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Pesquisador marcou trajetória aliando rigor científico à formação profissional e ação social

Um filho e neto de médicos que, no Recife da década de 1930, sonhava em ser biólogo. O interesse, pouco usual na época, já mostrava que a carreira de Frederico Simões Barbosa não seguiria um roteiro dos mais clássicos. O curso de História Natural — equivalente ao de ciências biológicas nos dias atuais — no entanto, não era ofertado naqueles dias na capital pernambucana, ainda movida pelos bondes. Assim, a figura que se tornaria um dos principais personagens da história da saúde pública e da epidemiologia no Brasil começaria sua formação seguindo os passos da família, na Faculdade de Medicina do Recife, onde se formou médico, em 1938.

Entre os tantos feitos profissionais de sua longa trajetória, o sanitarista, que faleceu em 2004, aos 88 anos, conduziu, de forma pioneira, estudos epidemiológicos de longa duração no país, com ênfase no trabalho em comunidade. A sua biografia está ligada de forma indissociável à história da Fiocruz. Além de diretor da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), ele ajudou a fundar o Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães, em 1950 — e torná-lo referência no estudo das endemias regionais, como a esquistossomose —, que mais tarde seria incorporado à Fiocruz.

“Um pesquisador que dedicou sua vida para contribuir com o melhor conhecimento das doenças endêmicas, utilizando aspectos inovadores na interação da pesquisa com a saúde pública, que possibilitaram a criação de alguns programas pioneiros em medicina comunitária, atenção primária à saúde e na integração docente- -assistencial, que são hoje marcos referenciais de atuação do campo da saúde coletiva”, declarou Sinval Pinto Brandão Filho, diretor do Instituto Aggeu Magalhães (IAM/Fiocruz), durante as comemorações pelo centenário do nascimento do sanitarista, em 2016. Frederico participou intensamente do projeto institucional e foi diretor do “Aggeu” por dois períodos (entre 1950 e 1961, e entre 1964 e 1969).

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Documentário

Este ano, o sanitarista recebe mais uma homenagem, com o lançamento do documentário “Frederico Simões Barbosa: Ciência e Compromisso Social”, produzido em DVD pela VideoSaúde Distribuidora, da Fiocruz. Com imagens da paisagem e do cotidiano das três cidades onde o cientista teve maior atuação no Brasil — Recife, Rio de Janeiro e Brasília —, além de fotos históricas de diferentes acervos que mostram, por exemplo, sua atuação internacional junto à Organização Mundial da Saúde, a cinebiografia é dirigida pela jornalista Silvia Santos, que se baseou em depoimentos de discípulos, colegas e de uma das filhas do homenageado. “Ele infundiu em nós sólidos princípios éticos, mas queria acima de tudo formar filhos felizes”, declarou Constança Simões Barbosa, primogênita de Frederico, que hoje também é pesquisadora no Aggeu Magalhães.

O documentário apresenta, por meio de relatos de colegas como Carlos Coimbra, José Rodrigues Coura, Paulo Sabroza e Eridan Coutinho, o perfil pioneiro do trabalho de Frederico e os ideais que norteavam a sua atuação. A preocupação com a formação médica, o rigor científico e a conexão destes com a realidade social e suas inclinações políticas são temas que, atestam seus seguidores, eram marca da personalidade de Simões Barbosa. “Eu me considero um socialista utópico”, revela o próprio pesquisador, em um trecho de entrevista reproduzido no documentário.

Ainda durante a graduação, sua carreira foi influenciada decisivamente pelo contato com Samuel Pessoa, professor da Universidade de São Paulo já renomado na época, quando ministrou um curso de parasitologia médica no Recife. O curso foi decisivo para que o jovem Frederico decidisse, logo após a formatura, passar dois anos na capital paulista especializando-se em parasitologia e micologia. “Sua trajetória é complexa e é difícil resumi-la por ele ter um enorme conhecimento sobre praticamente tudo”, comentou Carlos Coimbra, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em depoimento registrado no documentário. Por “praticamente tudo”, entende-se micologia médica, entomologia, malacologia, botânica e epidemiologia da esquistossomose — “onde ele centrou fogo”, como contou Coimbra, esclarecendo que também há extenso material publicado pelo epidemiologista tratando da Reforma Sanitária e de políticas e sistemas de saúde.

Na década de 1940, Simões Barbosa já tinha excelência reconhecida na sua área de pesquisa, e foi um dos pioneiros no país a concluir mestrado em Saúde Pública na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, em 1946, onde se dedicou à parasitologia. “Frederico não ‘se americanizou’, ou seja, voltou com as mesmas preocupações sociais, políticas ideológicas que já tinha”, descreveu no filme Paulo Buss, diretor do Centro de Relações Internacionais da Fiocruz (Cris/Fiocruz). Mais tarde, em 1952, realizou o desejo da sua juventude, e graduou-se novamente, dessa vez em História Natural, na Faculdade Católica de Pernambuco.

