O agronegócio, que consome 78% de toda água retirada, coloca o Brasil como um dos celeiros do mundo. Fotografia: Reprodução.

Agosto de 2018 | por Tatsuo Shubo*

A água é base da vida, do equilíbrio dos ecossistemas e também, na sociedade moderna, fator preponderante para a estabilidade econômica e política em todos os níveis. A crise hídrica mundial, causada pelas mudanças no clima e crescente demanda por água, é o somatório de várias crises hídricas locais e regionais que se interconectam pelo comércio inter-regional e internacional de água virtual – água incorporada aos produtos durante todas as fases do processo produtivo.

As mudanças climáticas suscitam desafios que, para serem enfrentados, demandam abordagens multidimensionais articuladas em escala local, nacional e regional. Assim, a compreensão do nexo água, alimento e energia, setores extremamente vulneráveis às mudanças no clima e, ao mesmo tempo, parte de sua causa, torna-se fundamental para que as ações de adaptação sejam sustentáveis e minimizem os riscos de bilhões de pessoas sofrerem com a escassez.

O modelo desenvolvimentista pressupõe o ganho em escala como impulsionador da economia, estimulando o crescimento das áreas urbanas. Estas, por sua vez, vêm pressionando a demanda por água em tal escala que, mantidos os padrões atuais de produção e consumo, as projeções apontam para um déficit na disponibilidade hídrica da ordem de 40% até 2030. Atualmente, segundo o documento intitulado Making Every Drop Count, apresentado pelo Painel de Alto Nível em Água, em março de 2018, 2,5 bilhões de pessoas já vivem em áreas de escassez hídrica, onde mais de 20% do PIB mundial é produzido.

O Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos 2017, publicado pela Agência Nacional de Águas, cautelosamente apresenta os extremos climáticos de excesso ou escassez como sendo indícios de alterações no clima e aponta para dados alarmantes: entre 1995 e 2014, os desastres naturais contabilizaram perdas anuais da ordem de R$ 9 bilhões; entre de 2003 e 2016, 2.783 municípios decretaram, pelo menos uma vez, Situação de Emergência ou Estado de Calamidade Pública em função de seca ou estiagem; pelo mesmo motivo, entre 2013 e 2016, 48 milhões de pessoas, sendo 83% no Nordeste, foram afetadas; projeta-se um incremento de 30% até 2030, diretamente relacionado ao crescimento econômico e à urbanização.

O agronegócio, que consome 78% de toda água retirada, coloca o Brasil como um dos celeiros do mundo. Por esse motivo, desempenha um papel fundamental no balanço hídrico virtual mundial, suprindo o déficit hídrico de outros país através da exportação da água incorporada nos produtos agropecuários. Visando à manutenção desse papel no cenário internacional, a bancada ruralista tenta flexibilizar as leis de proteção ambiental e dos recursos hídricos. No curto prazo isso representa o acirramento de conflitos por acesso à água, como já ocorre nos perímetros irrigados do Nordeste, e aumento da concentração de renda e das iniquidades. No longo prazo, põe em risco a própria manutenção do sistema e inviabilizará que o Brasil alcance os objetivos do desenvolvimento sustentável.

A adaptação está intrinsecamente relacionada à garantia da segurança hídrica, energética e alimentar e ao uso racional dos recursos naturais. A alteração consciente dos padrões de consumo e produção, torna-se então, um fator crítico de sucesso para adaptação e mitigação. Tal mudança, porém, depende de ajustes políticos, institucionais e de mercado, que por sua vez são impulsionados pela pressão do somatório de atitudes individuais. Repensar hábitos alimentares, como a redução do consumo de proteína animal e a substituição de alimentos produzidos pelo agronegócio por aqueles da agricultura orgânica de base familiar, tem profundos impactos na redução da depleção hídrica e deterioração qualitativa dos recursos hídricos.

Por fim, surge um dilema ético: como valorar a água, sem por preço neste bem essencial à vida, garantindo que o direito humano de acesso à água e saneamento não seja negado aos que mais sofrerão os efeitos das mudanças climáticas – as populações mais pobres e vulneráveis.

■ Tatsuo Shubo é pesquisador em recursos hídricos e saneamento, no Departamento de Saneamento e Saúde Ambiental da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz).