Março de 2019 | por Elisa Batalha

Como amamentar e desenvolver pesquisa com o prazo batendo a sua porta, fazer valer sua voz onde seu corpo e biotipo são vistos como raros, circular no universo tradicionalmente masculino, provar excelência enquanto se esquiva de assédio e discriminação. Relatos como os das pesquisadoras Thais, Edenia, Nísia e Denise, ajudam a mostrar o que é ser mulher no ambiente acadêmico e em quais condições elas desenvolvem seu trabalho, essencial para o avanço do conhecimento.

As cientistas vêm ganhando espaço na pesquisa, e no Brasil, já assinam 49% dos artigos publicados em toda a academia. No topo da carreira e em áreas tecnológicas e exatas, no entanto, elas ainda estão em desvantagem numérica. Única mulher a ganhar dois prêmios Nobel em áreas distintas — Química e Física —, Marie Curie é até hoje referência em todo o mundo. De um total de 904 pessoas agraciadas com a premiação desde 1901, apenas 51 são mulheres. Para aumentar as referências femininas e incentivar as gerações mais jovens, é preciso reduzir as inequidades da sociedade que atrasam a carreira ou mesmo impedem o ingresso de novos talentos. Por meio de suas próprias trajetórias, os perfis mostrados a seguir contam porque é importante que mais mulheres estejam presentes em todos os espaços de produção de ciência.

Acima do teto de vidro

Primeira presidenta da Fiocruz, Nísia Trindade Lima é uma pessoa considerada “afável”. E isso, ela reconhece, chegou a ser apontado como um aspecto negativo de sua personalidade, que não contribuiria para exercer o posto que ocupa, por não corresponder ao estereótipo de um perfil de liderança agressiva, atributo considerado “masculino”. “Eu vejo que a minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo. Trata-se do imaginário sobre esses lugares de autoridade e de poder”, avaliou, quando abriu espaço na agenda para conversar com a Radis.

Estar no mais alto cargo de uma instituição tradicional de pesquisa com quase 120 anos de história é visto por ela como expressão “do reconhecimento de toda uma comunidade”. Para a socióloga e pesquisadora da história da ciência, é importante que o sistema de eleição da instituição em que atua há mais de 30 anos — com participação de todos os servidores e posterior confirmação da presidência da República — seja valorizado, por ser democrático e garantir maior diversidade. “O sentimento maior para mim é de gratidão pela confiança depositada, mas também o de responsabilidade”, conta ela, que assumiu o cargo em 2017.

Quanto à experiência na presidência, ela diz que o principal desafio tem sido atravessar a situação de crise no país. “Por outro lado, estou lidando com a imagem positiva que a instituição tem junto a sociedade, o seu capital simbólico, o seu reconhecimento pelas ações realizadas em prol do Sistema Único de Saúde ao longo dos últimos trinta anos”.

Nísia é uma exceção no país, por ser mulher e estar ocupando um cargo de liderança em uma instituição de pesquisa científica. As mulheres são maioria na população brasileira, e no ensino superior no país, há 27 anos, de acordo com o IBGE. Representam 49% das bolsistas do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a principal agência de fomento à pesquisa no Brasil. Mas, a ascensão na carreira esbarra no chamado “teto de vidro” — a barreira invisível que impede mais mulheres de crescer na profissão e alcançar cargos mais altos.

As diferenças ficam bem claras quando observamos os números. Nas bolsas de iniciação científica, 59% são mulheres, já nas de produtividade, as mais prestigiadas, com financiamento maior, a parcela feminina cai para 35,5%. Dentro deste grupo, ainda há as bolsas 1A, as mais altas. Só 24,6% dos que recebem esse tipo de financiamento são mulheres, de acordo com os dados da própria agência. Existem ainda carreiras inteiras em que a predominância numérica masculina é muito maior, como nas áreas exatas e tecnológicas.

Nas universidades federais brasileiras, há apenas 28,3% de mulheres como reitoras. São 19 entre os 63 reitores, de acordo com o levantamento de 2017 feito pela pesquisadora Anelise Bueno Ambrosini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Na Academia Brasileira de Medicina, apesar de as mulheres serem maioria entre os formandos (em torno de 55%), há apenas cinco mulheres entre os 115 membros, o que representa 4,3%.

A desigualdade de gênero na ciência não é exclusiva do Brasil. Dados do relatório Women in Science publicado em 2018 pela Unesco mostram que 28,8% dos pesquisadores do mundo são mulheres. As mulheres publicam menos artigos, têm menos colaborações internacionais, menor mobilidade acadêmica, atuam mais em pesquisas interdisciplinares e apenas 14% são inventoras listadas em patentes.

