Radis Comunicação e Saúde

Bolsistas de diversos países do mundo se reúnem no estande da International Aids Society (IAS), durante a conferência, que discutiu no México os principais avanços tecnológicos na luta contra a epidemia de HIV/aids no mundo. Fotografia: IAS 2019.

Tempo de leitura: 7 - 14 minutos

Encontro da maior associação mundial de profissionais em HIV, IAS 2019 equilibrou avanços biomédicos e questões sociais

Cerca de 6 mil pessoas de 140 países se reuniram entre 21 e 24 de julho na Cidade do México para a 10ª Conferência IAS sobre Ciência do HIV (IAS 2019), ocasião em que pesquisadores, ativistas e pessoas vivendo com HIV discutiram avanços científicos e desafios que devem ser enfrentados para que se tenha uma resposta global ao HIV. Em quatro dias de palestras, apresentações de trabalhos, discussões temáticas e um fórum comunitário, o encontro, promovido pela International Aids Society (IAS) — maior associação mundial de profissionais em HIV, com membros em mais de 170 países — tratou não somente de avanços biomédicos relacionados à prevenção, ao tratamento e ao combate ao vírus que causa o HIV, mas também de questões sociais, políticas, econômicas, culturais e comportamentais, determinantes para o enfrentamento do HIV.

De um lado, a expectativa criada com o anúncio de casos de “cura do HIV”, a curiosidade sobre o atual estágio dos estudos sobre vacinas e o otimismo representado pela Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), entre outros avanços na prevenção e no tratamento do vírus. De outro, a preocupação em assistir aqueles que enfrentam crises humanitárias em todo o globo, como refugiados e vítimas de desastres naturais, o desafio em promover (e manter) o direito à saúde para grupos mais vulneráveis, como homens que fazem sexo com homens (HSH), pessoas transgênero, trabalhadores do sexo e usuários de drogas injetáveis, entre outros, e o compromisso firmado em torno da defesa de políticas públicas comprometidas com o combate ao estigma e ao preconceito.

Entre os trabalhos da conferência, destacou-se o debate sobre formas de garantir maior autonomia para as pessoas que vivem com o vírus HIV, seja investindo em novas alternativas para que o tratamento que se adapte às suas escolhas de vida, seja levando em consideração suas demandas em futuros projetos de pesquisa, como alternativas ao longo caminho a ser percorrido até se chegar à esperada cura da síndrome que atinge hoje 37,9 milhões de pessoas em todo mundo, segundo estimativas do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Unaids) — um desafio que deve envolver governos, ativistas, cientistas e comunicadores de todo o mundo.

Isso se refletiu em uma maior presença de representantes das populações mais vulneráveis na condução e apresentação de trabalhos, assim como na diversidade de temas, pluralidade e renovação de oradores. Dos 1.300 resumos aprovados para a conferência, as mulheres assinaram a metade, e mais de um terço dos estudos foram apresentados por pesquisadores com menos de 35 anos. Única publicação jornalística brasileira selecionada para cobrir a conferência pelo Programa de Bolsas de Mídia da IAS, organizado em parceria com a AVAC (AIDS Vaccine Advocacy Coalition, organização internacional que incentiva projetos de desenvolvimento de vacinas contra a aids e outras opções de prevenção ao HIV), Radis traz nesta edição um relato dos principais temas tratados no evento, destacando o olhar de gestores, pesquisadores, profissionais e ativistas brasileiros.

Inclusão dos indivíduos

Implantes, medicamentos injetáveis e testes para vacinas: Que produtos estão disponíveis para a prevenção ao HIV? Quais as novas formas de tratamento? Que tecnologias sinalizam o caminho para a cura? Em meio a indagações e novidades apresentadas na IAS 2019, os estudos indicaram, de uma maneira geral, não há como incorporar inovações e descobertas científicas sem levar em consideração os indivíduos que serão seus destinatários.

Havia o temor, entre ativistas e usuários, de que a discussão técnica sobre as principais inovações em relação à prevenção e ao tratamento do HIV/aids deixasse invisíveis as questões sociais. Mas a verdade é que a conferência, apesar de priorizar pesquisas sobre novos protocolos de tratamento e prevenção e investigações sobre a cura da aids, também abriu espaço para discussões sobre estigma, vulnerabilidade e democratização do acesso às terapias disponíveis — e também àquelas que ainda estão em fase de teste — e para as demandas de usuários.

“É necessário que as pessoas estejam no centro das estratégias. Não há resposta efetiva sem a presença da sociedade civil”, indicou Temístocles Villanueva, deputado distrital da Cidade do México e ativista pelos direitos LGBTI, durante o Fórum Comunitário que precedeu a conferência. No evento preparatório, representantes das consideradas “populações chave” (pessoas vivendo com HIV, homens que fazem sexo com homens, usuários de drogas injetáveis, trabalhadores do sexo, pessoas transgênero, povos indígenas e migrantes) e ativistas manifestaram sua preocupação em fortalecer parcerias, contextualizar intervenções de saúde e enumeraram demandas.

