Saúde mental das crianças é posta em risco por excesso de prescrições e diagnósticos indiscriminados, alertam pesquisadores em seminário internacional

Dezembro de 2018 | por Elisa Batalha  Fotografia: Eduardo de Oliveira

Gabriela, de 12 anos, chegou à consulta encaminhada pelo Judiciário. Aos seis anos, começou a apresentar comportamento agressivo e foi diagnosticada com transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e transtorno opositor desafiador, também conhecido como transtorno desafiador opositor (TDO). Em terapia, a menina relatou que era violentada pelo pai desde os seis anos. A despeito dos relatos que fez para familiares e profissionais, ela foi medicada, mas continuou a sofrer os abusos em casa.

Miguel, de oito anos, já era atendido no setor de Pediatria Social da Unicamp desde os dois anos, quando foi morar em um abrigo. Aos cinco, amassou e quebrou vidros de cinco carros usando um pedaço de pau. A história da criança passa por abandono e violências. A separação dos irmãos, enviados para outro abrigo, e a tentativa fracassada de adoção por uma família estão por trás da explosão violenta. Nada do histórico da criança foi considerado, e seu caso foi tratado como disfuncionalidade. Miguel recebeu prescrições de medicamentos para controlar a agressividade.

Dudu, de 11 anos, tocava guitarra, jogava futebol e achava a escola “um saco”. Os pais o levaram a médico. Foi diagnosticado com TDAH e parou de jogar futebol e de tocar guitarra. Continuou a achar a escola um saco. André, de 9 anos, se esgoelava e se debatia antes de entrar no consultório. Arrastado pela mãe, finalmente se sentou e se acalmou depois de uma breve conversa com a pediatra. “Vou ficar internado?” “Internado por quê?”, perguntou a médica. “Porque eu não sei ler”, confessou o menino.

Os relatos dos atendimentos da pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), comoveram a plateia, composta principalmente de profissionais da área de saúde mental, durante o seminário internacional “A Epidemia de Drogas Psiquiátricas — as evidências científicas para a desmedicação segura e eficaz”, realizado na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), entre 29 a 31 de outubro. A situação dessas crianças e a maneira como vinham sendo tratadas demonstram um fenômeno que Maria Aparecida vem estudando e denunciando: a patologização da infância.

Isso significa considerar que as crianças devem ser atendidas por um profissional de saúde — que normalmente prescreve medicação — apenas por reagirem de forma diferente ao ambiente. Situações que antes não eram vistas como “doença”, que eram consideradas comportamentos típicos de “crianças sendo crianças”. Apresentar dificuldades na escola, não obedecer aos pais e reagir a situações traumáticas, por exemplo, passaram a ser identificadas como sintomas que culpabilizam a criança individualmente.

“Não existe uma epidemia de problemas psiquiátricos em crianças, e sim uma epidemia de diagnósticos,"

explica a médica ,que é autora do livro “Institucionalização invisível: crianças-que-não-aprendem-na-escola” e integrante do Movimento pela Despatologização da Vida (Despatologiza). “Os processos de medicalização retiram a vida da cena”, avalia a pesquisadora. Segundo ela, descontextualizar sintomas, não escutar a criança e não enxergar suas singularidades são algumas das facetas do quadro crescente de patologização. Dislexia, TDAH, condutas do espectro autista e o menos conhecido TDO são alguns dos diagnósticos que vêm aumentando.

O Brasil é o segundo consumidor mundial de metilfenidato, medicamento conhecido pelo nome comercial Ritalina (ou Concerta) e utilizado para crianças diagnosticadas com TDAH. Já eram cerca de 2 milhões de caixas vendidas no Brasil no ano de 2010. O consumo explodiu entre 2006 e 2016, com um crescimento de 775%, segundo os dados do Ministério da Saúde. “A patologização é a naturalização das desigualdades, a culpabilização da vítima, que é aprisionada em um fracasso que não é seu. O desafio que temos hoje é despatologizar e repolitizar a vida”, afirmou Maria Aparecida durante o evento.