No mercado de trabalho como um todo, conforme lembra Nísia, há uma tendência a uma conquista de igualdade salarial entre homens e mulheres, mas ainda entre executivos persiste uma desigualdade. “O ingresso de mulheres em determinadas profissões infelizmente é acompanhado de uma desvalorização, como na enfermagem. Muitas profissões foram feminilizadas, e historicamente isso aponta para tensões. Isso aconteceu historicamente também com a profissão de professor, que inicialmente era composta na maior parte por homens”, comenta.

Minha posição, o lugar de autoridade, de mando, muitas vezes é associado com um lugar masculino, em uma visão que confunde autoridade com autoritarismo.

Nísia Trindade Lima, primeira presidenta da Fiocruz.

Gênero e ciência

Nísia lembra que ela vem de uma área profissional, as ciências sociais, onde a presença das mulheres é grande. “Faço parte de Associação Brasileira de Saúde Coletiva, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, organizações que já tiveram muitas mulheres na presidência, e também nas coordenações de grupos de trabalhos”, enumera, lembrando que o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea teve como primeira diretora de pesquisa Celina Vargas, em 1973, mulher cuja atuação recebeu muito destaque no Arquivo Nacional, e que também esteve à frente da Fundação Getúlio Vargas, na década de 1990. 

Mesmo tendo mulheres de destaque em sua área como referência, Nísia não escapou de sofrer discriminação. “Minha escolha pelas ciências sociais na família foi vista como não muito adequada, porque eu era boa aluna, então deveria fazer o que se achava que seria uma carreira mais valorizada, com maior apelo e remuneração. Ouvi de familiares que eu ‘podia fazer essa escolha porque eu ia me casar´”, relembra.

Casamento e casais de pesquisadores, aliás, hoje são um tema para estudo na área da sociologia histórica, dentro da história da própria Fiocruz como instituição, e na história do país, conforme lembra Nísia. “Há uma questão muito interessante e até é preciso incentivar mais pesquisas sobre casais de cientistas, que não necessariamente eram relações de dominação”. Isso pode ajudar a desmistificar a figura da “mulher por trás do grande homem” no imaginário social. Segundo ela, essa é a imagem pública de alguns casais, “até porque se atribui mais visibilidade aos homens, e muitos deles ocupavam cargos públicos além de serem cientistas”.

Ela cita Darcy Ribeiro e Berta Ribeiro. “Berta também foi uma grande antropóloga”, destaca. “Casos como esse merecem ser investigados. Muitas mulheres cientistas estavam ali, lado a lado com pesquisadores homens. Algumas conseguiram ser reconhecidas individualmente, como a parasitologista Maria Deane [esposa de Leônidas Deane]. Ela teve uma luz própria, era uma mulher muito forte inclusive e é sintomático que tenhamos um instituto chamado Leônidas e Maria Deane”, aponta Nísia, se referindo a unidade Fiocruz Amazônia, em Manaus.

Hoje, gênero e ciência conformam um campo de estudos que vai além de se compreender o que está por trás das inequidades nas estatísticas. “Na ciência, vemos na linguagem a expressão de signos do universo masculino como o combate, a conquista, a caça”, aponta Nísia, discordando da ideia de que haja “uma ciência feminina” ou “um modo feminino de se fazer ciência”. “É uma questão em aberto, não pode ser vista de uma maneira simplificada. Há uma interferência da experiência, no modo de fazer ciência, o lugar de fala demarca que não existe um pensamento desvinculado da experiência, da existência. Isso não significa que eu só posso falar da minha experiência imediata. É claro que a experiência marca a sua visão, a sua linguagem”, discorre, lembrando que “a ciência não é uma atividade neutra”.

Para Nísia, a ampliação do acesso e a democratização dos espaços na ciência e nas instituições científicas passam por questões culturais, “que dependem de uma pedagogia, de um trabalho muito intenso, daí a importância de comitês de equidade que ajudam a trazer uma maior conscientização”.

Equidade e diálogo

A iniciativa que ela faz questão de reforçar, na sua gestão como presidenta, é a maior centralidade conferida ao Comitê para Equidade de Gênero e Raça da Fiocruz, que já existia desde a gestão anterior. Para ela, é preciso olhar para o que hoje se chama agenda identitária, considerando as desigualdades sociais, mas também de gênero e raça, presentes no país. “Nos editais de pesquisa, há artigos que preveem contagem de tempo diferenciada para mulheres que tiveram filhos. Nem todas as mulheres querem ter filhos, e não se deve confundir a mulher com a mãe, mas para que possamos exercer todos esses papéis é muito importante que haja uma política pública adequada”, afirma, apontando ainda que a agenda feminista foi quem trouxe para o país a demanda das creches, do apoio no cuidado com os filhos e a defesa do tempo de amamentação recomendado para as trabalhadoras.

