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Na região Transamazônica e do Xingu, campanha combate insegurança alimentar e covid-19

Em novembro de 2019, cerca de 70 pessoas, entre indígenas, ribeirinhos, jovens ativistas do clima e cientistas, reuniram-se na Reserva Extrativista do Rio Iriri, no Pará, para pensar em soluções sustentáveis para o futuro da Amazônia e do planeta. Naquele momento, os participantes não tinham como prever como o encontro, que recebeu o nome de Amazônia — centro do mundo, seria importante para aproximar pessoas e organizações em torno do enfrentamento coletivo dos impactos da pandemia de covid-19 — incluindo-se a insegurança alimentar —, que também atingiria a região da Transamazônica e do Xingu, na região sudoeste do estado, poucos meses depois.

O encontro foi a semente da criação, em fevereiro de 2021, da campanha Respira Xingu — uma das inúmeras iniciativas que incluem ações de combate à fome durante a pandemia em todo o Brasil. Criada na iminência da segunda onda de contaminação no país — e quando o estado do Amazonas enfrentava o colapso no fornecimento de oxigênio —, a campanha reúne mais de 40 associações e movimentos sociais que, naquele momento, ficaram preocupados com os índices alarmantes de infecção e morte por covid-19 na região (que engloba as cidades de Altamira, Anapu, Brasil Novo, Medicilândia, Pacajá, Porto de Moz, Senador José Porfírio, Uruará e Vitória do Xingu).

Havia, entre eles, a preocupação de que o Hospital Regional da Transamazônica (HRPT), que funciona há 14 anos em Altamira, mas atende à demanda dos outros oito municípios que integram a 10ª Regional de Saúde do Pará, entrasse em colapso, como informou à Radis o engenheiro de produção Marcelo Salazar, coordenador executivo da organização Saúde em Harmonia, uma das integrantes da campanha.

Havia razões para a preocupação: números das secretarias municipais de saúde indicavam que a incidência acumulada de casos de covid-19 no Xingu superava a média do estado do Pará, e também era maior do que a média no Brasil. Altamira, município referência para o atendimento de uma população estimada de 354 mil pessoas, contava com apenas dois hospitais, e só um deles tratava casos de alta complexidade. Maior cidade do entorno, Altamira presta atendimento a pessoas de 11 Terras Indígenas e sete Unidades de Conservação.

Marcelo explicou que o movimento se estruturou, então, em cinco frentes de atuação: Educação, centrada em ações de prevenção, com a criação de materiais educativos e conscientização da população para as medidas protetivas em relação à covid-19; responsabilização, pressionando o poder público para que tomasse medidas de contenção do vírus; informação, investindo na transparência e na elaboração de boletins com dados atualizados da região; arrecadação, tanto de insumos para hospitais, como de donativos para famílias em situação de vulnerabilidade; e memória, honrando a história das vítimas fatais do vírus.

No contexto de covid-19, não havia como ignorar a fome. Apesar de a pandemia ter afetado negativamente as condições de renda e trabalho da população em todas as regiões do país, as regiões Norte e Nordeste foram as mais atingidas, onde foram registrados os maiores percentuais de perda de emprego, redução dos rendimentos familiares, endividamento e corte nas despesas de itens considerados essenciais, como indicou o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, desenvolvido pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar (Rede Penssan), em abril de 2021. A realidade no sudoeste do Pará não era diferente.

Vulnerabilidade e Belo Monte

Segundo Marcelo, pelo menos 2 mil cestas básicas foram distribuídas na região, com a preocupação de que os alimentos doados combatessem a fome com segurança alimentar. A estratégia foi aproveitar a produção das comunidades tradicionais do Xingu e incluir nos donativos produtos regionais como a castanha, a mandioca, a banana e a farinha regional. Além disso, as doações também levaram em consideração as demandas específicas dos moradores, incluindo itens como kits para pesca, bem como outros insumos, lembrou a psiquiatra Erika Pellegrino, integrante do comitê técnico de saúde da campanha.

Coordenadora de saúde da organização Saúde em Harmonia e professora da Universidade Federal do Pará (UFPA), Erika disse à Radis que já identificava o aumento da insegurança alimentar nas cidades da região, principalmente depois da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte — Altamira é a cidade mais próxima do empreendimento e sofreu grande impacto com a sua chegada. Segundo ela, com a expulsão de famílias de territórios tradicionais e seu assentamento em áreas urbanas, houve a criação de “novas periferias”, onde se identifica alto grau de vulnerabilidade social.

Essa vulnerabilidade, tanto para a covid-19 quanto para a fome, é maior nas áreas urbanas, onde as famílias reassentadas são expostas a um maior risco de aglomerações (o que favorece o contato com o vírus) e têm que lidar com necessidades que antes não existiam. “Essa é a realidade de muitos ribeirinhos, que foram para casas sem identidade e passaram a precisar de dinheiro para se alimentar”, descreve a médica, que observa que Belo Monte “empurrou para periferias” cerca de 20 mil pessoas que viviam saudáveis na floresta.

Embora diga estar consciente de que não é possível romantizar ou homogeneizar a situação das comunidades tradicionais na Amazônia, Marcelo assegura que nas reservas extrativistas da região da Transamazônica e do Xingu os ribeirinhos têm melhores condições de vida e de alimentação, lembrando que muitas etnias indígenas sofreram impactos diretos com Belo Monte, parando de plantar e passando a consumir produtos industrializados.

Erika enfatizou que a fome e a pandemia se potencializaram nestas zonas de carência e ajudaram a evidenciar a realidade crônica, onde falta estrutura de saneamento básico e são comuns problemas como as verminoses, e endemias como a dengue e a malária. Também chamou atenção para o risco que correm estas famílias em relação aos agravos relacionados à saúde mental, como uso de álcool e ocorrência de sintomas depressivos. Marcelo lembrou ainda que as mudanças de hábito de consumo (com a introdução de alimentos ultraprocessados e de açúcar, de baixa qualidade nutricional) também resultaram em maiores índices de diabetes e hipertensão nas populações reassentadas.