“A escola não deu conta”

Para o psiquiatra Ricardo Lugon, a escola tem desempenhado muitas vezes um papel de “porta de entrada” nos processos de medicalização, por encaminhar crianças por motivos mais relacionados ao desempenho escolar ou aos relacionamentos familiares. Ricardo trabalha como psiquiatra infantil em um Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Capsi) na cidade gaúcha de Novo Hamburgo e fez mestrado sobre o tema na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que resultou na dissertação “A construção da demanda para a neurologia nas vozes das ensinantes”. 

Dor de cabeça frequente, convulsões e epilepsia são aspectos clínicos clássicos que levam ao encaminhamento de uma criança para o atendimento de um neurologista. Dos 203 encaminhamentos desse tipo feitos na cidade de Novo Hamburgo no segundo semestre de 2015, 65 não tinham nenhuma relação com esses problemas. Eles vinham da escola, alguns com anotações dos professores. “Nem todos tinham menção a TDAH”, observou Ricardo.

Ele procurou esses professores e perguntou o que estava havendo com esses alunos, quais as questões que levaram os professores a encaminharem seus alunos à intervenção do neurologista. “As respostas passaram por expressões como ‘gostaria que o médico desse um retorno para trabalhar em sala de aula´”, revelou o especialista. Ricardo também descobriu que os docentes relataram saber que questões familiares, como a ausência dos pais, estavam por trás de problemas apresentados pela criança — uma dificuldade na fala, por exemplo —, mas esperavam que o médico pudesse ajudar a alertar os pais. “A escola não deu conta”, justificavam os professores.

Esse discurso da medicalização da educação é um fenômeno perigoso, de esperar que a neurologia dite o que o setor da educação deve fazer,

comentou o médico. O sistema, como um todo, empurra as crianças que não se encaixam — as “descabentes”, como diz Ricardo — para os remédios, que trazem efeitos colaterais para o sistema nervoso. Neste contexto, “os professores são o elo mais fraco dessa cadeia”, aponta a pedagoga Cecília Collares, do Despatologiza, que integrava a mesma mesa de Maria Aparecida e Ricardo Lugon durante o evento.   

A pesquisa de Ricardo concluiu que há um protagonismo da educação em produzir um encaminhamento para a neurologia, o que ele chamou de “constituição da demanda pela medicalização das crianças a partir da escola”. Ele explica que são processos culturais que determinam a decisão de medicar uma criança ou adolescente. “Quero problematizar essas portas de entrada e inventar portas de saída”, declarou ele.

Outro fenômeno que o médico observou durante sua pesquisa foi uma vinculação “automática” de comportamentos a diagnósticos, e consequente prescrição de medicamentos. “Comportamento adolescente de se cortar, por exemplo, é automaticamente vinculado à depressão e automaticamente vinculado à ideação suicida, para os quais são receitados antidepressivos. Mas já existem estudos mostrando que comportamento adolescente de se cortar, em especial no sexo feminino, muitas vezes está ligado a um ritual de pertencimento a um grupo”, explica Ricardo.

Ele também observou que a presença de profissionais de áreas complementares na equipe de saúde mental é importante para evitar a prescrição indiscriminada e automática de medicamentos. “Faz toda a diferença e muitas vezes, os profissionais não médicos são os principais referenciais para as crianças e suas famílias”, disse o especialista.

O Capsi de Novo Hamburgo se reúne com equipes das escolas, a partir de um acordo firmado com a secretaria municipal de educação. A ideia é formar uma equipe psicossocial como mediadora dos encaminhamentos da escola ao centro de saúde. Mas os tensionamentos podem ser bem difíceis, conta Ricardo. Resistir e evitar que uma criança seja medicada com psicotrópicos sem que se tenha certeza absoluta da necessidade pode ser complicado, dadas as pressões sociais. “Eu construo essa resistência no Capsi, mas vem lá um infeliz de um psiquiatra de uma clínica popular que cobra 50 pilas e ´tchuf´, carimba e prescreve”, desabafou ele, indignado, em sua fala durante o seminário.

Em adolescentes, um dos problemas colaterais da medicação indiscriminada é a perda de autonomia. “O assunto da vida da pessoa vira ajuste da medicação. Os pais ficam monitorando os sintomas e efeitos colaterais. Em tempos em que tem gente falando em rasgar o Estatuto da Criança e do Adolescente, isso se torna ainda mais grave, porque o adolescente já não pode opinar”, afirmou o psiquiatra.

