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A história de Benny Briolly, a primeira vereadora trans de Niterói (RJ)

Preta, de favela, com muita honra, Benny Briolly foi eleita a primeira vereadora transexual de Niterói com 4.458 votos. Aos 29 anos, a estudante de jornalismo pretende ampliar os debates de raça, classe e gênero na Câmara Municipal. Já começou denunciando os ataques racistas e transfóbicos que recebeu durante a campanha e depois da eleição. Benny quer vivenciar o parlamento potencializando a luta que desde adolescente vivencia nos territórios e sem se deixar “deslumbrar com a institucionalidade”. Foi o que ela disse nesta entrevista à Radis, por telefone, no mesmo dia em que foi diplomada com nome e gênero feminino, direito conquistado na justiça. Outra vitória.

Há um post seu no instagram que diz: “A história de minha mãe conta a história de nossa cidade. Estou hoje na política porque vivencio a vida concreta da maioria. Queremos outra história para mulheres como minha mãe”. Como começa a sua história com a militância? 

Eu nasci na zona Norte de Niterói, sou filha de porteiro e de uma cabeleireira e manicure. Durante toda a vida, minha mãe rodou por ali como trabalhadora, de um lado para o outro, até que ficou doente. Ela teve câncer quando eu tinha 9 anos de idade. Faleceu, quando eu tinha 15, por uma série de negligências na saúde, ligadas à falta de vagas, de medicação, de tratamento, e eu comecei a questionar por que a vida tinha que ser daquela forma. Por que tanto o sistema de saúde quanto o sistema público em geral, da forma como existem, colaboravam para o rompimento da vida das pessoas? Acho que foi aí que comecei a me interessar pela militância, a ler um pouco mais e a conversar com meus professores. Como estudante da rede pública, fui me aprofundando em alguns debates sobre saúde, cidades, população LGBT. Quando entrei para a universidade, aos 19 anos, eu, que já acompanhava alguns movimentos sociais, comecei a me tornar uma pessoa mais orgânica junto aos movimentos de favela, de negros e negras, LGBT nas cidades. Aos 22, me filiei ao Psol-Niterói. Era a época das jornadas de junho de 2013 e eu entendi o quanto aquilo era importante para aquele momento da conjuntura e o quanto seria também necessária uma organização mais institucional da minha militância. 

Nas eleições municipais de 2020, com 4.458 votos, você se torna a primeira vereadora transexual de Niterói. Qual o significado da sua eleição e o que a cidade pode esperar do seu mandato? 

Niterói é uma cidade que tem resquícios muito fortes do processo escravocrata. Ser eleita aqui representa o quanto as pessoas estão revoltadas, indignadas e cansadas das marcas desse processo escravocrata sobre suas vidas. Significa que, de alguma forma, o que a sociedade civil e os movimentos sociais vêm construindo até aqui reverbera. Acho que a minha representatividade vem casada com uma política combativa a um modelo sistêmico que pesa nitidamente sobre esses corpos, vem casada com uma política organizacional dos movimentos sociais, do que a gente precisa construir de forma coletiva, organicamente juntos e juntas, nos territórios. O nosso mandato vai ser um instrumento para potencializar nossas lutas, aquelas lutas que já reivindicamos e construímos nas favelas, nas periferias enquanto mulheres, população LGBTQIA+, para que nossos corpos possam andar tranquilos pela cidade.

Como sua campanha driblou as dificuldades financeiras e conseguiu apaixonar as pessoas durante a disputa eleitoral?

Nossa campanha foi linda e potente, com toda uma militância envolvida nas ruas e nas redes sociais, lutando para que acontecesse. Foi feita basicamente sem dinheiro, desde os materiais até o nosso autocuidado em plena pandemia: um dava 10 reais aqui, o outro 20 reais para a próxima remessa de panfleto. Foi uma campanha coletiva, de troca, feita com uma galera muito ativa. Eu, de fato, não descansava, porque via o quanto as pessoas estavam lutando para que isso fosse real. Era um grito preso, um grito ancestral dentro das pessoas, que elas fizeram ecoar nas ruas de uma forma muito bonita e saudável.

Elas.

Quais os maiores desafios do seu mandato?

A gente tem uma série de desafios. O primeiro deles é não se deslumbrar com a institucionalidade, porque a institucionalidade é um mecanismo do sistema capitalista e isso não é o que a gente acredita enquanto alternativa de mundo e de sociedade. Mas há também uma série de outros desafios, como por exemplo reorganizar a nossa gente, usar da institucionalidade para potencializar os movimentos sociais, fazer com que o nosso mandato seja um mandato de cobrança contínua tanto de fiscalização do Executivo quanto de iniciativas de leis e orçamentos para intensificar a nossa luta e algumas garantias daquilo que nós, movimentos, construímos aqui fora. Mas sempre entendendo que esse é um caminho, não é um fim. É só um dos meios para tocar um projeto de luta revolucionário, daquilo que a gente acredita, do nosso sonho por uma sociedade mais justa e igualitária, que não está sendo possível nesse contexto dos marcos do capital e das instituições que existem hoje.

De que forma a defesa do SUS e a garantia do direito à saúde entram na sua plataforma? 

