Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

Tempo de leitura: 6 - 12 minutos

Psicólogos são essenciais na gestão do sistema e no acolhimento da subjetividade dos usuários

A presença do profissional que trata dos estados e processos mentais, do comportamento do ser humano e de suas interações com o ambiente físico e social é hoje essencial para o funcionamento do Sistema Único de Saúde, que vem se consolidando como um importante campo de trabalho para os profissionais — de acordo com dados do Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde (CNES), do Ministério da Saúde, há 64 mil psicólogos atendendo no SUS. “Nas origens históricas, nossa atuação tinha uma perspectiva de prática clínica privada. Com a construção do SUS, houve uma transformação radical, que trouxe o profissional para o espaço público”, observou o integrante do Conselho Federal de Psicologia (CFP), Paulo José Aguiar Paulo, que já atuou como gestor de dois Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e atualmente leciona a disciplina “Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica”, na Faculdade Frassinetti do Recife (Fafire). “O SUS popularizou a construção discursiva ‘vamos procurar um psicólogo’ e desconstruiu o mito de que terapia seria só para loucos”, esclareceu.

“Existe uma velha impressão de que o trabalho em saúde mental é feito apenas em consultório e está ligado à medicalização. Mas atuo em parceria com a comunidade, nas escolas, nas igrejas”, comenta a psicóloga Cristiane Magalhães, que atualmente integra o Núcleo de Apoio à Saúde da Família (Nasf) em duas unidades básicas da zona oeste do Rio de Janeiro. Ela explica que desenvolve trabalho de matriciamento, que envolve atendimento do paciente compartilhado com outros profissionais, atendimento domiciliar e atividades externas. No ano passado, Cristiane desenvolveu o projeto Mexa-se, em parceira com um professor de dança, para grupos de adolescentes e da terceira idade. “A dança reforça a autoestima, ajuda a memória, a motricidade e a tomada de decisões”, indica.

Assuntos que ainda são tabu são levantados em momentos de campanhas e em encontro com mulheres, relata. “A violência doméstica é tão naturalizada que muitas vezes o agente comunitário, que tem contato com todos da comunidade, sequer identifica determinado caso como passível de intervenção”, conta ela, que sensibiliza outros profissionais da equipe nesse sentido.

Existe uma velha impressão de que o trabalho em saúde mental é feito apenas em consultório, mas no SUS atuo com a comunidade. Cristiane Magalhães, psicóloga.

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

CAMPO DE TRABALHO

O cuidado da saúde mental, respeitando a subjetividade de cada um, é a principal tarefa do psicólogo no SUS, explicou Paulo. Para ele, a popularização e desmistificação da profissão decorrentes da inserção do profissional no SUS foi benéfica e ampliou o campo de trabalho da categoria. Atualmente, atuam no país 291 mil profissionais, segundo os dados do relatório “A psicologia brasileira apresentada em números”, lançado em 2017 pelo CFP, que também revela que a profissão é majoritariamente feminina — 88% dos profissionais são mulheres.

Regulamentada no país pela Lei 4.119, em 1962, a formação do psicólogo o habilita a atuar nas áreas de psicologia escolar/ educacional, psicologia organizacional e do trabalho, psicologia de trânsito, psicologia jurídica, psicologia do esporte, psicologia clínica, psicologia hospitalar, psicopedagogia, psicomotricidade, psicologia social e neuropsicologia.

Cruzando os dados do ministério com o total de psicólogos contabilizados pelo conselho, chega-se a estimativa de que 22% desses profissionais atuam no SUS. Muitos atuam na área de gestão. Paulo relatou que a “grande entrada” dos profissionais no SUS teve origem com a Reforma Psiquiátrica e a luta antimanicomial, nos anos 80 e 90, que se opunha à ideia de isolar os doentes e procurava preservar seus direitos e reestruturar a assistência em termos de liberdade e cidadania. Ele explica que o pano de fundo da psicologia é tentar compreender o sofrimento psíquico não apenas no âmbito individual. “Nossa principal ferramenta é a escuta. O sujeito não está ‘solto’, ele tem um contexto psicossocial, e o psicólogo precisa estar atento a isso. O sofrimento abarca as questões psicossociais”, analisa.

