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Fotografia: theinnercompass.org.

Evidências atribuem pouca eficácia e não sustentam a indicação crescente desses medicamentos

Dezembro de 2018 | por Elisa Batalha

“Não podemos tachar os que trabalham com a doença mental como vilões e transformar essa questão em um ‘nós contra eles´. Na verdade, todos nós fomos traídos. Uma história falsa nos foi contada”, defende a ativista Laura Delano. A norte-americana retornou ao Brasil em outubro para participar do seminário “A epidemia de drogas psiquiátricas — as evidências científicas para desmedicação segura e eficaz”, na Fiocruz. Ela foi uma das convidadas da primeira edição do evento, em 2017, ao lado do jornalista Robert Whitaker, autor de “Anatomia de uma Epidemia — pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental” (Radis 184). Durante 14 anos Laura foi submetida a tratamentos com medicamentos psiquiátricos e internações que, segundo ela, roubaram parte de sua adolescência e juventude. Laura é militante de movimentos de ex-usuários e sobreviventes da psiquiatria e criadora de um site que é referência para os que querem deixar os medicamentos psiquiátricos. “Quase todos os psiquiatras que conheci eram muito bem-intencionados e queriam ajudar as pessoas. O que existe é uma estrutura ideológica e moral que retira a autonomia dos pacientes”, observou durante o evento.

“Não há uma ideia única de como você deve pensar, agir, sentir”, resumiu ela, desmentindo uma “das histórias falsas”. Laura advoga que a pessoa que se sentir tolhida na sua autonomia pelos tratamentos deve poder optar por parar a medicação e tem direito a orientação baseada em evidências. Em sua fala, ela reconheceu, no entanto, que o caminho pode ser árduo, já que a descontinuação dos medicamentos exige o manejo cuidadoso da abstinência, uma rede de apoio de que muitos pacientes não dispõem e, às vezes, demanda questões legais implicadas, como a custódia de filhos. Ela conta que uma das referências intelectuais que guiaram sua mudança de mentalidade em relação à autonomia e à defesa das singularidades foi a obra do pedagogo Paulo Freire. “A mudança não acontece intelectualmente. Acontece no coração de cada um”.

Como Laura, que discorreu sobre histórias falsas que são contadas, o médico Irving Kirsch também procurou desconstruir crenças arraigadas. Valendo-se das evidências científicas mais validadas e recentes, o pesquisador da Harvard Medical School mostrou que na verdade os medicamentos antidepressivos não são uma categoria segura e eficaz. Após mais de uma década de pesquisas e publicações, o pesquisador mostrou que o efeito dos antidepressivos é muito pouco diferente em termos estatísticos do efeito placebo. “Essa categoria de medicamentos foi chamada de revolucionária, mas o próprio diretor da divisão de Produtos Psiquiátricos da FDA [Food and Drug Administration, órgão que aprova e regula a liberação no mercado dos EUA de novos medicamentos], já afirmou em publicação que a diferença entre a droga e o placebo é pequena”, exemplificou o especialista durante sua palestra no evento, que teve à frente o pesquisador Paulo Amarante, da Fiocruz.

Conforme mostraram os especialistas, a depressão continua sendo um problema grave, com os diagnósticos e as prescrições aumentando. No Brasil, a depressão atinge em torno de 7% da população (17 milhões de pessoas), segundo a Organização Mundial da Saúde. Os dados, de  2017, punham o país no topo do ranking de população mais deprimida da América Latina. Os antidepressivos ocupam a segunda posição na lista de remédios mais vendidos contra desordens do sistema nervoso, com 6% do total na categoria, perdendo apenas para os analgésicos, que somam 10% das vendas. A maior prevalência do uso desses medicamentos está entre mulheres e pessoas a partir dos 50 anos.

Quais então são os tratamentos para depressão que deveriam ser prescritos, quando se comparam vários e se mostram igualmente efetivos? “Os mais seguros”, afirmou Irving. Existem muitas alternativas à medicação, como psicoterapia, exercícios físicos, estratégias combinadas de medicação e psicoterapia, e outros como práticas alternativas e complementares como yoga. “Quando o paciente é convidado a opinar sobre qual das opções de tratamento ele deseja, e há consentimento informado sobre riscos e benefícios, é comprovado que a adesão ao tratamento é maior, e 75% afirmaram preferir psicoterapia, de acordo com nossas pesquisas”.

Como mostrou Irving, trocar o tipo ou a dose do antidepressivo também não ajuda em nada. “Cada vez mais pacientes estão sofrendo. Como devem ser tratados então os pacientes com depressão?” Para Irving, no lugar de antidepressivos, os psiquiatras devem considerar prescrever outros tratamentos cujos riscos são menores. Os ganhos pequenos dos antidepressivos não superam, muitas vezes, os efeitos adversos. “A disfunção sexual é um efeito colateral em 70 a 80% dos casos de uso de antidepressivos”, informou o pesquisador. Ganho de peso, insônia, diarreia, náuseas e anorexia aparecem de maneira também expressiva entre os efeitos colaterais, disse ele. “Já está descrita a síndrome de descontinuação, com muitos efeitos indesejados, inclusive ideação suicida, quando se suspende a medicação, e 50% dos pacientes relataram que simplesmente não conseguiam parar”, reforçou o psicólogo John Read, que falou sobre a importância das organizações internacionais de apoio a pacientes que querem deixar as medicações, como o Institute for Psychiatric Drugs Withdrawal e o Hearing Voices Network. “A saúde mental é a ponte para os direitos humanos com a qual ainda não lidamos de maneira correta”, resumiu. (E.B)

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