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Desigualdade no acesso ao tratamento e covid-19 são desafios

Apesar das atenções do mundo científico e da mídia estarem mais concentradas na expectativa por uma vacina ou um tratamento que minorem os problemas causados pela pandemia da covid-19 no mundo, os avanços e desafios da luta contra o HIV e a aids não passaram despercebidos no mês de julho. Milhares de pessoas de mais de 180 países participaram da 23ª Conferência Internacional de Aids (Aids 2020 Virtual), que trouxe boas notícias sobre a eficácia da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV (PrEP) injetável e a remissão do vírus HIV em um paciente tratado no Brasil.

Por outro lado, participantes da conferência alertaram para a repercussão da covid-19 nas ações de enfrentamento da aids, especialmente por conta dos impactos da pandemia na vida das pessoas que vivem com HIV e dos seus reflexos na condução dos sistemas públicos de saúde. Na mesma direção, o relatório “Agarrar a oportunidade: enfrentando as desigualdades enraizadas para acabar com epidemias”, lançado pelo Unaids no primeiro dia do evento, mostrou que, em um contexto de desigualdades e racismo, com muitas pessoas e populações vulneráveis deixadas para trás, a interrupção do tratamento em alguns países e a diminuição de investimentos em pesquisas, por conta da pandemia de covid-19, apontam um cenário devastador no que diz respeito à luta contra o HIV.

Previamente marcada para acontecer presencialmente entre 6 e 10 de julho nas cidades de Oakland e São Francisco, nos Estados Unidos, a conferência promovida pela International Aids Society (IAS) foi renomeada Aids 2020 Virtual e totalmente adaptada para o meio virtual – pela primeira vez em toda a história do evento. Nas mais de 600 sessões, os destaques positivos ficaram por conta da notícia de remissão viral do “paciente de São Paulo” [leia a enquete] e a divulgação de resultados positivos sobre a PrEP injetável (Radis 213).

A equipe do estudo clínico internacional HPTN 083 apresentou a comprovação de que a utilização da PrEP contendo cabotegravir injetável a cada oito semanas obteve eficácia superior ao uso do truvada na prevenção da infecção pelo vírus. “Esta é uma conquista sem precedentes para o campo da prevenção do HIV. A PrEP com CAB-LA é uma estratégia nova e poderosa que pode realmente fazer a diferença no controle da epidemia de HIV/aids”, destacou Beatriz Grinsztejn, chefe do laboratório de Pesquisa Clínica em DST e Aids do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) – Beatriz coordenou em nível global o ensaio clínico em parceria com Raphael Landovitz, professor associado da Divisão de Doenças Infecciosas da David Geffen School of Medicine, na Universidade da Califórnia em Los Angeles (Ucla), nos Estados Unidos.

Vulnerabilidades

Apesar dos avanços nos estudos clínicos, participantes da Aids 2020 Virtual manifestaram grande preocupação com o enfrentamento da doença no futuro, especialmente por conta das desigualdades e do racismo, bem como pelos impactos da covid-19 na vida das pessoas que vivem com HIV e na condução dos sistemas públicos de saúde. Pesquisa apresentada durante o evento mostra, por exemplo, que a covid-19 aumentou a vulnerabilidade socioeconômica das pessoas LGBTI+, bem como sua suscetibilidade ao HIV. O estudo, conduzido entre abril e maio de 2020 com 13.562 pessoas em 138 países, demonstrou que, neste período, quase metade dos entrevistados enfrentaram dificuldades econômicas que os impediram de atender às suas necessidades básicas com alimentação e se sentiam ameaçadas de perder o emprego após a pandemia – o que, segundo os especialistas aumenta potencialmente o risco de adquirir o HIV.

Durante a conferência, a IAS lançou ainda o relatório “Covid e HIV: um conto de duas pandemias”, que destaca como a infecção pela novo coronavírus está afetando a resposta global ao HIV. O relatório observa interrupções generalizadas de serviço como resultado da covid-19 e fornece recomendações para tomadores de decisão, gestores, pesquisadores, cientistas, profissionais de saúde, comunidades e financiadores.

O primeiro conjunto de recomendações aborda a prestação de serviços de HIV no contexto da covid-19, incluindo a redução no número de consultas e cuidados de saúde, além da distribuição de medicamentos. O segundo aborda lições da pandemia de HIV que podem contribuir com a resposta à covid-19, como abordar questões de justiça social no sistema de saúde e trabalhar proativamente questões relacionadas ao estigma.

