Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Arquivo pessoal.

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Das ruas da periferia, o relato de uma médica da Estratégia Saúde da Família em tempos de covid-19

Pela manhã, ao chegar no Centro de Saúde do Conjunto Paulo VI, na periferia de Belo Horizonte, onde atua como médica desde setembro de 2019, Marina Guimarães já sabe que não poderá receber nem dar nenhum abraço. Ela, que sempre foi afetuosa com todos ao redor, sente falta desse pequeno gesto de carinho que tinha com os colegas e pacientes cuidados pela Estratégia Saúde da Família (ESF) — mas entende como precaução necessária em tempos do novo coronavírus. Esses são alguns dos impactos da covid-19 no cotidiano de um serviço de atenção básica. “As pessoas estão se sentindo muito órfãs. A sensação de que elas vão dormir e acordar no dia seguinte, ir ao trabalho e ver seus filhos crescerem está muito abalada”, narra. A doença também traz reflexos ao emocional dos trabalhadores da saúde. “A sensação de impotência e vulnerabilidade é muito grande. Não tem o que eu faça. É diferente de um surto de dengue, que é muito material: eu vou lá, oriento as pessoas e me protejo. Só que com esse vírus, não sabemos”, explica.

Pelas ruas do Conjunto Paulo VI, moradores conversam sentados na calçada. A percepção da quarentena é diferente para eles, reflete Marina. “Para as pessoas nas periferias, a casa delas não é só a casa, é também a calçada, o quintal compartilhado. Isso é o isolamento delas: há uma interseção do que é a casa com a rua e com os vizinhos. Além do fato de as moradias serem precárias, com poucos cômodos”, descreve. Ela conta que sua equipe de ESF abrange uma das comunidades de maior vulnerabilidade da capital mineira. São moradores oriundos de regiões pobres do norte de Minas e de outros estados do Nordeste — por conta disso, há muita incidência de pacientes com sequelas de doenças tropicais, como doença de Chagas. Boa parte das famílias depende do Bolsa Família para compor a renda. “As pessoas residem em barracos e casas em área de invasão e há um grande índice de migração interna (as pessoas trocam um barracão pior por um melhor dentro do próprio território) e externa (com o fluxo de gente que chega e sai)”, aponta.

“Gente que chega, gente que vai”: o Conjunto Paulo VI recebe pessoas que vem do Norte de Minas e outros estados tentar a vida na capital mineira.

Fotografia: Arquivo pessoal.

Emprego é talvez a maior angústia dessa população. Segundo a médica, a maior parte das pessoas está desempregada ou inserida em trabalhos informais, ou ainda em empregos de carteira assinada com renda de um salário mínimo. “Essas pessoas não sabem para onde correr, estão acionando muito o serviço de saúde porque a assistência social está fechada. Elas estão desorientadas sobre o que vão fazer”, pontua. Outra preocupação é com as crianças: como cuidar no espaço limitado das moradias e como alimentá-las, pois muitas dependem da merenda escolar.

Olhar para essa realidade é também conviver com a angústia e a expectativa da chegada da covid-19. “A sensação que temos é que, se esse vírus chegar pra valer no conjunto, vai ser uma catástrofe. A gente fica tentando antecipar como seria o atendimento e o cuidado de saúde dessas pessoas”, afirma. Assim que Belo Horizonte confirmou o primeiro caso de infecção, a equipe do Centro de Saúde decidiu se organizar. “Nossa principal preocupação era: como vamos absorver esta demanda e preservar a saúde de funcionários e usuários?”, relata.

A médica diz que os profissionais começaram a ser “bombardeados” com protocolos, guias e fluxogramas diariamente. O momento era de dúvidas: “Seria viável, legítimo ou ético fazer circular no serviço de saúde pessoas saudáveis sendo que aqui se atendiam suspeitas de corona?”, relembra. Como as respostas demoravam a chegar, a própria equipe se antecipou. “Marcamos o chão com fitas distanciadas para as pessoas manterem segurança entre elas. Organizamos o fluxo colocando um profissional paramentado na entrada da unidade, que fazia a primeira abordagem, oferecendo álcool em gel e máscaras (estas apenas para os casos respiratórios) e a seguir encaminhando para onde era pertinente”, explica Marina, que também é mestre em Saúde Coletiva pelo Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/Uerj).

Mesmo assim ainda pairam dúvidas: “Cumprimos o mínimo de cuidados com nossa segurança? A equipe de enfermagem, principalmente os técnicos, está devidamente protegida? E as funcionárias da limpeza?”. Ela considera que o Centro de Saúde conta atualmente com “o básico para trabalhar dignamente”, mas precisam fazer um controle rigoroso na liberação de material.

