Radis Comunicação e Saúde

Fotografia: Adriano De Lavor.

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Radis acompanha parte da viagem da Unidade Básica de Saúde Fluvial Vila de Ega, em Tefé, no Amazonas

Fotografia: Adriano De Lavor.

A UBS Fluvial, ancorada na comunidade de Turé, às margens do rio Tefé: atendimento básico para a população e melhores condições de trabalho para profissionais

Na linguagem da navegação, “espera” designa um lugar, ao longo de um rio ou no interior de uma baía, onde embarcações atracam enquanto aguardam a chegada do vento para prosseguir viagem; na vida da agricultora Andrea Barbosa Ribeiro, 34 anos, o sentido de “espera” se aproxima da esperança de que os ventos tragam ajuda que possa minimizar as duras condições de vida que enfrenta com a família no igarapé onde vivem.

É começo da tarde de segunda-feira, 20 de janeiro, quando ela, o marido e os quatro filhos chegam ao centro da comunidade Turé, às margens do rio Tefé, no Amazonas. Vieram em um pequeno barco a remo, em busca de atendimento na Unidade Básica de Saúde Fluvial “Vila de Ega”, de Tefé, que desde 2018 percorre os rios da região ofertando serviços de atenção básica à saúde. Distante 523 quilômetros da capital Manaus, o município fica às margens do lago Tefé — como é chamada a região onde o rio de mesmo nome se alarga, antes de desaguar no Solimões — e tem cerca de 60 mil habitantes, de acordo com estimativas do IBGE, de 2019.

Usar uma unidade fluvial no atendimento das comunidades ribeirinhas foi uma maneira que a gestão municipal encontrou de facilitar o acesso à saúde aos moradores das regiões distantes da zona urbana e, ao mesmo tempo, melhorar as condições de trabalho para as equipes, que antes enfrentavam, além de longas distâncias, dificuldades de infraestrutura e na oferta de serviços.

Em pouco mais de um ano e meio de trabalho, os resultados já são aparentes: além da melhoria de alguns indicadores, é positivo o retorno da população: “O maior retorno é a população que dá. Eu fui a uma comunidade e um comunitário me disse que estava sendo tratado como gente”, relata Maria Adriana Moreira, secretária de Saúde de Tefé. Na entrevista que concedeu à Radis, a secretária avalia que a iniciativa também traz retorno econômico ao município, já que diminui a procura por serviços de saúde na zona urbana. (leia entrevista clicando aqui).

Parte do sucesso do projeto é visível quando se vê a UBSF que está atracada em Turé: uma balsa motorizada de três andares, que abriga no convés principal três consultórios (um médico, um odontológico e um de enfermagem), uma sala de imunização e outra para procedimentos, um laboratório de exames clínicos e uma farmácia, além de banheiros e um ambiente para recepção dos usuários. No andar de cima, junto à sala de comando da embarcação, seis camarotes abrigam os 15 profissionais de saúde e seis tripulantes que há cerca de 20 dias navegam pelos rios Tefé e Curumitá.

Estão no fim da viagem. A comunidade mais distante, Vila do Moura, de onde partiram para esta viagem, fica a 36 horas de barco dali. De lá até aqui, foram visitadas 19 comunidades e atendidas cerca de 1.400 pessoas. Turé é a última escala de viagem, antes da balsa retornar à sede do município. À sombra da imponente samaúma que se destaca na paisagem de Turé, a agente comunitária Sandriely Oliveira Moraes está à espera dos profissionais da UBSF.

Como acontece em todas as localidades, parte da equipe vai à terra firme para um primeiro contato, onde conferem a seleção de pacientes feita pelo ACS, conversam com as lideranças, visitam algumas casas, organizam os atendimentos, conferem as carteiras de vacinação e dão orientações gerais sobre questões de saúde.

As atividades são registradas em relatório, inclusive demandas apresentadas por moradores. Entre as ações realizadas na viagem de janeiro, que foi integrada com a coordenação de endemias, constam no relato da equipe visitas domiciliares com a equipe multidisciplinar, orientações sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) e verminoses, distribuição de escovas de dentes e atualização vacinal, entre outras ações.

Além disso, também estão apontados no documento encaminhamentos para consultas eletivas — na cidade — e o acompanhamento de todos os programas da Atenção Básica. Todas estas informações permitem que o gestor municipal tenha um retrato atualizado sobre o que acontece em cada uma das localidades, incluindo o número de casos positivos de exames para determinadas ISTs, como HIV e sífilis, de doentes de malária e tuberculose, a quantidade de hipertensos e diabéticos, bem como de mulheres cadastradas no acompanhamento de pré-natal; são produzidos ainda dados sobre a saúde bucal, o programa de imunização e os exames laboratoriais feitos na embarcação.

