Setembro de 2018 | por Jacob Milnor*

A atual situação do HIV no Brasil é de extrema urgência, sobretudo para os grupos mais vulneráveis como adolescentes, gestantes e populações queer, como transgêneros e homens que fazem sexo com homens (HSH). A taxa de detecção de novos casos de HIV triplicou entre homens entre 15 e 19 anos de idade na última década, e duplicou entre os que têm entre 20 e 24 anos; a taxa de casos de aids entre HSH aumentou de 35% a 46% no mesmo período, quando comparada às demais categorias; os jovens HSH agora representam cerca de 40% dos todos os casos de HIV no Brasil;

Houve um aumento de 28% nos diagnósticos de HIV em gestantes desde 2006. Também nos últimos 10 anos aumentou a proporção de HIV entre pardos e negros em 37% — quando comparados aos brancos; por outro lado, houve uma queda de quase 22% para os brancos, na mesma medida. Uma pesquisa de 2018 registrou prevalência de HIV entre mulheres trans por volta de 40% pro Rio de Janeiro e São Paulo, e, espantosamente, por volta de 60% em Porto Alegre.

A cara do HIV no Brasil é cada vez mais jovem, negra, feminina e queer — aspectos tipicamente oprimidos em sistemas patriarcais. É impossível separarmos as questões sociais das questões epidemiológicas quando falamos de HIV, e os dados reverberam isto. Paradoxalmente, também nos últimos 10 anos surgiram várias inovações em métodos e metodologias de prevenção, tanto no mundo quanto no Brasil. Estes incluem métodos biomédicos, como profilaxia pré e pós exposição (PrEP e o PEP, respectivamente), tratamento como prevenção (TasP), e métodos sociocomportamentais, como prevenção combinada e alfabetização de prevenção (prevention literacy). Muitas dessas pesquisas inovadoras, como PrEP e TasP, foram conduzidas inclusive no Brasil, em locais como a Fiocruz e o Hospital Geral de Nova Iguaçu (RJ), entre outros. Em 2015, o Unaids declarou o fim de aids iminente devido a estes avanços, mas tanto no Brasil quanto nos outros países do Sul Global, a face e situação atual do HIV ainda representam um desafio enorme, mas não inexorável, frente a este otimismo apresentado pelo Norte.

O SUS, em particular, se encontra à mercê de políticas e medidas de austeridade. Apesar da sua aprovação em 2017, o PrEP sofre com implementação incompleta e preconceitos que limitam seu acesso, sobretudo aos grupos mais afetados pelo HIV. O debate sobre o PrEP envolve questões de comportamento de risco entre os homens brancos cisgêneros, o que atrapalha seu potencial como ferramenta de empoderamento — ou de estabelecer esquemas de saúde queer — ambas melhor definidas e melhor acessíveis.

É necessário enfatizar que, como profissionais de saúde, é imprescindível que continuemos a promover a camisinha e o sexo seguro, mas não ignorar que as pesquisas têm demonstrado que os grupos mais afetados pelo HIV, sobretudo HSH, precisam e querem alternativas além do uso de preservativo. O nosso dever não é castigar e influenciar nas escolhas do outro, mas, como agentes de saúde pública, ajudar as pessoas a entenderem e personalizarem seu risco individual não só em relação ao HIV, mas também para outras DSTs.

O PrEP e a prevenção combinada podem ser um ato político para viabilizar tudo isso, e no ambiente em que nos encontramos agora, deve ser. O PrEP é muito mais do que tomar um comprimido diariamente, é um programa complexo de saúde sexual. Precisamos nos aproveitar disso para levantar o conhecimento sexual nas populações mais vulnerabilizadas pela sociedade. Temos que colaborar com elas, temos que aprender sobre elas. Para isso, é preciso trabalhar juntos com elas.

Não podemos simplesmente enfrentar questões de implementação sem enfrentar essas questões críticas sociais, e vice-versa. O HIV é fomentado pelo estigma, pela vulnerabilidade e pelo ódio. É o nosso dever, como ativistas, como sociedade civil e como profissionais de saúde, enfrentar e combater esses dois lados da crise — tanto epidemiológica quanto social —, sobretudo quando esses grupos mais afetados (jovens, trans, mulheres, negros etc) também são desumanizados dentro da própria comunidade LGBT (uma olhada em qualquer aplicativo gay pode confirmar isso).

Precisamos procurar e localizar dentro de nós preconceitos sobre como tratar e prevenir o HIV e nos divorciar deles. O nosso status quo não está funcionando e o HIV vem crescendo. O PrEP e a prevenção combinada do HIV oferecem uma reviravolta urgente para melhor combatermos essa crise no Brasil.

■ Jacob Milnor é epidemiologista social e pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia (INI/Fiocruz).