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Estudantes criam Frente de Saúde Mental, com campanhas sobre o sofrimento psíquico no ambiente acadêmico

“Não é normal que a faculdade se torne um gatilho para ansiedade”. “Não é normal pensar todos os dias em desistir do curso dos seus sonhos”. Essa foi a maneira que um grupo de estudantes encontrou de chamar a atenção para um assunto alarmante e pouco discutido: a saúde mental dos universitários. Levantamento divulgado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2016 revela que pelo menos 30% dos estudantes de universidades federais brasileiras já fizeram uso de medicação psiquiátrica, apresentando dificuldades emocionais para desempenhar suas atividades acadêmicas. Quase 60% sofrem de ansiedade, 20% de tristeza persistente, 10% de medo ou pânico, 32% de insônia, 6% têm ideia de morte e 4%, pensamento suicida.

Preocupados com os índices e, mais ainda, com os relatos frequentes de colegas com algum tipo de transtorno psicológico, um grupo de estudantes da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), juntamente com outros centros e diretórios acadêmicos, se mobilizaram criando a Frente Universitária de Saúde Mental. “A gente entendeu como esse tema é negligenciado”, conta Karen Maria Terra, estudante do segundo ano de Medicina da USP e uma das integrantes da Frente. “Apesar de ser uma pauta comum de muitas faculdades, são poucas as iniciativas de acompanhamento de alunos, que acabam surtando por conta de problemas que vão da sobrecarga da rotina à competitividade”.

A campanha “Não é normal” veio para acompanhar o primeiro evento organizado pela Frente, a Semana da Saúde Mental, que aconteceu no final de junho, em São Paulo, e colocava na berlinda temas como ciberbullying, estigmas da saúde mental e opressão no ambiente universitário. Além de compartilhados nas redes sociais, os cartazes foram impressos e distribuídos nas faculdades. Em pouco tempo, a campanha se desdobrou. Muitos cursos solicitaram ao grupo o uso da arte para adaptar as frases ao seu próprio contexto, inclusive entre estudantes da pós-graduação, na qual as queixas de sofrimento se multiplicam. “Não é normal se sentir refém do seu orientador”, diz outra peça da campanha.

A Frente Universitária de Saúde Mental engloba cursos tão diversos quanto Medicina e Direito, Engenharia e Fisioterapia. Doze faculdades, no total. “A nossa luta é por instalação e manutenção de serviços de acolhimento nas faculdades, de modo que, caso algum aluno precise, tenha algum lugar para procurar. É por uma mudança curricular que tenha como uma de suas diretrizes a saúde mental do aluno. É por permanência estudantil. É por uma universidade sem opressões. A busca por saúde mental dos alunos está por trás de muitas coisas que fazemos em nosso dia a dia e deve ser uma prioridade para nós”, relata o grupo em sua página no Facebook, que já conta com mais de 34 mil seguidores.

“Não é saudável”

Os alunos dos cursos de Medicina são os que mais sofrem com os sintomas da depressão. No início deste ano, o Nexo Jornal divulgou um estudo, realizado por pesquisadores de instituições americanas, que aponta os altos índices de transtornos psicológicos entre estudantes desse curso.

27,2% dos estudantes de medicina do mundo têm diagnósticos de depressão ou sintomas depressivos

De acordo com a pesquisa, a proporção de diagnósticos de depressão ou sintomas depressivos nos cursos de Medicina de todo o mundo, incluindo no período da residência, é de 27,2%, e a de ideação suicida, isto é, os pensamentos sobre a possibilidade de se suicidar, de 11,1%. A reportagem informa que a realidade dos estudantes brasileiros foi considerada na pesquisa por meio de 13 trabalhos. Um deles, realizado em 2010 entre alunos da Universidade Estadual do Maranhão, indicou sintomas depressivos entre 47,5% dos alunos de Medicina da instituição. Outro, de 2015, feito com alunos de Medicina da cidade de Santos (SP), chegou ao índice de 30% com os mesmos sintomas.

Para o psiquiatra Luiz Roberto Millan, que durante 28 anos integrou o Grupo de Assistência Psicológica ao Aluno da USP (Grapal), são muitos os fatores que justificam indicadores tão altos. “O estudante de Medicina já entra na faculdade massacrado pelo vestibular, sempre o mais concorrido das universidades. Em alguns casos, fez inúmeras tentativas até ser aprovado”, explica em entrevista à Radis. “Depois, se depara com um curso extremamente puxado, com poucos períodos de descanso e isso só vai se avolumando no decorrer da faculdade”. Luiz Roberto considera que o estudante de Medicina precisa lidar com muitas perdas, como a falta de tempo para o lazer, para estar com os amigos ou até para cuidar da própria saúde. “O que é um paradoxo”, completa. “Penso que a faculdade precisa desestimular o excesso de carga de trabalho e mesmo de competitividade, que em alguns cursos é brutal entre os alunos. Isso não é saudável”

Grupos de assistência psicológica vêm se tornando mais comum no ambiente universitário nas últimas décadas. Mas ainda estão longe de ser uma realidade para a maioria dos cursos. Na opinião de Karen, mesmo entre aqueles que oferecem esse tipo de suporte, ainda há muitos problemas. “Os núcleos de apoio têm uma defasagem enorme no número de profissionais que prestam atendimento. Além disso, a gente ainda se depara com a resistência dos próprios professores para lidar com alguns tabus”, comenta. Para Luiz Roberto, as próprias escolas começam a perceber a necessidade de abrigar espaços dessa natureza, cabendo a cada uma delas definir formatos específicos de acordo com os seus programas. “Mas a tendência é existirem grupos de assistência com psiquiatras e psicólogos tanto para atendimento clínico quanto terapêutico e que também desenvolvam um trabalho junto ao corpo docente, sempre respeitando o sigilo profissional”, diz o psiquiatra, que se declara um entusiasta da iniciativa da Frente Universitária de Saúde Mental.

Outras campanhas

A campanha “Não é normal” não é a única que vem ocupando as redes sociais sobre o assunto. Em setembro, durante o mês de prevenção ao suicídio, o serviço de Psicologia da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), em Juazeiro (BA), propôs a hashtag #NãoÉBesteiraÉCoisaSéria para discutir o assunto. Dentro da Frente, os desdobramentos da campanha são a criação de uma rede intitulada “Vem cá”, para reunir psicólogos voluntários ou que cobrem valor simbólico para oferecer apoio psicológico aos estudantes.

“A demanda é imensa. Muitos estudantes procuram a Frente em busca de ajuda profissional, algo que, com a criação dessa rede, vai ser possível oferecer”, diz Karen, acrescentando que a Frente Universitária de Saúde Mental também está concluindo a elaboração de um documento para inspirar cursos que pretendam estruturar grupos de prevenção e combate aos transtornos psicológicos. “É uma espécie de relato-guia sobre o que vem dando certo em nossa experiência para que outros cursos abracem essa pauta em seus espaços acadêmicos”. Além disso, uma nova campanha, cujo mote é “Você não está sozinho”, está prestes a sair da cabeça dos estudantes. É só aguardar.

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