Após uma virada inédita, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito para seu quarto mandato presidencial, com mais de 64 milhões de votos. Nunca, até então, um candidato que saiu atrás no primeiro turno havia sido eleito presidente no Brasil. Uma das chaves da virada foi a intensa mobilização de eleitores e apoiadores nas redes sociais e em expressivas manifestações de rua no segundo turno. Radis preparou um balanço pós-eleições para você entender alguns desdobramentos com impactos na democracia e na saúde.

Defesa do SUS

Ainda na noite de domingo (25/10), em seu discurso da vitória, na Avenida Paulista (SP), Lula ressaltou a importância do Sistema Único de Saúde. Conforme publicou o Outra Saúde (28/10), o presidente apontou a defesa do SUS como uma das motivações da virada: “Uma das coisas que mais me motivou é a gente não permitir que essa gente ganhasse para privatizar o nosso SUS”, disse. A matéria afirmou ainda que “a declaração se refere principalmente às propostas de Flávio Bolsonaro de amplos cortes em políticas públicas, além da possível nomeação de Cláudio Lottenberg, empresário e mercador da saúde, futuro ministro da pasta em seus planos de governo”.

Mais de 128,2 milhões de eleitores comparecem às urnas no segundo turno das Eleições 2026 — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil
Mais de 128,2 milhões de eleitores comparecem às urnas no segundo turno das Eleições 2026 — Foto: Joédson Alves/Agência Brasil

Direita no Legislativo

Apesar da derrota na disputa presidencial, o PL — partido da família Bolsonaro — ampliou sua presença no Legislativo e conquistou as maiores bancadas da Câmara e do Senado. A legenda elegeu 121 deputados federais e 19 senadores entre as 54 vagas em disputa. Com os parlamentares que já têm mandato, o partido deverá ocupar 28 das 81 cadeiras no Senado a partir de 2027. Embora o mapa eleitoral aponte uma composição do Congresso Nacional de difícil governabilidade para o “Lula 4”, lideranças do chamado Centrão e da própria direita já têm se aproximado do PT em busca de espaço no novo governo (CNN Brasil, 26/10).

Reação golpista

Após a derrota, Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado das urnas e alegou fraude eleitoral, sem apresentar provas. Dois dias depois, desembarcou nos Estados Unidos, descumprindo determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para que entregasse seus passaportes à Polícia Federal, já que é investigado por esquemas de lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Em carta divulgada nas redes sociais, chegou a se declarar “verdadeiro presidente eleito” e, em uma versão posterior, alterou a expressão para “líder do Brasil”. Na contramão de Flávio, o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e outros representantes da direita brasileira reconheceram o resultado.

— Foto: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
— Foto: Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil

Represália a trabalhadores

O Brasil, no entanto, volta a assistir ao acirramento da polarização política e novas enxurradas de fake news ligadas ao governo, espalhadas pela internet. Nos dias seguintes à eleição, empresários, influenciadores e parlamentares da direita ligados ao bolsonarismo passaram a incentivar uma onda de ameaças, boicotes e demissões a empresas, estabelecimentos e funcionários identificados com a esquerda. A situação ficou ainda mais grave e preocupante com registros de violência contra populações e territórios indígenas.

Força Nacional patrulha comunidades indigenas no Sul do MS — Foto: O Estado do Mato Grosso do Sul

Indígenas sob ameaça após as eleições

Logo após a reeleição de Lula, registros de ataques aos povos originários circularam na internet. No Mato Grosso do Sul, indígenas Guarani-Kaiowá relataram uma série de episódios de violência. Um dos casos de maior repercussão foi a divulgação de um áudio sugerindo o envenenamento da água utilizada pelas aldeias, como represália ao resultado do pleito.

A ameaça partiu de dois servidores municipais de Tacuru (MS), que admitiram à Polícia Federal (PF) a autoria das gravações. Em depoimento, ambos alegaram que não pretendiam concretizar as ameaças e atribuíram as declarações ao consumo de álcool. A PF, contudo, informou que continuará reunindo provas antes de concluir o inquérito (UOL, 1º/11).

Segundo noticiou o Conselho Indigenista Missionário (Cimi, 30/10), os áudios foram publicados após o anúncio da vitória de Lula nas urnas. Numa sequência de gravações, um dos homens afirma que os indígenas teriam votado no PT, chamando-os de “desgraçados”.  Em outro áudio do mesmo conjunto de mensagens, uma voz masculina afirma: “Tem que ponhar (SIC) veneno na água, tem que matar essas pragas na água”. A Agência Brasil informou (29/10) que, após a divulgação dos áudios, moradores da aldeia Sassoró passaram a temer a contaminação e evitar a água, que por ser de difícil acesso na região é distribuída por caminhões-pipa.

Ainda no Mato Grosso do Sul, a plataforma de jornalismo independente Sumaúma reportou outra grave ocorrência, envolvendo um jovem indígena encontrado morto em uma rodovia estadual próxima a Coronel Sapucaia, cuja origem do óbito ainda é investigada. “O indígena morto, Valdenildo da Silva, tinha 25 anos. Ele vivia na Reserva Indígena Taquaperi e foi atropelado por um veículo oficial da prefeitura — mas ainda se apura se foi isso que o matou ou se ele já estava morto”, detalha a publicação.

As deputadas federais Sonia Guajajara (Psol-SP) e Célia Xakriabá (Psol-MG) também utilizaram suas redes sociais e o plenário da Câmara para denunciar violências cometidas contra os povos indígenas, chamando a atenção da sociedade e reivindicando proteção a seus parentes. A situação motivou a ida de uma comitiva integrada pelos ministros da Justiça e Segurança Pública (MJSP), Wellington César Lima e Silva, dos Povos Indígenas (MPI), Eloy Terena, e dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC), Janine Mello dos Santos, a Dourados, no interior sul-mato-grossense, na noite de 30/10, a mando do presidente Lula.

O governo federal também anunciou o envio de 145 agentes da Força Nacional de Segurança Pública a três aldeias indígenas no estado. Os agentes enviados permanecerão em missão nas comunidades por tempo indeterminado (G1, 31/10). Em nota interministerial (27/10), o MPI, o MDHC e o Ministério da Igualdade Racial (MIR) confirmaram a atuação conjunta para qualificar e pedir a investigação das denúncias de violência relacionadas aos povos indígenas, comunidades quilombolas e povos de terreiro, após as eleições.

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