O programa da Conferência Internacional de Aids, realizada on-line: mais de 600 sessões assistidas em 180 países.

A oportunidade é agora

“Serão necessárias, em todos os dias desta próxima década, ações decisivas para colocar o mundo de volta nos trilhos rumo à meta de acabar com a epidemia de aids até 2030”, advertiu Winnie Byanyima, diretora executiva do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids), no lançamento do relatório “Agarrar a oportunidade: enfrentando as desigualdades enraizadas para acabar com epidemias”, no primeiro dia da conferência (6/7).

O documento da Unaids reconhece avanços, mas reitera a necessidade do compromisso de governos e sociedade com a continuidade de ações que promovam a equidade destes resultados. “Milhões de vidas foram salvas, particularmente as vidas de mulheres na África. O progresso alcançado por muitos precisa ser compartilhado por todas as comunidades em todos os países. O estigma, a discriminação e as desigualdades generalizadas são os principais obstáculos ao fim da AIDS. Os países precisam se guiar pelas evidências e assumir suas responsabilidades em relação aos direitos humanos”, alertou Winnie.

O documento, intitulado “Agarrar a oportunidade: enfrentando as desigualdades enraizadas para acabar com epidemias”, alerta que o não cumprimento das metas estabelecidas para 2020 resultaram em 3,5 milhões a mais de infecções por HIV e o acúmulo de 820 mil mortes relacionadas à aids, de 2015 até o momento; e que a resposta à aids pode retroceder em 10 anos ou mais, caso haja “graves interrupções nos serviços de HIV” por conta da pandemia de covid-19.

Para os técnicos do Unaids, as desigualdades no acesso ao tratamento ainda persistem. Enquanto milhões de vidas foram salvas e milhões de novas infecções por HIV foram evitadas graças ao aumento do acesso à terapia antirretroviral, 690 mil pessoas morreram de doenças relacionadas à aids em 2019, e um terço das 38 milhões de pessoas que vivem com HIV não tinham acesso, em 2019, ao tratamento capaz de salvar vidas – o que corresponde a 12,6 milhões de pessoas. O relatório completo (em inglês) está disponível no site da Radis e no site do Unaids: https://bit.ly/30oWS64

A cura da aids está próxima?

A notícia de que a equipe de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), liderados pelo infectologista Ricardo Diaz, teria conseguido pela primeira vez eliminar o HIV do organismo de um paciente soropositivo por meio de medicamentos, repercutiu na 23ª Conferência Internacional de Aids, que aconteceu virtualmente entre 6 e 10 de julho. O chamado “paciente de São Paulo” é um brasileiro de 34 anos, diagnosticado com o vírus em 2012, e estaria com o vírus indetectável no organismo há mais de 17 meses. Ele seria a primeira pessoa no mundo a apresentar a remissão do vírus por um longo prazo, depois de tomar um coquetel intensificado de vários remédios contra a aids – há outros casos registrados, mas de pacientes que foram submetidos a transplantes de medula óssea (Radis 199).

A descoberta, embora inédita, vem sendo vista com cautela por especialistas, que ponderam que os avanços não significam que se encontrou a cura para a aids. “Ainda não sabemos se ele está curado. Vamos refazer a pesquisa, usando os medicamentos que observamos que funcionaram melhor, e com um novo grupo de pacientes”, advertiu o próprio Ricardo Díaz, que é diretor do Laboratório de Retrovirologia do Departamento de Medicina da Unifesp, em entrevista à Agência de Notícias da Aids (12/7). Por outro lado, ativistas também questionam sobre o acesso universal aos tratamentos, já que um terço das 38 milhões de pessoas que vivem com HIV no mundo (cerca de 12,6 milhões de pessoas) não tinham acesso ao tratamento capaz de salvar vidas em 2019 [leia sobre o último relatório do Unaids]. De todo modo, a notícia também é vista como promissora, já que aponta para caminhos de pesquisa possíveis em direção ao horizonte da cura e por reforçar a importância da manutenção de pesquisas na área. Destaque na imprensa no mês de julho, Radis quis saber a opinião de ativistas, gestores e especialistas sobre o assunto, para quem dirigiu a mesma pergunta:

O que significa a divulgação da remissão do vírus HIV no paciente de São Paulo?

