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Fotografia: Arquivo pessoal.

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Tema tabu, comportamento suicida deve ser debatido em seus múltiplos contextos para ser evitado, indicam especialistas

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“Domingão foi dia de rabiscar uns corações!”, postou o artista visual Samuel Freiria em suas redes sociais, mostrando as imagens coloridas do banheiro da Escola Estadual Maria Pia Silva Castro, em Franca, interior de São Paulo. Samuel tinha passado parte de seu fim de semana pintando portas e paredes onde tinham sido escritas frases de tristeza, solidão e que expressavam comportamento suicida. Em vez de apenas cobrir o que estava aparente, o artista dialogou com as mensagens e fez da arte um caminho para chegar às garotas anônimas. À pergunta escrita na parede: “Se todo mundo desiste de mim, por que eu não posso?”, ele respondeu com empatia: “Porque você é especial para alguém”. Onde se lia “A conexão humana anda sem sinal”, completou de forma direta com “Reinicie”.

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Na porta de um banheiro, a frase “Depressão não é frescura” lembrava um dos temas utilizados na campanha Setembro Amarelo, de prevenção ao suicídio. O resultado surpreendeu o artista. “Abrimos espaço para quem quiser desabafar ou deixar uma palavra de apoio, anônimo e sem julgamentos. Às vezes uma palavra ou ouvido na hora certa pode ser um conforto para quem precisa”, escreveu Samuel, em seu perfil no Facebook. O post fez sucesso. No início de outubro, tinha 100 mil reações e 130 mil compartilhamentos, e inspirou iniciativas em outras escolas em São Paulo e Salvador. Em um vídeo publicado no YouTube, lara Stefani, aluna da Maria Pia, resumiu a emoção ao encontrar o banheiro redecorado. “É incrível, a gente sai de lá sorrindo. A depressão anda pegando muito principalmente nessa fase da adolescência”, disse a estudante ao canal Só Notícia Boa.

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Maria Pia corrobora as informações da Organização Mundial da Saúde (OMS), que considera o suicídio um grave problema de saúde pública, sendo responsável por 800 mil mortes anuais. Para se ter ideia, o número equivale a uma morte a cada 40 segundos no mundo, o que é menos do que o tempo que você levou para chegar até este parágrafo. Uma informação importante trazida por pesquisa da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) é que mais de 80% dos países em todo o mundo reduziram as taxas de suicídio. O Brasil não está entre eles (Radis 193). Os especialistas apontam que é preciso abrir cada vez mais portas para debater o suicídio.

Foi com essa intenção que a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz) promoveu o encontro “Falar é a melhor solução: Setembro Amarelo” para abordar as questões específicas do comportamento suicida nos diversos ciclos da vida, na formação médica pediátrica e entre indígenas. Promovido em 5 de setembro, em meio às comemorações dos 65 anos da escola, o encontro reuniu pesquisadores e profissionais de saúde que atualizaram os números sobre o suicídio no país e reafirmaram a certeza de que é preciso investir em programas de prevenção e desenvolver estratégias variadas de intervenção, como você verá no decorrer desta reportagem.

O artista visual Samuel Freiria dialogou com mensagens que expressavam tristeza e solidão deixadas nas paredes de um banheiro de escola no interior de São Paulo
CRIANÇAS E ADOLESCENTES

DEPRESSÃO E AUTOLESÃO

Radis206 joviana quintes avanciJoviana Quintes Avanci, pesquisadora do Centro LatinoAmericano de Estudos de Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Fiocruz), adverte que para a maior parte da população o suicídio ainda é um assunto tabu e, quando envolve crianças, torna-se mais delicado e cheio de interrogações. “O suicídio é marcado pela intencionalidade e é difícil entender como uma criança pode desejar e conseguir se matar. Mas embora seja um evento raro, acontece”, frisou. Segundo Joviana, o diagnóstico é difícil pois a infância costuma ser vista apenas como uma fase lúdica e de alegria. Como há sub-registro e má classificação, a identificação dos casos é rara. Durante o evento na Ensp, ela deixou um recado para os profissionais de saúde: “É preciso estar atento, pois aproximadamente metade dos acidentes envolvendo crianças podem ser tentativas mascaradas de suicídio”.