Ele considera que o SUS é um excelente campo de trabalho. “Incentivo sempre meus alunos, pela nossa realidade, a atuarem a partir da lógica do cuidado, não só com o intuito de curar, mas de enxergar o sujeito na sua integralidade”, explica. A publicação “Quem é a psicóloga brasileira”, resultado de pesquisa realizada pelo CFP em 2013, confirma que a área de Saúde é a que proporciona a maior renda para 45% dos psicólogos — apesar de não diferenciar a atuação no sistema público ou privado. As demais áreas aparecem com percentuais bem menores: 12% para a áreas organizacional, do trabalho, de recursos humanos e educação, e 10% para a assistência social. Segundo o levantamento realizado pelo Serviço Único de Assistência Social (Censo SUAS), em 2011, havia mais de 20 mil profissionais da Psicologia atuando no âmbito do sistema (Radis 138).

No SUS, a inserção da maioria dos profissionais se dá pela atenção básica, com atuação nas equipes multiprofissionais da Estratégia de Saúde da Família (ESF) e dos Nasfs. “Na atenção básica, vemos exemplos de casos como uma senhora que não cuida da sua diabetes, ou de adolescentes com muitas dúvidas sobre o início da vida sexual”, exemplifica a psicóloga Mônica Swinerd, do Instituto Nacional do Câncer (Inca). “Um problema de saúde às vezes revela questões de moradia, problemas sociais”, conta Mônica, que atua no SUS desde 1995 e já passou por ambulatórios e hospitais psiquiátricos.

Cristiane atua também na rede privada. A diferença, para ela, é que a demanda no SUS é mais alta. A efetividade, na sua experiência, é grande: “Dependendo do acolhimento, um encontro é um divisor de águas para a vida da pessoa, pode evitar a estigmatização que envolve uma certa forma de tratamento de transtornos mentais”.

SUBJETIVIDADE E REDE

“A psicologia é chamada a intervir na subjetividade de cada um. Cada pessoa vai adoecer e passar pelas suas questões com os seus recursos e suas ferramentas próprias”, explica a psicóloga, destacando o papel importante que desempenham os profissionais em hospitais. Ela lembra de casos como o de pacientes que, de repente, recebem diagnóstico de leucemia aguda, o que exige uma internação prolongada. “A pessoa apresenta suas questões, como ‘se eu não trabalhar por 30 dias, por ficar internado, como vou sustentar minha família, quem vai ficar com meus filhos?´”, relata a profissional, que coordena um dos módulos da Residência Multiprofissional em Oncologia do Inca.

“É muito importante que os pacientes possam lidar com as suas questões durante todas as fases do tratamento do câncer, que algumas vezes inclui cirurgia, quimioterapia e pode levar a limitações. Depois há a fase do controle ou dos cuidados paliativos. Estamos falando de escolhas por tratamentos e casos que, algumas vezes, levam a mudanças radicais. A pessoa que adoece por câncer é uma pessoa que tem uma vida, uma história. Não é só um órgão que adoece”, adverte a psicóloga. Mônica explica que também há necessidade de atendimento psicológico para pacientes que acabaram de receber diagnóstico, assim como suas famílias. “Não pode ser um trabalho frio, de dar um parecer”, orienta. Ela conta o caso de um paciente que precisava fazer uma ressonância [exame em que o paciente precisa entrar em um aparelho estreito em forma de tubo], mas já havia passado por uma situação de desabamento. “Ele tinha um trauma não superado. Fez toda diferença o profissional ser chamado e conseguir intervir”, exemplificou, lembrando que é muito importante a visão de equipe para este tipo de cuidado. A organização do atendimento em rede é outra ferramenta com a qual Mônica conta no seu dia a dia. “Uma paciente minha sofre de leucemia e está internada aqui no hospital. O filho dela está muito vulnerabilizado. Fiz contato com a psicóloga da área onde ele mora para que ele também pudesse ser atendido na sua região”, relatou.

MODELO DESCENTRALIZADO

Mônica ressalta que o modelo de saúde mental perseguido hoje no SUS não é centrado no hospital — visto apenas como mais um dos dispositivos a serviço do cuidado. Neste contexto, outro espaço onde o profissional de psicologia é figura central são os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), serviço comunitário ambulatorial cuja função é assegurar o cuidado de pessoas em sofrimento psíquico grave, em especial os transtornos severos e persistentes, em seu próprio território.

