Entrevista | Maria de Lourdes de Sousa Maia

Durante dez anos, a paraibana Maria de Lourdes de Sousa Maia — também conhecida como Lurdinha — esteve à frente do programa responsável pela vacinação de todos os brasileiros. A médica formada pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em 1976, assumiu a coordenação do Programa Nacional de Imunizações (PNI) em 1995, e foi responsável pela ampliação do calendário vacinal de quatro para 13 vacinas.

Substituiu a vacina monovalente contra o sarampo pela tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) para crianças de 1 a 11 anos de idade e implantou a vacina contra a rubéola para mulheres em idade fértil. Também durante sua coordenação, o PNI iniciou, em 1999, as campanhas de vacinação contra a gripe para a população idosa (a partir de 65 anos). Outra mudança importante foi a instituição, em 2004, dos calendários voltados para adolescentes e para adultos e idosos, complementares ao Calendário Básico da Criança.

Em sua sala no Instituto de Tecnologia em Imunibiológicos (Bio-Manguinhos), na Fiocruz, onde atualmente coordena a Assessoria Clínica, Maria de Lourdes conversou com Radis sobre sua trajetória no PNI e os desafios atuais do programa. Em relação às quedas recentes nas coberturas, ela defende manter a vigilância e o empenho em relação às estratégias de imunização.

Que desafios enfrentou ao assumir a chefia do PNI?
A primeira coisa que pensei é que eu não conseguiria sozinha fazer aquele programa ser o gigante que foi e precisava ser. Eu tinha coordenado antes, em 1983, o Programa Estadual de Imunizações do Rio de Janeiro. Quando me chamaram, já tinha saído da imunização há muito tempo e estava coordenando os programas de saúde nos Cieps [Centros Integrados de Educação Pública]. Fui a Araraquara (SP) encontrar o Dr. Edmundo Juarez, presidente da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), e fiz uma imersão em uma unidade de saúde. Uma das coisas que ele me dizia era: “Lurdinha, uma criança só é vacinada quando a agulha encosta no bracinho dela. Enquanto isso não se der, o seu papel não acabou”. Isso me guiou a pensar que não adianta botar uma coisa bonita no papel, mandar para os estados e os municípios e deixar que eles executem. Não! É preciso organizar a imunização até que uma criança tenha um encontro com a vacina no bracinho dela.

Como foi organizar o PNI em um país extenso e complexo como o Brasil?
O primeiro passo foi fortalecer um programa que já existia desde 1973. Ele precisava ser colocado na agenda política dos governantes. A gente criou grupos de supervisores: um determinado estado mais organizado “adotava” outro menos organizados, ao mesmo tempo levando sua experiência e gerando troca de saberes. Precisávamos de parcerias com os estados e as sociedades de classe. A principal que ajudou muito nesse processo foi a Sociedade Brasileira de Pediatria (SPB), que abriu espaço nos seus serões científicos para os coordenadores estaduais de imunizações participarem. A Opas também ajudou muito, orientando a rede de frios [que armazena imunobiológicos] desse país. Outra parceria foi com o Comitê Técnico Assessor de Imunizações (CTAI) [criado em 1991, para auxiliar as políticas de imunização].

Como as coberturas foram ampliadas e como foi feito o aumento do número de vacinas no calendário?
Antes de ampliar a oferta, a gente foi cuidar de como guardar essas vacinas. Aí veio a rede de frios. Também nessa época nos empenhamos para que as decisões fossem tomadas de forma científica e não política. Começamos a pedir estudos com pesquisas clínicas para que pudéssemos decidir quais vacinas adotar. Para decidir se íamos aumentar ou não os imunobiológicos, fizemos cálculo de custo-efetividade. Qual entra primeiro? Qual entra depois? Também nessa época impulsionamos os Centros de Referência de Imunobiológicos Especiais (Cries). A ideia era ter pelo menos um Crie por estado, encarregado de distribuir as vacinas e imunoglobulinas que não constam do calendário básico e que estariam disponíveis para situações especiais. Também colocamos em pauta a vigilância de eventos adversos.

Como foi construída a rede para armazenar e distribuir as vacinas para os municípios?
A gente não tinha nenhuma área própria para armazenamento dos imunobiológicos. Pagavam-se galpões no Rio de Janeiro para armazenar as vacinas antes de distribuir para os estados. O Exército brasileiro nos deu um espaço onde construímos a Central Nacional de Distribuição de Imunobiológicos (Cenadi), no Rio de Janeiro. Também construímos centrais estaduais e regionais. Compramos caminhões para distribuir pelo interior dos estados. Também organizamos quem pegava nas centrais para distribuir para cada regional e cada município.

Como enfrentar as desigualdades e garantir coberturas homogêneas em todo o país?
Nesse trabalho de conhecer o país, nós vimos que cada região é um mundo. A região Norte é muito diferente do restante do país, pelas dificuldades geográficas e de acesso. Se você olhar São Paulo, encontra áreas semelhantes ao Norte. Se olhar Minas Gerais, existem áreas semelhantes ao Nordeste. Mas o Norte precisa de mais atenção, pelas dificuldades geográficas, de transporte e acesso. Existem áreas de difícil acesso em que só se chega de barco. Mesmo assim, as vacinas chegam lá. Fazíamos operações de vacinação, com apoio da Marinha, Exército e Aeronáutica, nessas áreas mais afastadas (a chamada Operação Gota).