“Não causava estranhamento até há poucos anos haver apenas três mulheres no Conselho Deliberativo [maior instância de decisão] da Fiocruz; hoje já causa. Isso é um avanço. Na composição de mesas, de seminários, a gente também já passa a estar atento a isso”, comenta.  Ela reconhece também o que a sua figura representa para mulheres e meninas mais jovens. A mensagem que procura deixar é de respeito e dignidade. “A mulher não pode admitir não ser valorizada, ser desrespeitada, nós não podemos nos calar diante de qualquer discriminação que aconteça ao nosso lado. É preciso ter respeito à diversidade. Você não tem que padronizar, escolher se encaixar no estereótipo da intelectual, que seria de uma absoluta seriedade, contenção no comportamento. Não é preciso criar uma imensa distância social das pessoas para exercer um cargo”, reflete.

Nísia conclui que a equidade de gênero é uma das questões centrais para construção de uma sociedade mais justa. E isso, segundo ela, é possível alcançar mediante diálogo, articulando a racionalidade com a afetividade. “Precisamos pensar em um mundo que preze valores do diálogo, da construção democrática. Isso deve ser uma luta de homens e de mulheres”.

Representatividade importa

Já me aconteceu de ser interpelada por autoridades em aeroportos e dizerem “como assim você é pesquisadora do Brasil?!”. Em alguns lugares perguntam: “porque você sabe falar inglês?”. A astrônoma Denise Rocha Gonçalves tem certeza de que os episódios de discriminação que enfrentou ao longo da vida aconteceram devido ao racismo e à falta de representatividade da mulher negra no meio científico. Os estudos sobre gênero e ciência corroboram o que Denise experimenta no seu dia a dia.

Historicamente, quando estimulados a desenhar um cientista, 92% dos estudantes desenhavam homens. No final dos anos 1990, esse percentual caiu para 70%, e cerca de 16% dos estudantes desenhavam cientistas que eram claramente mulheres e 14% faziam desenhos ambíguos com relação ao sexo. Um percentual extremamente elevado — 96% dos cientistas — continuaram a ser descritos como caucasianos, a despeito da proeminência dos asiáticos na ciência.

Os dados são mencionados pela especialista Londa Schiebinger no artigo “Mais mulheres na ciência, questões de conhecimento”, publicado em 2008 no periódico “História, Ciências, Saúde-Manguinhos”. Dez anos depois, as mulheres ainda representam apenas um terço do conjunto dos estudantes universitários em carreiras de Ciências, Matemática e Tecnologia no mundo, de acordo com a Unesco. Existe até uma sigla em inglês para os ramos do conhecimento pouco povoados por mulheres: STEM (Science, Technology, Engineering and Mathematics).

Eu passei a vida inteira achando que físicos têm cara de Einstein e são todos homens. As meninas não têm referenciais. Na cabeça de uma menina negra também pode passar ser cientista.

Denise Rocha Gonçalves, astrônoma.

 

“Estudo estrelas que são similares ao sol, que nasceram com massas até dez vezes a do Sol. No seu estágio final, elas começam a distribuir os elementos químicos que foram criados no meio interestelar ao longo de suas vidas, formando as chamadas nebulosas planetárias ou estrelas simbióticas. Ao contrário das estrelas maiores, que explodem e se tornam as chamadas supernovas”, resume didaticamente a paranaense, que já morou em vários países e está no seu sexto pós-doutorado, desta vez no National Astronomical Observatory of Japan - East, no Japão, de onde conversou via Skype com a reportagem da Radis. 

Denise conta que tem participado de vários eventos relacionados ao incentivo à presença de mulheres e meninas na ciência, e que as sociedades internacionais estão atentas a isso, vinculando alguns financiamentos a uma maior paridade de gênero. “Na área de exatas só cerca de 25% das publicações são de mulheres. Se eu passei a vida inteira achando que físicos tem cara de Einstein e são todos homens, fica difícil imaginar que eu posso estudar física”, explica. Para ela, aumentar a representatividade na ciência começa na escola e na mídia “As meninas não tem referenciais. Na cabeça de uma menina negra também pode passar ser cientista”.