“A grande sacada da saúde mental é a descentralização da figura do médico e do hospital, e a criação de um lugar de referência para o paciente, onde se trabalha com a chamada clínica ampliada, com o cuidado integral”, acredita Mônica. Ela explica que, no caso dos CAPS, normalmente é o Agente Comunitário de Saúde que identifica a demanda do paciente. “É um trabalho em rede e territorializado”, complementa. Mônica conhece bem o funcionamento dos CAPS, já que acompanha o serviço desde a sua implantação no Rio de Janeiro, em 1996. “Hoje, o psicólogo é muito demandado. Os sintomas refletem muito a situação de violência que a pessoa vive, isso é um dado com o qual a gente se depara na clínica de um modo geral”, constata.

“O profissional tem que estar preparado para as questões das diferentes realidades com que vai se deparar”, recomenda Paulo. Ele ressalta que a população atendida nos CAPS muitas vezes vive situações de vulnerabilidade. “A realidade do adolescente que está próximo à região do tráfico de drogas nos grandes centros urbanos é um desafio para os profissionais”, alerta ele, para chamar atenção para a importância dos contextos dos usuários. “Não existe só uma adolescência, são adolescências”, exemplifica, lembrando que há diferentes vivências desta fase da vida.

Mônica, por outro lado, lembra que a atuação nos CAPS é desafiante, já que a demanda é grande e as condições de trabalho nem sempre são ideais. “Quando as pessoas adoecem, isso é só a ponta do iceberg, o que revela toda uma situação de vida. As pessoas que muitas vezes estão em situação de rua têm a família desestruturada. É sempre muito singular. É importante acolher para escutar”, relata. Os CAPS também promovem ações de orientação e cuidado com as famílias dos usuários e têm projetos de inserção social, que respeitam possibilidades individuais e os princípios de cidadania, e tentam minimizar estigmas e promover a qualidade de vida. Para isso, o papel dos psicólogos é determinante, especialmente no apoio às equipes da Estratégia Saúde da Família em cuidados com quem vive sofrimento mental e suas famílias — além de idosos, usuários de álcool e outras drogas, crianças, adolescentes, mulheres vítimas de violência e demais grupos vulneráveis.

Segundo a definição do Conselho Federal de Psicologia, os profissionais podem atuar em nível individual, grupal, social ou institucional, o que implica em uma variada gama de dispositivos clínicos já consagrados ou a serem desenvolvidos, tanto em perspectiva preventiva, como de diagnóstico ou curativa. Sua atuação busca contribuir para a promoção de mudanças e transformações, visando o benefício de sujeitos, grupos, situações, bem como a prevenção de dificuldades. Mônica explica que cada indivíduo enfrenta o adoecimento físico e mental com seus próprios recursos e ferramentas da sua subjetividade, cabendo ao profissional acolher o que expressa o paciente. Ela cita como exemplo de um destes recursos a religião. “A psicologia é uma profissão do Estado laico. Sempre respeitamos as decisões dos pacientes. Acolhemos a religião como parte da subjetividade do paciente, quando ele a tem. Acolher é diferente de tratar. Não aconselhamos o paciente a ter uma religião e nem tratamos a religião como um problema”, explica a psicóloga. Sobre o assunto, Paulo demonstra preocupação em relação à demarcação clara do campo da prática terapêutica. “Há uma invasão da prática religiosa nos espaços de tratamento”, critica ele, para quem esse tipo de prática não se preocupa com o tratamento, mas sim com o recurso público.

O conselheiro considera que o profissional de psicologia que atua no SUS se vê diante de uma “convocação de posicionamento” em defesa das políticas públicas. Para ele, a psicologia esteve nos últimos tempos “adormecida nesse campo da política”, mas relatou que uma das reivindicações da categoria neste momento é a jornada de 30 horas semanais sem redução de salário — cujo projeto foi vetado na Câmara, em 2015. “Hoje a coordenação de Saúde Mental em âmbito nacional está nas mãos de uma figura ligada a uma visão manicomial e de hospitalização. É um momento bem difícil de ameaça de retrocesso depois de muitas conquistas”, lamentou, reafirmando o papel do psicólogo como fundamental para o SUS. “Não é possível retroceder”, criticou.