Radis Comunicação e Saúde

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Atividade de técnicos e tecnólogos em radiologia exige cuidado com o paciente e com a segurança de todos

“Por favor, fique parado nessa posição. Só mais um momentinho. OK, muito bem”. Quem nunca ouviu essa frase ao fazer uma radiografia? Instruções como essa fazem parte do cotidiano de Lúcio Ribeiro, que atua como técnico em Radiologia no Hospital de Base de Brasília, da rede estadual do Distrito Federal, desde 2013. Lúcio opera os aparelhos de raio X, tomografia, raio X odontológico e densitometria. Costumava fazer também as ressonâncias magnéticas, “mas o aparelho não está funcionando há dois anos”, explicou à Radis. O hospital onde Lúcio trabalha é de alta complexidade, por isso, no seu dia a dia, atende muitos pacientes politraumatizados por acidentes de trânsito. “Isso é o que mais me sensibiliza. Também lidamos com pessoas que muitas vezes estão ansiosas, preocupadas com diagnósticos difíceis”, relatou.

“O profissional opera não somente o aparelho mas faz a assistência ao paciente, orientando o posicionamento e, em alguns casos, administrando o líquido de contraste”, descreveu Manoel Benedito Viana Santos, Presidente do Conselho Nacional de Técnicos em Radiologia (Conter). Ele reitera que as atividades desse profissional são essenciais nos serviços de saúde: organizar e operacionalizar os equipamentos de radiologia convencional, tomografia, densitometria óssea, radiologia em medicina veterinária, mamografia e ressonância magnética. “São os ´olhos da medicina´”, compara.

O lado humano da profissão é “tão importante quanto a técnica”, salientou Lúcio, um dos 109.085 profissionais registrados pelo Conter. A profissão é de nível médio técnico, regida pela lei 7.394/85, mas, conforme pesquisa da própria entidade de classe, há uma tendência de busca por uma formação mais aprofundada. Mais de um quarto dos profissionais (26,4%) têm ensino superior na área. São chamados tecnólogos em radiologia. É o caso de Lúcio, que fez um curso com duração de 3 anos em uma instituição privada. “Queria entrar rapidamente no mercado de trabalho”, justificou. Ele considera que sua área está “em evolução contínua” e que o setor público oferece melhores condições. “Trabalhar no SUS é um bom caminho e uma meta para muitos profissionais da radiologia. Assim se consegue algumas garantias como trabalhador”, contou ele.

Manoel chamou atenção para o fato de o SUS oferecer baixos salários para muitos técnicos. Como explicou, o piso da categoria era estabelecido por lei em dois salários mínimos, mais 40% de insalubridade. Em 2011, no entanto, o STF julgou inconstitucional a indexação do piso pelo salário mínimo e estabeleceu um valor absoluto em reais. Desde então, a categoria sofreu vários reveses e o piso hoje não é mais estabelecido por lei, desde a última decisão do STF sobre o tema, na chamada ADPF 151. “Há prefeituras abrindo vagas em concurso e oferecendo um salário mínimo”, denunciou.

FORMAÇÃO

O curso de Técnico em Radiologia tem duração variável entre 18 meses e dois anos. É ministrado geralmente como complementação ao ensino médio, em escolas técnicas públicas e privadas e institutos federais. “O profissional de nível técnico tem as atribuições já descritas em lei. Há uma demanda profissional e um campo de trabalho também para o profissional de nível superior, que pode fazer a gestão do serviço de saúde e a supervisão da proteção radiológica, além de poder seguir carreira acadêmica”, exemplificou o presidente do Conter. “Já temos tecnólogos mestres e doutores”, comemora.

Para quem quer ingressar na profissão, Manoel orientou que a chance de trabalhar com tecnologia de ponta é um grande atrativo, assim como a oportunidade de dar a sua contribuição para a saúde da população. Ele alertou, no entanto, para o caráter humano da profissão, que pode exigir do profissional habilidade para lidar com momentos delicados. “São situações emocionais e elementos de alto poder destrutivo, como o cobalto, usado na radioterapia, por exemplo”.

O mercado, segundo ele, está reduzido, devido à situação geral de retração nos empregos, em geral. “As mudanças permanentes na tecnologia exigem atualização e um campo que vem se expandindo é a radiologia digital”. O projeto de Lei 3.661, de 2012, tramita na Câmara dos Deputados, com objetivo de atualizar a legislação vigente, discernindo o exercício da profissão de técnico, tecnólogo em radiologia e de bacharel em ciências radiológicas.

De acordo com Manoel, um fator que dificulta a ampliação do mercado de trabalho para os profissionais do setor fora dos grandes centros urbanos é a falta de equipamentos em municípios menores. “Os mamógrafos, por exemplo estão concentrados na região Sudeste e há uma carência muito grande em outras regiões. Para operar esses mamógrafos, muitos profissionais seriam empregados, e essa é uma bandeira para a entidade de classe”, defende.