Embora o país tenha 52% de negros, de acordo com o IBGE, somente em 2013 soube-se quantos atuam na área científica. A partir daquele ano, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) solicitou que os pesquisadores informassem raça e cor em seus currículos inseridos na Plataforma Lattes. Um estudo feito em 2015 mostrou que entre mais de 90 mil bolsistas da instituição cursando pós-graduação, desde iniciação científica até o doutorado, as mulheres negras que realizam pesquisas voltadas para ciências exatas são pouco mais de 5.000, ou 5,5% do total. Nos últimos cinco anos, a proporção de bolsistas do CNPq que se identificam como pretos e pardos não chega a 30%.

Denise conta que, na infância e adolescência, estudou em uma escola tradicional. “As meninas estudavam à tarde, os meninos de manhã. Decidi cursar Física, meu pai achava que era um absurdo. Eu era de família simples e achava que ia ser professora. Mas decidi fazer iniciação científica. Tive um orientador que me incentivou, e por isso decidi entrar na Astronomia no mestrado e no doutorado, cursados na Universidade de São Paulo (USP)”. A Física é uma área ainda mais dominada pelos homens brancos do que a Astronomia, que, pela observação de Denise tem “no mundo todo” cerca de 30% de mulheres. Ainda durante a graduação, a pesquisadora passou duas semanas em um curso em Belo Horizonte, na UFMG. “Era um curso de inverno, com estudantes do país inteiro. Eram 5 moças e 45 garotos. Você é visto como um ser raro”. Viver em um mundo masculino teve impacto, segundo ela, principalmente no início da carreira, quando “existiam algumas inseguranças”. “Você acaba entendendo que vai chamar muita atenção se tiver uma atitude muito delicada, então isso define um pouco como você se veste, como você se coloca”, observa. “Por outro lado, as pessoas param para te ouvir. Hoje em dia eu corro menos risco de ser confundida, já ocupei cargos de liderança”.

Agora, aos 52 anos, ela ressalta que em situações públicas faz “questão absoluta” de adotar um visual que não seja tão esperado, como tranças no cabelo e roupas mais coloridas. Por ter conquistado uma posição em que já não se considerada tão julgada pelo que aparenta, Denise se vê impelida a ser um modelo. “Isso significa que outras pessoas mais jovens podem me ver e dizer ‘olha, isso é possível´. Eu gostaria de ter visto isso na minha juventude e não vi”, constata. Com certeza a astrônoma fez uma contribuição para a divulgação da ciência ao participar com uma fala no filme “As leis da termodinâmica”, de 2018, que está disponível no serviço de streaming Netflix. O filme, escrito e dirigido pelo espanhol Mateo Gil, trata de leis da Física através de uma história de amor na ficção. “As pessoas como eu podem e devem se colocar como esse referencial. Para quando alguém perguntar ´porque você decidiu fazer Astronomia?´, você poder responder ´porque deu vontade´, e isso ser a realidade, que a gente possa ser o que a gente quiser”.

Racismo

“Sempre estudei com poucas pessoas negras. Até a época do meu ensino médio, dizia-se que nos Estados Unidos existia racismo, mas no Brasil, não. Este era o discurso que chegava até mim sobre o assunto”. Ela conta que, quando foi aprovada no concurso para docente na Universidade Federal do Rio de Janeiro, (UFRJ), para o Observatório do Valongo, houve no mínimo um estranhamento. “Estavam tomando posse duas pessoas naquele dia, um homem branco que tinha um nome francês e eu. Havia quatro pessoas na sala, três mulheres, uma delas loura, e o rapaz de nome francês. Sem hesitar, o pró-reitor começou dando os parabéns para o homem branco. Depois olhou para as três mulheres, ficou na dúvida e escolheu cumprimentar a mulher branca, que já era servidora da universidade. Ela precisou corrigi-lo e disse ´não sou eu que estou sendo empossada, é ela´. Aquilo para mim foi um choque”.

A discriminação não parou por aí. “Nos exames admissionais, eu não estava pessoalmente e mandei meus exames. As pessoas analisavam esses exames e achavam que eu estava doente, por ter alguns índices diferentes aos que estão acostumados a ver. Precisei explicar, porque ninguém levou em consideração que eu poderia ser uma mulher negra”, lembra Denise. Para ela, não há dúvidas de que as experiências de um cientista homem, branco, e de uma mulher negra, vinda do Brasil, são totalmente diferentes. “Eu diria que quase todos os homens que conheci na área de Astronomia são casados e têm filhos. Das mulheres, é a minoria. Ou as mulheres têm filhos mais tarde. Eu vejo que na mobilidade do mundo científico, normalmente quem acompanha o cônjuge é a mulher. Ciência não dá dinheiro. Tudo isso faz com que a mobilidade da mulher cientista seja menor”. Denise optou por não ter filhos. 

