Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Adriano De Lavor.

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Prevenção por meio de implantes, testes com vacinas e antirretrovirais injetáveis, novas recomendações sobre o DTG foram alguns destaques no México

A cura como horizonte

Com a terapia antirretroviral disponível hoje, é possível diminuir a quantidade de vírus no sangue de maneira que se torne indetectável, sem causar dano à vida da pessoa, manifestar sintomas ou possa ser transmitido para outra. Porém, mesmo indetectável o vírus continua em um “reservatório latente” no organismo e depende de adesão ao tratamento para que continue assim. Estudos em busca da cura do HIV caminham em direções complementares. A primeira delas tenta localizar este reservatório no organismo, ainda desconhecida por pesquisadores; a segunda se concentra na investigação genética dos chamados “anticorpos neutralizantes”, presentes em algumas pessoas e que seriam capazes de proteger o corpo da infecção pelo HIV; a terceira aponta para medicamentos que fortalecem o sistema imunológico de modo que gere uma resposta efetiva ao vírus. Os cientistas, no entanto, foram cautelosos ao afirmar que a cura não parece próxima, apesar de resultados promissores em diversos estudos.

Prevenção com implantes

Pesquisadores apresentaram os resultados do primeiro ensaio clínico feito com humanos de um implante que, inserido logo abaixo da pele libera lentamente o antirretroviral islatavir e impede que as pessoas contraiam o HIV. O implante de quatro centímetros de comprimento, semelhante ao usado no controle de natalidade, foi inserido nos braços de 16 pessoas por três meses e considerado seguro e apresentou efeitos colaterais leves, o que demonstrou seu potencial como nova forma de prevenção do HIV. Este e outros estudos de profilaxia por implantes ainda passarão por novos testes, inclusive para que possam ser avaliados do ponto de vista da adesão.

OMS recomenda DTG

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou o uso do medicamento dolutegravir (DTG) como o tratamento de primeira e segunda linha preferido para todas as idades, incluindo mulheres grávidas e em idade fértil. Segundo a OMS, o DTG é mais eficaz, mais fácil de tomar e tem menos efeitos colaterais do que os medicamentos A recomendação tem como base novas evidências que avaliam benefícios e riscos e que também partiram de estudos realizados no Brasil (veja entrevista na página 24).

Terapia tripla

Estudo da agência nacional francesa apresentou a possibilidade de redução da quantidade de ingestão semanal da terapia tripla para pessoas cuja carga viral de HIV é indetectável, o que significa que ao invés de tomar os remédios todos os dias elas passariam a tomar apenas uma vez por semana — quantidade que já seria suficiente para manter a carga viral suprimida na corrente sanguínea. Os estudos ainda precisam ser aprofundados para que se conheça possíveis impactos negativos em relação à resistência à medicação.

Vacinas e injetável

Durante a IAS 2019 foram apresentados os primeiros resultados da fase 2 A (para comprovar eficácia e dosagem) de uma vacina experimental testada no Quênia, Ruanda e Estados Unidos. Até agora, as duas doses diferentes que estão sendo trabalhadas são eficazes, mas ainda há muito a investigar, atestaram pesquisadores. Em breve a pesquisa Mosaico irá testar a mesma vacina em vários lugares da Europa e América do Norte e do Sul. Também em fase de investigação está o composto cabotegravir, um injetável que pode ser preventivo ou parte do tratamento para pessoas que já têm HIV, e que seria aplicado por meio de duas doses de injeção (uma em cada nádega) a cada oito semanas, no caso preventivo, e a cada quatro semanas (no caso de integrar a terapia).

Foco na América Latina

135 milhões de pessoas em todo o mundo precisam de assistência humanitária, principalmente devido a conflitos e desastres naturais, o que as torna mais vulneráveis ao HIV. “Da Síria à Venezuela, o desafio de fornecer serviços de HIV em crises humanitárias ameaça o progresso global no enfrentamento da epidemia”, destacou Anton Pozniak, presidente da IAS e do comitê científico da conferência, durante a capacitação dos jornalistas selecionados para cobrir o evento. À frente do comitê científico local da conferência, Brenda Crabtree Ramirez recomendou que a atenção dos pesquisadores se voltasse para a América Central e a Venezuela, onde há instabilidade política que impulsionou a migração em massa e prejudicou os sistemas de saúde locais. Segundo ela, das 120 mil pessoas que vivem com HIV na Venezuela, apenas metade estava acessando tratamento antirretroviral em 2017.