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Fotografia: Araquém Alcântara.

Dezembro de 2018 | por Adriano De Lavor

Sexta-feira, 16 de novembro. Atravesso a cidade vazia e nublada a caminho do trabalho. Na tranquilidade atípica de um dia “imprensado” entre um feriado e um fim de semana, aproveito o ônibus vazio para mexer no celular, à procura de notícias atualizadas sobre a saída dos profissionais cubanos do programa Mais Médicos. Dois dias antes, o governo da ilha havia anunciado a saída do programa, alegando “referências diretas, depreciativas e ameaçadoras” feitas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro à presença dos médicos cubanos no Brasil, como divulgado no jornal Granma (14/11). A informação gerou ampla repercussão na imprensa brasileira.

Na busca em que fiz naquela manhã, ainda no celular, notícias e opiniões disputavam a atenção de quem buscava informações sobre o assunto, na internet. “Mais Médicos: saída de cubanos afeta atendimento de 28 milhões”, anunciava o site da Veja, onde se lia que em 1.575 municípios do país, o atendimento médico é feito apenas por cubanos; “EUA elogia postura de Bolsonaro sobre o ‘Mais Médicos’ em Cuba”, publicou a revista Exame, informando que 196 profissionais já haviam retornado ao país; no Uol, a manchete destacava a deserção de um grupo de médicos, que segundo o portal, estariam buscando atuar de forma independente no Brasil; “É ‘desumano’ dar aos mais pobres atendimento sem ‘garantia’, diz Bolsonaro sobre cubanos”, apurou o G1; “Antes da eleição, Bolsonaro falou em mandar cubanos embora com ‘canetada’”, indicava a Folha de S. Paulo.

Em plena avenida Brasil sem trânsito, eu pensava como o fim de um programa de saúde é um fato que exemplifica a complexidade da comunicação nos dias de hoje, em que atores diversos da sociedade disputam por espaços de fala e a produção de sentidos sobre os temas que estão em pauta. Nas semanas seguintes, além do discurso oficial dos governos cubano e brasileiro, se posicionaram sobre o assunto o presidente eleito e integrantes de sua equipe de transição, sanitaristas, profissionais que atuam (ou não) na atenção básica, especialistas de diferentes áreas, representantes do controle social e também de usuários. As opiniões, muitas vezes discordantes, apareceram nas redes sociais e nos meios de comunicação. Todas em disputa por dar sentido à visão de mundo que as sustentam.

Ligo o computador e sou surpreendido por uma mensagem, em minha caixa de entrada: “Nossa. Acredita que só vi agora esse e-mail enquanto procurava meu texto? Que pena!” Pensei imediatamente naquilo que se perde nesta disputa por espaço para falar e pela oportunidade de ser levado em consideração. A mensagem, assinada pela médica de família Bruna Silveira, era uma resposta tardia à solicitação que eu havia feito em 2015, quando pedia para reproduzir na Radis um texto seu, “O direito à saúde e os médicos: uma questão de interesses”, publicado no jornal Brasil de Fato, em 29 de junho daquele ano.

Naquele momento, ela comentava como as reações à publicação de um artigo sobre Estratégia de Saúde da Família (ESF) e o Mais Médicos, no The New England Journal of Medicine, refletiam as disputas políticas enfrentadas dentro da área da saúde, e avaliava os dados publicados pelo estudo “Demografia Médica do Brasil”, divulgados quando escreveu o texto. Apesar de reconhecer que é preciso atualizar os resultados da pesquisa que comentara, Bruna considera que pouca coisa mudou. “Mantém-se a concentração dos médicos nas grandes cidades, principalmente no Sudeste”, disse a médica por telefone, quando entrei em contato renovei o interesse em publicar sua análise, que pode ser conferida nas próximas páginas. Ela alertou que apesar de haver, em teoria, médicos suficientes no país, sua distribuição por local e por especialidade ainda é um problema. “Mudaram os números, mas o problema continua”, lamentou.

Segundo ela, nos países onde a atenção primária é fortalecida, como Canadá, Inglaterra e na própria Cuba, “mais da metade dos médicos são médicos de família. No Brasil, eles são muito poucos”. Ela explicou que eram profissionais com este perfil que atuavam no Mais Médicos. Bruna lembra que na origem do programa, em 2013 havia duas propostas interessantes: uma seria o serviço civil obrigatório, que condicionaria os jovens profissionais formados a assumirem estes postos; a outra seria a regulação das residências — o que relacionaria a escolha dos novos médicos às especialidades com maior demanda no país, o que naturalmente aumentaria o número de médicos de família. Ambas as propostas foram rechaçadas pela categoria médica, esclareceu Bruna, que atuava até há pouco tempo como supervisora do programa. Hoje afastada por razões de saúde, ela integra o coletivo Panapaná — Saúde e Feminino e aguarda decisões sobre o programa, mas continua preocupada com o futuro da atenção básica. “São muitas coisas acontecendo neste momento”, apontou. Leia o texto de 2015.

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