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Foto: Araquem Alcântara

Janeiro de 2019 | por Mayara Floss

Nos últimos tempos tive a oportunidade e o privilégio de, como ser humano e médica, vivenciar o nascer, o cuidar e o morrer em casa. Vivenciar a casa, a família e as suas possibilidades e potências como espaço de cuidado. A mesma humanidade que saiu para as clínicas, unidades, hospitais, volta para dentro das casas, para as comunidades. A família que cuida do idoso até o último respirar, os pais que acariciam o filho jovem muito adoecido até a última contração do coração, a primeira mamada depois do parto feito na cama, com as três gerações (avó, filha e neta) participando. Nascer a muitos olhos pode ser poético, a “celebração da vida”. Morrer também pode ser essa celebração. Envelhecer é um sinal do tempo. Apenas os privilegiados pela vida podem envelhecer.

A cada dia o cuidar no núcleo familiar e comunitário faz mais sentido. É um alento, muitas vezes, dentro da carga de trabalho, poder respirar nesses ambientes. Participei do cuidado de um senhor em uma casa muito simples. Não tinha chão. Algumas janelas não existiam — só cortes no concreto. Quando chegamos, uma parente, muito simples, não tinha café para oferecer (um clássico mineiro) mas fez o que pôde espremendo algumas tangerinas (bergamotas ou mixirica). A maior alegria dela foi ver a equipe tomar sua limonada enquanto cuidava do paciente em um quartinho improvisado, até o último minuto. Foram semanas convivendo com a família e olhando a comunidade pelos cortes no concreto, com vista privilegiada do cemitério. Segundo ela, dali se sabia melhor do que ninguém quem vivia e quem morria.

Nascimentos também. Após a dequitação (saída da placenta), poder tomar um chimarrão, cobrir a parturiente, levar café da manhã na cama. Saborear a primeira mamada, a primeira troca de roupas, o primeiro xixi, o primeiro sono. Assim como nascer em casa é um sinal de empoderamento, cuidar e morrer também. Nunca esquecerei quando, sentada à mesa da cozinha fazendo um atestado de óbito, também triste, respirando a partida e vendo (mais ouvindo) o choro da família de longe, uma senhora, a vizinha, percebeu que eu estava lá e rapidamente serviu um copo de refrigerante de laranja para mim. “Toma, doutora”. Era o que tinha e no que ela sentia que poderia me ajudar.

Outro dia, um senhor que eu atendia e já não podia viver na zona rural pois os filhos tinham que trabalhar na cidade, acabou mudando-se. Eu, no meio do caminho de uma visita domiciliar, passei na frente de sua antiga casa e colhi as bergamotas da bergamoteira do quintal — uma das grandes vantagens de trabalhar na atenção primária é que os cachorros já te conhecem, apesar de sempre ser um risco levar uma mordida no interior rural. Levei as bergamotas para ele na cidade. A consulta pouco o interessou, já cansado. Mas as bergamotas... essas eu vi ele rapidamente pegar uma bacia para acomodar.

O cuidado em casa carrega esse senso de comunidade, de quintais e bergamoteiras. Bergamotas que levei também como presente para a mãe ainda grávida na volta do trabalho e que comi depois que o parto terminou. A casa em si não é o tocante, por definição “um espaço destinado a moradia”, mas o humano da casa que cuida, alimenta, acaricia e divide bergamotas. Esse sim faz o nascer, o viver, o cuidar e o morrer em casa ter sentido.

■ Mayara Floss é médica da atenção primária, membro da executiva de Saúde Rural da Organização Mundial de Médicos de Família (Wonca, na sigla em inglês), criadora e embaixadora da rede Rural Seeds