Fotografia: Patrick Pardini.

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Entrevista com Thais Florencio de Aguiar

Março de 2019 | por Elisa Batalha

“Quando fiquei grávida, eu havia assumido fazia apenas três meses um pós-doutorado numa instituição que eu estava conhecendo, tinha novos colegas e estava longe da minha cidade. Num departamento de nota máxima na Capes, bastante competitivo. Fiquei muito tensa só em ter que informar a gravidez ao meu supervisor”, conta à Radis Thais Florencio de Aguiar, 41 anos, professora, pesquisadora e mãe de Ana Rosa, de quatro anos.

Ela lembra que a reação do seu supervisor foi tranquila e isso a acalmou, mas não a isentou de percalços. A profissional conta que se sentiu insegura, apesar de estar em um excelente momento da carreira. “Eu havia acabado de defender uma tese, tinha sido muito bacana, profissionalmente as coisas iam super bem”. Em abril de 2014, a tese da jornalista e doutora em Ciência Política havia sido premiada no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ). Em outubro do mesmo ano, ganhou o Prêmio Capes de Tese 2014 na categoria Ciência Política. Logo em seguida, com a gravidez, veio a preocupação, porque “a maternidade demanda outros momentos”.

Ana Rosa nasceu em dezembro de 2014, portanto, durante o fim do primeiro ano do pós-doc de Thais na Universidade de São Paulo (USP). “Foi uma loucura. Mesmo com o apoio do meu supervisor, para ter um filho em ambiente de trabalho competitivo é preciso construir uma consciência em torno dos direitos reprodutivos. Além disso, a minha área é uma área predominantemente masculina, mesmo sendo ciência humana”, explica ela, que atua na área de teoria política.

Durante a gravidez, Thais procurou se informar sobre a possibilidade de uma licença-maternidade. “Tinha muita confusão em termos de informação. A princípio a secretaria do curso interpretava que a licença-maternidade só se adequava a pesquisadoras de mestrado e doutorado. Depois descobri com a Capes que poderia ter quatro meses de licença. No entanto, eu tinha uma bolsa de um ano, que se encerrava em 30 de novembro, pouco antes da data prevista para o parto”.

Com a barriga já crescida no final da gravidez, Thais correu atrás e conseguiu renovação de bolsa por mais um ano, o que permitiu a continuidade da pesquisa. A criança nasceu dia 8 de dezembro e ela pode exercer a licença-maternidade. “Então pude ficar um tempo sem trabalhar com pesquisa. É até engraçado eu dizer que fiquei sem trabalhar. Além dos cuidados com a criança, veio junto a angústia de que ´tenho que escrever artigo´, “tenho que ler”, e ´tenho que cuidar do bebê´”, enumera.

O fato de Thais ter licença e bolsa pode soar como se o trabalho pudesse transcorrer em perfeitas condições —as mesmas impostas aos homens sem filhos. A pesquisadora argumenta porque a comparação não se aplica. “Os meses de licença não seriam adicionados ao prazo para o desenvolvimento do projeto. Aquilo que havia sido programado para ser feito ao longo de um ano teve que ser feito em oito meses”. Devido a problemas de amamentação, a mãe de Ana Rosa precisou de mais três meses de licença, o que deixou o tempo de execução do projeto de pesquisa ainda mais reduzido. “Na prática, eu tive direito à licença, mas não direito a desenvolver minha pesquisa como gostaria. Um tanto frustrante para uma pesquisadora”, resume.

“Quando eu voltei da licença, parecia que todo mundo era muito jovem, ou então com filhos já crescidos. Senti uma falta de compreensão, de compartilhar com parceiras que tivessem vivenciado situações como as que eu estava vivendo, esses dramas da maternidade”, revela Thais, que na época tinha 37 anos. Ela lembra que, não bastasse a solidão que sentia, ainda teve que enfrentar a discriminação ao iniciar outra pesquisa de pós-doutorado, desta vez no Rio de Janeiro, como prêmio recebido da Capes. Logo no primeiro dia na universidade, ouviu de um professor amigo: “Agora você voltou à sua vida real”. “Eu fiquei perplexa. Quando minha filha estava com dois meses, ocorreu um concurso. Eu não tinha condição nenhuma de concorrer. Mesmo assim, um amigo comentou que ouviu um professor comentar: ‘por isso ela não vai concorrer?! Mas a vida continua´”, relembra, enfatizando como atitudes e falas revelam a mentalidade da academia sobre a questão.

Tenho a nítida impressão de que lutar pelo espaço da mulher, sobretudo de mulher mãe, demanda transformar, ou melhor, construir outra academia, que prima por laços de solidariedade entre trabalhadores.

Thais Florencio de Aguiar, professora, pesquisadora e mãe.