Em Turé, onde vivem 34 famílias e cerca de 100 pessoas, o ponto de encontro entre a equipe da UBSF e a comunidade é uma mesa, colocada bem à frente da grande árvore que se destaca na paisagem. Os moradores já inscritos por Sandriely para o atendimento aguardam as orientações da equipe, e depois são levados à unidade em grupos — idosos, gestantes, crianças e pacientes mais graves têm prioridade.

Andrea e seus meninos estão no grupo prioritário: “Melhorou muito depois da vinda da balsa. Antes, eu tinha que vir do igarapé onde moro até aqui, para daqui ir a Tefé tentar uma consulta”, conta à Radis, enquanto afaga os cabelos de Maria de Fátima, a filha de dois anos que está no colo e presta atenção na conversa.

Já na UBSF, a família se junta a outros usuários na recepção. Quase todos vão se consultar. Ela quer que o médico examine a pele da Maria de Fátima, que vem se queixando de coceira; também espera a opinião dele sobre exames feitos no pequeno Artur, de quatro anos, que recentemente esteve com “a barriga empedrada”; Maria Luiza, de nove, precisa ir ao dentista; Camila, com 13, veio para ajudar a cuidar dos irmãos enquanto a mãe passa pelo exame ginecológico preventivo.

Na recepção, as técnicas de enfermagem Jaciara Damasceno Barão e Isabely Lopes da Silva se dividem nas atividades de acolhimento e triagem dos pacientes. “Precisamos organizar o fluxo, conferir os dados e explicar a eles como funciona a seleção das prioridades”, explica Jaciara. “A espera é um desafio para eles”, complementa Isabely, enquanto anota pesagem, altura e pressão de quem aguarda consulta.

Do outro lado da porta, a movimentação nos consultórios é tranquila. Turé é uma comunidade pequena e fica relativamente próxima da sede do município — cerca de duas horas de viagem em um barco pequeno — o que se reflete no menor número de atendimentos. Mesmo assim, são muitas as lembranças negativas dos moradores sobre as dificuldades de acesso aos serviços de saúde, antes da vinda da UBSF.

Além da falta de comunicação (telefones celulares não têm cobertura e não há sinal de internet na região), que os obrigava a se deslocar para a sede do município diante de qualquer necessidade de saúde, os atendimentos feitos pelas equipes que os visitavam tinham outras limitações, como lembra a ACS Sandriely: “A unidade fluvial aumentou o número de serviços e trouxe privacidade para as pessoas”, destaca. Ela informa que muitos usuários — principalmente mulheres — reclamavam de consultas e exames realizados em centros comunitários, escolas ou até ao ar livre. Em muitos lugares, usuários ficavam expostos ao olhar de curiosos durante os procedimentos, dada a falta de um local adequado para o trabalho.

Fotografia: Adriano De Lavor.

Andrea Barbosa Ribeiro e os filhos Camila, Maria Luiza, Artur e Maria de Fátima (no colo): exames, médico e dentista na mesma oportunidade

Parada em Piraruiaia

A tranquilidade que se observa na UBSF, no entanto, também é reflexo da boa organização da equipe, que se prepara para atender às demandas da comunidade. Nem sempre é possível resolver todos os problemas, mas é fundamental se organizar e estar aberto ao diálogo, explica o enfermeiro Rodrigo Cunha Lopes, um dos responsáveis pela Equipe de Saúde da Família Fluvial (ESFF) da zona 21, que está a bordo. Na conversa que promoveu no dia anterior, quando ainda estavam na comunidade de Piraruaia, ele ouvia e respondia pacientemente questionamentos de moradores, enquanto os colegas aplicavam vacinas e conferiam cadernetas.

Piraruaia, uma das maiores comunidades da zona 21, abriga 215 moradores, divididos em 43 famílias. Para aquela visita da UBSF, a agente comunitária Julcicleia dos Santos Nogueira havia inscrito 40 pessoas para atendimento médico e 21 para o consultório odontológico. Ao chegarem ao local, a enfermeira Andreza D´Ávila Ferreira Merinho (também responsável pela equipe) e a assistente social Pollyana Torres de Lima circularam pelas casas convocando as pessoas para o centro comunitário, onde aguardavam Rodrigo e o médico da equipe, Jonathan Souza Lima.