SEGURANÇA

Manoel lembra que, por lidar com radiação ionizante, cuja exposição pode causar alteração do material genético e uma sequência de eventos adversos imprevisíveis, o exercício da profissão prevê uma série de cuidados, amparados na legislação, que visam a proteger a saúde do trabalhador. A carga horária máxima de trabalho semanal é de 24 horas, e as férias previstas em lei são semestrais, de 20 dias por vez, exemplifica. No entanto, pesquisa feita pelo Conter mostrou que a legislação nem sempre é cumprida, já que 21% dos entrevistados não tiveram respeitados os 20 dias de férias por semestre, previstos em lei para que o organismo consiga se recuperar de uma eventual exposição que tenha sofrido — a chamada quarentena. “Na iniciativa privada, é raro que esse item seja cumprido”, observou Lúcio.

De acordo com as práticas internacionais, recomenda-se também a utilização de dois profissionais por equipamento em cada turno de trabalho para que sejam observadas todas as regras de segurança na aplicação das radiações ionizantes durante o tratamento de radioterapia, lembrou ainda Manoel. “A Resolução nº 13, de 22 de outubro de 2009, do Conselho Nacional de Técnicos em Radiologia, exige a especialização em Radioterapia para os técnicos em Radiologia, fundamentais em muitos tratamentos de câncer”, reitera.

Apesar de a carga horária ser limitada na legislação, na prática, acumular mais de um emprego é uma realidade para cerca de 20% dos profissionais, conforme mostrou o levantamento feito pela entidade. Realizado em âmbito nacional em 2016, com uma amostra de 1.868 profissionais, o estudo mostrou que 32,8% dos trabalhadores atuam exclusivamente no setor público, 35,6%, apenas no setor privado e 9,3% conciliam a atividade profissional em ambos os setores — como Lúcio, que trabalha em mais duas clínicas no setor privado. Cerca de 34% dos profissionais trabalham mais do que as 24 horas semanais preconizadas pela legislação, de acordo com o estudo.

“Em relação à segurança, a gente usa a melhor técnica, se protege com biombos e procura ser rápido. Quando é necessário entrar em contato direto com o paciente, para colocá-lo na posição correta, ou ajudar uma mãe com uma criança, utilizamos o avental de chumbo, e procuramos orientar bem o paciente para não ser necessário o retrabalho, que aumenta o tempo de exposição”, relatou Lúcio, que cursou ainda pós-graduação em Ressonância Magnética. O controle periódico por meio de um equipamento chamado dosímetro e de exames de sangue também são realizados de maneira preventiva para avaliar se o organismo foi exposto acima do limite à radiação. “Felizmente, nunca aconteceu”, conta o profissional.

As mulheres têm direitos específicos também por conta do manuseio de equipamento com radiação. A atividade é considerada insalubre em grau máximo, por isso, as grávidas devem ficar afastadas das fontes radioativas. A exposição radioativa pode causar alteração do material genético e uma sequência de eventos adversos imprevisíveis. “A Reforma Trabalhista não altera essa exigência de afastamento, apesar de ter aberto a possibilidade para que mulheres grávidas possam trabalhar em local com insalubridade mínima e média, mediante atestado médico”. Essa informação é essencial, uma vez que, como mostrou a pesquisa mencionada acima, 52,7% dos profissionais são mulheres. No entanto, a diferença de salários entre homens e mulheres aparece na pesquisa. Mais de 85% das mulheres ganham menos de R$ 3 mil por mês, contra 68% dos homens. Cerca de 30% dos homens possuem mais de um vínculo empregatício, contra apenas 12% das mulheres. “A média salarial é de 2 mil reais”, revela Lucio.

QUEM É QUEM

Um equívovo frequente entre os leigos é confundir o técnico em radiologia com o médico radiologista, que é o profissional capacitado para emitir o relatório médico, fazer as correlações clínicas e a interpretação das imagens, esclarece Manoel. Lúcio reforça, por outro lado, que a ética profissional não permite que o técnico em radiologia efetue e revele o diagnóstico, o que não inviabiliza o potencial de empatia da atividade. “Um olhar nosso, uma frase, pode tranquilizar”, contou ele, explicando que muitas vezes um check up despretensioso pode revelar um problema grave.

Saiba mais

Pesquisa “A situação da radiologia no Brasil” http://conter.gov.br/pdf/upload/upload/CR1Ed.pdf

Observatório dos Técnicos em Saúde - Trabalhadores Técnicos em Radiologia https://goo.gl/ztTcCT

RAIO X DA PROFISSÃO

Fotografia: Eduardo de Oliveira.

LEI DE REGÊNCIA DA PROFISSÃO 7.394/85

Determina, entre outras prerrogativas, a carga horária de 24 horas semanais, o adicional de insalubridade em grau máximo de 40% e o profissional técnico em Radiologia como o responsável por operar equipamentos de Radiação ionizante. Define também as áreas da Radiologia.

PORTARIA ANVISA 453/98

Determina as diretrizes de proteção radiológica. Trata de questões importantes sobre os equipamentos de proteção que devem ser utilizados, entre eles, o dosímetro, que mede a quantidade de radiação a que o profissional está sendo exposto. Ele previne exposições além da dose recomendada.

NORMA REGULAMENTADORA NR 32

Diretrizes para os trabalhadores em Saúde – Estabelece que gestantes sejam imediatamente afastadas dos serviços de Radiologia ao descobrirem a gravidez.A nova reforma trabalhista garante os mesmos direitos.