Fundado em dezembro de 1985, na esteira da redemocratização política do país, e às vésperas da histórica 8ª Conferência Nacional de Saúde — cujos desdobramentos resultaram na criação do SUS —, o Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh) representa uma expressão concreta dos movimentos da saúde coletiva e da Reforma Sanitária Brasileira, que fervilhavam entre as décadas de 1970 e 80.
Desde então, o Centro atua em atividades de pesquisa e ensino, formação profissional, vigilância em saúde, meio ambiente e assistência especializada, contribuindo para o fortalecimento das políticas públicas e com a defesa dos direitos trabalhistas e humanos. Em 2025, ao celebrar seus 40 anos, o Cesteh promoveu uma série de debates e discussões que revisitaram sua história e miraram novas atuações diante dos desafios contemporâneos na interface entre trabalho, saúde e ambiente.
Como parte das comemorações, o seminário “Cesteh Rumo aos 40 Anos de Formação na Ação: Raízes e Sementes” debateu temas emergentes diante das intensas transformações pelas quais o mundo vem passando, explica Rita Mattos, atual coordenadora do Cesteh, que integra a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp), da Fiocruz. Em entrevista concedida à Radis, Rita adverte que a fragilização dos direitos sociais resulta nas dificuldades de avanço da Reforma Sanitária.
Estiveram em pauta temas como a precarização do trabalho na era digital; desigualdades de gênero e raça no trabalho; desafios frente às mudanças climáticas e expressões territoriais nas relações saúde-trabalho e ambiente. Além desse primeiro encontro, realizado em abril, o Cesteh promoveu uma série de outros eventos formativos ao longo de 2025. Dentre eles, o seminário “Condições Pós-Covid: saúde do trabalhador e da trabalhadora e estratégias de cuidado” e um debate sobre os desafios das Conferências Nacionais de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora.
O objetivo do conjunto de atividades foi propor mudanças e alternativas futuras em um contexto de desmonte institucional e democrático no Brasil, afirma um trecho do e-book “As raízes e sementes da saúde do trabalhador”, fruto do encontro. A ideia, segundo Rita, era que o Cesteh estabelecesse uma agenda de trabalho com ações condizentes com seu papel histórico e estratégico na formulação de políticas públicas nos campos da Saúde do Trabalhador e da Ecologia Humana.
Ainda de acordo com o texto de apresentação do e-book, “os temas escolhidos foram motivados por um contexto de profunda transformação do mundo do trabalho, marcado por precarização, plataformização, intensificação tecnológica e agravamento das desigualdades sociais, de gênero, raça e território”. Assuntos que — não por acaso — também estiveram em destaque na 5ª Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador e da Trabalhadora, realizada em agosto de 2025 (Radis 277).

Cesteh elenca temas urgentes
A coordenadora do Cesteh explica que os eixos dos seminários alusivos aos 40 anos foram pensados a partir da transformação do papel do Estado como provedor de políticas públicas alinhado à racionalidade neoliberal. “Isso tem levado a uma degradação profunda das condições de vida, impactando o mundo do trabalho, o meio ambiente e a saúde da população, especialmente os trabalhadores e trabalhadoras, resultando em uma crise civilizatória sem precedentes”, analisa Rita.
Ela observa que a face mais visível dessa precarização se reflete na fragilização dos direitos sociais — como o direito à saúde, ao trabalho, à educação e ao ambiente saudável. “Incluímos nos debates aspectos importantes, como as desigualdades de gênero, raça, precarização e superexploração do trabalho marcados por jornadas excessivas e baixa remuneração”, frisa.
Rita reconhece que além de gerar reflexões e possibilitar novas perspectivas, as discussões também requerem uma atuação prática. “Estamos incluindo na nossa pauta diária — no ensino, na pesquisa e nos serviços ambulatoriais e de laboratório — temas como racismo ambiental, influência das mudanças climáticas no trabalho, capacitismo e os anseios dos sujeitos sociais que têm sido invisibilizados: negros, indígenas, ribeirinhos, camponeses e mulheres, que têm muito a nos dizer com seus saberes, formas de vida e visões de mundo”, enumera.
Ela também ressalta a importância dos territórios no debate sobre saúde do trabalhador e ambiente ao mencionar as populações trabalhadoras que moram ou transitam ao redor de grandes empreendimentos, como indústrias poluentes nas cidades, regiões de mineração, áreas do agronegócio, grandes barragens, dentre outros— temática essa que também esteve em pauta nos seminários de 40 anos do Cesteh.
Ao olhar para frente, avalia que “os desafios são enormes para um Centro que tem como missão promover a saúde, prevenir agravos e proteger trabalhadores e o meio ambiente”. Na hora de citar os temas prioritários, contudo, Rita não titubeia: “A diminuição da jornada de trabalho [fim da escala 6×1]; a formação de profissionais para um SUS mais inclusivo; o estímulo a investigações sobre as relações de produção; e as exposições a substâncias químicas — como metais, benzeno e agrotóxicos — à saúde dos profissionais da saúde e da educação, além de outros temas emergentes”.
A coordenadora do Cesteh aponta ainda outro importante desafio na saúde do trabalhador: “A convivência simultânea de relações de produção arcaicas e modernas, que reproduzem e acentuam antigos problemas e agravos à saúde dos trabalhadores e trabalhadoras, ao mesmo tempo em que introduzem novas questões geradas pelas tecnologias emergentes”. Cabe ao Cesteh, nas próximas décadas, a busca contínua por alternativas, soluções e formas de cuidado voltadas a trabalhadoras e trabalhadores no Brasil, valorizando seus saberes, experiências e vivências
Glossário da Saúde do Trabalhador e meio ambiente
Criado por residentes e egressos do Programa de Residência Multiprofissional em Saúde do Trabalhador que participaram do evento “Cesteh 40 Anos: Raízes e Sementes”, o e-book “As raízes e sementes da saúde do trabalhador” traz um apanhado dos debates promovidos em seis mesas temáticas, de 14 a 16 de abril de 2025, e um glossário com termos e expressões utilizadas no encontro — chamado Árvore de Palavras. Confira em: https://bit.ly/ebookraizesesementes.





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