Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Daniel Ledra/Fiocruz Brasília.

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Moradores de zonas rurais do Piauí refletem sobre manejo da água para convivência com o semiárido

Em 1947, surgia a música Asa Branca, de Luiz Gonzaga, retratando as agruras da seca no Nordeste e a vida do morador do sertão: “Que braseiro, que fornalha, nem um pé de plantação. Por falta d’água perdi meu gado, morreu de sede meu alazão”. A falta d’água, tão recorrente nos versos do Rei do Baião, e há décadas em diversos livros como “Os Sertões”, publicado por Euclides da Cunha, em 1902, e “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, em 1938, continua sendo realidade mesmo depois de tantos anos — e parece piorar.

“Tem tempo que eu não vejo chuva. Precisa chover para minhas plantas crescerem”, diz Maria Francisca Gomes da Silva, ou dona Francisca, como é conhecida no povoado de Fornos, no Piauí. As “plantas” a que ela se refere são parte de uma pequena lavoura na propriedade, que servem de sustento e alimentam a família, e que são exibidas com orgulho à reportagem: gergelim, maxixe, mamão, arroz, feijão. Ela tem água encanada, mas esta não pode ser usada para nenhum tipo de plantação, só para o consumo humano.

A comunidade onde ela mora tem cisternas de 52 mil litros, que captam água da chuva, escassa no local. “Estamos no final de janeiro e ainda não encheu porque só deu três chuvas grossas. Tem mais de 20 dias que não chove. Se no mês de maio [a cisterna] ficar cheia, dá [para usar] até o mês de setembro e fica até chover de novo. A água é muito pouca”, explica.
As cisternas são reservatórios que servem para captar, armazenar e conservar a água da chuva para reuso. Sua instalação, pelo Programa Cisternas, do extinto Ministério da Cidadania, permitiu a muitas famílias terem acesso à água para o consumo e para a produção dos próprios alimentos. A iniciativa foi proposta pela Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), formada por organizações da sociedade civil que atuam na gestão e no desenvolvimento de políticas públicas, e realizada pelo governo federal desde 2016.

Apesar das dificuldades que sempre enfrentou e das marcas que a vida no sertão deixou, Dona Francisca está sempre com um sorriso largo no rosto e é muito receptiva, pronta para oferecer algo aos seus visitantes, um abraço, um suco ou uma refeição. Na entrada do povoado, é possível ver dois elementos que representam bem Dona Francisca e seus vizinhos: uma cruz com um cacto no topo, simbolizando a religiosidade e a resistência em áreas consideradas de difícil sobrevivência. “Aqui no semiárido diziam que não existia vida porque não existe água. Não é verdade. Com pouca água ainda conseguimos. É no semiárido que a vida pulsa, é no semiárido que o povo resiste”, ressalta.

As cisternas, proposta da ASA Brasil realizada pelo governo federal a partir de 2016, captam e conservam água da chuva para reuso em uma região com grandes períodos de seca.

Resistência e semiárido

O semiárido abrange os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e parte do norte do estado de Minas Gerais, em mais de 1.100 municípios com, aproximadamente, 22 milhões de habitantes. É um clima que apresenta temperaturas altas e chuvas escassas e irregulares, que se concentram em um curto espaço de tempo, de três a quatro meses. Geralmente são grandes períodos de secas ou enchentes, que têm implicações diretas sobre a produção agropecuária. Algumas áreas mais secas ficam anos sem presença de chuva. A água é essencial para o cultivo, produção de alimentos, regar plantações, criar animais e para a higiene.
Em uma comunidade próxima à da Dona Francisca, a água não chega a todas as residências. É o caso da casa da professora aposentada Teresa Maria Gomes, de 71 anos, e seu esposo José Acelino Gomes, de 80 anos. Eles são moradores da comunidade Nossa Senhora Aparecida, de Pau D’Arco, onde cerca de 40 famílias não têm água encanada. Teresa conta que tem a encanação, mas “a água é difícil de ir”.
José trabalha na roça, com a plantação de feijão, milho e mandioca. Na seca, as plantas morrem. Ele demonstrou preocupação, já que a família se alimenta de parte da roça e não chovia há 15 dias. O casal conta que ouviu diversas promessas de que a água ia chegar pelo encanamento, mas até agora não foi realizada. Eles utilizam a água do poço e quando falta, pedem da cisterna do vizinho.

A mesma escassez atinge o município de Ipiranga do Piauí, localizado a cerca de 220 quilômetros da capital Teresina, e moradia de quase 10 mil habitantes. Conhecido como a terra do doce, já que o forte da economia é o comércio do doce caseiro, além do artesanato, é na zona rural do município que se localiza o povoado de Brejo da Fortaleza.