 

Thais avalia que as bolsas de pós-doutorado que recebeu foram importantes para que tivesse um pouco mais de condições de se preparar para um concurso, que ela considera uma “maratona dupla”, já que tinha que se desdobrar nos cuidados com uma criança pequena. Mas, conforme o tempo passava, rememora, ela cogitou estar fora da competição pelo impacto da maternidade na queda no número de publicações, na participação em eventos acadêmicos e no tempo de experiência em aula. “Até adoeci. Eu tinha muito medo de fazer concurso. Além disso, é comum que os candidatos viajem para várias cidades do país para realizar as provas. Com um bebê, isso fica mais complicado”.

“Minha filha tinha pouco menos de um ano quando tive que viajar do Rio a São Paulo para dar aulas. Meu marido pediu folgas para nos acompanhar. Foi fundamental o apoio do meu companheiro. O ambiente da universidade em geral alija a presença de bebês ou crianças como se elas não fizessem parte da vida de pesquisadores e professores. Isso dificulta muito a vida da mulher, a quem os bebês são muito ligados corporalmente nos primeiros anos de vida”, explica Thais, lembrando que uma dificilmente poderia participar de um congresso na China no segundo mês do nascimento de um filho, como viu colegas homens fazerem. “Essas coisas me mostravam como a era diferente a condição de pesquisadoras mães, não-mães e pais ou não-pais”.

Thais explica que até há muito pouco tempo não havia nenhum tipo de acolhimento para essas especificidades no mundo acadêmico, e relata que procurou ajuda em coletivos feministas na universidade, sem sucesso. “Todas eram muito jovens. Depois disso eu quis muito me juntar a outras mulheres e mães e buscar implementar políticas que favorecessem as mulheres nas ciências sociais e na academia. A gente passa a ter a real dimensão da necessidade do feminismo”, resume. Mesmo com estas dificuldades, ela não desistiu, foi aprovada em um concurso público e assumiu o cargo de professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em dezembro de 2018.

Impactos na produtividade

Muitas pesquisadoras e mães podem se identificar com o relato de Thais. Só não sabemos quantas. O grupo Parents in science [Em português, Pais na ciência] fez um levantamento com cerca de 1.200 mulheres, por meio de questionários online. Das cerca de 1.200 respostas obtidas, 78% das pesquisadoras são mães e 22% não. “Não sabemos o quanto a amostra é significativa, já que não sabemos quantas docentes brasileiras são mães. Isso sequer é registrado no currículo pela maioria”, esclarece Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto e bióloga do Departamento de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que registra vídeos do grupo na plataforma Youtube, onde discutem questões relacionadas à maternidade e à ciência.

O grupo Parents in Science, criado 2017, é composto por seis cientistas mães e um cientista pai, que se dedicam a comparar políticas públicas voltadas para as mães e pais na academia em diversos países. Uma demanda levantada por eles é incluir no Currículo Lattes o ano de nascimento de filhos e pleitear que a produtividade das recém-mães possa ser contada de forma alternativa. São formas de tentar reduzir o impacto “negativo” na produtividade de pesquisadoras com a chegada de um filho, que se reflete na perda de financiamento de pesquisas. Ao abordar o problema, o grupo também aborda questões como divisão social de tarefas e licença-paternidade.

Nos editais dos concursos constam que mães podem amamentar durante os exames, mas não asseguram o direito a tempo adicional para efetuar as questões. Em dezembro de 2017, foi sancionada a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. Em fevereiro de 2019, um edital do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (edital PIBIC/CNPQ/UFF) procurou atender a uma demanda da comunidade acadêmica, e passou a conceder pontuação para a docente que tiver tirado licença-maternidade nos últimos dois anos, como forma de compensação para que ela concorra em igualdade de condições. Ao pleitear o financiamento, a docente poderá acrescentar cinco pontos extras em sua avaliação de currículo, caso não tenha a pontuação máxima ainda.

Acostumada a redigir artigos científicos, Thais resume os muitos aprendizados da sua vivência como mãe e pesquisadora. “Existem muitos tipos de maternidade porque existem muitos tipos de mães pesquisadoras e de bebês. De todo modo, a exigência social e pessoal em ser uma ótima mãe e uma ótima profissional torna a vida da mulher muito dura. Ela experimenta constantemente cobrança e frustração. Percebi que os tempos de um e de outro são muito diferentes: o da maternidade é o tempo da doação incondicional e da delicadeza; o tempo da pesquisa/ciência atual é o tempo da quantidade e da competição. Vivenciar isso me fez ter a nítida impressão de que lutar pelo espaço da mulher, sobretudo de mulher mãe, demanda transformar, ou melhor, construir outra academia, que prima por laços de solidariedade entre trabalhadores. A academia é um mercado de trabalho como outro qualquer, com suas clivagens. Os critérios atuais de avaliação e eficiência nos colocam em desvantagem. Ademais, a mentalidade que naturaliza essas discrepâncias entre homens, homens-pais e mulheres e mulheres-mães também precisa ser trabalhada”. (E.B.)