Nossa matéria de capa analisa a redução da cobertura alcançada para as principais vacinas do Calendário Nacional de Vacinação, que pode representar o retorno de doenças como o sarampo, erradicado das Américas em 2016, e a poliomielite (paralisia infantil), eliminada do país em 1989. Disponível no SUS e nas campanhas nacionais de imunização, a vacina tríplice viral, que previne contra sarampo, caxumba e rubéola, não alcançou a meta de cobertura de 95% das crianças em 2017. A primeira dose chegou a 90% e a segunda a apenas 74,9%, conforme dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI).

O PNI, criado em 1973 e mantido como política de Estado desde então, é reconhecido mundialmente. A queda da cobertura é grave e pode ser atribuída a múltiplos fatores: desarticulação do programa, desfinanciamento do SUS — agravado pela Emenda Constitucional 95 de congelamento de “gastos”, que atinge a produção de vacinas — ou, ainda, à redução de equipes de saúde da família e da abrangência da ação dos agentes comunitários.
Por trás da recusa individual a vacinar-se ou levar crianças para serem vacinadas, há dificuldade do acesso às unidades de saúde, boatos e fake news e discurso de movimentos antivacina, mas também um certo individualismo em não compreender que a proteção coletiva contra a circulação de vírus depende do alto percentual de vacinação.
A bactéria Treponema pallidum, ou espiroqueta, é a causadora da sífilis, uma infecção sexualmente transmissível que acompanha a humanidade há milhares de anos. A doença, abordada nesta edição, já foi maldita e endêmica, mas tornou-se curável no século passado com a penicilina e pode ser prevenida com o uso de camisinha. A prevenção à sífilis congênita deve ser feita no acompanhamento das gestantes e suas parcerias sexuais. No Brasil, no entanto, os casos de infecção aumentam há vários anos e subiram 48% de 2016 para 2017. Uma epidemia que acompanha a desigualdade da sociedade brasileira, atingindo os mais vulneráveis.
A detecção e tratamento em grávidas e a prevenção da sífilis congênita antes ou durante o parto depende de teste na primeira consulta do pré-natal, dentro dos três primeiros meses, o que nem sempre ocorre por dificuldades de acesso aos serviços ou despreparo de parte dos profissionais de saúde. A atenção básica do SUS precisa expandir e melhorar, mas, neste momento, ocorre o contrário, ela está sendo desmontada. A infecção vem se instalando entre os mais jovens, mas com a tendência de censura aos temas de saúde e sexualidade nas escolas, principal espaço para estratégias educacionais e comunicacionais de prevenção, a situação pode piorar. A indústria farmacêutica, que é negligente em relação à sífilis em função do baixo custo do medicamento, promove o desabastecimento mundial de penicilina e não realiza pesquisas para novas formas de diagnóstico e tratamentos.
Tema de outra reportagem, os fungos são microscópicos organismos que se alojam no corpo humano e podem provocar infecções graves e deixar sequelas permanentes ou levar à morte. Em 2016, segundo a Organização Mundial da Saúde, as mortes relacionadas a infecções fúngicas foram a quinta causa de mortalidade no planeta. Esporotricose, paracoccidiomicose, criptococose, histoplasmose, candidíase e aspergilose são algumas das mais frequentes que demandam formação adequada e experiência dos profissionais de saúde para a o diagnóstico e o tratamento correto.
Diante de todas as questões citadas, nada mais necessário do que o fortalecimento do sistema público de saúde. Mas estamos indo noutra direção, segundo especialistas em saúde coletiva. Na saúde mental, recursos destinados às Redes de Atenção Psicossocial, para acompanhamento respeitoso e inserção social, estão abastecendo a iniciativa privada numa retrógrada visão de retorno ao confinamento de pacientes, para lucrar com o adoecimento de pessoas mantidas cada vez mais alienadas de sua autonomia e da vida.
“O que está em jogo não é só o retrocesso na Reforma Psiquiátrica, na Reforma Sanitária, no SUS, na Estratégia Saúde da Família, no Mais Médicos”, comenta o sanitarista Paulo Amarante, pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca, “é um retrocesso geral na política brasileira, na democracia, na cidadania, nas práticas sociais mais avançadas, é o reflexo de uma mudança maior que está mudando todas as políticas de cidadania, de participação social, a questão das universidades e das escolas, é um retorno à política privatizante e de mercantilização da vida”.
Rogério Lannes Rocha coordenador e Editor-chefe do programa Radis