Defender o SUS é mais do que defender um sistema de saúde, é defender as nossas vidas, é continuar garantindo que a vida de cada um e de cada uma tenha uma segurabilidade sobre o modelo de saúde pública. É óbvio que a gente tem uma série de questões que precisam ser revistas para garantir o direito pleno de saúde das pessoas, como está previsto na essência da construção do nosso sistema de saúde. Mas defender o SUS é defender a garantia da vida das pessoas e isso estará presente em nosso mandato todos os dias, assim como estarão presentes também a defesa do modelo da educação pública, de transporte público... 

Você recebeu algumas ameaças e sofreu ataques racistas e transfóbicos. Alguns deles, bastante assustadores. Como tem reagido e como se sente a cada tentativa de intimidação?

Pois é, na campanha, a gente recebeu muitas ameaças – ameaças de morte, inclusive – e agressões racistas e LGBTfóbicas, tanto nas ruas quanto nas redes. Registramos algumas ocorrências e seguimos registrando, entendendo o quanto a sociedade ainda reproduz de uma forma criminosa e racista a LGBTfobia, o machismo, a misoginia. Entendemos que esse seria um dos motivos, inclusive, de quererem tirar nossas vidas [Uma das mensagens anônimas que Benny recebeu por email dizia: "Não adianta avisar a polícia ou andar com seguranças. Nada no mundo vai me impedir de te matar. Vou te matar do mesmo jeito que meu grupo matou a Marielle! Pois é. Nós matamos a Marielle"]. São as mesmas ameaças que vêm recebendo Talíria Petroni, Duda Salabert, Erika Hilton, Tarcísio Motta [políticos identificados com a defesa de direitos humanos]. Isso complica ainda um pouco mais a minha vida e a vida desses companheiros. Me sinto vulnerável. Estou tendo que andar de carro blindado e limitar a minha vida a uma série de fatores a que não estava acostumada. Isso é muito difícil, ainda mais pra gente que é do território popular, que temos nossas questões enraizadas no processo popular, no dia a dia, na vida concreta das pessoas. Mas a gente vai tentando dar um jeito de superar, entendendo que não podemos nos calar, não podem nos interromper.

A que você atribui a eleição dessas muitas candidaturas que reforçam a representatividade de mulheres negras, de indígenas e quilombolas, da população LGBTQIA+, em um momento de enorme polarização como o que o Brasil vive hoje?

Acho que o Brasil é um país em que a institucionalidade tem marcos históricos de promoção de desigualdade e, consequentemente, as pessoas foram se afastando da política. Porque a política, na sua construção e no formato como ela foi consolidada no Brasil, realmente não é um espaço construído e pensado a partir do povo e das pessoas que historicamente são excluídas de seus direitos, como as mulheres, a população LGBTQIA+, as pessoas pretas, pobres e faveladas. Só que as mulheres negras que vieram antes de nós já vêm desde sempre traçando estratégias de como seria uma retomada de poder, de como seria romper com essa lógica. Quando a gente olha para Lélia González [filósofa brasileira e uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado (MNU)], Carolina de Jesus [autora de “Quarto de despejo: diário de uma favelada”], Dandara [guerreira que lutou no Quilombo dos Palmares], tantas outras que vieram antes de nós, a gente vê o quanto esses marcos que estão acontecendo agora são traçados pela história dessas mulheres negras. E cada vez mais essas vozes vêm se ampliando. Acho que o processo eleitoral é só uma expressão daquilo que historicamente a gente vem construindo e do quanto a gente vem lutando para mostrar que, de fato, a política da branquitude ou o modelo político construído até os dias de hoje é um modelo falho e errôneo. Estamos avançando na construção de um projeto de sociedade antirracista, que a gente acredita que é possível e que a gente vem formulando ao longo de muitos e muitos anos. Nos territórios onde atuamos, a gente já vem fazendo com que as práticas dessas formulações sejam cada vez mais concretas.

Para concluir, vivemos em 8 de dezembro, mil dias sem Marielle. Como a luta da vereadora do Rio, assassinada em março de 2018, inspira essas candidaturas. Como a sua vida em particular é atravessada pela história de Marielle?

Marielle era uma amiga, além de ser uma companheira de partido. Ela muito nos inspirou não só na sua eleição enquanto parlamentar, mas muito antes disso, na forma como dirigia e conduzia os processos nos movimentos populares, na forma como atuava no movimento estadual de mulheres do Rio de Janeiro. Marielle sempre foi uma inspiração para nos organizarmos da melhor forma possível, deixando as questões de raça e de classe expressas nos marcos de luta da esquerda. Muitas sementes de Marielle surgiram depois da execução da Mari, mas acho que já havia muitas sementinhas nascendo durante a sua vida. Com a história de Marielle, acho que a gente tem uma lição muito forte do quanto o atual Estado brasileiro, junto com esse atual governo, é genocida e do quanto eles não têm medo e nem vão medir esforços para nos interromper e nos silenciar. A execução de Marielle deixa nítido que todo o projeto de sociedade que nós mulheres negras estamos construindo é um projeto que está dando certo e que ameaça concretamente todas as políticas racistas, genocidas, misóginas e LGBTfóbicas que estruturam o pilar do capitalismo brasileiro.