Lá, a falta d’água atinge também a plantação. Eulália Carmem, 21 anos, graduada em Letras e moradora da comunidade de Brejo da Fortaleza, lembra da abundância de frutas que existia na região, como o abacate e a jaca. “Hoje, na roça do meu pai não aparece abacate de jeito nenhum e não tem mais pé de jaca”, explica. A cana-de-açúcar, a mandioca, o caju e o artesanato também movimentavam a economia. Ipiranga era conhecido como terra dos canaviais, como mostra o hino do município, mas, segundo Eulália, a plantação de cana está sendo trocada por mandioca, devido à falta de água na terra.
Os moradores contam que a presença de buriti nos brejos era abundante, e a cidade contava com um dos maiores buritizais do estado do Piauí — o que justificava o antigo nome do povoado. A troca para Brejo da Fortaleza se deu por causa dos brejos férteis e da variedade de frutos da localidade, entre elas, a manga, o pequi, o caju e principalmente o buriti.
A planta é uma das palmeiras do Brasil e é sempre encontrada próxima de veredas, riachos e cachoeiras, brejos e nascentes, sendo um indicativo da existência de água na região. Eulália conta que a água corria o ano inteiro e os buritizais no caminho de Ipiranga para Brejo eram incontáveis. Hoje, incontáveis são os buritis que murcharam e morreram. A madeira e a fruta, usadas na produção de doce e na confecção de produtos artesanais, vêm hoje do Maranhão, onde a produção ainda é farta.

Manejo para a convivência

Em meio a essa realidade, mais de 100 agricultores familiares, agentes de controle de endemias, lideranças locais, agentes sociais, trabalhadores rurais, técnicos do Fórum Piauiense de Convivência com o Semiárido, trabalhadores da saúde, estudantes, professores e técnicos de agropecuária das comunidades de Brejo da Fortaleza e Fornos participaram do curso de Vigilância Popular em Saúde e Manejo das Águas, da Fiocruz, que tinha o objetivo de transformar o território em saudável e sustentável e fortalecer os direitos e a autonomia das pessoas que vivem em territórios vulnerabilizados. A idade dos participantes foi diversificada, de 15 a 71 anos, assim como o perfil, mas todos tinham algo em comum: o desejo de aprender a viver, cuidar e valorizar o semiárido.

Os alunos realizaram trabalhos que impactaram diretamente as comunidades, considerando a realidade de cada um. Ao todo, foram quatro módulos, com duas aulas por mês, com teoria e prática. Durante o trabalho de campo, foi realizado mapeamento das tecnologias sociais nas comunidades, entrevistas com os moradores, produção de cartografias sociais, elaboração de planos e registro fotográfico.

Um dos coordenadores do curso, Jorge Machado, pesquisador da Fiocruz Brasília, explica que o conceito de territórios saudáveis e sustentáveis foi articulado com a convivência no semiárido, não para combater as fragilidades do ambiente, mas para superar e promover uma vida saudável em articulação com todos os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. “É uma construção conjunta de ações que organiza a discussão da saúde com outra perspectiva”, ressalta.

Como forma de valorizar os saberes e práticas e reconhecer experiências locais, alguns moradores dos povoados ministraram módulos da formação, que teve início em setembro de 2018 e levantou questões como manejo da água e soberania alimentar, agroecologia, saneamento rural, saúde e vigilância dos territórios saudáveis e sustentáveis no semiárido.

Divididos em grupos, durante o curso, os alunos elencaram as necessidades dos povoados, como a má distribuição da água e conscientização da população sobre o desperdício, descarte de resíduos em locais indevidos, estruturação do manejo de sementes e das hortas domiciliares. Ao final, desenvolveram tecnologias sociais para o reuso de águas, como reaproveitamento de garrafas PET e pneus para criação de canteiros suspensos e autoirrigáveis, possibilitando que se regue apenas uma vez ao dia.

Para a confecção foram utilizadas ferramentas fáceis de encontrar. Os estudantes criaram também hortas, viveiro, compostagem, reaproveitamento de restos alimentares para adubo. As tecnologias foram inseridas em algumas casas e na Escola Municipal Liberato Vieira, um dos locais onde as aulas foram ministradas.