“Este é o primeiro caso em todo o mundo de um paciente infectado pelo HIV que fica por um longo tempo sem sinais da presença do vírus, sem tratamento antirretroviral, depois de intensificar com dois medicamentos já usados para controle da replicação do HIV e mais um agente reversor de latência, no caso a nicotinamida. Os três casos anteriores já conhecidos ocorreram após transplante de medula óssea de doadores que não tinham uma proteína importante para a ligação do HIV à célula humana. Ainda não está completamente desvendado porque este paciente respondeu desta forma, mesmo sendo um dos 30 participantes que não foi submetido a todas as intervenções propostas pelo estudo. Isso vem sendo investigado. Os pacientes que foram recrutados já estavam em tratamento e em supressão viral há pelo menos dois anos. Desta forma, a hipótese de a resposta favorável estar relacionada a ser infecção recente, com poucos reservatórios de latência, fica afastada. Cada braço do estudo incluiu cinco pacientes. Se um paciente responde positivamente, ele corresponde a 20% dos que se submeteram à mesma intervenção. Fatores relacionados ao paciente também estão sendo investigados, mas para a entrada no estudo já foi seguido um critério para que a amostra fosse homogênea. Este é um avanço inédito na história do tratamento da aids, embora ainda seja muito cedo para dizer que é um caso de cura. É um estudo muito promissor e constitui um marco dentro da história do tratamento de HIV/aids, independente deste caso resultar ou não em cura definitiva. Uma porta foi aberta.”

Tânia Vergara, presidente e coordenadora de terapêutica do Comitê de HIV/aids da Sociedade de Infectologia do Estado do Rio de Janeiro (SBI)

 

“A remissão viral deve ser sempre comemorada, especialmente pela possibilidade de apontar novos horizontes. No entanto, precisamos receber essa notícia com cautela e pé no chão. A história já nos mostrou casos que, mesmo após anos de remissão, o vírus retornou. Precisamos lembrar sempre que 13,4 milhões de pessoas com HIV não têm acesso a medicamentos antirretrovirais, segundo dados do Unaids. Se a cura surgisse hoje, essas pessoas teriam acesso? A pandemia de HIV, assim como a pandemia do coronavírus, mostra que estamos todos doentes. As pessoas morrem por falta de tratamento e não por falta de tecnologia no mundo. Morrem por falta de acesso, por conta de um sistema predatório de exploração econômica e apropriação cultural, por imposição de valores. Não foi sempre assim. Isso foi criado e não suportamos mais. Se por um lado há um avanço do conservadorismo predatório e da morte, por outro existem movimentos pulsantes de vida que nos recriam como sociedade, olhando para nossos ancestrais, antepassados, reconhecendo-nos em nós mesmos, nas nossas histórias e no outro. Os movimentos globais de igualdade racial mostram para nós que basta de opressão! Pessoas no mundo não acessam antirretrovirais em função de sua raça/cor/etnia, localização geográfica, classe social, gênero, orientação sexual, ocupação. Enquanto isso acontecer, estaremos todos doentes, com ou sem HIV; com ou sem cura. É preciso recriar a pandemia do afeto!”

Salvador Campos Correa, psicólogo, escritor, sanitarista e ativista vivendo com HIV

 

“Sobre a notícia divulgada, é positivo que o estudo demonstre que é possível eliminar o HIV do corpo humano com o uso de uma combinação de medicamentos antirretrovirais com medicamentos não antirretrovirais para o HIV. Isso é um caminho de pesquisa e de cura que deve ser olhado com atenção. Outro ponto positivo é que, apesar de ser um resultado parcial e limitado, a pesquisa ajuda a manter no horizonte a questão da cura; ou melhor dito: a cura como um horizonte – orientando o uso e o investimento em recursos humanos e financeiros. Ou seja: a cura é o caminho, ainda que esteja distante. Quanto mais resultados positivos nós tivermos em relação à cura, tanto em relação à uma vacina terapêutica, à uma vacina preventiva ou à combinação de medicamentos que possam acabar com a infecção de HIV no corpo humano, mais encorajador é para a pesquisa. Mas é preciso entender que ainda é um resultado único, a gente ainda não sabe qual foi o resultado do uso desta mesma combinação terapêutica nas outras pessoas que participaram desse estudo. Sendo resultado único, que não se repetiu em outros participantes, não dá para generalizar. Assim como aconteceu em outros casos de pesquisa sobre cura, que foram por caminhos diferentes, como por transplante de medula, o estudo apresenta resultados únicos, isolados. Isso é limitante. Outra coisa que não sabemos: parece que a pessoa apresentou resultado de pouco tempo de remissão. Para um estudo, é pouco tempo. A gente não sabe como isso vai se manter ao longo dos anos – e fora das condições do estudo. Isso também não é animador, não ter essa segurança.”