Marina conta que o momento é de grande tensão emocional. “Eu não tenho medo de ir trabalhar. Tenho medo de estar assintomática passando para as pessoas”. Sem carro no momento e morando a cerca de 12 quilômetros do local de trabalho, ela tem recorrido ao transporte por carros de aplicativo, porque a prefeitura diminuiu a circulação de ônibus durante a pandemia — que continuam cheios. “O cansaço vem de estarmos esperando algo que ainda não chegou de fato. A gente sabe que está rolando, atende alguns pacientes, mas ficamos na expectativa. Será que a gente vai viver aquele cenário que vimos na Europa aqui no Conjunto Paulo VI? Como vai ser quando chegar?”, indaga.

As moradias são pequenas, com poucos cômodos e contam com muitos membros dividindo o mesmo espaço. Marina Guimarães

Fotografia: Arquivo pessoal.

Olhares de uma médica da Saúde da Família sobre a pandemia

[Leia o depoimento da médica Marina Guimarães escrito especialmente para Radis]

Fotografia: Arquivo pessoal.

A sensação de impotência e vulnerabilidade é muito grande. Não tem o que eu faça. Marina Guimarães

Na periferia

“Desde setembro de 2019, atuo como médica em uma equipe da ESF em um centro de saúde da periferia de Belo Horizonte [no Conjunto Paulo VI]. Aqui, abrangemos uma das comunidades de maior vulnerabilidade da cidade. Em específico, meu território é o mais frágil. Boa parte das famílias com crianças dependem do Bolsa Família para compor a renda familiar. As pessoas residem em barracos e casas em área de invasão e há um grande índice de migração interna (as pessoas trocam um barracão pior por um melhor dentro do próprio território) e externa (o fluxo de gente que chega e gente que sai). Há precariedade no saneamento básico e na oferta de outros serviços essenciais, como energia elétrica. As moradias são pequenas, com poucos cômodos e contam com muitos membros dividindo o mesmo espaço.

Grande parte dos moradores são oriundos de regiões pobres do norte de Minas e de outros estados do Nordeste, principalmente sul da Bahia. A maior parte consiste de pessoas desempregadas, inseridas no trabalho informal ou em empregos de carteira assinada com renda de um salário mínimo. São autônomos de baixa escolaridade, em profissões como ajudante de pedreiro, diarista e ambulante.  Quanto à faixa etária, a maior parte é de adultos em idade economicamente ativa e de crianças e adolescentes; temos apenas 8% de idosos no nosso território.”

Crianças brincam de bola no campo improvisado: um dos desafios é como manter as crianças em casa em moradias precárias.

Fotografia: Arquivo pessoal.

A covid-19 chega até nós

“Desde que a cidade de Belo Horizonte confirmou seu primeiro caso de infecção pela covid-19 e os órgãos de saúde começaram a divulgar notas, informativos e normativas, o tema da pandemia começou a orbitar o nosso serviço. Nossa principal preocupação era: como vamos absorver esta demanda e preservar a saúde de funcionários e usuários? Foi nisso que focamos de imediato. Tivemos que nos antecipar porque, muito precocemente, recebemos um usuário com sintomas de síndrome gripal que teve contato com pessoa doente recém-chegada da Itália. Era potencialmente uma infecção por covid-19.

A infecção das classes sociais que frequentam aeroportos e viagens internacionais bateu à porta do Conjunto Paulo VI. Muito rapidamente novos casos suspeitos foram aparecendo aqui e em toda a cidade e, nesse caos de acontecimentos, a infecção por covid-19 foi declarada infecção comunitária. Nós, profissionais técnicos, começamos a ser bombardeados por protocolos, guias e fluxogramas diariamente.”

O que fazer?

“Antes que a Secretaria de Saúde lançasse orientações, questionamos a legitimidade de manter todo o cardápio de serviços ofertados, principalmente no que se referia à demanda programada. Seria viável, legítimo ou ético fazer circular no serviço de saúde pessoas saudáveis sendo que aqui se atendiam suspeitas de corona? Quanto à demanda programada, manter pessoas do grupo de risco frequentando o posto era melhor ou pior?

A sensação é de que o serviço demora para responder. Nós mesmos nos antecipamos, iniciando protocolos próprios, depois readaptando para o que era orientado verticalmente da Secretaria de Saúde para nós. Todas as consultas eletivas foram canceladas; foram cancelados também: curativo, coleta de exames, atividades coletivas etc. Mantido apenas: demanda espontânea, com divisão entre o que seria sintomático respiratório e outras queixas, vacina, farmácia, sala de medicação e atendimento administrativo.”