No comportamento, Denise também observa as diferenças de gênero socialmente construídas. “Tem certos detalhes na hora de trabalhar em grupo. Se eu tiver que escolher eu prefiro trabalhar com mulheres, porque a divisão igualitária de tarefas fica mais fácil”, constata. Denise não foge de nenhum tema polêmico e observa que tem havido avanços por se abordar atualmente na academia a questão do assédio moral e sexual. “É importante que se fale muito sobre isso porque isso ajuda a fazer como que mesmo aqueles mais ´reaças´ tenham que parar e pensar. Isso vai possibilitando desnaturalizar e dar nomes às coisas”, declara.

Maternidade cabe no Lattes?

“Quando fiquei grávida, eu havia assumido fazia apenas três meses um pós-doutorado numa instituição que eu estava conhecendo, tinha novos colegas e estava longe da minha cidade. Num departamento de nota máxima na Capes, bastante competitivo. Fiquei muito tensa só em ter que informar a gravidez ao meu supervisor”, conta à Radis Thais Florencio de Aguiar, 41 anos, professora, pesquisadora e mãe de Ana Rosa, de quatro anos.

Ela lembra que a reação do seu supervisor foi tranquila e isso a acalmou, mas não a isentou de percalços. A profissional conta que se sentiu insegura, apesar de estar em um excelente momento da carreira. “Eu havia acabado de defender uma tese, tinha sido muito bacana, profissionalmente as coisas iam super bem”. Em abril de 2014, a tese da jornalista e doutora em Ciência Política havia sido premiada no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IESP/UERJ). Em outubro do mesmo ano, ganhou o Prêmio Capes de Tese 2014 na categoria Ciência Política. Logo em seguida, com a gravidez, veio a preocupação, porque “a maternidade demanda outros momentos”.

Ana Rosa nasceu em dezembro de 2014, portanto, durante o fim do primeiro ano do pós-doc de Thais na Universidade de São Paulo (USP). “Foi uma loucura. Mesmo com o apoio do meu supervisor, para ter um filho em ambiente de trabalho competitivo é preciso construir uma consciência em torno dos direitos reprodutivos. Além disso, a minha área é uma área predominantemente masculina, mesmo sendo ciência humana”, explica ela, que atua na área de teoria política.

Durante a gravidez, Thais procurou se informar sobre a possibilidade de uma licença-maternidade. “Tinha muita confusão em termos de informação. A princípio a secretaria do curso interpretava que a licença-maternidade só se adequava a pesquisadoras de mestrado e doutorado. Depois descobri com a Capes que poderia ter quatro meses de licença. No entanto, eu tinha uma bolsa de um ano, que se encerrava em 30 de novembro, pouco antes da data prevista para o parto”.

Com a barriga já crescida no final da gravidez, Thais correu atrás e conseguiu renovação de bolsa por mais um ano, o que permitiu a continuidade da pesquisa. A criança nasceu dia 8 de dezembro e ela pode exercer a licença-maternidade. “Então pude ficar um tempo sem trabalhar com pesquisa. É até engraçado eu dizer que fiquei sem trabalhar. Além dos cuidados com a criança, veio junto a angústia de que ´tenho que escrever artigo´, “tenho que ler”, e ´tenho que cuidar do bebê´”, enumera.

O fato de Thais ter licença e bolsa pode soar como se o trabalho pudesse transcorrer em perfeitas condições —as mesmas impostas aos homens sem filhos. A pesquisadora argumenta porque a comparação não se aplica. “Os meses de licença não seriam adicionados ao prazo para o desenvolvimento do projeto. Aquilo que havia sido programado para ser feito ao longo de um ano teve que ser feito em oito meses”. Devido a problemas de amamentação, a mãe de Ana Rosa precisou de mais três meses de licença, o que deixou o tempo de execução do projeto de pesquisa ainda mais reduzido. “Na prática, eu tive direito à licença, mas não direito a desenvolver minha pesquisa como gostaria. Um tanto frustrante para uma pesquisadora”, resume.

“Quando eu voltei da licença, parecia que todo mundo era muito jovem, ou então com filhos já crescidos. Senti uma falta de compreensão, de compartilhar com parceiras que tivessem vivenciado situações como as que eu estava vivendo, esses dramas da maternidade”, revela Thais, que na época tinha 37 anos. Ela lembra que, não bastasse a solidão que sentia, ainda teve que enfrentar a discriminação ao iniciar outra pesquisa de pós-doutorado, desta vez no Rio de Janeiro, como prêmio recebido da Capes. Logo no primeiro dia na universidade, ouviu de um professor amigo: “Agora você voltou à sua vida real”. “Eu fiquei perplexa. Quando minha filha estava com dois meses, ocorreu um concurso. Eu não tinha condição nenhuma de concorrer. Mesmo assim, um amigo comentou que ouviu um professor comentar: ‘por isso ela não vai concorrer?! Mas a vida continua´”, relembra, enfatizando como atitudes e falas revelam a mentalidade da academia sobre a questão.

