Radis Comunicação e Saúde

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O antropólogo, médico e educador foi pioneiro nas comunicações e no combate ao racismo científico no Brasil

A história foi contada pelo poeta Carlos Drummond de Andrade. Aquele homem alto, com seus 1,78 m, adentrou o escritório do Ministério da Educação, no centro do Rio (então capital do país), em busca do ministro Gustavo Capanema. Trazia um sonho a ser doado ao Estado brasileiro: aquela que havia sido a primeira rádio do país, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por ele em 1923, para difundir ciência e educação aos brasileiros. Edgard Roquette-Pinto esteve à frente da rádio por 13 anos, mobilizou nomes das ciências e das artes para se somarem ao projeto, angariou fundos com amigos e idealizou, escreveu e apresentou ele mesmo alguns dos primeiros programas. Mas depois daqueles esforços dos anos iniciais, a rádio já não tinha como sobreviver por meio de doações e ainda modernizar seus equipamentos, frente à concorrência das grandes emissoras comerciais que já despontavam. Por isso, o “mestre Roquette” — como Drummond o chamou — teve uma ideia: doaria a rádio ao governo federal, que teria recursos para manter seu ideal vivo.

Em troca, ele não pedia nada para si, apenas exigia o compromisso de que a emissora continuasse a fazer “obra cultural” e nunca, “de forma alguma”, fizesse política nem comércio. Roquette-Pinto sabia que aquele novo meio de comunicação — “barato, geral e eficaz como nenhum outro”, como escreveu no ano de criação da Rádio Sociedade — corria o risco de cair nas mãos de interesses políticos e empresariais. Essa era a principal ameaça contra o caráter educativo que ele defendia para a “radiofonia”, como o meio era chamado na época: o rádio deveria disseminar o progresso e “a cultura moral e intelectual para todos os cantos”, publicou em 1923 na Gazeta de Notícias. Como ele costumava dizer, em uma frase que ficou célebre: “O rádio é a escola dos que não têm escola”. Drummond conta que Roquette-Pinto se abraçou à filha, em lágrimas, na cerimônia oficial de entrega da emissora ao Ministério da Educação, em 7 de setembro de 1936. A partir dali ela passaria a ser a Rádio MEC, que se encontra no ar ainda hoje.

A criação da primeira rádio do país e a concepção de um projeto de comunicação educativa, voltado para a democratização dos saberes e da ciência, não foi a única façanha deste brasileiro nascido em 1884 e chamado de “homem- -multidão” pelo jornalista e escritor Ruy Castro. Segundo o biógrafo de personalidades como Carmen Miranda e Mané Garrincha, não estamos habituados a essas figuras capazes de aplicar inteligência e ação a interesses tão amplos e múltiplos. “Quando se avalia hoje o monumental legado do carioca Roquette-Pinto ao Brasil, parece inacreditável que um único homem pudesse fazer tanto. (...) O Brasil de seu tempo era enorme, muito maior que o de hoje, e estava todo por ser feito”, escreveu Castro. A biografia deste brasileiro, com legado reconhecido nas comunicações e nas ciências, foi lançada em 2017 pela editora Casa da Palavra. Escrito por seu neto, o jornalista Claudio Bojunga, o livro destaca principalmente seu papel pioneiro no estudo das populações brasileiras.

Médico de formação, antropólogo de ofício, RoquettePinto foi também educador, ensaísta, indigenista, divulgador da ciência, além de um dos pioneiros do rádio e do cinema educativos no Brasil. Autor de Rondonia, teve um papel importante no combate às ideias racistas vigentes na época, que diziam que o atraso do Brasil era consequência da mistura e degeneração das raças que viviam no país. Como conta o historiador e professor da Universidade Estadual do Centro-Oeste do Paraná (Unicentro-PR), Vanderlei Sebastião de Souza, que pesquisou a obra do cientista e educador em seu doutorado na Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz), Roquette-Pinto fez um esforço enorme para demonstrar que a raça não era o que distinguia e condenava os indivíduos. “Ele começa a apontar que a raça não era um problema e as grandes questões que o Estado brasileiro deveria enfrentar era o combate à pobreza, ao analfabetismo e às doenças, ou seja, era criar políticas de assistência social”, explica.

