Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

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Rejane do Maria Joaquina

No quintal de Jane, existe pé de fruta ainda plantado por seu avô, falecido há 25 anos. A terra é, para ela, espaço de vida e de memória da ancestralidade. “Você se sente como um guardião da história: não está lutando só por você, mas por todo o quilombo”, ressalta a líder do Quilombo Maria Joaquina, em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. Aos 43 anos, Rejane Oliveira mantém a tradição das lideranças femininas de sua comunidade, como sua avó de 109 anos, Dona Eva, e sua tia Dona Uia. Moradores de uma região litorânea que desperta interesse turístico, os quilombolas da região também se veem ameaçados pela expansão de grandes empreendimentos e pelo crescimento dos cultivos de cana-de-açúcar. “Nós nunca destruímos, nunca cortamos, nunca depredamos. A gente sempre preservou”, aponta a liderança, que é também representante da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), órgão que congrega associações quilombolas de todo o país.

Quais são as principais necessidades em saúde das populações quilombolas?

A saúde é uma questão desafiadora. Tem uma política para a comunidade quilombola, mas no fundo a gente não consegue acessar verdadeiramente. Temos muita dificuldade em acessar o posto de saúde mais próximo. O que nos salva hoje é que a gente acredita nessa tradição dos chás, das ervas, passada pela família. A gente se cura mais com os remédios caseiros. A dificuldade é grande: os exames demoram muito, não tem remédio. As pessoas preferem procurar a emergência do que fazer o acompanhamento pelo módulo de Saúde da Família.

Como são os serviços de saúde próximos à sua comunidade, em Cabo Frio (RJ)?

Maria Joaquina é uma comunidade com 89 famílias. A gente disputa o posto de saúde usado por 12 mil pessoas. É um médico só, as pessoas têm que dormir na fila. Num todo, o nosso povo está ficando doente, está morrendo cedo. A gente está perdendo o nosso povo para as doenças crônicas. Outra coisa que me chama atenção é um Quilombo em Araruama (RJ), chamado Sobara, em que o posto de saúde mais próximo fica a 20 quilômetros. Cada dia está mais difícil para as comunidades ter saúde de qualidade. Qualidade de vida é você morar onde você mora e conseguir acessar a política pública dentro do próprio quilombo.

Qual é a importância da luta das mulheres no cotidiano quilombola?

Maria Joaquina é um quilombo fundado por mulheres. Nós, mulheres, saímos da função só de casa e fomos fazer política. Não dá mais para esperar. Em todos os quilombos, estão ali as mulheres guerreando: a mulher trabalha na roça, cuida da família, cuida da educação dos filhos. Isso tudo acontece com apoio dos familiares e da comunidade que acredita em nós. Quando existem pessoas que acreditam em você, você não está sozinho.

Já fui ameaçada várias vezes. Para quem nasceu no quilombo e vê tudo aquilo se transformando, não dá para ficar calado. Você se sente como um guardião da história: não está lutando só por você, está lutando por várias pessoas. Por respeito. Por dignidade. Lutando pela sua família. As mulheres vêm tomando esse espaço e os homens confiando. Os homens estão ajudando a fazer o processo de luta. Se a gente não lutar pelo nosso direito de povo negro e dizer que “estamos aqui”, nós vamos ser atropelados. Somos responsáveis por multiplicar os conhecimentos e as lideranças. Minha avó tem 109 anos e está viva, mora no Quilombo da Rasa, a Dona Eva de Oliveira. Minha tia é a Arivaldina (Dona Uia). Temos essa tradição de uma força grande das mulheres.

Qual foi a origem do Quilombo Maria Joaquina?

A gente pertencia a um Quilombo só, que era Rasa [em Armação de Búzios/RJ], mas com o novo cadastramento, nossa comunidade passou a pertencer a Cabo Frio. Com isso pedimos o nosso desmembramento e certificação [da Fundação Cultural Palmares]. Maria Joaquina vem com a força das mulheres. A maioria [dos quilombolas] são mulheres que lutam contra o racismo, tem um grande número de mães que criaram seus filhos sem marido. Enquanto os homens estão trabalhando na construção civil, as mulheres estão fazendo luta.

Por que a luta pela terra é essencial para os quilombolas?

