na base do diálogo. “Mas até o momento da votação não sabia o que ia dar”.

Acabou empatada. Pelo regimento interno da Casa, vence a candidata mais velha, “e ela nasceu antes”, comemorou Tiago durante entrevista à Radis. Ele ainda estava fora do salão quando escutou os gritos de “Ela me representa!”. Chorou ao ouvir o discurso improvisado da amiga. “Foi incrível. Ela falou sobre as desigualdades em nosso país e o fato de só ter 15% de mulheres no Congresso e de como era importante uma mulher negra na presidência”. Segundo Tiago, a chapa concorrente adotou o discurso de que não existe ideologia, algo de que ele discorda. “O outro candidato tinha aquela fala: ‘Não sou de esquerda nem de direita’. Quem fica em cima do muro, não tá com nada”.

Não foi o único momento tenso daquela semana. Como era de se esperar, a discussão sobre a presença de segurança armada nas escolas foi bastante acalorada. Tiago fez a leitura de seu relatório e o clima pesou. Ao final, seu relatório que rejeitava o projeto foi aprovado por apenas um voto de diferença e o PL, arquivado. Já o Projeto de Lei de Tiago que buscava a gestão democrática em cargos comissionados foi aprovado depois de uma série de negociações, o que em sua opinião acabou por deixar o projeto menos interessante.

Entre essas barganhas, foi preciso alterar a redação para torná-lo constitucional, uma vez que a composição de gabinete de governo é de competência exclusiva do Executivo. “Até aí tudo bem, faz parte do exercício. Mas o relator enxugou bastante o projeto. De nove artigos bem detalhados, sobraram quatro”, lamentou. Tanto que na hora de anunciar seu voto, fez questão de declarar: “Infelizmente, me sinto obrigado a votar a favor desse relatório porque foi o que foi possível dentro da democracia”. Todos os projetos discutidos e aprovados durante o PJB ficam disponíveis em um banco de dados no Congresso Nacional para consulta dos deputados.

A juventude pede o que é seu de volta. Tiago Marques, em discurso na Câmara dos Deputados

Tiago, Greta e o Clima

Os jovens parlamentares estiveram em Brasília entre 23 e 27 de setembro do ano passado, uma semana particularmente turbulenta no Distrito Federal. Naqueles dias, o Supremo Tribunal Federal (STF) estava iniciando a votação sobre a prisão depois da condenação em segunda instância (resultado que só seria conhecido dali a quase dois meses) e isso levou manifestantes favoráveis e contrários à disputa até a Praça dos Três Poderes. Nesse mesmo período, Jair Bolsonaro discursara na Assembleia Geral da ONU, ocasião em que teceu críticas ao cacique Raoni. Isso levou a muitas manifestações no Congresso em defesa do líder indígena.

Ou seja, na capital federal, os ânimos estavam acirrados e isso se fazia sentir também no PJB. Chegara a vez de Tiago subir à tribuna. Nervoso mas decidido, ele mandou o seu recado, dedicando o discurso à Greta Thumberg, a ativista sueca também de 16 anos que durante a Cúpula do Clima chamou a atenção do mundo ao dizer que jovens têm força para pressionar governantes por mudanças. Ao falar corajosamente a 60 líderes de diversas nações do mundo, ela disse que a sua infância e os seus sonhos foram roubados por palavras vazias.

“Greta, peço-lhe desculpas em nome da juventude aqui presente. Esses líderes não nos representam tanto quanto as fake news disseminadas por certos congressistas brasileiros”, começou Tiago. “Basta de palavras vazias. Não se aproximem de nós, jovens, apenas para fazer mídia e sim para dialogar conosco e com as causas da juventude”. Os colegas aplaudiram. Em sua fala de aproximadamente 2 minutos, Tiago ainda teria tempo de dizer: “O planeta pede o que é seu de volta. Essa juventude pede o que é seu de volta. As minorias pedem o que lhes é de direito. Políticos, façam a sua parte porque os jovens já estão fazendo”.

Radis entrevistou Tiago na biblioteca da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio. Ele vestia uma camiseta com estampa bem diferente do paletó usado em Brasília, mas o entusiasmo e o espírito combativo pareciam os mesmos. Reunido com um grupo de amigos para discutir mais uma questão do grêmio, pediu licença à turma e conduziu a reportagem pelos corredores da escola. Sente-se em casa. Afinal, é na Poli que ele passa a maior parte do tempo, de segunda a sexta, das 8h às 17h. “Minha rotina é muito atribulada. Às vezes, eu sinto que preciso de um tempo só pra mim”.

É quando decide ver séries e ir ao cinema. “Mas aí eu vou ao cinema e vejo o quê? ‘Bacurau’, ‘Coringa´”, diz ele, entre risos, fazendo referência a dois filmes de grande repercussão em cartaz ultimamente — o primeiro deles, uma história de resistência sobre uma comunidade no interior do Nordeste e o outro, uma releitura do inimigo número 1 do Batman, que levanta questões sobre saúde mental (ouça o podcast da Radis no nosso site). Na TV, as séries de que mais gosta são “The Handmaid´s Tale” e “Orange is the new black”. Nenhuma delas chega a ser um passatempo leve. Uma descreve uma distopia futurista em que as mulheres são tratadas em uma espécie de escravidão reprodutiva, enquanto a outra, apesar de definida como comédia dramática, trata do sistema carcerário feminino americano. “Mas é isso. Meus amigos são todos assim. Uma vez que você se torna um cidadão consciente, não tem volta”.

Em Brasília, ficou decepcionado ao assistir a uma sessão presidida pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. “Fiquei espantado com os deputados em pé, mexendo no celular, usando o tablet, jogando joguinhos eletrônicos, conversando. Como a gente pode estar numa democracia em que as pessoas precisam ser escutadas para chegar a uma saída comum e ninguém se escuta?”