Ao se somar à Comissão Rondon, em 1912, que buscava construir linhas telegráficas na região Norte do país, o jovem Roquette-Pinto (então com 28 anos) teve contato com as populações indígenas e sertanejas que viviam no Mato Grosso e Amazonas. Ele colheu mais de uma tonelada de material de estudos, analisou minuciosamente as características dessas populações e chegou a uma conclusão (revolucionária para a época): não havia nada na formação biológica do povo brasileiro que o condenasse ao atraso. O relato dessa viagem, que marcaria sua vida, deu origem ao livro Rondonia (reeditado em 2005 pela Editora Fiocruz) — título em homenagem ao mato-grossense Candido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), que liderava a iniciativa.

Roquette-Pinto faz parte de uma geração de brasileiros que se considerava “agente de mudanças nacionais”, defende a historiadora Dominichi Miranda de Sá, pesquisadora da COC/Fiocruz. Dominichi organizou o livro “Antropologia brasiliana” (Editora Fiocruz), junto com Nísia Trindade Lima (hoje presidente da Fiocruz), sobre as contribuições de Roquette-Pinto para a ciência, a antropologia e a educação. “Edgard Roquette-Pinto pertencia a uma geração de intelectuais brasileiros com forte identificação com o ideal de uma ciência transformadora, com vínculos com o bem público e o interesse nacional”, reflete. Para ela, esse grupo de intelectuais e cientistas se considerava herdeiro dos movimentos abolicionista e republicano. Pela frente, havia o sonho de construir o Brasil como um “país de futuro”. O caminho passava por conhecer o “Brasil profundo”, a cara e as cores da população brasileira. Roquette-Pinto fez desses o seu sonho e a sua razão de viver.

Em busca do brasil profundo

“No coração do hemisfério Sul, na América, num claro instante” — como diz a música de Caetano: foi no entorno da Serra do Norte, ao longo dos vales do rio Juruena, no Mato Grosso, que se deu o encontro do jovem RoquettePinto, então antropólogo e médico legista do Museu Nacional, com os índios nambiquaras. Eram populações que até então viviam isoladas. A viagem até o sertão do Norte, acompanhando a Comissão Rondon, em 1912, acontecia no lombo de mulas, de barco e a pé. Durava meses. “Começaram as primeiras chuvas da estação. Os muares, abatidos, sofriam grandemente; quando caía a carga d’água procuravam abrigo debaixo de uma árvore, ou mesmo em qualquer moita”, registrou em seu livro. Pela ausência de estradas, a expedição passava pelo Paraguai e adentrava nas matas de Mato Grosso e Amazonas.

Com uma câmera, ele captura o instante em que um índio aponta uma flecha e sorri. Uma índia de cócoras também abre um sorriso largo ao ser fotografada enquanto prepara mandioca. Três outras mulheres da tribo olham fixamente para o fotógrafo. Ele registra cada detalhe em seus cadernos, desenha o esboço de adornos e ferramentas, anota vocábulos falados pelos índios e sertanejos. Faz também o papel de folclorista, ao coletar a melodia de canções indígenas em rolos de cera, depois convertidas em partitura — que mais tarde serviriam de inspiração para o maestro Heitor Villa-Lobos. Todo esse material está no livro Rondonia, que alguns críticos afirmam ter o mesmo significado para o Norte do país que Os sertões, de Euclides da Cunha, teve para o Nordeste. “Trata-se de combinação de diário de viagem com estudo antropológico, que inclui a descrição dos costumes, da cultura material, das doenças e das características físicas das sociedades indígenas que habitavam a região, especialmente os Pareci e os Nambiquara”, explica Dominichi.

Para o historiador Vanderlei de Souza, o antropólogo combatia a ideia muito em voga na época de que remover ou exterminar as populações indígenas era o melhor caminho para o progresso. “A obra de Roquette-Pinto, junto com o próprio Marechal Rondon, passou a criticar e a contestar a maneira como o Estado brasileiro vinha lidando com a questão indígena”, considera. Para o historiador, uma das grandes contribuições do antropólogo brasileiro foi em relação à alteridade e ao respeito a outras culturas. “Essa percepção do outro era algo bastante novo na antropologia. Toda a construção em relação ao outro era feita a partir das hierarquias raciais e civilizatórias desenvolvidas pelos grandes cientistas europeus dessa época”, reflete.