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Determinantes Sociais

Um dos seus estudos de grande repercussão para a saúde pública mundial, que se tornou clássico por contrariar o interesse da grande indústria farmacêutica, foi realizado no período em que atuou junto à Organização Mundial da Saúde, na década de 1950. Frederico fez parte de um grupo de pesquisadores que conseguiu provar a incoerência de trabalhos que defendiam o uso de um agente químico — um moluscicida [pesticida usado no controle de moluscos, como as lesmas e caracóis] — no combate ao caramujo vetor da esquistossomose. “A OMS é um órgão extremamente político. Havia muita pressão por parte de certas empresas... Opus-me a colaborar com esse esquema e cheguei a ser muito pressionado para dar pareceres etc. Acontece que eu já havia trabalhado com moluscicidas no Brasil, em um estudo de 10 anos de duração, realizado em São Lourenço da Mata (PE), e duvidava de sua factibilidade. Além disso, as dificuldades de aplicação, o custo elevado e o impacto ambiental me fizeram ver que as tantas dificuldades inerentes ao controle químico eram de difícil resolução”, declarou Frederico em entrevista publicada no Cadernos de Saúde Pública, em 1997 (ver Saiba Mais). “A vida dele é pontilhada por uma militância em defesa do compromisso da pesquisa com a transparência, a democracia e a ética”, reforçou o historiador Antônio Montenegro, professor da Universidade Federal de Pernambuco, no filme recém-lançado.

Outro trabalho do pesquisador que obteve grande repercussão social foi o estudo que avaliou a esquistossomose entre os trabalhadores do corte de cana do município de Catende, Zona da Mata de Pernambuco, na década de 1970. Nele, Frederico demonstrou não somente o ciclo biológico, mas também o que hoje se chamam os determinantes sociais da doença, além do impacto na vida dos trabalhadores rurais e na economia da região. “Ele era um homem que tinha uma visão para o futuro. Seus trabalhos tinham uma dimensão de Medicina Social muito forte”, disse o pesquisador José Rodrigues Coura, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz).

Saiba mais

Entrevista “Uma conversa com Frederico Simões Barbosa” https://goo.gl/jZnIUT

Documentário “Frederico Simões Barbosa - ciência e compromisso social” https://goo.gl/ivJJXs https://goo.gl/m3PvGW

Artigo “Frederico Simões Barbosa: uma trajetória de contribuições à ciência e à saúde pública” https://goo.gl/qXGvLD

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Pesquisa e política

Assim como o documentário, artigos, entrevistas e outros registros sobre Simões Barbosa apontam para dois eixos muito marcantes na sua trajetória: um, científico; outro, político. Entre 1972 e 1981, quando passou a lecionar medicina comunitária na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UnB), essas duas vertentes se aproximaram ainda mais com o desenvolvimento de um programa de integração docente-assistencial junto a comunidades carentes de Sobradinho e Planaltina, na periferia da capital. “O trabalho pioneiro contribuiu para a área de formação de recursos humanos em saúde, combinando conceitos das ciências sociais e das ciências médicas”, escreveram os autores do artigo “Frederico Simões Barbosa: uma trajetória de contribuições à ciência e à saúde pública”. O projeto, no entanto, foi descontinuado abruptamente pela reitoria da universidade. Eram os anos de chumbo da ditadura. “Eu estava chegando de uma viagem ao exterior quando encontrei o projeto destruído. O próprio reitor escreveu às agências de financiamento comunicando o seu cancelamento unilateralmente, sob a desculpa de que estavam fazendo uma reforma do ensino médico na faculdade”, contou ele, anos depois.

Foram tantos os papéis e suas atribuições ao longo de seis décadas de carreira que é difícil destacar quais os de maior importância. Frederico atuou em praticamente todas as organizações internacionais ligadas à saúde, além da OMS, como a Organização Panamericana da Saúde (Opas) e a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO). Na OMS, influenciou a criação de um dos mais importantes programas já desenvolvidos sobre doenças negligenciadas e existente até hoje, o Tropical Diseases Research Programme (TDR). “Não há doenças tropicais”, defendia ele, reforçando o caráter dos determinantes sociais e da negligência em relação às populações acometidas por essas doenças. Simões Barbosa foi também coordenador do programa internacional Brasil, Egito e Hungria sobre recursos humanos e atenção primária em saúde, entre 1972 e 1975.

O pesquisador ainda ajudou a fundar a Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), a Associação Brasileira de Ensino Médico (Abem) e teve passagens pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e pela Secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação e Cultura (1980-1984), onde deu continuidade aos estudos de medicina comunitária realizados na UnB. Em 1983, ingressou na Ensp/Fiocruz, como professor de epidemiologia, participando ativamente das transformações conduzidas na instituição a partir de 1985, sob a presidência do sanitarista Sérgio Arouca. Foi diretor da escola entre 1985 e 1989, e desempenhou papel central na criação da publicação dos Cadernos de Saúde Pública.

Após sua aposentadoria, em 1991, retornou ao Recife. “Tenho dois filhos morando lá e uma ligação afetiva com a cidade”, revelou ele, em entrevista. Como que fechando um ciclo, voltou ao Aggeu, instituição que ajudara a fundar e consolidar, quando se dedicou aquilo que nunca havia abandonado: os estudos sobre epidemiologia e as estratégias de controle da esquistossomose. Quem o conheceu, não poupa elogios. “Considero que foi um dos melhores cientistas que o Brasil conseguiu produzir no século 20”, afirmou a pesquisadora Eridan Coutinho, pesquisadora emérita da Fiocruz, uma das entrevistadas da cinebiografia.