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O que pensa o recém-nomeado Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, Alexandre da Silva, sobre envelhecimento da população negra

O jovem que teve a oportunidade de conviver bastante com os avós foi observando, ao longo de sua trajetória profissional como fisioterapeuta, que pessoas negras como ele vivenciavam a velhice com mais dificuldades. Ou não chegavam a envelhecer, ou lidavam mais frequentemente com a solidão, o abandono e a desassistência. Hoje, Alexandre da Silva, doutor em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, é um dos maiores estudiosos brasileiros sobre saúde e envelhecimento da população negra e foi nomeado como Secretário Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, em 2 de janeiro, pelo ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida.  

Suas pesquisas constatam aquilo que ele percebeu ao longo de sua trajetória de vida: como as diferentes condições raciais e sociais determinam as formas de envelhecer. “É muito comum que pessoas negras envelheçam sozinhas”, observa Alexandre, em conversa com a Radis, ainda antes da nomeação. 

Mesmo que também possa ser considerado um “território negro”, o SUS ainda precisa aprender a ser mais acolhedor com os idosos negros, reforça o pesquisador, que é também especialista em Gerontologia e mestre em Reabilitação, ambos os títulos pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Em sua tese de doutorado pela Faculdade de Saúde Pública da USP, ele abordou a intersecção entre envelhecimento e racismo na cidade de São Paulo.

Segundo o pesquisador, pessoas negras são “constantemente invadidas” por estresse no dia a dia relacionado à cor da pele, ao lugar em que vivem e a outras discriminações que vão impactar em seu processo de envelhecer. Membro do Centro Internacional de Longevidade e dos Grupos de Trabalho (GT) Racismo e Saúde e Envelhecimento e Saúde Coletiva, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), atualmente Alexandre também escreve uma coluna para o Viva Bem do Portal UOL, em que trata sobre questões de saúde, envelhecimento, racismo e ancestralidade. Na entrevista com a Radis, ele avalia como o racismo e outras discriminações sofridas ao longo da vida afetam a saúde e a sobrevivência de pessoas idosas negras, assim como de outras populações vulneráveis.

Pessoas negras são constantemente invadidas, atravessadas por esses estresses do dia a dia.

Como surgiu o interesse por esse campo de estudos?

Tudo começou antes mesmo de eu entrar na graduação porque sempre digo que tive (e tenho) uma conexão muito forte com os meus avós, todos já falecidos. Na época de escolher o curso, eu tinha ainda três avós vivos. E minha avó paterna foi muito importante nessa escolha porque eu conversava regularmente com ela, morávamos na mesma rua. Muitas das nossas conversas me fizeram ser o que eu sou. Eu já sabia que queria fazer alguma coisa para ajudar as pessoas, especialmente as mais velhas. Naquela época eu não tinha nenhuma referência do campo da Medicina, então nem passou pela minha cabeça ser médico. Aqueles que eu conhecia atendiam sempre com uma mesa separando-os do paciente e eu achava que isso afastava muito as pessoas. E quis uma profissão que não tivesse essa mesa à minha frente. Então, dentre o que eu conhecia na época, vi a Fisioterapia como um campo bem interessante. 

E como foi o caminho da Fisioterapia até os estudos de envelhecimento?

Antes de entrar no doutorado, foi um momento muito importante porque eu atendia muitas pessoas idosas e boa parte delas poderia ser considerada rica. Alguns tinham motorista, cozinheira e empregadas que faziam os serviços gerais. E havia um paciente que na época contava com quatro funcionários: um motorista e uma funcionária, ambos próximos de completar 60 anos, uma com mais de 60 anos e outra mais velha, talvez beirando os 70. Certa vez, enquanto estava atendendo a este senhor, com um quadro difícil de mobilidade, do local onde eu estava, eu via a cozinha. E lá, uma das funcionárias estava lavando a louça, mas estava tão sem condições que se debruçava na pia, que era muito alta, e a impressão que eu tinha é que ela lavava só o centro do prato para não fazer um movimento maior com os ombros, por sentir dor. Decidi que não dava mais para ficar apenas na sala. Eu comecei a ir a todas as cozinhas, para os espaços em que estavam idosos que eu não atendia, mas que eram pessoas que estavam em uma situação que precisavam de atendimento. E foi assim que cheguei a esse campo, do qual tenho falado tanto nesses últimos anos, que é como o racismo ainda se perpetua na velhice. 

E como você identifica que o racismo se estende à velhice?

