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Três mulheres negras da periferia de Fortaleza (CE) se unem por representatividade

“Sou feminista. Voto Nossa Cara”. “Sou das quebrada. Voto Nossa Cara”. “Sou LGBTQIA+. Voto Nossa Cara”. Os cards nas redes sociais impulsionavam a campanha inspiradora que três mulheres negras da periferia de Fortaleza conduziram nas ruas – com máscara e álcool em gel – entre cortejos e rodas de conversa. Adriana Gerônimo, Louise Anne de Santana e Lila M. Salu têm entre 30 e 33 anos e muitos planos para levar adiante, agora que conquistaram uma vaga na Câmara Municipal. Pela primeira vez, a capital cearense vai experimentar o formato de mandato coletivo – uma nova forma de ocupar o Legislativo, quando o cargo conquistado pelo voto popular é partilhado entre duas ou mais pessoas e conta com ampla participação da sociedade civil.A exemplo do que já acontece em Belo Horizonte, com a Gabinetona, e em Recife, com as Juntas, a mandata coletiva Nossa Cara promete movimentar as estruturas do parlamento. “Fortaleza tende a se surpreender porque a construção dessa mandata vai extrapolar os limites institucionais. A gente vai debater cultura, educação, direito à cidade com qualidade e de maneira participativa com a população”, promete Adriana Gerônimo. Foi o rosto dela que, para cumprir com a formalidade da legislação eleitoral, apareceu na urna. Da mesma maneira, caberá a Adriana ocupar, oficialmente, o cargo em plenário. Tudo o mais será exercido coletivamente: da decisão sobre o voto e apresentação de projetos de lei à construção de audiências públicas. A remuneração também será dividida por três. Como covereadoras, Louise e Lila estarão na assessoria do gabinete. Mas para que não haja diferença entre os valores recebidos individualmente, o salário das três será equiparado. A sobra mensal vai alimentar um fundo social para beneficiar atividades que já existem nas comunidades a serem selecionadas por meio de editais.

Para a tribuna da Câmara, garantem levar a política do cotidiano, as pautas do dia a dia, a luta da mãe de periferia por vaga na creche, a briga na fila de espera por melhor atendimento na saúde, o confronto para não perder a casa para as remoções, as causas das gentes comuns. “Na campanha, as pessoas se identificavam com a gente. Essa é a nossa maior vitória política”, disse ainda Adriana num bate-papo descontraído com a Radis, em que as falas de uma eram complementadas pelas das outras duas. “As líderes comunitárias são mulheres pretas, as enfermeiras nos postos de saúde também; as mulheres que visitam as nossas casas são pretas; as escolas públicas estão cheias de mulheres pretas; a gente está em todo canto; então, o que a gente mostrou é que era possível estar também na Câmara Municipal”, acrescentou Louise. Nas palavras de Lila: “Não fomos só uma candidatura que se limitava à nossa representatividade. Trata-se de um projeto político com muitas ‘manas’ envolvidas”.

Quem é quem

Adriana, 30, foi mãe na adolescência – tem uma filha de 11 e outra de 4 anos – e talvez por morar no Lagamar, uma comunidade que sofre constantes ameaças de despejo, talvez por se preocupar com os outros à sua volta, entendeu cedo o valor da militância. “A gente não milita por hobby”, diz, com voz mansa e segura. Assistente social e líder comunitária, traz na bagagem a vivência das Comunidades Eclesiais de Base (Cebs) e dos movimentos por moradia.

Elas.

Louise, 30, é professora na rede pública municipal e cursa Direito na Universidade Federal do Ceará (UFC). Sua primeira organização coletiva, costuma dizer, foi a igreja – seus pais são pastores da Assembleia de Deus. É militante da Rede de Mulheres Negras do Ceará, da Frente dos Professores Antifascistas e de outros movimentos por igualdade. E gosta de sorrir enquanto fala. “A gente nasce sabendo que é preto, mas se organizar enquanto pessoa preta é um processo”.

Lila, 33, é da quebrada, nascida na favela Verdes Mares. Faz parte do movimento hip hop, do rap, é compositora, cantora – Mc Lila M. Salu. “Artivista”, como se define, entende a música como canal diálogo. Lésbica, milita no movimento LGBTQIA+ e ajudou a construir o Tambores de Safo, grupo que usa a música e a arte para contribuir para um pensamento feminista. Diferente das suas companheiras de mandata, não é filiada ao Psol.

Quando se encontraram nas lutas pelas ruas da cidade, ainda não sabiam que um dia formariam um mandato coletivo. A decisão da candidatura veio antes do que esperavam. As três fazem parte do “Ocupa Política” – rede nacional que passou a reunir organizações, coletivos da sociedade civil e mandatos-ativistas para ocupar a política institucional, desde a vitória, em 2016, de três mulheres negras para câmaras municipais: Marielle Franco (Rio de Janeiro), Talíria Petroni (Niterói) e Áurea Carolina (Belo Horizonte). Durante uma reunião da rede em Recife, há dois anos, as meninas de Fortaleza conheceram de perto a experiência dos mandatos coletivos. Imaginaram que, no futuro, poderiam construir algo parecido em sua cidade. Mas o crescente movimento da extrema direita na capital cearense fez com que decidissem se lançar candidatas já em 2020, firmando compromissos com práticas e pautas antirracistas, feministas e populares, como propõe a Agenda Marielle Franco.

Deu certo. Menos para uma parcela da população que se incomodou com a visibilidade das candidatas. Esses não economizaram nos insultos e ameaças. “Se os homens que estão na Câmara não fazem nada, imagina vocês, três mulheres pretas!”, ouviram de uns. Uma companheira branca que ajudava na campanha de rua escutou de outro: “Por que você está se inferiorizando trabalhando para três negras?” Nas urnas, a resposta foi arrebatadora – quase 10 mil votos, um resultado imenso, menor apenas do que o desejo de dias melhores sustentado pelas três mulheres da Mandata Nossa Cara. “Ver esses corpos negros, indígenas, trans, quilombolas ocupando espaços no Executivo e no parlamento é uma resposta a um cenário de retrocessos que implicam diretamente na nossa sobrevivência. É também uma reverência à caminhada de muitas que vieram antes de nós e a esperança de uma mudança real na política”, resume Lila, quase compondo um rap.