Veriano Terto Jr., vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia)

 

“Qualquer avanço da ciência é extremamente importante, ainda mais nesse momento terraplanista que o Brasil atravessa, com a negação da ciência e de suas evidências. Dito isto, temos que receber essa descoberta com muita alegria, pois é trabalho sério, de gente séria em universidade pública. A pesquisa da Unifesp é super bem-vinda, mas deve ser olhada com cautela, não pelos seus achados, mas pela forma como a mídia noticiou e o modo como chegou até as pessoas: ‘Confirmado mais um caso de cura da aids´; ‘Pesquisa brasileira pode ter achado a cura da aids´; ‘Cura para o HIV pode ter sido encontrada, afirmam cientistas´. Os próprios pesquisadores, quando perceberam esse viés, ficaram cautelosos e advertiram que é um passo para entender os mecanismos de cura. Do ponto de vista da ciência, é extremamente importante entender todos os mecanismos do HIV. Do ponto de vista de um tratamento ou de uma solução que possa atingir todas as pessoas infectadas, o que me preocupa é o acesso. Temos dois casos de cura com transplante de medula, mas não são terapias viáveis para uma quantidade significativa de pessoas. Estou preocupado com o alarde sobre essa cura. Precisamos entender que ela é muito personalizada, você tem uma quantidade maior de medicação e uma vacina feita com células dendríticas da pessoa, cada um tem a sua vacina personalizada e isso acaba não sendo uma possibilidade de terapia para todo mundo. Entendo toda euforia, mas é importante destacar que provavelmente quem não tem recursos não terá acesso. O estudo é importante para apontar caminhos para o que possa ser futuramente uma cura acessível para todos. O momento é de conhecimento.”

Beto de Jesus, Diretor da Aids Healthcare Foundation (AHF) no Brasil

 

“A notícia sobre a pesquisa desenvolvida na Unifesp é de muita importância, porque aponta a necessidade de caminharmos e investirmos em pesquisas que avancem na questão da cura da aids. É importante avançar e ter recursos específicos para o desenvolvimento destas pesquisas. No momento em que a gente vive a pandemia da covid-19, a pauta do HIV e da aids precisa e deve ser mantida. Neste sentido, é importante manter investimentos que possam nos ajudar a caminhar e a mostrar que a cura da aids é de fato uma possibilidade. O mais importante é isso: a pesquisa mostra que há um caminho a ser percorrido e que nós precisamos, cada vez mais, de investimentos em pesquisa. Mas é importante frisar: remissão é diferente de cura. Na remissão, você não consegue identificar o agente causador nem tem sintomas da doença; é ainda um processo inicial. A cura vem depois de alguns anos, quando você também não conseguir identificar agente causador e nem o processo de doença.”

Maria Clara Gianna, médica sanitarista, coordenadora adjunta do Programa Estadual de IST/aids de São Paulo

 

“Primeiro temos que lembrar que a cura do HIV foi anunciada em 2017 pela Amfar, a maior organização de pesquisas sem fins lucrativos do mundo para pesquisa sobre HIV, para o ano de 2020 [na época, a Amfar anunciou um investimento de 100 milhões de dólares em muitos projetos de pesquisa, incluindo alguns no Brasil]. Eu acredito que a cura já existe, pois se sabe que o HIV se utiliza de um reservatório e os medicamentos promissores agem justamente neste local na célula humana. Infelizmente, a aids se tornou uma indústria e talvez com a covid-19 haja maior agilidade nas pesquisas da cura – ou continuaremos aguardando um milagre científico. Eu acredito que teremos em breve medicamentos que matarão o HIV. Como os testes clínicos comprovam, é muito mais uma decisão política do que científica. Esperar 40 anos, na era atual, já é um tempo mais do que necessário para termos a cura e uma vacina.”

Marcio Villard, coordenador geral Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro

 

SAIBA MAIS

Aids 2020 Virtual – www.aids2020.org

Relatório “Agarrar a oportunidade: enfrentando as desigualdades enraizadas para acabar com epidemias” (do Unaids) – https://bit.ly/2ZyHrJd

Relatório “Covid e HIV: um conto de duas pandemias” (IAS) - https://bit.ly/3fPBI7M

COVID-19 e HIV: O que você precisa saber - https://bit.ly/3eIBvBX

HTPN 083 e PrEP injetável - https://bit.ly/30scNRe