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Fotografia: Acervo pessoal.

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O relato do refugiado sírio que salvou a mãe da guerra e a perdeu para a covid-19

Abdulbaset Jarour, refugiado no Brasil desde 2014, não se conforma com a perda e pede maior atenção às recomendações sanitárias.

Nono mês no calendário lunar islâmico, o Ramadã é especial para os muçulmanos, já que foi neste período em que o Alcorão, livro sagrado da religião, foi revelado ao profeta Mohammad (ou Maomé, como é mais conhecido no Brasil). Segundo narra a tradição (e o próprio livro), enquanto meditava em uma caverna no monte Hira, na Arábia Saudita, o profeta foi visitado pelo anjo Gabriel, que teria ordenado: “Escreve, em nome de Alá”.

Durante o Ramadã, os fiéis muçulmanos colocam em prática o suam, um ritual de jejum, que é um dos pilares da religião, e se concentram em um processo de renovação da fé, quando dedicam atenção maior à caridade e aos valores da vida em família e de fraternidade.

Para o sírio Abdulbaset Jarour, 30 anos, o Ramadã de 2020 vai ficar marcado na memória como um dos mais dolorosos de sua vida. Foi exatamente neste período — iniciado no Brasil na noite de 23 de abril e encerrado em 23 de maio — que ele enfrentou uma das maiores perdas desde que fugiu de Alepo, capital do país onde nasceu, em 2013, e empreendeu um longo percurso que o trouxe ao Brasil (Conheça a história da chegada de Abdo no Brasil na Radis 180).

Refugiado no país, vivendo em São Paulo desde 2014, ele atravessou o mês sagrado de sua religião vivendo a angústia de acompanhar a contaminação da mãe Khadouj Makhzoum, 55 anos, pelo novo coronavírus — o que a levou à morte na madrugada do dia 13 de maio, vítima da covid-19. “Ela morreu como uma mártir”, conta Abdo, como é conhecido, ainda impactado com a dor da despedida.

Ao telefone, enquanto conta o que passou e divide o sofrimento recente, ele não esconde a indignação com as condições que, acredita, contribuíram para o falecimento de sua mãe. “Eu perdi minha mãe. Como é possível que pessoas ainda não acreditem na existência deste vírus?”, repete ao longo da entrevista, dizendo não entender o que leva as pessoas a continuar não respeitando as orientações sanitárias e a ignorar a gravidade da situação.

Ao mesmo tempo, Abdo faz questão de enfatizar a qualidade do cuidado e da assistência recebidos pela mãe, e lamenta a falta de valorização do trabalho feito no Sistema Único de Saúde. “É um trabalho humanizado, merece apoio da população e do governo”, diz, ressaltando que Khadouj já era acompanhada pelo sistema antes da pandemia chegar ao país. Com hipertensão e diabetes, ela recebia regularmente a visita de agentes comunitários de saúde, lembra o filho: “Uma equipe vinha à nossa casa, trazia remédios para os problemas crônicos dela, nos dava apoio social”, relembra.

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Abdo, a irmã Sedra e a mãe Khadouj: vidas separadas pela guerra voltam a se encontrar em dezembro de 2018.

Khadouj e a filha Sedra chegaram ao Brasil em dezembro de 2018, depois que Abdo solicitou visto para as duas na embaixada brasileira no Líbano, onde esteve no ano anterior, acompanhando como intérprete um grupo de jornalistas brasileiros. Desde que o sírio chegou ao país, seu sonho era trazer a mãe a irmã ao país que o recebeu.

A família de sete filhos foi separada pelos conflitos: uma filha migrou para o Iraque, outra foi para o Líbano, outra, para o Canadá; a última a fugir perdeu o marido e uma perna, antes de escapar para a Alemanha; o irmão caçula fugiu para a Turquia. Restavam em Alepo apenas Khadouj e Sedra. 

O reencontro dos três, no aeroporto de São Paulo, foi emocionado. “Em nove anos, a guerra acabou com a vida de um milhão de pessoas e espalhou 10 milhões de sírios pelo mundo”, diz Abdo, informando que, apesar de seu esforço, a adaptação das duas ao país não seguiu como esperava. Logo mãe e filha, criadas em um país árabe, começaram a se sentir deslocadas. Não conseguiram aprender a português, sentiam falta das tradições religiosas, começaram a apresentar sintomas de ansiedade e depressão.

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No reencontro no aeroporto de São Paulo, Abdo realiza o sonho de ver parte da família reunida.

No início de 2020, os três decidiram que seria melhor que as duas fossem viver com parentes no Líbano. Sedra partiu em fevereiro e Khadouj aguardava que o filho providenciasse a documentação para a viagem, quando adoeceu. Abdo se sente culpado por ter demorado a dar entrada no passaporte da mãe. Reconhece que protelou a decisão, na esperança de ficar mais tempo ao lado dela.

O refugiado acredita que, além das condições de risco que apresentava, o estado de saúde mental de Khadouj contribuiu para que ela ficasse mais vulnerável à infecção. “Ela estava de malas prontas, mas sua situação psicológica era muito ruim. De algum jeito a depressão fez com que ela adoecesse”, diz.