Na verdade, eu digo que o envelhecimento da população negra, assim como o de outros grupos que estão em vulnerabilidade, é um envelhecimento que vai acumulando discriminações. A pessoa que é negra pode sofrer racismo, mas se ela for mulher, já pode carregar outra situação discriminatória; se for LGBTQIA+, pode carregar outra, assim como se tiver uma deficiência, se vive em um bairro afastado, com pouca qualidade de vida etc. Envelhecer para uma pessoa negra não é algo simples no nosso país. Depois me tornei professor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, onde desenvolvo quatro atividades grandes na questão do envelhecimento, como um campo de práticas do internato com profissionais, professores e alunos de diversos cursos como Medicina, Enfermagem, Psicologia, Fisioterapia, Nutrição e abordamos a fragilidade a partir da perspectiva da atenção primária. Também temos o projeto chamado Geração, a ser realizado em uma instituição de longa permanência (ILP) e outros dois projetos de pesquisa, um que ocorre em Jundiaí para verificar as questões funcionais e cognitivas das pessoas idosas e outro sobre a sobrecarga de cuidadores e cuidadoras, principalmente informais, mulheres e negras. 

É possível dizer que “o corpo negro está menos presente que o corpo branco na questão do envelhecimento”? 

O fator principal que impede as pessoas negras de envelhecerem da mesma forma que as pessoas brancas é o racismo, sem dúvidas, mas nem sempre é só o racismo. Precisamos discutir o racismo, mas de várias formas: cultural, institucional, interpessoal e o racismo internalizado. Toda nossa estrutura faz com que essa possibilidade de envelhecimento não ocorra. Temos a Política Nacional de Saúde Integral à População Negra e a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, porém ambas não trazem essa abordagem, não existe uma conexão entre elas. E o tema racial envolve as populações indígenas também. Outro exemplo é a tentativa de aumentar a faixa etária de 60 para 65 anos para considerar uma pessoa idosa [refere-se ao Projeto de Lei 5383/19 que propõe a alteração da legislação vigente para que as pessoas sejam consideradas idosas a partir dos 65 anos de idade, e não mais 60]. Se olharmos para o próximo censo [previsto para ser divulgado em 2023], vamos ver que a média de idade será maior. Mas a questão é: quem são essas pessoas que estão jogando a média lá para cima? A contribuição dos indígenas é muito pequena. Então, para essas pessoas, mudar de 60 para 65 anos é muito ruim. É quase como não envelhecer: “Daqui a cinco anos não sei se vou estar vivo”. Para quem já era pobre e achava que, ao chegar aos 60, poderia ter algum tipo de alívio ou alguns direitos conquistados, essa pessoa não vai alcançar mais. 

O SUS pode ser considerado um território negro também.

Como o SUS acolhe essa população idosa negra?

Os serviços também não acolhem bem essas pessoas. Há o acúmulo da pessoa que é negra, que pode ser pobre, que pode morar em um bairro periférico, que talvez não tenha um vestuário considerado adequado e agora é uma pessoa velha. E ainda pode ser fora do padrão magro, por exemplo. Quando a pessoa vai usar os serviços não é tão acolhida, não há a adesão. Quando falamos de precarização do SUS, é preciso entender que, em alguns casos, são de 75 a 80% de pessoas idosas negras usuárias do SUS. Então, o SUS pode ser considerado um território negro também. É constantemente ameaçado e é algo importante na vida dessas pessoas. É preciso mais profissionais de saúde mental, de reabilitação, como fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, assim como precisamos falar de lazer e atividades físicas. Em outro estudo que fiz com dados do ELSI Brasil (Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros – Fiocruz/MG), as pessoas negras (pretas e pardas) e as indígenas são aquelas que mais percebem que são discriminadas no local onde residem em razão da cor, ou etnia no caso dos indígenas, ou por causa da sua idade, ou seja, é algo que já se internalizou. E uma vez que internaliza, também gera mais adoecimento. 

É muito comum que pessoas negras envelheçam sozinhas.

E quais são as maiores dificuldades para aqueles que conseguiram envelhecer, visto que já percorreram um caminho difícil até alcançar mais idade?

Chegando à velhice, os problemas são diversos. Muitos estudos já mostraram a morte precoce de filhos e filhas. Também é comum falar na feminização da velhice, com os homens morrendo mais cedo. Mulheres têm, historicamente, construído melhor essa questão do cuidado. A violência afeta os homens negros, mas a cultura de não se cuidarem, marcada pelo machismo, também é um problema. É muito comum que pessoas negras envelheçam sozinhas. Quando uma pessoa envelhece sozinha, perder alguém de sua geração, como irmão, irmã, companheiro ou amigo de longa data, é perder sua história também. 

O que se pode afirmar sobre o lazer e a qualidade de vida dos idosos negros?