Para que serve um cérebro?

Enquanto a medicação é sempre assunto amplamente discutido, um problema fica silenciado e sob tabu: os maus-tratos. “As revisões de literatura e meta-análises tornam claro que o abuso e a negligência têm sido sistematicamente ignorados mesmo por serviços que são especialmente criados para fornecer apoio e tratamento para pessoas em sofrimento emocional”, afirmou o psicólogo neozelandês John Read.

Enquanto os relatos de Maria Aparecida Moysés mostraram que crianças “normais” em situações de estresse ou que sofrem abusos podem acabar sendo tratadas como doentes, John, que é pesquisador e professor da Universidade East London, na Inglaterra, mostrou que os pacientes adultos diagnosticados com psicose [descolamento da realidade como delírios e ouvir vozes, característicos de doenças como a esquizofrenia] em sua maior parte sofreu maus-tratos na infância.

Suas pesquisas não seguem a linha do modelo biomédico clássico, que preconiza que a doença mental é basicamente um “defeito” no cérebro. “Dez de onze estudos populacionais relacionam maus-tratos sofridos na infância a sintomas psicóticos na idade adulta, mesmo depois de controlados os outros fatores, incluindo o histórico familiar relacionado à psicose”, resumiu.

John Read é um dos autores do livro “Models of madness: psychological, social and biological approaches to schizophrenia” [Modelos de loucura: abordagens psicológicas, sociais e biológicas sobre esquizofrenia], ainda sem tradução no Brasil, e um dos mais respeitados críticos ao modelo biomédico em saúde mental. Para ele, as consequências de encarar a doença mental como um “defeito no cérebro”, a despeito da história de vida de cada paciente, tem consequências nefastas para a saúde mental das populações.

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O principal deles, sustenta John, é o estigma e o preconceito, que se reverte por sua vez em mais maus-tratos.  Seus dados revelaram que 47% dos pacientes de transtornos mentais foram abusados ou assediados em público. “Esquizofrênicos são considerados como perigosos, não responsáveis, imprevisíveis. No entanto, eles têm 14 vezes mais chance de sofrer um ato violento do que a população sem diagnóstico”.

Na opinião de John, o psiquiatra normalmente não ouve o paciente, “ou ouve apenas o suficiente para descrever sintomas e prescrever pílulas”. “Uma vez fui chamado para dar uma palestra sobre como os profissionais deveriam perguntar sobre abusos sofridos pelos pacientes, especialmente na infância. Bombardeei primeiro os profissionais com estatísticas para que eles não pudessem argumentar que ´esse é um caso ou outro´. As pesquisas que faço têm essencialmente essa função”, revelou.

“Quando me mostram imagens de atividade cerebral ´normais´ e comparam com os de pessoas que têm esquizofrenia e apresentam áreas afetadas, eu pergunto: para que serve um cérebro, senão para responder aos estímulos do ambiente?”, provocou.  “A lista de qualquer livro de danos cerebrais de um portador de esquizofrenia é idêntica à de uma pessoa com danos cerebrais de pessoas que sofreram abusos na infância”.

Para o especialista, já existem evidências suficientes para que sejam abandonadas as explicações biogenéticas e se aposte em aproximar pacientes, não pacientes e profissionais, principalmente através do diálogo, para que seja reduzido o estigma. “Os estudos mostram que o principal fator de melhora para os pacientes para os quais foram prescritos medicamentos — o meu foco é em estudos sobre psicose, mas vale para todos os problemas de saúde mental — é a qualidade do relacionamento com a pessoa que prescreveu as drogas, se o paciente sentiu que foi ouvido e entendido sobre os problemas que atravessou. Falar sobre a sua experiência e saber que a sua experiência não é a única é um fator de cura importante”, lembrou.

“As pessoas não são responsáveis por ter a doença, mas são responsáveis por suas ações. O público também não acredita no modelo estritamente bioquímico da doença mental. O que reduz o estigma é aumentar o contato. A indústria de medicamentos impõe, mas o público de inúmeros países relata em diferentes pesquisas que sabe que a psicose é causada por eventos adversos na vida. Esse modelo, o modelo psicossocial, gera maior empatia, inclusive entre profissionais e pacientes”, recomendou.

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