“O papel do assistente social é contribuir com a equipe na relação entre a comunidade e a unidade, seja no agendamento de consultas, seja na remoção de pacientes para a cidade, seja na explicação sobre o que é e como funciona o SUS”, esclarece Pollyana, destacando a importância da parceria entre os profissionais da ESFF com os agentes comunitários de saúde: “São importantíssimos para o nosso trabalho; sem eles não saberíamos onde estão os problemas”, resume. Rodrigo confirma o que diz Pollyana: para ele, os ACS são “os olhos da equipe dentro da comunidade”.

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Andreza Merinho, enfermeira, em atendimento na UBSF.

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Jonathan Souza Lima, médico, em atendimento na UBSF.

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Rodrigo Cunha Lopes, enfermeiro, em atendimento na UBSF.

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A assistente social Pollyana Torres de Lima convoca os moradores de Piraruaia para uma conversa no centro comunitário

Há dois anos escolhida pela comunidade para atuar na função de Agente Comunitária de Saúde, Julcicleia conta à Radis que divide seu tempo entre as tarefas de dona de casa e as visitas regulares aos domicílios, onde faz busca ativa de malária, realiza o mapeamento de hipertensos e diabéticos e dá orientações aos comunitários, entre outras atividades. Ela conta ainda que há cerca de dois anos Piraruaia foi assolada pela malária, mas que graças à formação que recebeu e à agilidade na detecção e no tratamento de novas infecções, o número diminuiu de 30 casos para praticamente zero.

No centro comunitário, enquanto Rodrigo explica a dinâmica de atendimento e Jonathan justifica a falta de alguns medicamentos, idosos se aproximam, mulheres acalmam crianças assustadas com a vacina, homens observam à distância. “Hoje trataremos as demandas prioritárias: hipertensos, diabéticos, idosos, gestantes, crianças de colo e pessoas que estejam com febre há mais de quatro dias; o restante fica para o dia seguinte”, explica Rodrigo. “A atenção básica trabalha com a equidade, temos que priorizar quem tem mais dificuldades, dar mais a quem está mais distante”, diz à Radis.

Em um pequeno barco, os primeiros usuários são levados à unidade fluvial, entre eles as idosas Nazaré Silva, 77 anos, e Maria José Rodrigues, 72. Maria José reclama de dores nas pernas e relata que precisa de remédios para pressão e para controle da diabetes. Ela conta que nasceu em Caranari e foi morar em Piraruaia quando os filhos ainda eram pequenos; hoje, eles estão casados e ela mora sozinha. Para dona Maria José, a UBSF é de grande ajuda, principalmente por não ter que se deslocar até a cidade para receber os medicamentos que toma regularmente.

Ao seu lado, já na recepção da unidade, também estão Leone, 6 anos, sua irmã Leandra, 4, e a mãe Daiane Santos da Silva, grávida de seis meses. Todos já foram vacinados e aguardam atendimento com a dentista. Daiane vai aproveitar a oportunidade para começar o pré-natal. “Hoje eu tenho mais facilidade de levar as crianças a uma consulta; antes, saía daqui às 3 da madrugada e muitas vezes nem conseguia”, relata, já no consultório odontológico.

Leone não aparenta medo e logo deita na cadeira, pronto para ser tratado pela dentista Deize Araújo de Castro, que com jeito explica que vai usar o motor para “tirar o bichinho do dente”. Ela aproveita a consulta para orientar a família sobre a importância da escovação, alertando que a maioria dos casos que chegam até ela é de pessoas que descuidam da higiene bucal.

À Radis, a dentista conta ter atendido, durante a viagem, uma criança com apenas três anos e todos os dentes cariados. Para ela, a responsabilidade é sempre dos pais, razão pela qual ela e os assistentes Deinis da Silva Lacerda e Franklin Meireles Rocha também realizam palestras educativas — uma das atividades realizadas logo que a UBSF chega à comunidade — e distribuem e ensinam a usar escovas de dentes. “A falta de escovação reflete a falta de condições de comprar creme dental e escova de dentes e a falta de orientação sobre a importância dessa ação de higiene na prevenção das cáries”, avalia a profissional.

Fotografia: Adriano De Lavor.

Barco faz o traslado dos usuários prioritários, como Nazaré Silva, para a UBSF

Fotografia: Adriano De Lavor.

A dentista Deize Araújo de Castro e o assistente Franklin Meireles Rocha atendem Leone Santos da Silva, 6 anos: falta de escovação ainda é um problema

Pausa para um café

A equipe da UBSF trabalha em ritmo constante, como em qualquer outra unidade básica de saúde. Mesmo nos intervalos feitos para a alimentação, os profissionais não deixam de se envolver nas questões ligadas ao trabalho. É tarde de domingo e, no andar de cima da embarcação, eles se revezam no refeitório, que também faz as vezes de sala de reuniões.