O crescimento da contaminação entre os mais jovens e o aumento de pessoas não diagnosticadas são realidades que não podem ser desconsideradas, assim como determinantes como a pobreza e a falta de acesso a alimentos, medicamentos e serviços de saúde, alertaram os participantes. Avaliar e ponderar os contextos como a permanência de discriminação e estigma contra as pessoas com HIV/ aids, os fenômenos migratórios e os ataques aos diretos humanos, situações que interferem na condução de pesquisas e adoção de medidas também é urgente, recomendaram.

“Não temos tempo a perder”, sinalizou o jovem deputado mexicano, de 29 anos. Homossexual e vivendo com HIV, Temístocles preside a Comissão de Direitos Humanos do Congresso da Cidade do México. Em entrevista à Radis, ele condicionou o sucesso da luta contra o HIV à defesa da democracia, firmando o compromisso de seu primeiro mandato em legislar para todos, mas garantindo espaço para a voz das pessoas com HIV. “É preciso sensibilizar congressistas para marcos legais contra a discriminação e gerar consciência para que as pessoas cuidem de sua saúde”, afirmou.

Nós nunca estivemos em silêncio, mas vocês nunca nos escutaram,

protestaram mulheres transgênero de origem indígena, na abertura do evento: conferência marcada por participação dos grupos mais vulneráveis ao HIV nos debates e nas apresentações de trabalhos científicos.

Fotografia: IAS 2019.

Cada público uma demanda

O encontro foi marcado ainda pela afirmação de demandas e o fortalecimento de parcerias solidárias, como o esforço de 27 organizações colombianas em garantir a saúde de cerca de 10 mil venezuelanos que vivem com HIV e deixaram o país rumo ao país vizinho em busca de antirretrovirais. Além da falta de remédios no país, o cenário de desemprego e hiperinflação tem aumentado os problemas de saúde relacionados ao HIV, destacou Alberto Nieves, ativista da Acción Ciudadana Contra el SIDA, em Caracas.

A mexicana Amaranta Gómez, da Secretaria Internacional de Povos Indígenas e Afrodescendentes contra o HIV, registrou que algumas etnias vêm sendo obrigadas a migrar de seus territórios por conta de problemas financeiros, e chamou atenção para a desigualdade de gênero que dificulta para as mulheres exigirem de seus parceiros que usem preservativos; também reivindicou uma maior visibilidade dos indígenas nas conferências globais — motivo que levou ativistas do Canadá e dos Estados Unidos a realizarem protesto na plenária de abertura da conferência, no dia seguinte.

A pauta do Fórum Comunitário também incluiu a luta das mulheres argentinas pelo respeito ao direito de decidirem sobre questões de saúde reprodutiva e pela inclusão das trabalhadoras do sexo na discussão por melhores condições de trabalho, como reivindicou Elena Reynaga, da RedTraSex, e um apelo para que o acesso livre e equitativo a cuidados de saúde de qualidade fosse uma realidade para todos, como destacou o holandês Raoul Fransen, da International Civil Society Support.

O americano Murray Penner, diretor da Prevention Access Campaign, destacou a importância em ampliar a mensagem veiculada pela campanha I = I (Indetectável = Intransmissível), no sentido de melhorar a qualidade de vida das pessoas que vivem com HIV, sem no entanto estigmatizar aqueles que não conseguem alcançar ou manter cargas virais indetectáveis. Também presente nos discursos, temas como a luta contra a criminalização de pessoas que usam drogas injetáveis, o estigma que acompanha pessoas que vivem em presídios e a disseminação do fundamentalismo na América Central e na América Latina, que mantém muitas pessoas LGBTQ no armário, assim como a falta de acesso à cobertura de saúde para muitas pessoas, mesmo em países de alta renda que contam com sistema público de saúde.

Acesso universal

Neste sentido, o Brasil apresenta um cenário de grande relevância internacional, já que é um dos únicos países do Eixo Sul que ainda garante acesso universal à saúde, lembrou Filipe Perini, coordenador-geral de Vigilância do HIV/AIDS e das Hepatites Virais do Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, do Ministério da Saúde. Em conversa com a Radis, durante a conferência, ele frisou que apesar dos inúmeros desafios para a garantia desse acesso, ele é essencial para que as populações chave, em maior vulnerabilidade, tenham acesso ao tratamento no país.

“A idéia e a perspectiva do acesso universal é reduzir inequidades. Para além da integração dos serviços de HIV dentro do próprio SUS, o Brasil vem produzindo alguns outros serviços ou estratégias para atingir populações chave, especificamente as que tem barreiras de acesso aos serviços clássico de saúde, de modo que se possa atingir mais pessoas e responder melhor as suas demandas”, explicou Filipe, destacando que a PrEP, “iniciativa única e pioneira do Brasil”, já mostra a possibilidade de prevenção por esse modelo. “A PrEP não é só um comprimido. É um serviço que oferece a possibilidade de gestão de risco, um debate sobre sexualidade e outros também serviços que não estão ligados diretamente à saúde sexual. Ela integra e coloca no SUS pessoas com dificuldade de acesso aos serviços clássicos de saúde”, salientou.