Joviana lembrou que, entre 2006 a 2011, ocorreram 1.199 internações por tentativa de suicídio de crianças entre 5 a 9 anos; de 2012 a 2017, foram 795 internações. A maior parte dos casos envolve meninos e acontece nas regiões Norte e Sudeste. Depressão, privação emocional, falta de afeto e abuso físico e sexual foram apontados pela pesquisadora como principais fatores de risco que levam ao suicídio infantil. Joviana recomendou que os profissionais de saúde tenham atenção para que consigam intervir a tempo de forma preventiva. “A intervenção é crucial para que esse comportamento não se estenda a outras fases da vida”, disse.

A adolescência é uma fase que tem apresentado aumento significativo no número de casos de suicídio. De acordo com informações da OMS, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre pessoas de 15 a 29 anos e a terceira causa de morte entre adolescentes. Levantamento da Unifesp revelou também que, entre 2006 e 2015, as taxas de suicídio entre adolescentes que vivem nas principais capitais brasileiras aumentaram 24%, sendo que a chance de um adolescente do sexo masculino tirar a própria vida é até três vezes maior do que uma adolescente mulher. “O suicídio nunca vem sozinho. Ele envolve uma série de autoagressões que vão desde ideação, ameaças, tentativas e atos suicidas”, salientou.

Joviana observou que a adolescência, tradicionalmente, é uma fase cheia de sonhos, mas também de luto e sofrimento, sentimentos que podem estar mais exacerbados do que em outros momentos da vida. A pesquisadora advertiu ainda que a fase de transição da infância para a adolescência, complexa sob o ponto de vista do desenvolvimento psíquico, deixa os adolescentes mais vulneráveis. Segundo ela, em relação ao suicídio, é sempre importante levar em consideração as características de desenvolvimento de cada idade. “Há uma série de fatores individuais, familiares e sociais que levam à autolesão e ao suicídio”, afirmou. Entre eles, ela destacou a negligência, as agressões físicas e psicológicas, a má convivência entre pais e responsáveis e a violência sexual. Joviana explicou que famílias com dificuldades para enfrentar desafios e menos coesas, com pouca comunicação e expressão de sentimentos, e também aquelas onde há abandono afetivo intergeracional, entre outros fatores, estão mais vulneráveis a ocorrência de casos.

Sobre a relação entre suicídio e internet, a pesquisadora reconheceu que os adolescentes buscam apoio nas redes, compartilham experiências e expressam o que sentem, mas também alertou que na rede eles também aprendem formas de se matar ou de cultuar o sofrimento, como ocorre na exposição pública de autolesões. “A solidão, a raiva e a disforia são elevadas antes do comportamento de autolesão deliberada. O jovem que se autolesiona e apresenta ferimentos graves, não tem a intenção de se matar: este é o caminho para aliviar emoções muito fortes e diminuir a tensão. É preciso entender que há também prazer pela estética do ato”, assinalou. A pesquisadora observou que há uma relação inversa em relação à exposição de conteúdos favoráveis à autolesão e ao comportamento suicida. “Quanto maior a exposição menor será a percepção de bem-estar. Por isso é preciso prestar atenção no uso de mídias sociais e seu impacto no comportamento dos jovens”, recomendou.

MÉDICOS PEDIATRAS

DISTANTES DO PROBLEMA

Orli Carvalho, pediatra e psiquiatra da Infância e Adolescência do Instituto Nacional de Saúde do Mulher, da Criança e do Adolescente (IFF/Fiocruz), observou que o suicídio é um tema ausente nas aulas e sessões clínicas da formação médica do pediatra. Orli pesquisou a temática em seu mestrado, quando investigou a percepção e o conhecimento de médicos residentes em pediatria no Rio de Janeiro sobre o comportamento suicida na infância e na adolescência. O pesquisador constatou a existência de uma visão mais conservadora e arcaica diante de um triplo tabu expresso pelos jovens médicos entrevistados: o do suicídio em si, o da morte e o do suicídio na infância e na adolescência. “O pediatra não é treinado para lidar com a morte. Para mim, é evidente que o tabu da morte se antecipa ao tabu do suicídio. Se não é possível discutir a morte com alunos, não dá nem para pensar em discutir suicídio”, indicou.