Ao lado da mesa, onde estão permanentemente duas garrafas de café e um pote com farinha do Uarini, famosa iguaria produzida no município vizinho que lhe dá nome, a ACS Julcicleia conversa com Dolly Deane Sá, administradora da embarcação, enquanto almoçam Jonathan, o técnico de enfermagem Liandrisson Lemos Pereira, o biomédico Ruan Azevedo e o técnico de análises clínicas John Santos.

A TV ligada acima da mesa de refeições exibe um telejornal esportivo, mas não desperta a atenção de quem está ali. Difícil concorrer com o cardápio montado pela cozinheira Sueli de Oliveira, com frango cozido, peixe fito e vatapá. O clima é de descontração, mas dura pouco. Na tela, a chamada para a estreia de um reality show também é ignorada pelo grupo, que logo volta aos postos de trabalho — no andar de baixo, uma emergência aguarda a orientação do médico, que considera a experiência também importante para o planejamento da assistência à saúde na região.

“As nossas primeiras viagens estão trazendo para nós dados que nos permitirão planejar ações mais específicas e entrar com mais objetividade dentro das comunidades”, avalia. Em conversa com a reportagem, ele disse acreditar que, em um futuro próximo, será possível se organizar e conhecer melhor as comunidades, descobrir o que necessitam e ser mais objetivo e ter controle dos pacientes que precisam de acompanhamento, e dar seguimento ao tratamento. (Leia entrevista no site da Radis).

Fim do almoço, o médico desce para um atendimento, enquanto Ruan e John se dirigem ao laboratório, onde explicam seu trabalho: hemograma completo, glicose, parasitológico de fezes, Beta HCG (teste de gravidez) e VDRL (para diagnóstico de sífilis), entre outros exames, são realizados e entregues em pouco tempo, de acordo com o pedido do médico ou da enfermagem. “Nosso trabalho contribui muito com o diagnóstico clínico”, acentua Ruan, destacando a boa estrutura da UBSF e a vantagem de estar próximo do profissional que solicita o exame. “É bom porque podemos tirar dúvidas e o resultado fica pronto rápido”, destacou.

Na sala ao lado, a técnica de enfermagem Crislene da Silva Cardoso organiza as vacinas disponíveis, e explica que mesmo quem não tem cartão vacinal é imunizado durante as visitas da UBSF. “É difícil encontrarmos pessoas que estejam com todas as vacinas em dia”, relata, lembrando de uma situação em que teve que segurar uma criança para que tomasse de uma vez todas as que estavam atrasadas. “A gente não pode ter pena das crianças, mas aquele sofrimento me marcou muito”, relembra.

É fim do dia e os consultórios estão vazios, depois de um dia movimentado de trabalho. No refeitório, a TV segue ligada com o sinal intermitente, como se acompanhasse a ondulação do rio; Crislene descasca um tucumã para acompanhar uma xícara de café, enquanto um pequeno grupo organiza secretamente uma comemoração surpresa de aniversário. Da amurada, vê-se uma família que desce da balsa e embarca no pequeno barco, a caminho de casa.

Na cabine de comando, o técnico de enfermagem Liandrisson Lemos Pereira, aniversariante do dia, dedilha um sucesso sertanejo no violão, sem suspeitar da comemoração surpresa que está sendo preparada pelos colegas. Pouco depois, se junta ao restante da equipe, já reunida no andar de baixo, sob o pretexto de que haverá uma reunião. Parabéns cantados, bolo cortado e fotos feitas no celular, ele desabafa, emocionado, sobre sua experiência na UBSF: “Nosso trabalho é muito gratificante”, diz ele, acentuando a possibilidade de conviver com profissionais de outras formações e aprender, enquanto trabalha.

Cai a noite no Brasil profundo, e a Amazônia que fica longe das capitais se mostra em seu esplendor. Diante do cenário, a médica de família Janaína de Oliveira agradece a oportunidade de estar ali. “A saúde me deu muito mais o direito de ir e vir neste país do que qualquer status que muita gente pode sonhar”, diz. Longe de casa, a pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB), que acompanha a viagem como parte do trabalho de campo que desenvolve no curso de mestrado em Epidemiologia e Controle de Doenças Infecciosas e Parasitárias na Universidade de Brasília (UnB), não se contentou em somente observar o trabalho dos colegas e contribuiu no atendimento.