“Roquette-Pinto foi o primeiro antropólogo brasileiro que passou semanas entre os indígenas ainda arredios e vivendo ainda isolados”, escreveu seu neto na biografia. Publicada pela primeira vez em 1917, Rondonia é um apelo de proteção, cobrando a dívida histórica do Estado Nacional para com os índios, afirmaram os pesquisadores Nísia Trindade, Ricardo Ventura Santos e Carlos Coimbra Jr. no livro “Antropologia brasiliana”. “Proteger sem dirigir para não perturbar sua evolução espontânea”, defendia Roquette-Pinto em suas páginas.

As caras do Brasil

A viagem de Roquette-Pinto à Serra do Norte, acompanhando a Comissão Rondon, deu a ele ferramentas para combater o racismo que vigorava na ciência de então. Como explica Vanderlei, essas teorias consideravam as populações não brancas, pobres, que viviam em regiões de clima tropical, como degeneradas pela “mistura racial”. “Roquette-Pinto foi um dos primeiros autores brasileiros a demonstrar que esses estudos sobre determinismo racial precisavam ser revistos. E junto com uma geração de pesquisadores, voltou-se para entender quais eram os problemas reais do Brasil”, analisa. Como médico e antropólogo, Roquette-Pinto reuniu dados que desmentiam essas teorias. “Ele demonstrou que a raça não definia a inteligência, a capacidade e as habilidades humanas”, completa Vanderlei.

Ao contrário, ele enxergava as potencialidades das populações mestiças formadas por sertanejos e caboclos, que encontrou em sua viagem pelo interior do Brasil. “A obra de Roquette-Pinto foi fundamental para uma revisão positiva sobre a mestiçagem no país, tendo impacto, inclusive, sobre as ideias de outros importantes intelectuais brasileiros, como Gilberto Freyre”, explica Dominichi. Para a historiadora, o fundador da primeira rádio do país demonstrou, especialmente em sua obra “Notas sobre os tipos antropológicos do Brasil”, que a mestiçagem não levava à degeneração biológica da população. “Ele reconhecia o atraso do país, mas insistia que não estava associado a questões de ordem racial, mas a uma história de violência e exploração no passado e à falta de políticas de saúde e educação no Brasil do início do regime republicano”, ela destaca.

O encontro com as verdadeiras “caras” do Brasil só foi possível porque o antropólogo foi a campo — diferente de muitos intelectuais que faziam estudos da realidade brasileira a partir dos “gabinetes”. “O Brasil real só poderia ser conhecido a partir de estudos de campo e não de trabalho de gabinete, como era feito pelos ensaístas brasileiros, que produziam muito mais ‘impressões’ sobre o Brasil”, reflete Vanderlei. Segundo ele, Roquette-Pinto inova nesse sentido, numa antropologia muito experimental, que vai a campo e coleta dados. “Sua contribuição foi tão importante que ele cria dentro do Museu Nacional uma tradição de estudos de antropologia antirracista, mais preocupada com questões sociais e de oposição ao determinismo biológico e racial”, acrescenta.

Como lembra Vanderlei, a Comissão Rondon possibilitou que vários cientistas, viajantes e naturalistas fizessem pesquisa de coleta de dados, seja sobre a natureza, a fauna, a flora, a demarcação de rios e, principalmente, sobre o povo brasileiro. “Quando eles entram em contato com o interior do Brasil e percebem o abandono em que essas populações viviam, que existe outro Brasil, isso gera obviamente uma maneira de perceber o país que era bastante distinta do que se vinha pensando até então”, ressalta. Um ideal corrente na época era o embranquecimento da população brasileira, que propunha a substituição de mestiços, indígenas e negros por meio da entrada de europeus no país. “Roquette-Pinto vai dizer que ao invés de substituir os brasileiros, nós precisamos promover políticas de educação, saúde e saneamento”, aponta Vanderlei.

