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Criado em 2019 para disputar narrativas e fortalecer o protagonismo das periferias urbanas, o Dicionário de Favelas Marielle Franco se consolidou como um instrumento estratégico para a saúde pública brasileira. Coordenado pela cientista política Sonia Fleury, da Fiocruz, o projeto conta com a colaboração de moradores, pesquisadores, coletivos e outras instituições. Articula saberes comunitários e acadêmicos para enfrentar desigualdades históricas que marcam os territórios populares. 

Homenagem

Marielle Franco é homenageada pelo Dicionário de Favelas por sua luta em defesa dos direitos humanos, em especial das mulheres negras, dos moradores de favelas e da população LGBTQIA+. Foi eleita vereadora do Rio de Janeiro em 2016, com expressiva votação, e terminou sendo assassinada em 14 de março de 2018, em um bárbaro crime político.

Atualmente, a plataforma virtual reúne mais de 3,2 mil verbetes, criados por cerca de 2,9 mil colaboradores e colaboradoras. Os termos são organizados em 34 categorias temáticas que abrangem associativismo, memória, políticas públicas, cultura, economia, sociabilidade, saúde coletiva e processos de socialização. Um escopo amplo e inédito de referências sobre favelas e periferias do Brasil.

Segundo Sonia, a criação do Dicionário veio da percepção de que havia muito conhecimento acumulado sobre favelas, mas fragmentado. “Antropólogos de um lado, historiadores de outro, sanitaristas em outro canto, e as próprias favelas produzindo conhecimento”, recorda. 

Para reunir e fortalecer essa produção, surgiu a proposta de um espaço colaborativo. Os verbetes são textos autorais, podendo incluir fotos, vídeos, poemas, entrevistas, biografias, resumo de livros e todas as formas de manifestação, escrita ou oral, que se inscreva no contexto das periferias e favelas, do Brasil e do mundo. 

O termo WikiFavelas, inspirado na lógica aberta da Wikipédia, mas com princípios próprios, orienta o funcionamento da plataforma, que utiliza tecnologia MediaWiki e permite que qualquer pessoa cadastrada crie verbetes. Diferente da busca por consenso, o Dicionário valoriza a convivência de narrativas divergentes, com autoria identificada. “Conflitos existem e fazem parte da verdade dos territórios. Aqui, eles convivem”, afirma. “Não há qualquer tipo de censura. Apenas normas editoriais que vedam, por exemplo, apologia ao crime e ofensas pessoais”.

Desde sua criação, a WikiFavelas já alcançou mais de 10 milhões de acessos. No último trimestre de 2025, o maior interesse dos leitores foi em relação à saúde pública, principalmente sobre os impactos da ação de grupos armados no Rio de Janeiro. 

Eixos principais

Saúde – implementado na plataforma em setembro de 2025

  • Associativismo e Memória: 682 verbetes
  • Cultura: 582 verbetes
  • Favelas e Periferias: 378 verbetes
  • Violência: 340 verbetes
  • Pesquisas: 236 verbetes

Articulação com os territórios

O Dicionário nasceu como uma plataforma tecnológica, conta Sonia Fleury, mas rapidamente se expandiu para um espaço mais amplo de articulação territorial. “Ele era uma plataforma, e hoje é muito mais do que isso. Tudo o que fazemos dialoga com ela, mas o Dicionário se transformou em um espaço de interação permanente com as favelas”, afirma.

Essa expansão resultou em novas dimensões pedagógicas, acadêmicas, metodológicas e de preservação da memória. Além da manutenção da plataforma, o projeto estruturou uma área robusta de apoio acadêmico, integrando equipes multidisciplinares, promovendo seminários, incentivando pesquisadores das próprias favelas e publicando coletâneas. “Há uma produção intelectual potente que nasce dos territórios”, diz.

O trabalho com memória e acervos comunitários também cresceu. Muitos territórios têm coleções e documentos sem organização adequada. Para responder a isso, o Dicionário criou um curso de extensão para formação em gestão de acervos comunitários, abordando catalogação, preservação e divulgação. A iniciativa impulsionou o desenvolvimento do “Saberes Populares”, um repositório digital hospedado no Dicionário, destinado a reunir jornais comunitários, arquivos históricos, registros de lutas e materiais culturais que hoje estão dispersos. “O repositório nasceu da necessidade concreta dos territórios. Demandas cotidianas moldam o projeto”, explica Sonia.

A expansão inclui projetos de pesquisa, como o estudo sobre jornais de favelas produzidos durante a ditadura e a redemocratização, que sistematiza acervos antes fragmentados e ilumina a história política e comunicacional desses territórios. Nada disso decorre de um plano fixo, mas de uma construção viva com coletivos e lideranças. 

