Radis Comunicação e Saúde

Tempo de leitura: 3 - 6 minutos

Rebecca Barbosa, uma das 30 representantes da população LGBTQIA+ eleita em 2020, conta a sua história à Radis

Rebecca Barbosa é Rebecca há três anos. Batizada como Raí, experimentou o deboche e a intolerância, apanhou nas ruas e ouviu – dos integrantes da igreja que frequenta até hoje – que Deus lhe castigaria se não mudasse o seu jeito de ser. Aos 25 anos, evangélica, decidiu que seria feliz. “Hoje, eu sou mulher 24 horas por dia”. Em 2020, filiou-se a um partido político e concorreu a uma vaga no legislativo municipal. Foi uma das 294 candidatas travestis e transexuais que disputaram as últimas eleições. Achou que perderia para o preconceito, mas acabou se tornando a mais votada da sua legenda e a primeira vereadora trans de Salesópolis, município do Alto Tietê, com pouco mais de 17 mil habitantes. À Radis, ela conta a sua história:

Eu tenho 28 anos, nasci no dia 13 de julho 1992 e fui batizada com o nome de Raí Saylon de Paula Ribeiro. Filho de pai militar, nasci em berço cristão protestante. Sempre fui uma criança afeminada, cresci como menino afeminado, e desde muito jovem já lidava com a intolerância das pessoas que não sabem lidar com um menino afeminado que não gosta de futebol na escola. No entanto, sempre fui muito atrevida e corajosa, então, essas coisas nunca me intimidaram. Mas só me adequei na figura trans aos 25, apenas três anos atrás. Sou evangélica, fui criada dentro da minha congregação e frequento a igreja até hoje. Dentro da construção da minha identidade, passei por síndrome do pânico, ansiedade e por muita coisa causada por pessoas de dentro da igreja que falavam que Deus me puniria se eu não mudasse o meu jeito de ser. Até que finalmente resolvi me posicionar.

Radis220 Rebecca 2

Cursei Direito e fui eleita para o Conselho Tutelar no meu município. Passei quatro anos como como conselheira e foi quando ficaram muito evidentes, para mim, as necessidades da minha cidade e das pessoas que nela moram. A partir dali, começou a ficar no ar alguma intenção política. Sempre me posicionei a favor das causas públicas. No início do ano passado, fui procurada por muitas legendas, mas decidi me filiar ao PDT. Fiquei muito à vontade de me candidatar por esse partido que tem o PDT-diversidade. Lá eu não me senti um número, me senti uma pessoa que estava levantando uma bandeira. 

Na minha cidade, todo mundo me conhece e já sabe que eu sou trans. Mas nem todo mundo me conhece como Rebecca. Para muitos, Rebecca é uma personagem – ainda que não seja. Hoje, eu sou mulher 24 horas por dia. Mas sou conhecido na cidade inteira como Raí. Então, fiquei com receio de colocar o nome que escolhi e isso me atrapalhar na urna. Por isso, fiz a opção de me candidatar com o meu nome de batismo, Raí, para que não houvesse dúvidas. Mas na verdade foi uma eleição que me pegou de surpresa. Porque a gente sempre imagina que o preconceito vai vencer. No entanto, fui a mais votada do partido, ficando em sexto lugar na cidade. Fui muito acolhida. Na minha vida, já sofri, já apanhei na rua por ser quem eu sou. Então, fiquei surpresa e feliz com o resultado.

Não pretendo dar visibilidade apenas às causas trans. Dentro da Câmara, espero poder ter voz e que o meu braço tenha alcance para ajudar a todas as pessoas. Quero que a minha cidade tenha educação de qualidade, que o posto de saúde possa ter medicamento, vou brigar pelas necessidades mais básicas e aos poucos nós vamos conquistando espaço e levantando as demais bandeiras. Meu maior desafio na Câmara Municipal de Salesópolis é ser quem eu sou todos os dias. No mais, o desafio mesmo era ganhar a eleição em um município pequeno, provinciano, religioso, entendeu? Depois que venci, quero entrar lá dentro e trabalhar. 

Durante a campanha, alguns vereadores da legislação anterior diziam: “Até parece que vai ganhar!” “Deus me livre colocar um ‘veado’ dentro da Câmara”. Acho que essas pessoas não acreditavam na minha vitória e debochavam. Depois da eleição, não fui mais incomodada com esse tipo de coisa. Eu tive eleitores de todas as classes e idades e acho que está havendo uma maior conscientização. A partir do momento que começa a acontecer uma maior visibilidade de pessoas que não se intimidam de ser quem são – o preto mostra a cara, a trans mostra que existe –, acho que isso ajuda a mudar o pensamento das pessoas.

A minha vida é um pouco pacata. Quando assumir a vereança, o que vai mudar é só a responsabilidade do trabalho do legislador que vai construir novos projetos, aprovar projetos, construir novas leis para o meu município. Penso que o que vai mudar na minha rotina é mais um trabalho constante voltado para o povo. Moro só com a minha mãe. Sou fruto do primeiro casamento de meus pais, que se divorciaram quando eu tinha quatro anos. Minha mãe sempre foi o meu braço direito. Penso que, quando você tem um filho que é diferente, você espera que toda a sociedade o reprima, que o receba de maneira ruim ou o coloque à margem. Então, eu acredito que, para ela, ver um filho transexual reconhecido como alguém que luta pelo povo e que vai ocupar uma cadeira no poder legislativo em defesa das causas que acredita é uma grande satisfação.