Ciência a serviço do povo

O médico e antropólogo Edgard, que havia sido aprovado em concurso para o Museu Nacional em 1905, aos 21 anos, tornou-se diretor da instituição em 1926. Ali ele produziria a maior coleção de filmes científicos do Brasil e fundaria o primeiro setor educativo em um museu brasileiro. Para ele, a ciência e os saberes deviam ser difundidos e estar a serviço do povo. “A ciência vai transformando o mundo. O homem culto chegou a voar melhor do que as aves; nadar melhor do que os peixes; libertou-se do jugo da distância e do tempo (...) Ele, que tem realizado tudo isso, permanece, afinal, quase o mesmo primitivo, sentindo, pensando e agindo, muitas vezes, como seus antepassados das idades líticas [das pedras]”, escreveu em Rondonia.

pedras]”, escreveu em Rondonia. Para Dominichi, as bandeiras transformadoras adotadas por Roquette-Pinto e seus contemporâneos cientistas e intelectuais eram a educação e a saúde, encaradas, na época, como os maiores males do Brasil. Essa geração produziu uma importante institucionalização da comunidade científica brasileira, por meio da criação de revistas, associações e universidades no país, ela destaca. “Segundo os intelectuais envolvidos nesse movimento, essa ação promoveria a real independência nacional da herança colonial portuguesa, assim como induziria a elaboração de pensamento original baseado nos problemas nacionais”, acentua. Nesse contexto, tiveram um papel importante tanto o Museu Nacional, com o protagonismo de Roquette-Pinto, quanto o Instituto Oswaldo Cruz, liderado por Oswaldo Cruz e seu grupo de cientistas.

Roquette-Pinto também foi personagem e protagonista de outra realização importante para a ciência brasileira: a criação da Sociedade Brasileira de Ciências, em 1916, junto com o amigo Henrique Morize, seu primeiro presidente, e outras dezenas de cientistas, dentre eles Oswaldo Cruz. Nos anos 20, a instituição se tornaria a Academia Brasileira de Ciências (ABC). Como lembra Vanderlei, essa iniciativa veio da compreensão de que era preciso valorizar e difundir a ciência brasileira. “Não bastava fazer pesquisa científica, era preciso divulgar os resultados dessas pesquisas, de um modo que fosse de fácil compreensão para a população brasileira, a maior parte analfabeta ou semianalfabeta”, explica. Mas ainda faltava um instrumento capaz de “comunicar” a ciência para o povo. Foi então que Roquette-Pinto descobriu o papel do rádio.

Escola dos que não têm escola

Se era preciso levar ciência e educação para o povo, o rádio logo foi visto por Roquette-Pinto como um veículo promissor. Assim, nas salas da Academia Brasileira de Ciências, aconteceram as primeiras transmissões da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em abril de 1923. A emissora era mantida por seus “sócios” — os próprios cientistas e amigos que arrecadavam fundos, produziam e transmitiam os programas — e tinha um caráter de divulgação científica, como conta a jornalista Liana Milanez, no livro “Rádio MEC: Herança de um sonho”, que reúne a memória da emissora. Eram transmitidas aulas de português, inglês, francês, física, química, história do Brasil e até de silvicultura prática. A rádio também contava com noticiário, horário infantil e programação musical, com apresentações de orquestras e músicos de renome.

"A Rádio Sociedade foi uma das primeiras criadas no mundo e havia muitas expectativas de que permitiria democratizar amplamente o conhecimento científico”, destaca Luisa Massarani, jornalista de ciência e pesquisadora da área de divulgação científica da COC/Fiocruz, responsável pela organização de um acervo de fotos e documentos da primeira rádio brasileira (veja no Saiba Mais). Para ela, esse foi um momento em que os cientistas mais se mobilizaram no engajamento com a sociedade e havia uma expectativa semelhante ao que a internet teve, muito tempo depois. “Roquette estava entre os mais entusiasmados e os ouvintes puderam ouvir irradiações com seu vozeirão, juntamente a outras programações feitas por professores e intelectuais da época”, aponta.