Tenho a nítida impressão de que lutar pelo espaço da mulher, sobretudo de mulher mãe, demanda transformar, ou melhor, construir outra academia, que prima por laços de solidariedade entre trabalhadores.

Thais Florencio de Aguiar, professora, pesquisadora e mãe.

 

Thais avalia que as bolsas de pós-doutorado que recebeu foram importantes para que tivesse um pouco mais de condições de se preparar para um concurso, que ela considera uma “maratona dupla”, já que tinha que se desdobrar nos cuidados com uma criança pequena. Mas, conforme o tempo passava, rememora, ela cogitou estar fora da competição pelo impacto da maternidade na queda no número de publicações, na participação em eventos acadêmicos e no tempo de experiência em aula. “Até adoeci. Eu tinha muito medo de fazer concurso. Além disso, é comum que os candidatos viajem para várias cidades do país para realizar as provas. Com um bebê, isso fica mais complicado”.

“Minha filha tinha pouco menos de um ano quando tive que viajar do Rio a São Paulo para dar aulas. Meu marido pediu folgas para nos acompanhar. Foi fundamental o apoio do meu companheiro. O ambiente da universidade em geral alija a presença de bebês ou crianças como se elas não fizessem parte da vida de pesquisadores e professores. Isso dificulta muito a vida da mulher, a quem os bebês são muito ligados corporalmente nos primeiros anos de vida”, explica Thais, lembrando que uma dificilmente poderia participar de um congresso na China no segundo mês do nascimento de um filho, como viu colegas homens fazerem. “Essas coisas me mostravam como a era diferente a condição de pesquisadoras mães, não-mães e pais ou não-pais”.

Thais explica que até há muito pouco tempo não havia nenhum tipo de acolhimento para essas especificidades no mundo acadêmico, e relata que procurou ajuda em coletivos feministas na universidade, sem sucesso. “Todas eram muito jovens. Depois disso eu quis muito me juntar a outras mulheres e mães e buscar implementar políticas que favorecessem as mulheres nas ciências sociais e na academia. A gente passa a ter a real dimensão da necessidade do feminismo”, resume. Mesmo com estas dificuldades, ela não desistiu, foi aprovada em um concurso público e assumiu o cargo de professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em dezembro de 2018.

Impactos na produtividade

Muitas pesquisadoras e mães podem se identificar com o relato de Thais. Só não sabemos quantas. O grupo Parents in science [Em português, Pais na ciência] fez um levantamento com cerca de 1.200 mulheres, por meio de questionários online. Das cerca de 1.200 respostas obtidas, 78% das pesquisadoras são mães e 22% não. “Não sabemos o quanto a amostra é significativa, já que não sabemos quantas docentes brasileiras são mães. Isso sequer é registrado no currículo pela maioria”, esclarece Fernanda Stanisçuaski, idealizadora do projeto e bióloga do Departamento de Biotecnologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que registra vídeos do grupo na plataforma Youtube, onde discutem questões relacionadas à maternidade e à ciência.

O grupo Parents in Science, criado 2017, é composto por seis cientistas mães e um cientista pai, que se dedicam a comparar políticas públicas voltadas para as mães e pais na academia em diversos países. Uma demanda levantada por eles é incluir no Currículo Lattes o ano de nascimento de filhos e pleitear que a produtividade das recém-mães possa ser contada de forma alternativa. São formas de tentar reduzir o impacto “negativo” na produtividade de pesquisadoras com a chegada de um filho, que se reflete na perda de financiamento de pesquisas. Ao abordar o problema, o grupo também aborda questões como divisão social de tarefas e licença-paternidade.

Nos editais dos concursos constam que mães podem amamentar durante os exames, mas não asseguram o direito a tempo adicional para efetuar as questões. Em dezembro de 2017, foi sancionada a Lei 13.536, que “permite a prorrogação dos prazos de vigência das bolsas de estudo concedidas por agências de fomento à pesquisa nos casos de maternidade e de adoção” por até 120 dias. Em fevereiro de 2019, um edital do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense (edital PIBIC/CNPQ/UFF) procurou atender a uma demanda da comunidade acadêmica, e passou a conceder pontuação para a docente que tiver tirado licença-maternidade nos últimos dois anos, como forma de compensação para que ela concorra em igualdade de condições. Ao pleitear o financiamento, a docente poderá acrescentar cinco pontos extras em sua avaliação de currículo, caso não tenha a pontuação máxima ainda.

