Dezembro de 2018 | por Lucas Amaral de Oliveira*

"Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam”“Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam." Pedagogia do oprimido, 1968.

Nestes tempos em que educadores são apontados como inimigos públicos, estudar o pernambucano Paulo Freire é quase um ato de desobediência civil. Pedagogia do Oprimido é a produção intelectual brasileira mais lida e citada no mundo. Não seria exagero dizer que as ideias de Freire representam nossa principal ruptura pós-colonial em termos epistemológicos, pois aventaram, de um lado, uma nova relação entre docente e discente (menos alheia e assimétrica, mais enraizada nas vivências) e, de outro, novos caminhos para a composição crítica de saberes e práticas. Enquanto professor, vejo seu projeto como uma pedagogia afetiva, dialógica, libertadora, cujo predicado central é a empatia. Freire, de modo inteligente, acusa certas frações conservadoras de temerem a liberdade do oprimido, ou melhor, a passagem de uma consciência dócil e resignada diante das iniquidades para uma consciência crítica, criadora e transformadora. Sua obra, que tem balizado minha trajetória acadêmica há uma década, possui um desígnio pedagógico audacioso: a tomada de consciência dos sujeitos, no transcorrer dos processos de alfabetização e aprendizagem, sobre a existência de um sistema opressor que, a partir de violência física, econômica, simbólica e epistemológica, opera no sentido de perpetuar determinado estado de coisas. Isso tem sido arranjado mediante uma ‘cultura do silêncio’, ou práticas de silenciamento, em que há a reprodução massiva e arbitrária de uma única narrativa histórica sobre a realidade brasileira, o que ratifica processos de naturalização de desigualdades sociais. Freire me ensinou que só há educação onde há terreno para a invenção e reinvenção da vida social, a partir das vivências dos alunos, algo que se consuma não apenas na teoria, mas inclusive na prática – fonte privilegiada dos saberes. Creio que Paulo Freire seja o guardião da educação nacional, sobretudo em tempos de patrulhamento ideológico a alunos e professores, amparado por um tsunami anti-intelectualista cujo objetivo parece ser a criminalização de processos pedagógicos críticos e horizontais. Isso tem violado, a um só tempo, diversos princípios democráticos de liberdade de cátedra, expressão e livre pensamento. Paulo Freire e sua exemplar Pedagogia do Oprimido representam, para mim, o espírito indócil que tanto precisamos nos cinzentos e incertos dias de hoje.

 Lucas Amaral de Oliveira, professor da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade Federal de Goiás (FCS-UFG).