A pesquisadora conta que, ao longo do tempo, houve a percepção de que era necessário ir também às comunidades, ouvir e captar “in loco”. A partir de então, criou-se o “Tamo Junto”. Ela cita como exemplo o processo realizado em 2025 junto aos municípios de Niterói e São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. “Durante dois ou três meses, a  equipe desenvolveu processos formativos com coletivos locais, que ao final produziram verbetes e apontaram novas demandas. É uma troca real”, diz. “Cada ciclo amplia o alcance territorial e gera novos projetos, cursos e linhas de pesquisa”.

Projeto em constante transformação

Criado em 2019 pela Fiocruz, o Dicionário se tornou uma das principais plataformas colaborativas sobre territórios populares. Essa lógica sustenta o processo contínuo de atualização temática do projeto. Reuniões periódicas da equipe são realizadas no Campus Maré da Fiocruz para discutir o projeto e traçar novos rumos. Radis acompanhou uma delas, em setembro (17/9). Foi possível comprovar que o projeto sempre está em transformação.

“Em 2024, houve uma mudança significativa nos eixos de análise: o eixo Coronavírus, criado no contexto da pandemia, foi substituído pelo eixo Saúde. A decisão partiu da percepção da equipe sobre a necessidade de incorporar uma concepção ampliada de saúde, alinhada ao artigo 196 da Constituição Federal, segundo o qual a saúde é um direito universal, um dever do Estado e resultado dos determinantes sociais, econômicos, culturais e comerciais”, explica Sonia.

A coordenação elaborou uma proposta inicial com base nesse entendimento, sugerindo a reorganização das categorias e seu alinhamento à noção de promoção, proteção e recuperação da saúde. Um estudo técnico de tratamento informacional refinou o desenho final implementado na plataforma em setembro de 2025. O novo eixo passou a reunir as categorias: Atenção Primária à Saúde; Coronavírus; Saúde Mental; Políticas e Direitos em Saúde; Gestão de Sistemas e Serviços em Saúde; e Tecnologia e Inovação em Saúde. A atualização ampliou o escopo e alinhou a classificação temática às demandas das favelas e à agenda contemporânea da saúde coletiva.

A governança do Dicionário assegura participação direta dos territórios. O Conselho Editorial é paritário (50% lideranças e 50% pesquisadores) e define eixos temáticos, diretrizes e princípios éticos. Durante a pandemia, essa estrutura permitiu que verbetes produzidos por coletivos se tornassem referência para pesquisadores e gestores públicos, consolidando o Dicionário como ferramenta de vigilância popular em saúde.

Alcance do Dicionário

  • Mais de 3.200 verbetes publicados
  • Cerca de 2.900 colaboradores(as)
  • 34 categorias temáticas

Inovação que alcança políticas públicas

O alcance do Dicionário já gera efeitos diretos nas políticas públicas. Segundo Sonia, recentemente, o Ministério da Saúde desenvolveu o Mapa dos Movimentos Sociais em Saúde a partir do sistema criado pelo Dicionário. “Isso mostra a nossa incidência. Alcançamos o nível de influenciar políticas públicas,” comemora.

Outra frente de impacto foi a participação no Comitê Consultivo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), responsável por revisar a terminologia usada para classificar favelas. “A categoria ‘aglomerado subnormal’ não representa nossos territórios. Passamos o ano discutindo essas definições.”

Nos últimos anos, o Dicionário também entrou no ambiente escolar, com professores de literatura, sociologia e português adotando verbetes como material didático. O projeto articula ainda parcerias com universidades e colégios federais, como o Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp/UFRJ), para desenvolver trilhas pedagógicas, oficinas e materiais curriculares. 

A equipe do Dicionários também pesquisa a explosão da produção de dados nas favelas desde os anos 2000, acelerada pelo acesso à universidade e pela pandemia. Coletivos territorializados passaram a produzir painéis epidemiológicos, diagnósticos comunitários e propostas de saneamento, afirmando as favelas como produtoras de conhecimento e modelos de políticas públicas.

Com reconhecimento crescente, o Dicionário busca financiamento e estrutura para expandir sua atuação pedagógica, consolidar o repositório de memória e fortalecer sua produção científica e territorial. “Tem muito mais sendo feito do que conseguimos acompanhar. O Dicionário virou referência, ferramenta e espaço de reconhecimento. Agora precisamos garantir condições para continuar expandindo”, conclui Sonia Fleury.

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