Você vê a terra onde nasceu e cresceu se transformar com a invasão e a especulação imobiliária. Meu avô plantou pé de jaca e de frutas no nosso quintal, já faz 25 anos que ele morreu. Se não resolver a titulação, a juventude não saberá plantar nada, nossos filhos e netos não vão fazer parte do território. Estão tirando nosso direito de pertencimento. A terra é poder. Nós podemos viver os benefícios que a terra pode trazer. Podemos vender aipim, banana, abacate, acerola, manga, carambola, hortaliças, conforme tem na minha casa. Isso traz qualidade de vida.

Como os conflitos pela terra ameaçam as tradições quilombolas?

Nós vivemos à beira do território pleiteado e estamos reivindicando a terra. As famílias estão à beira, a fazenda está lá enorme, e as famílias não podem plantar. Estão loteando a área com a gente dentro. Os conflitos são grandes. A gente já denunciou na Defensoria [Pública], já falamos com o Incra, mas mesmo assim ainda não conseguimos resposta. A gente não quer entrar para o conflito. Não somos invasores. Quem tem arma de fogo não são os quilombolas. Hoje as pessoas têm armas, ameaçam. O que a gente faz? Recua, porque pensa na família e nos filhos. A gente fica muito triste de ver, ficamos marcados.

Quais interesses estão em conflito com as comunidades quilombolas?

A especulação imobiliária está presente. Dentro de Búzios estão salinizando a água doce, levando um grande empreendimento que se chama Areté. Esse empreendimento vai trazer um impacto muito negativo pro Quilombo de Maria Formosa e de Rasa. Isso muda a vida das pessoas. Não adianta dizer que abre emprego, porque não abre emprego para os quilombolas. Tem o veneno [dos agrotóxicos] que é muito forte, nas plantações de cana-de-açúcar da região, e afeta a vida das pessoas. As famílias estão no meio do veneno, da fumaça e do canavial. Isso afeta o solo e a água.  

Como a educação ambiental aparece na pauta do movimento quilombola?

Nós nunca destruímos, nós nunca cortamos, nós nunca depredamos. A gente sempre preservou. Quem queima, quem corta, quem destrói não somos nós. A gente sabe lidar com o meio ambiente. Já os grandes empreendimentos preferem transformar uma comunidade que já está preservada em área turística. Se ali está verde, é porque alguém está preservando. Tem comunidades na Região dos Lagos [RJ] que ainda usam água de poço. Alguns empreendimentos e os canaviais poluem o entorno, inclusive as águas que usamos. A gente se faz a pergunta: Quem polui, as comunidades ou os grandes empreendimentos?

Você já sofreu algum tipo de ameaça?

Sim. Em três ocasiões. Uma foi do caseiro da fazenda, ele tem situação de morte. Já matou por causa de terra. Outra foi do próprio juiz que colocou a comunidade contra mim. Ele falou a um grupo de pessoas que morava do lado que eu estava me juntando com os quilombolas para pegar a terra deles. Essas pessoas foram na minha casa e não me encontraram. Foi um grupo, disse que ia me pegar. Eles mandam recado. Mas minha família falou: o vento que venta lá, vai ventar aqui. O Incra foi lá na casa daquelas pessoas e elas explicaram que o juiz estava armando com os vizinhos para eles crescerem e discutirem comigo. A gente também fica vulnerável no momento da demarcação, porque somos nós que temos que acompanhar o Incra para indicar os pontos [de fronteira das terras]. Depois eles vão embora e a gente fica com um problema sério.

O que é ser quilombola pra você?

Só de lembrar que meu avô nasceu em 1919 na terra onde eu moro até hoje é uma significação muito grande. É valorizar o que você é. As pessoas falam: ‘o quilombola é um negro fujão’. Mas não é isso. O quilombola é um trabalhador ou uma trabalhadora, rural, que luta firmemente todos os dias por seus direitos, que muitas vezes são negados. Ser quilombola é eu viver em paz na minha terra, no meu território, criar e cuidar dos meus filhos, e lutar por nossos direitos. Tem a ver com liberdade de expressão. Quilombo é família. Todo mundo se conhece no quilombo, todo mundo é parente, e todo mundo luta junto.