Janeiro de 2019 | por Ana Cláudia Peres

Imagine uma plataforma digital colaborativa que combine dados e informações em saúde para serem compartilhados com indivíduos e instituições preocupados com a violência no trânsito. O pesquisador Marcílio Medeiros, do Instituto Leônidas e Maria Deane (Fiocruz/Manaus), resolveu transformar a inspiração em um projeto recém-aprovado pelo edital Ideias Inovadoras da Fiocruz. Com a ferramenta, um aplicativo para telefone móvel (também conhecido como App), será possível integrar e qualificar os sistemas de informações dos diversos órgãos responsáveis pelo registro e atendimento das vítimas de acidentes.

O App para o trânsito bebe na fonte de outras plataformas bem-sucedidas como a experiência do Guardiões da Saúde, um aplicativo de vigilância participativa criado para ajudar na identificação preventiva de doenças e epidemias. Esse aplicativo mapeia a ocorrência de sintomas similares em determinadas localidades, permitindo a adoção de providências para informar e proteger a população de forma ágil. Outro exemplo é o Fogo Cruzado — aplicativo que vem aprofundando o debate sobre segurança pública no Rio de Janeiro ao permitir que qualquer cidadão compartilhe dados toda vez que presenciar ou ouvir um tiroteio na cidade. Para Marcílio, as informações não-oficiais produzidas no espaço digital também podem ser um poderoso aliado de enfrentamento à violência no trânsito.

“As pessoas têm usado cada vez mais as redes sociais para registrar os acidentes. A ideia é utilizar essas informações compartilhadas para subsidiar ações do setor saúde”, explicou à Radis. A partir daí, os testes dos dados produzidos pela Plataforma Digital Colaborativa da Vigilância da Violência no Trânsito — esse o nome oficial do App — serão monitorados e sistematizados de forma compartilhada com as autoridades sanitárias, de trânsito e de segurança pública. Ou seja, a plataforma idealizada por Marcílio pretende tanto mobilizar a sociedade para a necessidade de construção de uma agenda pública de saúde e de segurança no trânsito quanto acelerar o fluxo de conhecimento sobre as ocorrências facilitando as ações dos órgãos competentes. Previsto para ser desenvolvido em 24 meses, o projeto será aplicado inicialmente em Manaus, mas a intenção é que se estenda para outras regiões do país.

“As mídias sociais devem ser usadas para a mobilização social”, reforçou Marcílio que já tem um acúmulo teórico na discussão sobre a violência no trânsito. Em pesquisas e ensaios anteriores, ele propõe uma leitura do assunto pela perspectiva dos determinantes sociais. “Nossa ações costumam ser estabelecidas pela lógica da máquina, rápida e veloz. Mas é preciso discutir a violência no trânsito por uma perspectiva maior, de mobilidade urbana”, diz, lamentando que ainda hoje seja mais comum ver ações de infraestrutura que priorizem um recapeamento das vias em detrimento da recuperação de calçadas. (A.C.P.)