Para Danda Oliveira, do Serviço de Saúde Ambiental da Superintendência Estadual da Funasa no Piauí, o curso trouxe muitos avanços em termos de inovação tecnológica e metodológica para a política de saúde, pois permitiu apropriação de conhecimento por parte dos participantes e construção de um novo pensar sobre os territórios e suas vivências. “Deu coragem à população para ousar e investir em tecnologias, resultando em impactos na saúde, qualidade de vida e autoestima dessa população”, opina.

Além do uso para higiene, a água é essencial para o cultivo de alimentos e a criação de animais.

No curso, os alunos desenvolveram tecnologias sociais para o reuso de águas, como reaproveitamento de garrafas PET e pneus para criação de canteiros suspensos e auto-irrigáveis; e realizaram o Mapa das Águas, desenhando a localização de águas de qualidade e contaminadas de suas comunidades.

Mapa das águas

O grupo realizou também, junto às comunidades, um questionário e Mapa das Águas, com a utilização de georeferenciamento, desenhando as estruturas das casas e a localização de águas de qualidade e contaminadas. O questionário contém informações sobre a quantidade de domicílios, poços, casas de farinhas, engenhos, cisternas, filtros, nascentes, plantios e quintais produtivos, aproveitamento e reuso da água, de sobras alimentares e dejetos animais no plantio. Foram consideradas as comunidades de Brejos, São José dos Cocos, Macaúba, Malhada, Furta-lhe a Volta, Morros, Veredão, Alto dos Honoratos, Sítio e Baixão dos Cassianos, do município de Ipiranga do Piauí; além de Fornos, Paulinos, Pau D’Arco e Pirco dos Nogueiras, de Picos.

Aluno do curso, Felipe Luan de Souza, também morador de Brejo da Fortaleza e funcionário da Escola Municipal Liberato Vieira, conta que, com o questionário, foi possível mapear que antes existiam inúmeras águas de fontes naturais dentro da comunidade que secaram. Hoje, apenas três fontes naturais jorram água. Para ele, a formação permitiu que os participantes adquirissem mais conhecimento sobre o cuidado com as águas. “Ela era contaminada sem a gente nem saber. Com o curso, pudemos ver os focos de contaminação, fazer o rastreio de como a água era contaminada e como certas fontes deixaram de existir”, conta. Felipe explica que a comunidade agora pode tomar mais cuidado com a água, desde a que escorre na torneira de casa até a que percorre a rua. De acordo com ele, o lixo na área rural não tinha destino apropriado e agora o olhar é voltado para a natureza também.

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Chegada da água

Há alguns anos, os moradores que residiam próximo aos brejos carregavam água na cabeça para o consumo, em potes ou baldes. Já os que moravam mais afastados transportavam pequenos tanques de madeira por jumentos. A iluminação era feita pela queima de óleo de petróleo, diesel ou querosene, ou de plantas, azeite ou óleo. A rede de água só chegou à região em 1990, e a rede elétrica, ainda mais tarde, em 1994. Em povoados mais afastados, ainda não há energia elétrica.

A perfuração de poços artesianos é hoje uma medida para atender o fornecimento de água, mas, para isso, é preciso autorização do governo. De acordo com levantamento feito pelos moradores em parceria com a Fiocruz, na região de Brejos e nas comunidades localizadas ao redor — São José dos Cocos, Macaúba, Malhada, Furta-lhe a Volta, Morros, Veredão, Alto dos Honoratos, Sítio e Baixão dos Cassianos — existem hoje 807 domicílios e 95 poços. Entre eles, 14 inativos ou extintos, 5 incompletos e 22 coletivos. O restante é particular. No Piauí, é comum ouvir falar de desperdício de água de poços, com vazão de milhares de litros por hora em cidades bem próximas de outras que sofrem da seca.

Felipe demonstra preocupação com a perfuração do lençol freático. Ele conta ainda que quando a água de um poço seca, a população busca no outro poço mais próximo e aquele local vira espaço para armazenamento de lixo.

“Existe a ideia de que tem que cavar poços. Muitos usam a água do poço para plantação ao invés da água cinza. Falta a conscientização do reaproveitamento da água e do cuidado com o poço público”, disse.

A alteração do lençol freático pela perfuração de poços também preocupa Eulália, que afirma que terá um abalo nas comunidades mais na frente. Ela recorda que há poucos anos não tinha tantos poços inativos. “Sem dúvida essa água desperdiçada vai fazer falta. Se 17 anos atrás tinha água corrente e hoje em dia secou por completo, como estará daqui a 17 anos?”, questiona.
Essa realidade também é encontrada em comunidades rurais do município de Picos, também no Piauí, a pouco mais de 300 quilômetros da capital Teresina. Apesar de ser uma cidade pequena, quem anda por Picos reconhece problemas de uma cidade grande, já que o município apresenta trânsito intenso e crescimento desordenado. Ele tem mais de 78 mil habitantes, com renda média de 1,6 salários mínimos, mas recebe cerca de 3 mil pessoas por dia, vindas de cerca de 40 cidades próximas. Picos é conhecido como Cidade Modelo, destaque pelo mel e pela pecuária.

