O mundo pode atingir níveis recordes de fome nos próximos meses. É o que revela o Programa Mundial de Alimentação (PMA) da Organização das Nações Unidas (ONU), em comunicado emitido em 17 de março. Segundo o órgão, se o conflito bélico iniciado em 28 de fevereiro, envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, se estender até meados de 2026, mais de 45 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar aguda, somando-se aos 318 milhões que já sofrem com essa situação em todo o planeta. Mas as consequências dessa guerra não param por aí.
O conflito no Oriente Médio pressiona o preço do petróleo, ameaça rotas comerciais, desestabiliza a economia, afeta cadeias produtivas e amplia o risco de uma crise humanitária e de tensões geopolíticas. Em desvantagem contra o poderio bélico das forças estadunidenses e israelenses, o Irã aposta no abalo econômico como estratégia e forma de pressionar Trump e Netanyahu e vem atacando estações energéticas e bases dos Estados Unidos no entorno do Golfo Pérsico, em países como Iraque, Catar, Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Omã.
Para o pesquisador do Núcleo de Estudos do Oriente Médio da Universidade Federal Fluminense (UFF), Rodrigo Ayupe, a postura iraniana é um fator surpresa que pode estender o conflito por mais tempo do que o planejado: “O Irã foi se tornando o protagonista nessa guerra econômica. O fato é que o Irã estava preparado para isso e Estados Unidos e Israel não estavam”, afirmou o especialista à CNN Brasil (21/3).
Duas semanas após o início dos ataques a Teerã, capital do Irã, e outras cidades do país persa — que mataram milhares de civis, militares e autoridades, como o líder máximo do país de regime teocrático, o aiatolá Ali Khamenei — a BBC Mundo listou (12/3) três efeitos da guerra que poderão ser sentidos em larga escala muito em breve. Um deles é a crise alimentar, com ameaça de cadeias agrícolas e do fornecimento global. Os outros dois são o abalo na indústria global, devido ao comprometimento na produção de metais, químicos e componentes eletrônicos, e o impacto na distribuição de medicamentos.
Uma guerra e muitas crises
Sobre essa última consequência, o Outra Saúde (20/3) destacou que ao interromper cadeias globais de produção e distribuição, especialmente de insumos farmacêuticos, a guerra compromete o acesso a medicamentos. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, como o sanitarista da Fiocruz Paulo Buss, sanções, bloqueios logísticos e instabilidade política dificultam tanto a fabricação quanto o transporte de remédios, afetando principalmente países mais dependentes de importações. O resultado é o risco de desabastecimento, aumento de preços e agravamento de crises de saúde pública.
A publicação destacou ainda que bloqueios logísticos, como os que estão ocorrendo no Estreito de Ormuz — por onde circula cerca de 20% da produção mundial de petróleo e gás (CNN, 12/3) — impulsionam a inflação, uma vez que afetam o preço dos combustíveis e os custos de toda distribuição comercial. E acrescentou que gastos com guerra reduzem investimentos sociais. Segundo relatório da ONU, “aumentos nos investimentos militares estão associados a reduções no financiamento público da saúde e da educação”.
Em coluna assinada também no Outra Saúde (19/3), o médico e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Reinaldo Guimarães, destacou a urgência de ampliar a autossuficiência do Brasil no setor farmacêutico para que o país enfrente crises como essa com menos turbulência. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou (22/3) que a guerra alcançou uma “fase crítica” com os ataques mirando áreas que abrigam instalações nucleares em Irã e Israel.
“Os ataques contra instalações nucleares representam uma ameaça crescente à saúde pública e à segurança ambiental”, afirmou o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, na rede social X: “Apelo urgentemente a todas as partes para que exerçam a máxima contenção militar e evitem quaisquer ações que possam desencadear incidentes nucleares”, noticiou o Portal Terra (23/3).
