Radis Comunicação e Saúde

Tempo de leitura: 2 - 4 minutos

A professora que se tornou a primeira vereadora quilombola de Orocó (PE)

Umburana é uma das cinco comunidades que compõem o território quilombola Águas do Velho Chico. De lá até a cidade de Orocó são 20 quilômetros que Jacielma Silva dos Santos vai percorrer para chegar à Câmara de Vereadores. Com 440 votos, foi eleita a primeira parlamentar quilombola da história do município, ampliando também a representatividade negra e de mulheres na casa. “Fui pega de surpresa”, diz ela. “Mas no momento que escolheram meu nome, eu já sabia que não fugiria à luta, porque a luta, para mim, é uma forma de libertação, uma maneira de gritar por nossos direitos”. 

Elas.

Em seu mandato que começa agora, promete fazer “um trabalho coletivo e de escuta”. “Vamos ouvir as demandas e descobrir juntos o que podemos construir e o que não podemos”.Professora Jacielma, como é mais conhecida na região, ainda está emocionada ao falar com a Radis, um mês depois das eleições de 15 de novembro, lembrando de toda a trajetória do seu povo – que há pelo menos um século se instalou às margens do rio São Francisco, mas que teve sua história desconhecida até 2005, quando, a pedido do bispo local, os quilombolas começaram a construir um Livro de Tombo que lhes revelou as origens.

“Sentamos com nossos avós e pessoas mais velhas para ouvir a nossa história”, conta. “Devido ao racismo e ao preconceito, durante muito tempo, a gente escutou que ‘negro não presta’. Mas era chegada a hora de saber tudo sobre aqueles e aquelas que lutaram e deram a vida para que a gente conseguisse dizer em voz alta, hoje, quem a gente é”.

Bandeiras

Negra, 45 anos, um filho de 10, professora da rede pública, filiada ao PT, ela esteve em muitos dos momentos recentes que culminaram com o reconhecimento oficial do território quilombola por parte da Fundação Palmares, em 2009.

Além de trabalhar arduamente no levantamento histórico do quilombo Águas do Velho Chico, também ajudou a garantir e pôr em funcionamento uma escola que acabou legitimada internacionalmente como a primeira escola quilombola do Projeto da Rede de Escolas Associadas da Unesco (PEA). “Mas eu comecei na base, como animadora de comunidade e em grupos de jovens”, recorda. “Cada vez mais, queremos mostrar que temos sangue quilombola. E quilombo é lugar de organização e luta. Não somos um povo que se amordaça”.Na campanha, professora Jacielma surpreendeu. Ela contou com o apoio do projeto A Tenda das Candidatas – que fez um trabalho de formação política para mulheres e acompanhou 10 candidatas pelo país, dando assistência jurídica e de comunicação de forma voluntária. Selecionada em uma entrevista, professora Jacielma comemora o resultado. “Nossos adversários diziam que eu não conseguiria me eleger porque não tinha dinheiro para ‘comprar votos’”, diz. “Fizemos uma campanha bonita, coletiva, de escuta. Hoje, eles reconhecem a minha justa vitória”, relata.

Em Pernambuco, foram eleitos sete quilombolas para o cargo de vereador, todos de municípios e territórios diferentes – duas mulheres. Ano passado, o estado aprovou as diretrizes curriculares para educação quilombola e essa é uma das bandeiras que professora Jacielma leva para a Câmara. Vai lutar ainda por projetos de agricultura familiar, creches, hospitais, mais escolas. Defender o SUS e a garantia do direito à saúde. “Ainda mais neste momento de pandemia”, acrescenta. Sabe que no espaço institucional encontrará barreiras, mas não se intimida. “Não quer dizer que eu vá ficar travada nessa outra realidade. Vou em busca de consenso e diálogo e de estratégias para resolver os conflitos. Foi assim que cheguei até aqui”.