Dá para pensar que as pessoas negras quando envelhecem, tendem a envelhecer mais sozinhas e tendem a não ter aprendido o lazer. Pessoas idosas negras (pretas e pardas) foram aquelas que, durante a vida, menos convidaram alguém para ir a suas casas. Não têm esse hábito. Muitas trabalham, mesmo com problemas de saúde, com incapacidades funcionais, com dificuldades para andar, levantar ou lavar um prato. Mas elas precisam trabalhar porque senão não conseguem pagar as despesas. Veja que é uma situação muito complicada, quando essa pessoa se aposenta e acha que vai poder fazer muita coisa que não fazia antes, porque o dia era ocupado com uma série de atividades. Essa pessoa negra envelhece e fala: “eu vou com quem? Eu vou para onde?”. Outra questão é a de um corpo que foi hiperssexualizado lá atrás e agora não é mais desejado. É comum essa tendência de assexualizar a pessoa idosa. 

Como a pandemia de covid-19 impactou a população negra, principalmente idosa?

Para além da morte física, que foi proporcionalmente maior para a população negra em todas as faixas etárias, há o comprometimento de todo o envelhecimento. A gente corre o risco de novamente ter o déficit educacional, pois os dados já estão mostrando que esses dois anos geraram diferenças para crianças e adolescentes na escola, que, consequentemente, irão carregar isso na sua fase adulta e para o seu envelhecimento. Se não bastasse a morte física, existe também a morte social: a morte de um parente da mesma idade, de um filho, uma neta. E para quem tem vínculo afetivo, é horrível, é injusto.

Como o racismo impacta na saúde mental da população negra idosa?

O que dá para dizer é que o diagnóstico continua sendo tardio e o tratamento incompleto para essa população idosa negra. Pode ser um pouco por uma visão estereotipada, pode ser pela família que não identifica que esse é um problema sério. Eu ouvi de uma senhora recentemente, em Campinas, que ela ficou durante 13 anos cuidando da mãe sem saber que ela estava com Alzheimer. É impressionante como os profissionais de saúde não conseguiram perceber o que estava acontecendo. E esta filha era doméstica, saía de casa para trabalhar e só voltava à noite, e os vizinhos ajudavam essa senhora a cuidar da mãe. Quantas coisas ocorreram e que não precisavam? Ela não foi acolhida adequadamente, a família ou a comunidade talvez a tenham violentado, que seja verbalmente, sem saber que ela estava doente. Ela até poderia estar com hipertensão, diabetes, dor nas costas, dor no joelho, tudo controlado, mas ela estava em sofrimento. 

Quais são os danos provocados pelo racismo sofrido a vida inteira?

Ele vai manejando muitas vezes com alterações fisiológicas. São as condições de vida que geralmente geram o estresse: o dinheiro que está faltando para pagar o aluguel; se vai dar para comprar carne, se vai dar para levar tudo o que colocou no cestinho de compras. É saber se o filho ou a neta vão chegar em casa, porque já passou meia hora do horário normal de retornarem. É aprender também vendo as notícias de que lá fora alguns corpos não são tão respeitados assim. Todos esses estresses vão gerar uma alteração no nível celular e fazer com que a célula replique menos vezes e morra mais cedo. Pessoas negras são constantemente invadidas, atravessadas por esses estresses do dia a dia. Quando se fala que envelhecer, sendo uma pessoa negra ou indígena, é um privilégio, é nesse sentido — enquanto para outros, é uma garantia.

A gente não pode ficar acomodado com isso. Não pode naturalizar que um grupo de pessoas tenha dificuldades para envelhecer adequadamente porque está faltando o básico e o que lhe é de direito e da vontade.

Como as políticas públicas podem contribuir para enfrentar o racismo e ajudar as pessoas negras a envelhecerem com mais qualidade de vida?

Todas as ações que possamos fazer para reduzir a discriminação pela idade e pela cor da pele serão bem-vindas. Se pensarmos no campo da saúde, como é que nossas práticas e nossos saberes são ainda marcados por conceitos construídos pelo racismo? Estou falando de equidade: ajudar mais a quem precisa mais. É ter os dados sobre raça/cor bem preenchidos para entender por que essa população está morrendo. E por que não se ensina a preencher corretamente esses dados? Por que não tornamos os espaços, não só de saúde, mas sociossanitários, mais acolhedores com essas pessoas idosas negras? Historicamente eles passaram por dificuldades. São pessoas que ganham menos, dependem mais da casa alugada, não têm formação, precisam trabalhar. Em alguns municípios, existem espaços culturais próximos, mas a pessoa idosa aprendeu que não é para ela. Então ela passa batido: “Não é comigo, nem sei o que é isso”. A gente não pode ficar acomodado com isso. Não pode naturalizar que um grupo de pessoas tenha dificuldades para envelhecer adequadamente porque está faltando o básico e o que lhe é de direito e da sua vontade.