Segundo Abdo, ela manifestou os primeiros sintomas em 11 de março, quando começou a se sentir mal, em meio à febre alta, muita tosse seca e falta de ar. A partir daí, conta, durante uma semana os dois procuraram atendimento na unidade de Assistência Médica Ambulatorial (Ama) do Hospital Sorocabana, na região da Lapa, Zona Oeste da capital paulistana - quando Khadouj foi medicada e orientada a voltar para casa. O diagnóstico dado foi infecção na garganta.

Na última consulta, quando constataram a gravidade do caso, ela foi encaminhada do Pronto Socorro Municipal Professor João Catarin Mezomo, também na Lapa, para o Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP), já diagnosticada com a covid-19. Naquele momento, Abdo também foi testado, mas os exames constataram que ele não estava contaminado.

Com a voz embargada, Abdo conta que viu a mãe viva, pela última vez, dia 22 de abril, pouco antes de ela ser transferida para a Unidade de Terapia Intensiva. Ele conta ter chorado muito ao encontrá-la, e lembra que ela, mesmo fraca, perguntou pelas filhas e pediu que ele continuasse a ajudar as pessoas em situação de rua. Também o questionou sobre seu estado de saúde. O filho tentou explicar. “Você vai ficar bem”, disse, mesmo duvidando do que dizia.

Naquele momento, os médicos do HC pediram ajuda a Abdo na comunicação com Khadouj. Ele escreveu alguns cartazes, em árabe, com letras grandes, alguns comandos do tipo: “Deite de bruços” e “Vire para o lado”, já que a mãe não entendia português. A falta de comunicação era algo que o deixava tenso. “Eu tinha muito medo que ela se sentisse sufocada e não soubesse pedir ajuda”, relata.

Até o dia 13 de maio, quando ela foi enterrada no Cemitério Islâmico do Brasil, em Itapecerica da Serra, na Grande São Paulo, foram muitas as tentativas de Abdo ver Khadouj. Todas em vão. Foram 21 dias em que ele viveu a expectativa de alguma melhora, de certa forma amenizada pelas notícias dadas pela equipe médica: “Eles me ligavam todos os dias, foram muito atenciosos”, destaca.

As informações recebidas, no entanto, nem sempre era animadoras e, algumas, difíceis de processar. Em um dos momentos mais complicados, um médico brasileiro de ascendência árabe, chamado Ahmad, ligou para Abdo para que ele autorizasse a intubação da mãe. “Eu não entendia o que era isso, tinha medo de tomar uma decisão errada”, relembra.

Em uma tentativa de amenizar o próprio sofrimento, ele foi para a frente do hospital, no Dia das Mães (10/5), manifestar seu amor. Em um cartaz colado ao próprio corpo, escreveu em português: "É hora de ter paz e união para combater a covid-19. Voltem para casa. Peço, por favor, oração pela minha mãe”. Dias depois, na madrugada do dia 13, recebeu uma ligação, informando que Khadouj estava muito mal. “Por favor, deixem que ela volte para sua terra”, clamou sem resposta. Às 5h30min, o último chamado. Ela não havia resistido “Eu chorei e me senti muito culpado. Eu enrolei com os documentos para que ela ficasse mais tempo comigo”, ressente-se, repetindo uma frase muito destacada nas entrevistas que concedeu após o que aconteceu: “Eu salvei minha mãe da guerra e não consegui salvá-la de um vírus”.

O protesto solitário, em pleno Dia das Mães, em frente ao HC, em São Paulo: "Mãe, estou aqui!".

É na religião que Abdo busca conforto para a perda. “Ela morreu no mês sagrado, era uma mulher muito guerreira e respeitadora, me ensinou muitos valores e a respeitar a simplicidade da vida”, diz. Mesmo ainda abalado ao descrever a despedida — quando não pode ver mais nada além do rosto da mãe, pelo vidro na parte superior do caixão — ele faz questão de registrar que continua respeitando as orientações sanitárias, com o intuito de proteger sua saúde e evitar a disseminação do vírus, e repete estar inconformado com a atitude de quem propõe o contrário.

“Eu perdi uma mãe, mas tenho amigos que nem acreditam que o vírus existe e que, portanto, não levam em consideração o que dizem os médicos”, lamenta. “Como refugiado no Brasil, mesmo tendo feito campanha contra o vírus antes de minha mãe ser contaminada, muitas vezes me senti perdido sobre que orientação seguir”, avalia. Ele acredita que algumas declarações dadas por políticos brasileiros ajudaram a acabar com mais vidas e lamenta quando as pessoas demonstram maior preocupação com a economia do que com vidas humanas. “Como se sentiriam se perdessem seus filhos ou esposas?”, indaga.

Para ele, as desigualdades sociais e a desvalorização dos sistemas públicos de educação e saúde são responsáveis pelo grande número de vítimas da covid-19 no país. “Muitas pessoas estão morrendo em silêncio”, expressa. Decidido a continuar no país, Abdo declara sua solidário com o sofrimento das vítimas, talvez inspirado na própria trajetória. “Conheço o sofrimento na pele”, diz, informando que a ideia é retomar a rotina de palestras e projetos sociais que conduz por meio da ONG África do Coração, fundada “com um amigo de luta”. “A condição de refugiado me fez ativista”, revela.

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