Acostumada a redigir artigos científicos, Thais resume os muitos aprendizados da sua vivência como mãe e pesquisadora. “Existem muitos tipos de maternidade porque existem muitos tipos de mães pesquisadoras e de bebês. De todo modo, a exigência social e pessoal em ser uma ótima mãe e uma ótima profissional torna a vida da mulher muito dura. Ela experimenta constantemente cobrança e frustração. Percebi que os tempos de um e de outro são muito diferentes: o da maternidade é o tempo da doação incondicional e da delicadeza; o tempo da pesquisa/ciência atual é o tempo da quantidade e da competição. Vivenciar isso me fez ter a nítida impressão de que lutar pelo espaço da mulher, sobretudo de mulher mãe, demanda transformar, ou melhor, construir outra academia, que prima por laços de solidariedade entre trabalhadores. A academia é um mercado de trabalho como outro qualquer, com suas clivagens. Os critérios atuais de avaliação e eficiência nos colocam em desvantagem. Ademais, a mentalidade que naturaliza essas discrepâncias entre homens, homens-pais e mulheres e mulheres-mães também precisa ser trabalhada”.

Da engenharia à educação

“Eu tenho a percepção de que as mulheres são muito mais valorizadas e menos questionadas fora do Brasil”, conta a engenheira química Edenia Amaral, que já teve três experiências profissionais fora do país, e conversou com a Radis via whatsapp de Boston, nos Estados Unidos. Nascida no Crato, Ceará, e tendo se mudado para Recife em 1981 para ingressar na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Edenia já tinha como referências femininas no universo acadêmico duas de suas irmãs mais velhas, que estudavam Medicina e Engenharia Química. “Dentro da família a gente não tinha muita diferença de tratamento em relação ao gênero”, conta ela, que fez mestrado em Tecnologias Energéticas Nucleares e doutorado em Educação, e vem trabalhando mais recentemente com questões de ensino-aprendizagem em Ciências.

No momento, Edenia está desenvolvendo sua pesquisa na Universidade de Massachussets — uma universidade pública, como faz questão de ressaltar — no laboratório de Educação Química, que fica no departamento de Química. Mesmo observando que as mulheres pesquisadoras são mais levadas em consideração no exterior do que aqui, ela não nega que ainda há diferenças em como as áreas do conhecimento em si são encaradas. “No departamento de Química na minha universidade tivemos conflitos da área de educação com a área técnica, sobre aspectos práticos e administrativos, como vagas para concurso. Há preconceito nas áreas técnicas com a área de educação, e esse preconceito se mistura com as questões de gênero, uma vez que as mulheres estão mais envolvidas com as questões de educação”, avalia.

O viés a respeito de “áreas femininas e áreas masculinas” teve influência na decisão de Edenia por sua profissão. “A engenharia química, preciso pontuar, era tida como a área para onde as mulheres iam, e isso me deixava mais confortável. As outras engenharias, mecânica, elétrica, civil, eram predominantemente masculinas”, esclarece. Da graduação de Edenia até hoje, pouco mudou. Os espaços são pouco ocupados por mulheres nas chamadas “ciências duras”. Em Engenharia e Computação, são 4,9 mil pesquisadoras do CNPq no Brasil, 36% do total. Já em Ciências Exatas e da Terra, elas são apenas 34%, com 7,2 mil representantes. Em todas as outras áreas, existem mais cientistas mulheres que homens. Os destaques são as áreas de Saúde (68%), Linguística, Letras e Artes (64%) e Biológicas (61%).

Alguns estudos tentam explicar essa diferença que se observa em todo o mundo. No artigo “Expectations of brilliance underlie gender distributions across academic disciplines” [“Expectativas de brilhantismo fundamentam as distribuições de gênero nas disciplinas acadêmicas”], publicado na revista Science em 2015, a pesquisadora Sarah-Jane Leslie, do Departamento de Filosofia da Universidade de Princeton, afirma que homens têm tendência a ocupar campos onde o talento considerado inato é mais valorizado, em oposição ao “trabalho duro” e ao esforço. Isso porque, segundo ela, existe a falsa convenção de que as mulheres não têm essa “habilidade natural”. Ou seja, em algum momento da infância, as meninas deixariam de se ver como brilhantes, ainda que sejam.