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O médico lembrou que 11 mil pessoas tiram a própria vida no Brasil por ano, em média, sendo o suicídio a oitava maior causa entre mulheres na faixa etária entre 15 e 19 anos. Apesar do elevado número de casos, a investigação registrou baixa exposição e desinteresse dos alunos pelo tema e desconforto dos médicos diante da abordagem do suicídio. O pesquisador observou também que o senso comum prevalece em relação aos conceitos médicos quando se trata do suicídio. “Nas entrevistas, as experiências e vivências pessoais assumiram espaço maior que o conhecimento adquirido por esses profissionais. O programa de residência médica não foi capaz de introduzir a temática do suicídio e discutir o assunto com seus residentes”, revelou.

O pesquisador afirmou, ainda, que, ao mesmo tempo em que a medicina se coloca como responsável pela vida, ela nega alguns tipos de mortes, como aquela motivada por suicídio. Segundo ele, crianças a partir dos oito anos de idade já compreendem o que é a morte e podem tentar o suicídio. “O acesso aos meios é um fato consumado para o ato. É difícil pensar que a ‘criança alegria’ sofre e quer desistir da vida. Na ausência de uma lesão, é difícil precisar um quadro clínico”, garantiu. Por essa razão, ele recomendou que o assunto não deve ser exclusividade da saúde mental. “Suicídio não é assunto apenas para os médicos da saúde mental. Ele é transversal e deve ter atenção de todos profissionais de saúde”, defendeu.

No seu estudo de mestrado, Orli buscou ainda entender como os conhecimentos adquiridos por meio da cultura, incluindo a mídia, influenciam a percepção dos pediatras sobre o suicídio. Segundo ele, os médicos residentes tendem a considerar o comportamento suicida entre adolescentes resultado de “influências negativas” e reagem às formas de autoagressão reproduzindo conflitos de geração, o que faz com que responsabilizem o uso da internet e o mundo virtual. “É um engano dizer que as mídias são um fator de risco e não assumir que elas podem se constituir em fator de proteção. Nós estamos vendo que apenas vetar o uso desses dispositivos não tem sido suficiente para pensarmos em ações de prevenção”, argumentou.

IDOSOS

ANTECIPAÇÃO DO FIM

Cecília Minayo, pesquisadora da Fiocruz e coordenadora científica do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/ENSP), escolheu um título sugestivo “Por que antecipar o fim?” para tratar do suicídio entre idosos. “O suicídio tem que ser pensado como parte da vida e não como ato de morrer e o que significa enquanto morte”, recomendou. Para ela, há questões psicossociais na vida dos idosos que precisam ser analisadas, já que nem sempre as mudanças no corpo, nas funções sociais, nos compromissos, nas atividades e no sentido da vida são bem compreendidos por quem chega a essa faixa etária. “Se a pessoa chegar em um momento em que a vida não faz sentido, tende a acabar com ela. Suicídio é fruto do sofrimento. Precisamos investigar o que tem de social em relação à mortalidade”, disse a pesquisadora.

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Cecília citou estudos realizados com idosos que mostram que eles manifestam “pensamentos de morte”, “desejos de morrer”, “cansaço de viver”, “falta de sentido da vida” e “tristeza com o rumo atual da própria existência”. “Tudo isso pode ou não levar ao suicídio”, afirmou. No entanto, a pesquisadora salientou que há pessoas mais vulneráveis: “Esse não é um caminho linear, mas quem tem muita ideação suicida e planeja se matar é um forte candidato ao suicídio”, observou.