Qual a importância dos profissionais da atenção básica na vacinação?
Eu encontrei profissionais de saúde ávidos por conhecimento e uma população que se sentia agradecida quando chegava até eles um bem maior, pois viam que seus filhos não adoeciam. Encontrei pessoas abnegadas trabalhando nas salas e campanhas de vacinação por esse país, anônimos, dando sangue, querendo fazer acontecer. Pela experiência que tive, se lhes é dado condições mínimas de trabalho, às vezes até mesmo sem condições, eles embarcam e fazem diferença. Vão junto mesmo.

E qual é o papel das campanhas de vacinação e a importância da vacinação de rotina?
Ignorante como eu era, cheguei condenando as campanhas. Dizia: “Não pode, tem que ser rotina, temos que priorizar o dia a dia”. Depois você percebe que não dá para ser assim. Dependendo do que se quer alcançar, no tempo que se quer alcançar, é preciso alterar as estratégias. As campanhas de vacinação eram necessárias e o país só conseguiu controlar e eliminar algumas doenças por conta das campanhas. Mas elas não são impeditivas do fortalecimento das ações de rotina. E devem ser ações determinadas, num tempo pré-determinado, observando a diversidade geográfica para poder atuar. Eu conversava com os coordenadores estaduais para decidirmos juntos a melhor data, levando em consideração fatores geográficos, dinheiro, chegada de vacina, pessoal, capacitação e preparação. No Amazonas, dias antes começávamos a vacinar as áreas de difícil acesso e, no dia em que o Brasil todo começava, eles também entravam junto e assim todos os estados terminavam juntos.

O que representou a eliminação da pólio no Brasil?
Eu vi morrer pessoas infectadas com a pólio. Na época eu fazia infectologia no Nordeste e existiam os pulmões de aço em que as crianças ficavam. Ficar com sequelas era o de menos. Pior era a gente ver morrer sabendo que as mortes podiam ser evitadas com vacinas. Era um desafio muito grande, porque a circulação do vírus não é fácil de controlar. Se a gente conseguiu fazer uma mobilização da população e tirar do país o pólio vírus selvagem, como é que a gente não consegue hoje animar esse povo?

O que explica as quedas recentes nas coberturas vacinais?
Hoje o calendário de vacinação do PNI é extenso, com vacinas com valor agregado maior, que custam mais caro. É o caso das vacinas para rotavírus, pneumocócica, HPV. Mas não faltam recursos para o PNI. Ele é garantido por lei. Então se eu tenho o produto, e esse produto chega, quais são as causas das baixas coberturas? Eu digo que são muitos os fatores. Pessoalmente não acredito que os movimentos antivacinas tenham essa força no país como ocorre em outros lugares. O contexto de corrupção e de desmandos do país leva de alguma forma as pessoas a se sentirem desacreditadas com as instituições, quase não acreditando mais que esse país tenha jeito. E talvez isso faça com que aquela garra seja abalada.

Por que imunizar a população deve ser uma prioridade?
Porque com ele diminuímos a mortalidade infantil. Também diminuímos os custos com internações hospitalares e aumentamos a qualidade de vida. A chamada proteção de rebanho é quando um grande número de pessoas é vacinado, em torno de 95%, e quem não recebeu a vacina estará protegido, porque isso impede a circulação dos agentes causadores. Quando caem as coberturas, pode vir a repercutir no retorno de doenças. Precisa ter garra, precisa ter sangue, não pode parar. Quando atingimos a cobertura de 95% para o sarampo e a pólio, eu perguntei: “E agora, qual a próxima ação?” Vamos fazer monitoramento. Vamos ver se essas coberturas são reais. Existe o monitoramento rápido, uma metodologia da Opas que verifica se aquelas crianças estão mesmo vacinadas. É preciso que a população saiba que é necessário manter as coberturas se não as doenças voltam. E voltam com força total.

Quais os desafios que estão colocados atualmente?
A gente só está culpando uma população que esqueceu de vacinar porque não vê mais doenças. A gente só fica falando de fake news. Isso contribui, mas não é só isso. Como a gente faz com uma coisa que estava tão boa não seja trocada por outra prioridade? Tem algo que eu sempre costumava dizer ao pessoal: “Casar não é difícil. Manter um excelente casamento com qualidade, aí é que está a dificuldade”. O que eu quero dizer é que controlar, eliminar ou até mesmo erradicar uma doença, a gente consegue; agora manter sob controle uma doença que ninguém mais ouviu falar, acha que já não existe mais, isso é difícil. É preciso a todo dia estar se renovando. Renovar não é apenas dar um aporte financeiro e de produtos. É preciso “sacudir”. Como a gente faz para continuar como éramos no primeiro dia? É botar garra nas coisas. Não é só botar dinheiro, é uma gestão, que vai desde o nível nacional até a unidade de saúde.