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Hora é de ampliar canais de escuta contra desigualdades

O que de verdade nos mobiliza? A pergunta se repete e se reatualiza na minha cabeça há décadas, reavivando um desafio que mobiliza teóricos, ativistas e profissionais de comunicação — e mais especificamente, aqueles que se dedicam ao estudo das suas interfaces com as questões sociais, incluindo-se a saúde. Que tipo de informação, estímulo ou ação é capaz de chamar a nossa atenção para que possamos tomar uma atitude? Penso nisso enquanto assisto à exibição de uma enxurrada de imagens, notícias, notas de desagravo e de pesar, relatórios, opiniões e considerações sobre o genocídio praticado contra os Yanomami no Brasil.

Há diferentes tentativas de se responder à pergunta que move a escrita deste texto, todas reveladoras da visão de mundo que partilham aqueles que se propõem respondê-la, como nos orienta o pensamento da professora Inesita Araújo. Políticas, estratégias e práticas de comunicação estão epidermicamente ligadas aos contextos daqueles que as propõem, assim como se influenciam pela realidade na qual tentam interferir. Um ciclo que se retroalimenta, mas não garante a eficiência e a eficácia que se esperam das ações de comunicação. No máximo, dá pistas do quanto é ilusória a busca pela “comunicação ideal”.

Volto a falar dos Yanomami e do holocausto que se mostra tão cruel quanto a nossa ignorância e o nosso descaso em relação à situação de brasileiros que vivem do outro lado das linhas abissais coloniais (tomando emprestada aqui a voz do teórico Boaventura Souza Santos), que neste momento ocupam as manchetes de jornal e os trend topics das redes sociais digitais. “A pior situação humanitária que já vi”, relatou o médico André Siqueira (INI/Fiocruz), integrante da força-tarefa do Ministério da Saúde, na entrevista à BBC News Brasil (22/1). Eu leio suas palavras e não paro de refletir, como comunicador, como ativista e como cidadão brasileiro, sobre o que poderíamos ter feito para que esta situação catastrófica de penúria, fome, doença e morte não chegasse ao ponto que chegou.

A situação não é nova, é bom que se registre. Não é de hoje que circulam nos meios acadêmicos e jornalísticos estudos e denúncias sobre a presença destruidora do garimpo em terras indígenas. Os próprios indígenas relatam abertamente casos e mais casos há décadas. “Escavando tanto, os brancos vão acabar até arrancando as raízes do céu, que também são sustentadas pelo metal de Omama. Então ele vai se romper novamente e seremos aniquilados, até o último”, avisou o líder yanomami Davi Kopenawa no livro A queda do céu, que escreveu com o antropólogo francês Bruce Albert, em 2010.

No capítulo em que fala do “ouro canibal”, Davi ensina que minérios e petróleo, “impregnados de tosses e febres”, foram enterrados por Omama — uma das entidades originárias dos Yanomami — nas profundezas para que não contaminassem o chão da floresta. Ele revela ainda que em sua cultura o ouro também é conhecido como “o pó que cega”. Ao reler suas palavras, eu as associo imediatamente às pesquisas que apontam a contaminação de solos e de águas por mercúrio, os atos de violência e morte contra mulheres e crianças praticados por garimpeiros e a expulsão de comunidades inteiras para dar lugar a empreendimentos e reservas extrativistas.

Rapidamente, lembro das palavras do artista Jaider Esbell, nascido em Roraima, quando associou, em entrevista à Radis, os efeitos da invisibilidade da Região Norte à exploração deliberada das terras indígenas pelo garimpo ilegal, em 2021 (Radis 224). “No atual governo, por exemplo, o presidente deu uma certa atenção à Roraima porque quer financiar o garimpo ilegal — que é outro caso que essa turma não associa de onde vem esta riqueza. Vários estudos mostram que o caminho do minério ilegal, do diamante e do ouro ilegal que saem de Roraima, passa pela Avenida Paulista ou por estas lojas. Isso a gente não fica sabendo, a menos que tenha tino de ativista, de investigação própria, para poder entender a dinâmica”, denunciou o artista, que faleceu sete meses depois da entrevista.

Toda a repercussão sobre o holocausto yanomami, como já vi alguns colegas jornalistas registrarem, nos mostra o quanto parecemos “anestesiados” diante desta e de tantas outras permanentes situações de injustiça e de abandono (no país e no mundo), sem que a maioria de nós levante um único dedo que não seja para compartilhar notícias ou doar pequenas quantias em campanhas criadas nos ambientes virtuais.

Ficamos atônitos diante das imagens do horror — muitas delas censuradas pelas redes “sociais”, outras irresponsavelmente compartilhadas, com a melhor das intenções — mas imediatamente desviamos o olhar para as próximas telas: um cãozinho ou um “influencer” a fazer graça, um crush ou um ídolo para esquecer a desgraça, uma selfie e um story para demarcar nosso próprio território.

A visualidade nos comove, mas não nos move, ao que parece. E a visibilidade compartilhada não se transforma em ação — sobretudo ação política. A adesão às campanhas de mobilização e aos atos de indignação se sobrepõem e se substituem na velocidade com que passamos de um app a outro, na intensidade dos likes que tanto buscamos em nome do equilíbrio da saúde mental.

Penso nas diferentes teorias da comunicação que orientam pesquisas, avaliando tendências, conveniências, recall e adesão a produtos, ideias e mensagens; penso no investimento que se faz, no mundo todo, em favor do requinte e da precisão das campanhas de valorização de imagem, requalificação de marcas, fidelização de comportamentos; penso nas questões que desafiam técnicos e gestores quando propõem diferentes estratégias de saúde e enfrentam um tsunami de informações falsas e desinformação.

Quando assisto à exposição muitas vezes indevida da imagem destes brasileiros, vítimas da ganância por terras, por ouro e por outros metais bem menos preciosos que a vida humana, percebo que além de não ser novidade aquilo que se divulga — a não ser a agudização do quadro de exploração dos indígenas, resquício de nosso presente-passado colonial — este é um episódio que demanda uma reflexão que vá além da denúncia ou da mobilização caridosa que compartilha imagens, mas não se solidariza de verdade com as vidas humanas.

É preciso, portanto, garantir uma mobilização para que sejam levadas em consideração as vozes indígenas — assim como todas as outras que não são escutadas, desde a formação do Brasil como país — de modo que os canais de comunicação não sejam apenas repetidores de tragédias há muito anunciadas. É urgente que deixemos de lado as “caridosas” ações de capacitação, qualificação e adequação do discurso dos que sofrem para nos comprometermos verdadeiramente com a formulação, a execução e a fiscalização de políticas e práticas de comunicação que permitam que estes possam falar e que sejam escutados.
A hora é de superar a colonial ideia de “dar voz” aos que vivem em situação de vulnerabilidade e viabilizar para que depoimentos, denúncias, alertas e demandas sejam realmente levados em conta — para além dos anais dos congressos ou das cartas de indignação e repúdio que envelhecem nos sites oficiais, com a rapidez das notícias factuais.

Somente comprometidos com a escuta de todos, em reais condições de equidade, consolidaremos uma sociedade democrática em que a comunicação será peça chave para a diminuição das desigualdades. Somente de olhos abertos e ouvidos atentos evitaremos que mais tragédias como estas se repitam, permaneçam e se multipliquem. Somente assim comprovaremos que vozes indígenas importam, que todas as vozes brasileiras importam.