A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta (9/2) sobre o uso indevido dos medicamentos conhecidos como “canetas emagrecedoras”. Sessenta e cinco mortes são investigadas como suspeitas de complicações diversas associadas ao uso dessas medicações, segundo a agência, no período de dezembro de 2018 a dezembro de 2025. No mesmo intervalo, a Anvisa recebeu 2.436 notificações pelo VigiMed, plataforma usada por cidadãos e profissionais da saúde para reportar eventos adversos.
A agência também divulgou que investiga 145 suspeitas de eventos adversos em relação a problemas no pâncreas, ocorridos entre 2020 e 2025, com seis suspeitas de mortes. Em nota, a Anvisa explica à Radis: “se considerarmos as notificações coletadas também em pesquisa clínica, este número chega a 225 casos”.
O alerta sobre os casos de pancreatite veio após a autoridade reguladora do Reino Unido (MHRA) informar que registrou, entre 2007 e outubro de 2025, 1.296 notificações da doença relacionadas a essas medicações, incluindo 19 mortes.
Esses medicamentos — que incluem substâncias como semaglutida, liraglutida e dulaglutida — pertencem ao grupo dos agonistas do receptor de GLP-1, um tipo de substância que imita o hormônio GLP-1, produzido no intestino para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, estimular a liberação de insulina e promover saciedade. Já a tirzepatida atua de forma semelhante, mas é um agonista duplo, agindo nos receptores de GLP-1 e GIP.
Esses remédios são indicados em casos de diabetes tipo 2 e/ou obesidade, sempre com acompanhamento médico. A Anvisa reforça que a pancreatite está listada como risco na bula desde os primeiros lançamentos desses produtos. Apesar das suspeitas, a agência ressalta, em nota enviada à Radis, que os benefícios terapêuticos ainda superam os efeitos adversos, de acordo com as indicações e modos de uso aprovados e presentes nas bulas.

Outros alertas
A Anvisa já havia emitido outros alertas relacionados a “canetas emagrecedoras”, incluindo riscos de aspiração durante procedimentos anestésicos, em 2024; e a perda de visão rara associada à semaglutida, em 2025.
Em junho de 2025, a agência reguladora determinou que farmácias e drogarias devem reter a receita desse tipo de medicamento. Desde então, a prescrição médica passou a ser feita em duas vias e a venda só pode ocorrer com a retenção da receita, que tem validade de 90 dias.
A Anvisa orienta ainda que os pacientes não comprem a medicação de forma ilegal, como por meio da internet e do comércio informal, e que comuniquem qualquer efeito adverso ao VigiMed.
A agência informa que “qualquer produto adquirido fora de farmácia ou drogaria não tem qualquer garantia de procedência, composição ou conservação. Por isso o uso destes produtos pode acarretar todo tipo de risco, desde falta do tratamento adequado até problemas graves de saúde decorrentes do uso de substâncias de origem desconhecida.”
Riscos adicionais das canetas importadas, sem registro no Brasil:
- Não há quem se responsabilize no Brasil por intercorrências relacionadas ao uso do produto
- A rastreabilidade fica dificultada e impossibilita a adoção de medidas regulatórias, caso necessário
- Orientações ou bula em língua estrangeira implicam em riscos como dificuldade de compreensão para o paciente e erros de administração
- Casos eventuais de falsificação, adulteração ou produto clandestino fogem à governabilidade brasileira
Fonte: Anvisa

Recomendações da Anvisa aos profissionais de saúde
- Estar atentos ao risco de pancreatite aguda em pacientes que recebem medicamentos agonistas de GLP-1
- Se houver suspeita de pancreatite, interromper imediatamente o tratamento com o medicamento agonista de GLP-1
- Não reiniciar o tratamento se o diagnóstico de pancreatite for confirmado
- Os medicamentos agonistas de GLP-1 devem ser usados com cautela em pacientes com histórico de pancreatite
- Notificar qualquer suspeita de reação adversa no VigiMed.
A recomendação é que os usuários de “canetas emagrecedora” procurem atendimento médico imediato, em caso de dor abdominal intensa e persistente, que pode irradiar para as costas e vir acompanhada de náuseas e vômitos.

Como funciona uma “caneta emagrecedora”?
Entenda o que ela faz no seu corpo
O que são?
As “canetas emagrecedoras” são medicamentos injetáveis usados para tratar diabetes tipo 2 e obesidade. Elas imitam um hormônio natural do corpo chamado GLP-1 (semaglutida, liraglutida e dulaglutida), produzido no intestino para ajudar a controlar os níveis de açúcar no sangue, estimular a liberação de insulina e promover saciedade. Já a tirzepatida atua de forma semelhante, mas é um agonista duplo, agindo nos receptores de GLP-1 e GIP.
Como age no cérebro: A caneta atua no centro da fome. Resultado: Você sente menos fome.
Como age no estômago: Retarda o esvaziamento do estômago.
Como age no pâncreas: Estimula a liberação de insulina quando o açúcar está alto. Também reduz o glucagon (hormônio que aumenta a glicose). Isso melhora o controle glicêmico.
Importante
Esses medicamentos têm indicação médica específica e podem ter efeitos colaterais (náusea, vômito, desconforto abdominal e, raramente, pancreatite). Por isso, sempre use com acompanhamento profissional.



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