Mas basta ir para a área rural, onde moram mais de 16 mil pessoas, para começar a ver as dificuldades que os moradores enfrentam. No caminho para a comunidade de Fornos, na região de Chapada do Mocambo, cerca de 40 minutos de Ipiranga e 35 quilômetros da cidade de Picos, o cenário é típico do semiárido: animais soltos pelas estradas de terra batida — gado, galinha, jumento, cavalo —, mandacarus por todo lado, clima seco e quente e grandes plantações. Durante o período chuvoso, uma das únicas formas seguras de concluir o trajeto até o povoado é com carros com tração nas quatro rodas. A caça ainda é um dos meios de colocar a comida na mesa. Por isso, na estrada rural, outra cena comum é encontrar homens de moto com espingardas e outras grandes armas à procura de animais.

Algumas comunidades da região não têm água suficiente. É o que confirma a coordenadora do polo regional de Picos pela Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Fetag-PI), Joelma Gomes de Carvalho. Há ainda problema com tubulação — não são feitos reparos nos canos quebrados. “É um problema antigo. É a realidade de todas as comunidades da região, não só do município de Picos, mas da região que engloba o Vale do Guaribas. Todos nós temos essa dificuldade, a questão de água, do descaso, desperdício, má distribuição de água, é uma questão que nunca conseguimos resolver”, afirma.

As dificuldades com água, falta de eletricidade, transporte e grandes distâncias dos centros motivou muitos moradores a migrarem para as grandes cidades. Apesar de falarem saudosamente da neta que mora em Brasília, José e Teresa contam que não pensam e nunca pensaram em sair de Pau D´Arco. Teresa era a mais entusiasmada da turma do curso promovido pela Fiocruz, caminhava quatro quilômetros até o local para assistir às aulas e não teve nenhuma falta. O orgulho do local em que nasceu também é muito latente nos moradores. José ajudou na construção da principal igreja de sua comunidade. Passava a madrugada em claro trabalhando, levando água para a obra nas costas de um jumento, percorrendo 8 léguas de distância (cerca de 38 quilômetros).

Riqueza cultural

As tecnologias sociais foram compartilhadas pelas comunidades durante o curso. Entre elas, a Casa de Sementes, uma das formas de subsistência e comercialização dos produtos. A pequena casa, de apenas um cômodo, abriga uma grande riqueza: as chamadas sementes crioulas, sem agrotóxico, produtos que interferem na qualidade dos alimentos e na saúde da população. Os agricultores fazem a plantação em sua propriedade e depois juntam a de todos para ver a quantidade de sementes. Ao todo são 20 agricultores cadastrados pelo Governo Federal e outros 20 em processo de cadastramento.

O intercâmbio de sementes é feito com comunidades de todo o Nordeste e depois do curso, foi realizado com o povoado de Brejo da Fortaleza. Dona Francisca é uma das coordenadoras do projeto e muito ativa na comunidade, está sempre em busca de mudar o quadro econômico e sustentável da região. Para ela, o mais importante é o reconhecimento que a comunidade começou a ter, conseguindo também despertar atenção e mobilização dos poderes públicos, municipal e estadual e também da Fundação Banco do Brasil, que iniciará um projeto no local. “Conseguimos pela Fiocruz mobilizar as entidades e as organizações que estão vendo a nossa comunidade com outros olhos.

O semiárido estava bastante esquecido, mas agora estamos vendo que vamos progredir”, ressalta.

Para Polyanna Bacelar, pesquisadora da Fiocruz Piauí que acompanhou de perto as duas comunidades, a sensibilização sobre a vigilância em saúde e qualidade da água foi um momento em que eles aprenderam mais com os moradores do que ensinaram. “A riqueza de conhecimento que eles possuem é inestimável”, afirma.

Durante a formação, foram feitas intervenções nas moradias, com a distribuição de filtros para água para as famílias participantes. Também foi criado um comitê estadual para a solução das necessidades levantadas pelos alunos durante o curso e foram realizadas reuniões entre a equipe do projeto e autoridades locais, com o objetivo de promover a continuidade das ações de formação no território.