“O que eu achei mais interessante aqui foi perceber que o paciente tem oportunidade de ser atendido em tudo num só momento”, avalia. Para ela, isso é o que deveria ser feito em qualquer unidade básica tradicional. Ela citou como exemplo a rotina de uma gestante que acessa a UBSF: “Se chega hoje na balsa e faz a abertura de pré-natal ou está na segunda ou terceira consulta, ela já faz todos os exames da rotina de pré-natal e sai com os resultados normais ou algum diagnóstico”, explicou.

De volta pra casa

No dia seguinte, de manhã cedo, é grande a movimentação na UBSF, com a chegada de mais um grupo de usuários de Piraruaia, que já aguarda na recepção da unidade. Consultórios ocupados, Liandrisson faz o procedimento de testagem rápida para HIV e hepatites B e C em Lázaro Pantoja Santana, a pedido do médico. Eles têm que desocupar a sala de procedimentos logo em seguida, quando Jonathan e Rodrigo solicitam o espaço para atender José Rodrigues da Silva, que sofreu um acidente enquanto cortava lenha.

“Ainda bem que a unidade estava aqui, senão eu teria que esperar para costurar em Tefé”, disse à Radis, enquanto era examinado. Os profissionais se preparam para fazer a sutura do corte, que também arrancou parte da unha do agricultor. “Quem trabalha numa UBS fluvial tem que estar preparado, porque acontece de tudo”, comenta, tranquilo, Jonathan.

Fotografia: Adriano De Lavor.

O técnico de enfermagem Liandrisson Lemos Pereira faz o procedimento de testagem rápida para HIV e hepatites B e C em Lázaro Pantoja Santana, na sala de procedimentos da UBSF

No consultório vizinho, a dentista Deize faz força — literalmente — para extrair um dente de Izaquiel Bacelar, que se queixa de dores há uma semana. “Nem comia quente nem frio”, recorda ele, já orientado para somente puxar o fio solto da linha que segura os pontos após sete dias. “O analgésico é para tomar hoje, mas o senhor não deve fazer esforço nos primeiros dias”, recomenda a profissional.

Pouco depois, Izaquiel está na farmácia, onde recebe o remédio das mãos de Kerolaine Vieira, técnica de enfermagem responsável pela entrada e saída de medicamentos na UBSF. Ela informa que, além de entregar os remédios aos usuários, ela gerencia receituários e atualiza o sistema de estoque. Kerolaine ressalta que, naquele momento da viagem, a quantidade já é menor, mas ainda tem disponíveis antibióticos e remédios para infecção. “São muito comuns as verminoses, já que muita gente bebe água que não é tratada”, revela.

Do corredor, é possível ver a equipe em sintonia. Enquanto aguarda mais uma gestante para exame preventivo, a enfermeira Andreza adianta a produção de um relatório com as informações sobre a viagem. Ela e Rodrigo são responsáveis pelo documento, onde são registrados o número de atendimentos, as atividades realizadas nas comunidades e os insumos utilizados, além de ocorrências extraordinárias — como, neste caso, a remoção do técnico de enfermagem Fabrício dos Santos, que foi levado às pressas à sede do município, com suspeita de problemas cardíacos.

No último dia da viagem, após o fim do atendimento em Turé, Andreza e Doli organizam uma reunião onde fecham os últimos dados para o relatório e organizam o barco para a entrada de uma nova equipe, que embarcará dia 24, rumo a outra região do município. “Uma das maiores dificuldades do nosso trabalho é ficar tanto tempo longe da família”, desabafa Rodrigo, já na proa da embarcação, enquanto os colegas estão todos com o celular nas mãos, testando chips e mudando de posição, em busca de algum sinal de internet que os possibilite ter notícias de casa. Depois de duas semanas sem comunicação alguma com os parentes, a voz do filho, da namorada ou da mãe são motivo de alegria para quem consegue.

Com a noite escura a emoldurar os fachos de luz que o próprio barco lança à frente, a UBSF atravessa o Lago de Tefé e já se aproxima a cidade. A tripulação se tranquiliza por não estar chovendo, já que a navegação por ali pode se tornar perigosa em caso de tempo fechado, e se certifica de fazer um percurso que também garanta a segurança de pequenos barcos, quase invisíveis nas águas da noite.

Os profissionais brincam e trocam ideia sobre os dias de folga que virão. Estão cansados, mas empolgados. Diante das luzes que salpicam nas margens do rio e emolduram a vista do porto e do novo mercado, muitos comemoram a conexão restabelecida nos celulares. “Oi, mãe, estou chegando!”, ouve-se no convés. A espera deles para chegar em casa também acabou.

Fotografia: Adriano De Lavor.

Parte da equipe de saúde e da tripulação reunida, após um dia de trabalho: convivência de comprometimento em quase 20 dias sem comunicação com as famílias