Ela ressaltou também a importância do contato humano e do suporte social para que os idosos não coloquem em risco sua vida. “Os cuidados mais exitosos são os que têm adesão do próprio idoso, da rede familiar, comunitária, religiosa e o apoio de profissionais e serviços de saúde. A capacidade ou possibilidade de interação social é um dos mais relevantes elementos de prevenção do suicídio neste grupo social. Quanto mais diversificada for a rede que os apoia, melhor o amparo e a reconstrução das vidas em risco”, salientou.

A pesquisadora também chamou atenção para comportamentos que podem indicar tentativas de dar cabo à vida: o descuido com a medicação e em se cuidar, a colocação em ordem dos pertences ou dos haveres, o desinteresse pelas coisas da vida, a busca súbita de alguma religião ou igreja, frequentes visitas ao médico com sintomas vagos devem servir como alertas aos familiares e cuidadores. “Em alguns países, como os Estados Unidos, a compra de arma por um homem idoso é um forte sinal de que ele esteja pensando em suicídio”, explicou.

Cecília apresentou um estudo realizado em 13 países europeus que mostra que as taxas médias de suicídio entre pessoas com mais de 65 anos nessas sociedades chegam a 29,3% em cada 100 mil e as de tentativas de suicídio a 61,4%, em cada 100 mil. Segundo ela, há forte concentração de suicídios em cidades pequenas onde a interação social é menor. Neste aspecto, ela advertiu que os suicídios são extremamente subnotificados e as tentativas de suicídio mais ainda. São problemas tabus e as famílias não querem falar sobre isso”, argumentou.

A pesquisadora comentou, ainda, que os transtornos mentais estão fortemente relacionados com suicídios em pessoas idosas. Segundo ela, há estudos que mostram que 70% a 95% das pessoas idosas que cometeram suicídio possuíam diagnóstico de algum transtorno mental por ocasião de sua morte, entre eles: melancolia e depressão; rigidez na forma de ver a vida; obsessão; e abuso de álcool ou outras drogas. Sobre a prevenção, ela enfatizou que é preciso dar atenção particular aos mais velhos e dependentes. “Temos de nos perguntar porque a pessoa deprimiu”, salientou.

INDÍGENAS

DESIGUALDADE QUE MATA

O pesquisador Jesem Orellana, do Instituto Leônidas & Maria Deane (Fiocruz Amazônia), apresentou dados que revelam um padrão de mortalidade por suicídio maior entre indígenas no país. Segundo ele, a maior parte dos casos está concentrada no Centro-Oeste. “Há centenas de registros e o problema parece estar se agravando entre jovens de regiões do Tocantins e Mato Grosso do Sul, mas também do Amazonas e Roraima”, observou. Ele apontou que “em geral, são jovens de 15 a 24 anos, residentes em terras indígenas, e crianças de 10 a 14 anos, grupo pouco compreendido”. Informações do Boletim Epidemiológico de 2017, do Ministério da Saúde, corroboram os dados, colocando adolescentes indígenas — entre 10 e 19 anos — como grupo de maior risco para o suicídio.

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Ao comparar as taxas de suicídio entre indígenas e não indígenas da região Centro-Oeste, o pesquisador apontou que houve aumento de 20% na ocorrência de casos entre 2012 e 2017, enquanto que entre os não-indígenas o percentual foi de 6,3% — com redução de quase 2%. Segundo ele, para esse grupo o risco é 18,5% mais alto do que entre a população não-indígena, estando os casos concentrados nas áreas de reserva ocupadas pelos Guarani-Kaiowá e Guarani-Nandeva.

De forma urgente, o pesquisador indicou que devem ser realizadas ações de prevenção e promoção da saúde entre o grupo afetado, que considerem o contexto geopolítico, de ocupação e posse do território, bem como aspectos socioculturais. Ele também sugeriu que sejam criados conselhos comunitários, incluindo indígenas, trabalhadores de saúde e especialistas no tema; o aumento da cobertura, transparência e qualidade dos dados de suicídio; e a vigilância nacional de suicídio, mas com planos e metas específicas de acordo com a região de interesse e em janelas de oportunidade, como diante das tentativas e ideação suicida, ou após o ocorrido com os familiares e rede de contato da vítima.