Não dá para esperar

“Organizamos o fluxo colocando um profissional paramentado na entrada da unidade. Marcamos o chão com fitas distanciadas para as pessoas manterem segurança entre si. Essa profissional fazia a primeira abordagem, oferecendo álcool em gel e máscaras (estas apenas para os casos respiratórios); a seguir encaminhando a pessoa para onde era pertinente. Aqueles que estavam sintomáticos com queixas respiratórias eram atendidos exclusivamente em um anexo ao prédio, local onde a Odontologia trabalha [Marina relata que a Odontologia interrompeu suas atividades, o que liberou o espaço para atender as novas demandas relacionadas ao coronavírus]. Os sintomáticos respiratórios não entram em contato com outros usuários, nem circulam no restante do prédio.”

Fotografia: Arquivo pessoal.

Histórias da quarentena: “Dona Joana” é uma paciente frequente do Centro de Saúde. Em tempos de covid-19, ela sente falta das idas regulares à unidade de atenção primária. Ela conta à médica Marina que teve seis filhos, mas perdeu a guarda de dois por conta da miséria. Eles foram adotados por uma família que se mudou para os Estados Unidos. Há anos, a família de Dona Joana tentava descobrir o paradeiro deles. Finalmente conseguiram. Um dos filhos, que é gari, teve a moto roubada e recebeu ajuda de um jogador do Cruzeiro. O fato ganhou repercussão e foi a chance para que um dos irmãos que estava nos Estados Unidos visse a notícia e reconhecesse a família. Hoje eles retomaram o contato e falam-se por redes sociais. Esperam a pandemia passar para poder planejar um encontro presencial.

Estamos protegidos?

“Pairaram, e ainda pairam, várias dúvidas: se cumpríamos o mínimo de cuidados com nossa segurança? Tínhamos os EPIs adequados? A equipe de enfermagem, principalmente os técnicos, estava devidamente protegida e sabia manusear estes EPIs? E as funcionárias da limpeza?

Considero que temos o básico para trabalhar dignamente, mas precisamos fazer um trabalho de controle rigoroso na liberação de material. Organizamos individualmente a liberação de insumo dia a dia, com contagem do que temos. Trabalhamos com material sendo reposto a conta gotas e à conta. Atualmente, não temos máscaras para oferecer aos usuários com sintomas respiratórios.”

Angústias

“A sensação de vulnerabilidade e impotência é muito grande. Não tem o que eu faça. É diferente de um surto de dengue. O surto de dengue para mim é material: eu vou lá, oriento as pessoas, viramos os pratinhos de vaso, uso repelente, eu me protejo. Só que esse vírus, não sabemos.

As pessoas estão se sentindo muito órfãs. A sensação de que elas vão dormir e acordar, ir todos os dias para o trabalho, ver os filhos crescerem, isso tudo está sendo muito abalado.

A gente não pode nem dar um abraço no seu colega que chega de cabeça baixa. Eu não me lembro a última vez que ganhei um abraço. A gente evita. Eu sou uma pessoa muito afetuosa, sempre chego no trabalho abraçando as pessoas.”

Quarentena na periferia

“Para as pessoas nas periferias, a casa não é só a casa delas. A calçada faz parte da casa, assim como o quintal compartilhado. Há uma interseção do que é a casa com a rua e com os vizinhos. Além do fato de a moradia dessas pessoas ser precária, com poucos cômodos. Esse espaço coletivo de compartilhamento é muito importante. Quando eu saio do trabalho de tarde, principalmente porque muitos não estão trabalhando, está todo mundo na porta de casa conversando. As pessoas colocam cadeiras na calçada. Eu imagino que isso está acontecendo não só por onde eu passo. Para eles, isso é o isolamento: isso é estar em casa, tem uma outra percepção do que é etiqueta de higiene, mas tem uma questão relacionada ao que é território do lar mesmo.”

Percepção do isolamento: “Para as pessoas nas periferias, a casa delas não é só a casa, é também a calçada, o quintal compartilhado”, narra a médica.

Fotografia: Arquivo pessoal.

Cuidados com quem está na linha de frente

“Temos feito reuniões semanais com a psicóloga do serviço. Foi criado este espaço terapêutico para trabalhar as ansiedades. Colegas oferecem sessões de Lian Kong nos finais das tardes. Expressamos principalmente sensação de vulnerabilidade, frustração e impotência. Nossas angústias geram solidão, insônia, sensação de que não vai acabar. Emocionalmente demanda mais. Eu não tenho medo de ir trabalhar. Eu tenho medo de estar assintomática passando para as pessoas. No momento, eu estou sem carro, então eu tenho usado muito mais transporte público. Depois que começaram as restrições, eu tenho até ido de Uber, estou gastando uma nota com isso, para evitar ficar transitando no metrô, nos pontos de ônibus. Aí tem esse medo mesmo de quem está ao redor convivendo com a gente. Essa questão do cansaço vem da gente estar esperando vir algo que não chega de fato: a gente sabe que está rolando, atende alguns pacientes, mas ficamos na expectativa. Será que a gente vai viver aquele cenário que vimos na Europa aqui no Conjunto Paulo VI? Como vai ser se isso chegar aqui?”

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