Edenia não deu ouvido a essas crenças. “No início da faculdade, tirei nota dez na disciplina Cálculo 1 e isso causou espanto entre os colegas. Eu não registrei isso na época em um nível de consciência de gênero, talvez por uma ingenuidade minha, pela educação que tive”, rememora. Eu gostava muito de matemática, era uma aluna excelente, que sempre era premiada na escola religiosa que frequentei no Crato. Fui a primeira menina a liderar o grêmio, que na época se chamava centro cívico. Eu tinha algum tipo de reconhecimento, ainda que fosse mulher”, relata.

Competência, portanto, nunca foi problema para Edenia, e ela seguiu fazendo suas escolhas na carreira. Optou por fazer mestrado sem deixar a cidade do Recife. “Tinha um relacionamento e sair de lá naquele momento representaria um namoro à distância”. Passou em primeiro lugar para o curso, em uma turma onde era a única aluna mulher. “Pela minha forma de ingresso, eu me sentia confortável e valorizada. A minha opinião é que a competência feminina nos espaços predominantemente masculinos ajuda a minimizar as questões de gênero”.

A competência feminina nos espaços predominantemente masculinos ajuda a minimizar as questões de gênero.

Edenia Amaral, engenheira química.

 

Incluir mais mulheres nas áreas de ciência, matemática, tecnologia e engenharia é justo e vai produzir maior equidade no mercado de trabalho, defenderam Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, e Phumzile Mlambo-Ngcuka, diretora-executiva da Onu Mulheres, por ocasião do Dia Internacional das Meninas e Mulheres na Ciência, celebrado em 11 de fevereiro. Na nota oficial conjunta emitida pelas executivas, elas afirmam que as habilidades em STEM formam a base das categorias de trabalho que mais crescem atualmente. “Estudos recentes mostram que as mudanças no mercado de trabalho mundial resultarão em 58 milhões de empregos, especialmente de analistas e cientistas de dados; especialistas em inteligência artificial e em aprendizagem automática; desenvolvedores e analistas de software e aplicativos; e especialistas de visualização de dados”.

O relatório Global Gender Gap 2018, produzido pelo do Fórum Econômico Mundial mostra, por exemplo, que apenas 22% dos profissionais de inteligência artificial em todo o mundo são mulheres: uma considerável disparidade de gênero que reflete assuntos importantes, como segregação nos empregos e condições de trabalho desfavoráveis. Além de abordar esses obstáculos, a melhora da conectividade digital e do acesso a tecnologias financeiramente viáveis também pode garantir uma maior igualdade nas áreas de STEM, o que permitirá que mulheres e meninas se beneficiem plenamente como cientistas, estudantes e cidadãs.

Edenia conhece na prática algumas questões do mercado de trabalho e do trabalho de campo na ciência aplicada. “No mestrado, trabalhei com radioagronomia, uma aplicação química à área da agronomia. A pesquisa exigia ir ao campo, fazer coleta, viajar para o interior, e acredito que existia sim uma diferença de tratamento entre uma performance feminina e uma performance masculina nessas atividades”, diz ela, que acabou, na divisão de tarefas entre a equipe, desempenhando mais funções laboratoriais.

A pesquisadora chegou a atuar fora da carreira científica, quando fez estágios na área de engenharia e foi selecionada para uma grande empresa do ramo de siderurgia. “Não pude conciliar com a carreira acadêmica. Optei pela academia”, relata ela, que relaciona sua transição para a área de Educação com um desejo de diminuir a impessoalidade no seu trabalho e contribuir da melhor forma que enxerga para o desenvolvimento. “A importância que os processos educacionais ganham na organização de um país faz com que a gente se sinta engajada também na construção de uma nova visão de ciência, na construção de uma educação mais robusta em termos de ciência”, pondera.

O seu currículo se tornou bastante interdisciplinar ao longo do tempo, e isso faz com que Edenia possa observar as questões de gênero sob vários aspectos. “Um doutorado na área de Educação já foi considerado como de segundo plano”, ressalta, ao comemorar ter convivido com pessoas do mundo todo e presenciar a entrada de cada vez mais mulheres nas pesquisas científicas. A pesquisadora, que usa na sua própria linguagem expressões como “sensibilidades femininas” e considera que “a experiência da maternidade na nossa sociedade deixa as mulheres mais atentas às questões de educação”, não fecha os olhos, no entanto, para o preconceito. “Mesmo na área de educação muitas vezes um pesquisador homem vai ter uma projeção maior do que uma pesquisadora, mas eu acredito que isso é muito menos frequente na área de educação do que na área tecnológica”, repara. (E.B.)

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