Dominichi lembra que a primeira estação radiofônica do país foi fruto dos ideais dessa geração de cientistas. “A rádio foi projetada para ser uma verdadeira ‘escola’, propagando ciência e cultura para todos os brasileiros analfabetos, ou seja, mais da metade da população do país àquela época”, pontua. De acordo com Vanderlei, Roquette-Pinto entendia que era preciso criar instituições que fossem responsáveis pela melhoria das condições de vida da população brasileira, através da educação e da cultura. Além do rádio, ele havia se apaixonado por outra tecnologia de comunicação que ainda despontava naqueles tempos: o cinema. Em 1936, ele fundou e passou a dirigir, nos 11 anos seguintes, o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE), que buscava incentivar a produção cinematográfica com fins educativos e científicos. Ao lado do cineasta Humberto Mauro, mineiro nascido em Volta Grande, ainda hoje considerado um dos maiores cineastas brasileiros, ele rodaria mais de 300 documentários de curta- -metragem, além de filmes históricos como “Descobrimento do Brasil”.

Roquette-Pinto também teve participação no movimento da Escola Nova, liderado pelo educador Anísio Teixeira, que reivindicava políticas públicas de educação. Como explica o historiador Vanderlei de Souza, até aquele período, a Igreja Católica era a principal responsável pelo ensino básico. “A proposta desse movimento era lutar por uma escola pública laica e para que o Estado incorporasse como função pública a construção de escolas e a promoção de políticas educacionais”, explica. Ele também fundou a Rádio Escola Municipal, junto com seu amigo Anísio Teixeira, em 1933 — rebatizada em 1945 como Rádio Roquette-Pinto. “O que ele fazia era estimular que o Estado se preocupasse com saúde pública, com combate às doenças e com educação”, ressalta Vanderlei.

Artífice do Brasil

O olhar atento à realidade brasileira pode ter tido influência de parte de sua infância vivida na fazenda do avô, em Minas Gerais, considera Vanderlei. Carioca, filho de pais separados, o menino Edgard viveu alguns anos em terras mineiras. Pai de três filhos (Paulo, Beatriz e Carmem Lúcia), ele morreu em 1954, aos 70 anos, em seu apartamento, enquanto escrevia um artigo para o Jornal do Brasil, ainda sem realizar um novo sonho: criar uma televisão educativa no Brasil.

Em relação à questão indígena, Dominichi de Sá ressalta que o livro de Roquette-Pinto expressa ideários positivistas que tanto influenciaram Rondon e a política indigenista brasileira: segundo essa visão, os índios deveriam ser tutelados e protegidos pelo Estado nacional, ideia que hoje já foi bastante superada pela antropologia. Porém, algumas questões tratadas por Roquette permanecem atuais. “Algumas de suas premissas, como proteção frente à violência, direito à terra e à cidadania brasileira, infelizmente, são atuais, sobretudo diante da brutalidade com que as populações tradicionais têm sido tratadas em violentos conflitos de terra”. Para a historiadora, extermínio sangrento, definitivamente, não seria aceitável para o antropólogo.

Para Vanderlei, Roquette-Pinto foi um “médico intérprete do Brasil” e suas reflexões casavam com a atuação de outros sanitaristas e cientistas preocupados em transformar a realidade nacional. “Ao mesmo tempo em que estão dedicados à pesquisa científica e à pesquisa experimental, também estão produzindo interpretações sobre o Brasil a partir de suas atuações como cientistas”, reflete. Segundo o historiador, havia um ponto que aproximava o autor de Rondonia desses sanitaristas: a luta para demonstrar que os problemas do Brasil não se deviam à questão climática, à raça ou à miscigenação. “Para ele, nós tínhamos que atacar as doenças, o abandono, a falta de assistência social, a carência de educação”, acrescenta. Em outras palavras, ele acreditava na busca de soluções brasileiras para os problemas brasileiros. “O ideal de Roquette-Pinto era projetar o Brasil como um país de futuro sem excluir a sua população”, conclui. Ideário que ainda hoje parece urgente.

Saiba mais

Em livro

• “Antropologia Brasiliana”, de Nísia Trindade Lima e Dominichi Miranda de Sá (org.)

• “Roquette-Pinto: O corpo a corpo com o Brasil”, de Claudio Bojunga

• “Rádio MEC: Herança de um sonho”, de Liana Milanez

• “Rondonia”, de Edgar Roquette-Pinto

• “Em busca do Brasil: Edgar Roquette-Pinto e o retrato antropológico brasileiro (1905-1935)” (tese de Vanderlei Sebastião de Souza): https://goo.gl/73T6bd

Na internet

• “Rádio Sociedade” https://goo.gl/dWEJC8