Para Maria Amélia Veras, professora do Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, ter um sistema de saúde público com acesso universal é “absolutamente vital” para a inclusão dos grupos mais vulneráveis nos serviços e estratégias de combate à aids e de assistência às pessoas que vivem com HIV. “O SUS é a espinha dorsal da nossa resposta às questões de saúde pública, não só em relação à HIV/aids. Por isso mesmo, precisamos continuar investindo na qualificação dos profissionais”, relatou a pesquisadora à Radis, logo após a apresentação de um trabalho sobre estigma e acesso ao PrEP entre mulheres transgênero no Brasil.

Estigma e falta de acesso

Em sua apresentação, ela destacou que o Brasil é um dos países mais desiguais no globo em relação à população transgênero, seja pelo elevado número de mortes, seja pela falta de acesso e discriminação durante o tratamento. “São realidades que os estudos não mostram, mas que a experiência do dia-a-dia comprova”, assegurou. Em conversa com a reportagem, a psicóloga mexicana Paulina Carrasco destacou que a realidade das pessoas transexuais é similar em seu país.

Mulher transexual, ela frisou que a exclusiva implementação de estratégias de combate ao HIV não é suficiente para atender as demandas desta população, cuja expectativa de vida no país é de 25 anos, por conta da alta taxa de letalidade do grupo. “É preciso tratar o ser humano de forma integral, investigando suas necessidades, que não são apenas legais ou médicas”, ressaltou, lembrando que estigma e discriminação são apenas alguns aspectos que conferem vulnerabilidade às pessoas que vivem a transitoriedade de gênero. “A vida é bem mais complexa”, argumentou.

A complexidade da questão se comprovou nas apresentações da sessão que discutiu a necessidade de priorizar o atendimento à população trans, quando foram apresentados relatos diversos sobre assunto, que incluíram registros de reflexos da violência na saúde mental das pessoas trans em Malaui, as dificuldades de acesso à testagem destas pessoas para sífilis na Argentina e ao do PrEP no Rio de Janeiro, ou ainda na associação do consumo regular de álcool e o risco para a contaminação para o HIV entre mulheres trans em Fortaleza. “O contexto de vulnerabilidade aumenta as barreiras de acesso ao tratamento no SUS”, atestou Luca Fasciolo Maschião, da Faculdade de Ciencias Médicas da Santa Casa de São Paulo, participante da mesa.

Números da aids

37,9 milhões de pessoas vivem com HIV no mundo.

36,2 milhões são adultos, 1,7 milhão têm menos de 15 anos.

79% de todas as pessoas vivendo com HIV conheciam seu estado sorológico positivo para HIV em 2018;

Cerca de 8,1 milhões de pessoas não sabiam que estavam vivendo com o vírus.

23,3 milhões têm acesso à terapia antirretroviral. Em 2010, eram 7,7 milhões pessoas em tratamento.

1,7 milhão de novas infecções por HIV foram registradas em 2018.

74,9 milhões de pessoas foram infectadas pelo HIV desde o início da epidemia.

32 milhões de pessoas morreram de doenças relacionadas à aids desde o início da epidemia.

Fonte: Unaids/Brasil

Como você avalia a IAS2019?

“A conferência não foi estritamente biomédica. Pela primeira vez especialistas estiveram muito mais preocupados com as questões sociais e com os Direitos Humanos. Para além das apresentações das pesquisas, o avanço do conservadorismo e o aumento da violência contra as populações historicamente marginalizadas também estiveram em pauta. Isso se deve igualmente ao aumento da presença das ciências humanas na Conferência. Todavia, o espaço para os movimentos sociais ainda foi bastante limitado. Diferente da Aids 2018, com mais espaço para a atuação de movimentos e grupos sociais, a IAS 2019 é muito mais focada na produção científica, e infelizmente há ainda grande resistência em se considerar as contribuições dos movimentos sociais. Ainda assim, presenciei algumas intervenções bastante relevantes”.

Pisci-Bruja, trans não-binária e positiva, integrante da Coletiva Loka de Efavirenz, mestrand@ em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).


“Houve uma redução da participação da sociedade civil nas conferências internacionais, mas não por falta de interesse, e sim porque os recursos para garantir essa participação são cada vez menores. Embora seja uma conferência técnica tanto do ponto de vista do tratamento quanto da prevenção, é importante que a sociedade civil esteja presente e tenha acesso às informações para democratizá-las junto às comunidades. A Abia, por exemplo, participou da conferência com foco na agenda do acesso a tratamento e da profilaxia pré-exposição (PrEP). Foi um evento rico de informações do ponto de vista dos avanços e novidades no campo clínico e da prevenção, principalmente no biomédico. Destaco também que os cientistas da Europa e dos Estados Unidos enfatizaram a importância das comunidades incorporem os resultados das pesquisas. Ou seja, sem o diálogo com a comunidades, as pesquisas não têm sentido”.

Veriano Terto, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia)