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Imagine-se em plena adolescência convivendo até a idade adulta com dores crônicas intensas, seguidas de desmaios frequentes e outros sintomas muitas vezes incapacitantes, alguns presentes desde o nascimento. Adicione a isso passar por dezenas de médicos e, ao invés de receber ajuda, ter seus relatos, sofrimentos e experiências diminuídas ou invalidadas em várias ocasiões. 

Foi o que aconteceu — e por vezes ainda ocorre — com Pricila Vieira, servidora pública, 31 anos, natural de Vila Velha (ES), que vive com três condições raras de saúde. À Radis, ela disse que pior do que a demora de mais de 15 anos para conseguir os diagnósticos corretos, que só vieram aos 30, foram as diversas situações negativas vivenciadas em consultórios médicos, espaços que deveriam ser de escuta, cuidado e acolhimento. Isso tem nome e não acontece só com ela: é o que tem sido definido como gaslighting médico — termo que se refere à invalidação e ao descrédito em relação aos relatos dos pacientes.

Mas por que essa desqualificação de quem busca um diagnóstico ou um cuidado adequado acontece com uma frequência que chega a ser preocupante? Em maio de 2023, trouxemos o tema do gaslighting médico como pano de fundo de uma matéria sobre disautonomia — disfunção no sistema nervoso autônomo (SNA) que ocasiona descompassos no organismo (Radis 238). Dessa vez o assunto retorna como elemento central da reportagem: um problema na relação médico-paciente que ainda precisa ser encarado e tratado.

“O gaslighting médico está associado à postura do médico, quando invalida o sofrimento e as queixas do paciente, quando não tem uma escuta qualificada ou sugere que os sintomas são exageros ou invenções. E isso pode acontecer por abuso de poder da autoridade médica”, explica à Radis a médica de família e comunidade Maitê Dahdal, de 30 anos, natural de Campinas (SP), que além dos atendimentos em seu consultório também trabalha com educação médica.

Para ela, essa má conduta se configura como uma forma de violência e ocorre quando existe uma negação sistemática da experiência do outro. No caso, o paciente. “O gaslighting médico acontece quando o médico sai desse papel de estar ao lado e simplesmente se coloca numa situação de estar acima, como a relação médico-paciente mais paternalista, em que o profissional manda e decide sozinho o que é melhor para a pessoa, sem trazer a perspectiva dela”, completa.

Negligência e invalidação

Nascida em São Paulo e hoje morando em Londrina (PR), Beatriz Madaleno, de 26 anos, é psicanalista, educadora parental e ativista da cultura do cuidado centrado na pessoa. Ela contou seu percurso de sofrimento e angústia até o diagnóstico de disautonomia, sofrendo diversas invalidações médicas ao longo dos anos (Radis 238).

“Gaslighting médico é quando um profissional de saúde minimiza, desacredita ou ignora os sintomas relatados por um paciente, fazendo com que ele duvide da própria percepção ou experiência”, define. “Isso pode acontecer quando queixas persistentes são atribuídas apenas à ansiedade, sem investigação adequada”. 

Em concordância com a afirmação de Maitê, Beatriz afirma que o gaslighting médico é caracterizado pelo poder que muitos profissionais de saúde exercem devido à posição de autoridade e à confiança depositada neles pelos próprios pacientes, que se veem em uma posição vulnerável.

Radis ouviu Pricila, Maitê e Beatriz. Não por acaso, três mulheres. Afinal, ainda que também possa ocorrer com homens, são elas que mais sofrem com esse tipo de violência. E não é de hoje: Não é à toa que o termo histeria se deriva da palavra grega útero. No passado ela era atribuída à presença de útero, ou seja, relacionada à mulher. Se a gente olhar para a história, há muitos relatos disso no passado”, analisa Maitê.

Para Pricila, as sequelas de um gaslighting médico são invisíveis, porém profundas e danosas. “Acho que muitos pacientes com doenças raras começam a sentir medo de ir a consultas, porque a gente sabe o que vai ouvir e pelo que vai passar. Depois de um tempo, cheguei a desistir de procurar o que tinha e fui lidando como podia com meus sintomas”, desabafa.

O relato de Beatriz é semelhante: “Passei por várias consultas em que fui negligenciada e invalidada, uma violência que por vezes parecia sutil, mas era profundamente marcante. Isso tudo me fez duvidar da minha própria percepção da realidade e atrasou o meu diagnóstico e tratamento”, relembra. “Profissionais de saúde devem se questionar: ‘Eu estou realmente ouvindo e validando as experiências dos pacientes?’”, aconselha.

Quem mais sofre o gaslighting médico?

Embora casos que envolvam doenças de difícil diagnóstico não sejam os únicos que gerem gaslighting médico, pessoas nessas condições são mais propensas a sofrerem situações dessa natureza, justamente pelo desconforto que o desconhecimento pode causar em determinados profissionais de saúde. “Existe uma lacuna na formação médica em que se valoriza muito pouco a incerteza e a escuta. Além disso, do ponto de vista cultural, as pessoas imaginam que é errado o médico não saber o que a pessoa tem, que precisa estudar mais ou conversar com outro especialista”, aponta Maitê.

Para a médica, o que pode ser erroneamente interpretado como fraqueza é na verdade um gesto de respeito e responsabilidade com os pacientes, em especial aqueles com diagnósticos mais difíceis. Beatriz concorda: “A medicina, marcada por uma tradição de autoridade e pela expectativa de respostas, ainda não acolhe bem o reconhecimento de limites ou incertezas. Muitos médicos foram formados para oferecer soluções, não para sustentar dúvidas ou caminhar junto com o paciente em um processo investigativo mais longo e complexo”, avalia.

Estudos revelam ainda que essa invalidação de sintomas é mais direcionada a grupos específicos. Minorias e populações socialmente vulnerabilizadas, como mulheres, pessoas LGBT+ e negros, sofrem mais com esse tipo de violência. É o que demonstra a advogada e mestra em Direitos Humanos, Victória Fernandes Carneiro, em seu livro intitulado “Gaslighting Médico: Entre a vida e a morte”, recém-publicado pela editora Appris (2025).

Beatriz acrescenta à lista pessoas neurodivergentes e aquelas com síndromes raras. Para ela, isso ocorre porque “há uma reprodução dos mesmos padrões estruturais de desigualdade, racismo, machismo, LGBTfobia e capacitismo presentes em outros contextos”. A psicanalista acredita que esse comportamento reflete uma formação biomédica historicamente elitista, que ainda carece de uma abordagem interseccional e crítica. “Combater essa violência passa por reconhecer esses marcadores sociais e incluir debates sobre equidade, diversidade e justiça social na formação e prática em saúde”, sustenta.

Maitê observa que a marginalização e a desconfiança institucional que essas pessoas sofrem também se reflete nos atendimentos médicos. Para ela, as influências psicológicas, sociais e culturais e os preconceitos estruturais contribuem para que esse público seja mais vítima de gaslighting médico do que outros: “Mulheres frequentemente são tratadas como histéricas ou ansiosas. Pessoas negras relatam suas queixas sendo minimizadas ou associadas ao mito da resistência à dor e pessoas LGBT+ enfrentam barreiras adicionais e muitas suposições indevidas sobre a sua saúde”.

A médica acrescenta à análise duas revelações impactantes: uma é que “já existem pesquisas comprovando que mulheres negras recebem menos analgesias de parto do que mulheres brancas” e outra, que “a Academia Americana de Emergência descobriu que mulheres esperam cerca de 33% a mais do que homens para receberem remédios contra dores abdominais quando elas procuram um pronto atendimento”. São situações que não podem ser normalizadas, diz Maitê.

Não era falta de um namorado

Na saga para encontrar respostas sobre seu problema de saúde, Pricila conta à Radis que passou por muitos especialistas, alguns até renomados, e ouviu os mais absurdos comentários. Um deles, em especial, ficou marcado em sua memória, quando o médico sugeriu que os problemas relatados pela então adolescente, acompanhada de sua mãe na consulta, seriam decorrentes da “falta de um namorado”. “Eu era muito nova e não soube reagir, mas acho que foi o primeiro gaslighting dos mais chocantes que passei. E não me pediu nenhum exame. Disse que era isso e me mandou embora”, relata.

Em outra ocasião, foi aconselhada a “descontar o estresse no irmão mais novo”, dentre outros desrespeitos. Anos mais tarde, ao ser tratada com dignidade e ter seus relatos validados, ela enfim pôde nomear o que o profissional tido como referência no trato gastrointestinal reduziu, de forma leviana, a uma carência amorosa juvenil e que tantos outros não atentaram devidamente. Pricila convivia com a síndrome de Ehler-Danlos (SED), síndrome de ativação mastocitária (SAM) e disautonomia. Três condições pouco divulgadas que podem ser bastante debilitantes quando desencadeadas (Radis 248). 

Muito de seu sofrimento poderia ter sido amenizado e até evitado se Pricila tivesse sido ouvida antes. Na ausência de um diagnóstico assertivo, os médicos por ela consultados optaram por deduções mais óbvias e pelo atalho da invalidação em vez de investigações sérias. “Eles [os médicos] olhavam para mim e diziam que aquilo era ansiedade da adolescência. Acho que apenas no quinto ou sexto gastroenterologista que procurei foi pedida uma colonoscopia, onde foi verificada a inflamação no meu intestino”. 

Pricila conta que inicialmente o tratamento adotado a partir dos exames aliviou um pouco os sintomas, mas logo deixou de surtir efeito, já que a inflamação encontrada era mais um sintoma de suas outras síndromes do que a causa do que enfrentava.

“Depois de um tempo, chegaram à síndrome do intestino irritável, que é um diagnóstico de exclusão. E passei os últimos 15 anos com esse diagnóstico, só que sem nenhuma melhora, indo para o hospital, vomitando mais de 20 vezes seguidas, com dores abdominais absurdas e voltando aos médicos”. Era quando ouvia as mais variadas desculpas e encaminhamentos a psiquiatras ou psicólogos, mas ninguém olhava para ela e a escutava de fato.

“Eu já estava até começando a acreditar que era algo psicológico mesmo. Se tantos médicos te falam isso, você começa a duvidar da sua sanidade. Então fui deixando pra lá”, conta. Contudo, em 2022, a situação se agravou e Pricila passou a ter também sintomas cardíacos, como arritmia e taquicardia, mesmo em repouso. Foi quando um cardiologista que tinha uma colega com disautonomia e conhecia a condição realizou os testes adequados e abriu caminho para os diagnósticos.

“Eu estava feliz, porque a gente sente um alívio: ‘eu não sou doida’! As coisas começam a fazer sentido”, confidencia ela, que com o tratamento adequado pôde enfim obter uma melhora em sua qualidade de vida. Mas, isso não resolveu todos os seus problemas.

“Eu estava feliz, porque a gente sente um alívio: ‘eu não sou doida’! As coisas começam a fazer sentido”

Pricila Vieira

O diagnóstico não basta para evitar o gaslighting médico 

Para surpresa de Pricila, no entanto, o que ela até desconfiava se confirmou: nem o diagnóstico de SED, SAM e disautonomia impediu que ela continuasse enfrentando dificuldades e constrangimentos em eventuais emergências médicas, uma vez que as síndromes podem ser controladas ou amenizadas, mas não têm cura. Por isso, ela ainda resiste o quanto consegue até buscar assistência médica, sabendo que além dos sintomas precisará se desgastar durante o atendimento: “Eu só vou ao hospital em último caso. Tento de tudo em casa primeiro, porque eu sei o que vou passar lá”, confessa.

Pricila tenta explicar seu caso aos profissionais e argumentar que precisa de um atendimento mais específico, pois protocolos generalistas não funcionam para o seu problema, mas é constantemente ignorada. “Conheço meu organismo e os médicos já me explicaram como ele funciona. Mesmo assim, no pronto socorro, me tratam como se fosse uma virose ou uma gastroenterite”. Com os procedimentos inadequados para sua condição, os sintomas não melhoram, ao contrário do que espera a equipe de cuidado, apesar dos avisos da paciente. “Não me escutam, nem mesmo eu levando o laudo que tenho”, protesta.

Ela compreende que, para os profissionais que a atendem no serviço de urgência e emergência, não é simples atuar fora do protocolo, mas reivindica que ao menos o laudo que apresenta nessas situações seja validado. “Continuo ainda passando por essas situações e quando recebo indicação de ir a algum outro especialista continuo escutando: ‘Esses diagnósticos são difíceis, raros, mas você também deve ser muito ansiosa, né? Isso deve contribuir para os seus sintomas’”, relata. 

A médica de família e comunidade Maitê Dahdal afirma que muitos pacientes chegam a seu consultório com os mesmos receios enfrentados por Pricila: “O paciente muitas vezes já vem machucado, já vem armado em uma nova consulta, por conta dessas experiências prévias bem ruins”. E diz se basear em uma premissa empática que deveria ser basilar para qualquer profissional de saúde, que lida com a vida das pessoas: “O paciente é o especialista em si. Ele é quem sabe o que acontece com ele. Eu sou apenas especialista em saúde e preciso unir o meu conhecimento com a vivência e a experiência dele para chegar em alguma conclusão”, afirma.

O que leva ao gaslighting médico?

Na visão de Beatriz, alguns fatores combinados ajudam a explicar esse fenômeno: “Primeiro, existe uma tendência na prática médica de, quando o paciente não se encaixa em diagnósticos estatisticamente mais comuns, deve-se recorrer ao diagnóstico psicológico ou psiquiátrico como último recurso — muitas vezes, sem a devida investigação ou encaminhamento cuidadoso”, expõe. 

Pricila diz entender que doenças raras ou pouco conhecidas, como no seu caso, são difíceis de serem descobertas, mas que na sua percepção muitos médicos lidam com elas como se não existissem. E confirma que a empatia pode ser muito mais importante até mesmo do que um diagnóstico: “Para mim, o problema não é a pessoa desconhecer a síndrome, até por ser uma condição rara. Mas em vez de afirmar ‘Não tenho conhecimento suficiente sobre essa síndrome, vamos procurar um especialista’, eles não acreditavam naquilo que eu estava falando, diminuíam os meus sintomas e sempre diziam que poderia ser algo emocional”.

Um comportamento observado por ela em diferentes especialidades: “Quaisquer médicos que eu fosse, seja nutrólogo, angiologista, gastro, endocrinologista, não sabiam e nem conseguiam entender o que eu tinha e automaticamente já taxavam como ansiedade, estresse, ou então eles mesmos me receitavam algo”. Ela questiona essa conduta: “Não sei nem se poderiam ter feito isso, porque não era a especialidade deles”, adverte. Para sua sorte, diz nunca ter feito uso desses medicamentos por ter clareza de que aquilo que sentia era algo físico e não emocional.

Beatriz Madaleno desvela a psicofobia expressa nessas atitudes e afirma que quando o paciente é rotulado com um diagnóstico psiquiátrico de forma apressada ou sem critérios há um esvaziamento da legitimidade de seu sofrimento, seja ele físico ou mental. “Como se um sintoma psicológico fosse menos real, menos urgente ou menos digno de atenção”, critica. “Acho que falta o olhar para o todo e escutar realmente o paciente, validar tudo o que ele está dizendo”, emenda Pricila.

Maitê explica que, mais uma vez, as maiores vítimas dessas circunstâncias são as mulheres, geralmente sob pretexto de sua condição biológica: “É muito comum que os médicos digam ser coisa da nossa cabeça. Ou então que reduzam e atribuam as queixas de mulheres a questões hormonais, relacionadas ao ciclo menstrual, sem que haja uma investigação”. E prossegue: “E ainda que sim, pode haver relação das queixas com ciclo menstrual, pode ser coisa da nossa cabeça, mas o médico precisa escutar, precisa dar segurança a esse paciente, precisa estar do lado dele”, pontua.

Como corrigir esse problema?

Para as entrevistadas ouvidas por Radis, é preciso quebrar o tabu e falar abertamente sobre o tema. E isso envolve incluir a discussão ainda na graduação. “Na minha formação médica, que não é tão antiga assim [Maitê se formou em 2017], eu não tive nenhum tema relacionado a isso. Na minha residência, sim, já comecei a ter contato com algumas violências que podem ser praticadas pelos profissionais de saúde contra os pacientes”.

Maitê entende que a escuta ativa deve ser valorizada como ferramenta terapêutica. A seu ver, a primeira orientação que deveria ser fornecida aos médicos é que entendam o que o paciente está vivenciando com os sintomas reclamados: “O médico bom não é aquele que tem todas as respostas, mas o que sabe caminhar junto com o paciente na busca pelas respostas”, constata. No seu entendimento, é frustrante para um médico, responsável por tratar o sofrimento de um paciente, reconhecer que causa esse sofrimento.

“É preciso ensinar o que é gaslighting e ensinar a cuidar melhor. Tem que fazer parte do currículo. À medida que a gente entender que o gaslighting médico pode ser uma forma de violência e causar danos, a gente não vai querer provocar isso”, reflete. Ainda segundo Maitê, é preciso romper a resistência com o tema por parte da classe médica e tratá-lo com naturalidade.

“Quando a gente traz esse conceito, parece que é uma acusação de que você está fazendo coisas erradas, beirando as situações criminais”, diz. “Mas a gente tem que entender que isso não é uma acusação. Quando falamos desse tema, é uma abertura para o diálogo, para reconhecermos as dinâmicas de poder que podem ser corrigidas, para otimizar a prática clínica”, conclui a médica.

Beatriz também compreende a importância de incluir o tema na grade curricular dos cursos de medicina, em treinamentos de atualização, formação contínua e workshops, “abordando o impacto emocional e psicológico dessa prática nas vítimas”. “A escuta ativa, a empatia e a comunicação não-violenta são ferramentas importantes para evitar o gaslighting médico. É preciso desenvolver uma cultura institucional que valorize o cuidado centrado na pessoa e incentive a troca de experiências entre equipes de saúde”, complementa.

A psicoterapeuta e psicanalista inclui outros aspectos além da formação profissional na medicina: “Estamos diante de uma questão de formação, cultura médica e estrutura de cuidado. Avançar nesse debate exige transformar não só o modo como se ensina medicina, mas também o modo como se escuta e se acolhe o paciente em sua complexidade”.

Para ela, é preciso também conscientizar os pacientes, para que possam identificar e reagir aos sinais de que estão sendo vítimas de uma conduta inadequada. “É essencial promover campanhas de conscientização e diálogo, grupos de apoio e palestras, para que esses pacientes possam reconhecer os sinais de gaslighting médico e buscar ajuda”. Beatriz defende ainda que a criação de redes de apoio e conscientização também é fundamental para que as pessoas possam compartilhar suas experiências e percebam que não estão sozinhas.

Na condição de paciente muitas vezes invalidada em suas queixas, Pricila Vieira também apela em favor do aprimoramento dos profissionais de saúde. “Faz toda diferença validar o que a pessoa está dizendo e não achar que ela está simplesmente exagerando. Ninguém quer estar doente, ninguém quer sentir dor. Qual é o benefício de estar inventando aquilo? Não faz sentido”, argumenta.

Como se prevenir do gaslighting médico?

E quando um paciente pode desconfiar que está sendo vítima de gaslighting médico em uma consulta? Maitê ajuda a responder: “Isso ocorre quando o médico não te escuta ou fica te interrompendo, quando ele diminui seus sintomas ou os atribui a sua orientação sexual, seus hábitos de vida, peso, gênero ou idade sem uma escuta qualificada. Ou quando diz que os seus problemas são por conta de ansiedade, de depressão, de estresse, mas também sem essa escuta atenta”.

Ainda segundo ela, o paciente também pode suspeitar que está sendo vítima de gaslighting médico quando sai da consulta se sentindo culpado ou descredibilizado. “Às vezes o paciente chega a sentir vergonha de ter procurado ajuda médica, pela forma como foi atendido, já que era ‘algo tão simples’, falando ironicamente”, relata.

Beatriz também orienta os pacientes nesse sentido. A educadora parental e consultora em patient experience design lista três medidas que podem ajudar: anotar com detalhes todos os sintomas, ir às consultas com alguém de sua confiança e sentir-se no direito de buscar outra opinião médica. E indica canais de suporte ou denúncia para casos em que o paciente se sinta descredibilizado e prejudicado por essa má conduta médica.

“É possível procurar apoio em ouvidorias das instituições de saúde, conselhos profissionais (como o CRM) e defensores públicos. Algumas ONGs, coletivos de pacientes e redes de apoio em doenças crônicas também oferecem suporte jurídico e emocional”, aconselha. Para ela, é imprescindível que o paciente saiba que tem direito a um cuidado digno, escuta qualificada e respeito nas consultas médicas. “O cuidado em saúde deve ser uma via de diálogo e nunca de silenciamento”, ressalta.

A culpa não é só dos médicos

A médica de família e comunidade e educadora médica Maitê Dahdal foi crítica em relação ao comportamento de alguns profissionais que invalidam relatos e queixas de seus pacientes. Mas ela também ressalta que outros fatores podem influenciar nesse tipo de atitude: “O gaslighting médico é também uma das faces de um sistema que opera com muitas desigualdades. A gente trouxe muita culpa para o médico, mas também é uma culpa estrutural dos serviços de saúde, que por vezes nos violentam”, aponta. 

Ela destaca que, nessa perspectiva, o médico não é só um vilão. “Ele também pode ser vítima. E quando é vilão, não é necessariamente porque está querendo ser uma pessoa má, muitas vezes isso vem de forma inconsciente e só vamos conseguir trazer para a consciência se falarmos sobre isso”, reafirma.

Saiba mais

Leia também em outras edições de Radis:

* A dificuldade das pessoas que vivem com síndromes e doenças raras para obtenção de diagnósticos: Radis 149 (fevereiro de 2015) 

* Disautonomia ainda é tabu e pouco conhecida pela medicina: Radis 248 (maio de 2023).

Definição

Gaslighting médico: ocorre quando há uma negação sistemática da experiência da outra pessoa, por meio de invalidação, descrédito ou minimização dos relatos e das experiências do paciente por parte de profissionais médicos.

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