Os bombardeios ao Irã, que têm como um de seus pretextos frear o programa nuclear do país persa, não vem rendendo capital político para Donald Trump. O G1 (19/3) destaca que a disparada dos preços do petróleo e do gás, o isolamento diante de aliados tradicionais, como os países-membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) — que ignoraram seu apelo para intervir no desbloqueio do Estreito de Ormuz — e a rejeição da maioria dos americanos à intervenção militar no Irã (cerca de 65% desaprovam a guerra) parecem deixar Trump cada vez mais distante de declarar a vitória.
Seu governo, inclusive, vem sofrendo com baixas internas, como a renúncia do diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo, Joe Kent. Ao deixar o cargo, ele chegou a afirmar que o regime iraniano não representava ameaça iminente aos estadunidenses e alegou que o governo embarcou na ofensiva por pressão de Israel. Apoiadores próximos, como o ex-apresentador da rede de TV Fox News Tucker Carlso, concordam: “Essa guerra não é nossa, é de Israel”, endossou publicamente.
Uma guerra sem objetivos claros
Contra Trump, pesa ainda a falta de um objetivo na guerra, segundo especialistas. O portal Infomoney (18/3) trouxe uma análise do cientista político Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), para quem o raciocínio é direto: “Quem determina o início e o fim de uma guerra não são os militares — é a liderança política. E quando essa liderança não tem um objetivo muito claro, os militares simplesmente não conseguem atingi-lo”, declarou.
Para ele, o problema começa na enumeração. Donald Trump e o governo israelense já mencionaram, em diferentes momentos, ao menos quatro metas distintas para a guerra: mudança de regime em Teerã, fim do programa nuclear iraniano, encerramento do programa de mísseis balísticos e ruptura do apoio iraniano a grupos regionais como Hamas, Hezbollah e Houthis. “Não ficou claro qual efetivamente seria o objetivo do governo americano ao iniciar essa guerra”, analisou.
Radis acompanhou que a imprensa tradicional brasileira tem enfatizado o aspecto econômico da guerra em seu noticiário. No dia 19/3, a apresentadora do Jornal Nacional (TV Globo), Renata Vasconcellos, culpou exclusivamente o Irã pela crise energética que se avizinha e eximiu a participação de Estados Unidos e Israel em sua fala, na abertura do telejornal mais assistido do país:
“O planeta vive o pesadelo de uma crise energética global, porque o Irã decidiu escalar a guerra no Oriente Médio, passou a atacar instalações de petróleo e gás em todo o Golfo Pérsico. E aí o dia de hoje foi de bolsas em queda, preços em alta, muita incerteza. A pergunta que o mundo inteiro se faz é, até onde vai essa crise?”, afirmou a jornalista, sem qualquer menção ao papel dos demais principais envolvidos no conflito.
Sem um objetivo claro definido para a guerra e após violações de propostas de cessar-fogo, tudo indica que o conflito no Oriente Médio ainda se prolongará, aumentando a tensão e riscos de colapso nas mais diversas áreas, como a humanitária, de produção, comércio e serviços. Promessa de dias difíceis para um mundo cada dia mais interligado e menos estável.
MORTOS NA GUERRA
Os dados sobre as mortes no atual confronto no Oriente Médio ainda são desencontrados. Um levantamento feito pela CNN, até o dia 15 de março, indicava que naquele momento pelo menos duas mil pessoas haviam morrido em todo o Oriente Médio desde que os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, em 28 de fevereiro. Segundo o Portal Terra (23/3), uma ONG americana diz que mais de três mil pessoas morreram em ataques no Irã, incluindo ao menos 1,3 mil civis. No Líbano, ataques de Israel mataram mais de mil pessoas em três semanas, diz governo. Mais de um milhão foram deslocadas. Em Israel, ao menos 15 pessoas foram mortas por mísseis iranianos, e outras quatro morreram na Cisjordânia. Pelo menos 13 militares dos Estados Unidos também foram mortos. E enquanto houver munição e intenção política contrária à paz, os números não param.




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