Quando uma pessoa se forma como profissional de saúde, como continua atualizando o conhecimento para atuar em um cenário cada vez mais complexo? Que a saúde vive em constante evolução não é segredo para ninguém: todos os dias são lançados novos estudos, vacinas, medicamentos, protocolos. Enquanto doenças são erradicadas, outras surgem e exigem a busca por formas de tratamento e cuidado.
O médico sanitarista Francisco Campos conta que quando nasceu, em 1951, na cidade de Pompéu — Centro-oeste de Minas Gerais —, quem se formava médico só precisava do diploma para clinicar pelo resto de sua vida. “A pessoa tinha quatro livros de clínica médica e passava a vida inteira sem ter nenhum curso”, relata. Ele foi um dos idealizadores da plataforma Universidade Aberta do Sistema Único de Saúde (UNA-SUS) e o responsável pela sua implantação em 2010, por iniciativa do Ministério da Saúde.
O sistema surge para atender às necessidades de capacitação permanente dos profissionais de saúde, com cursos gratuitos e na modalidade de educação à distância. Francisco, que foi secretário executivo da iniciativa entre 2011 e 2017, explica que a UNA-SUS se torna necessária com o avanço da obsolescência do estudo em saúde, uma vez que anos atrás a substituição do conhecimento era mais lenta.
Francisco lembra que um profissional de saúde com cerca de 40 anos de carreira passa apenas os primeiros seis — ou, no máximo, dez, caso faça residência — dentro de instituições acadêmicas. “Quem forma essa pessoa depois? Como ela busca conhecimento?”.
Quinze anos após sua criação, Radis conversou com alunos e gestores da plataforma UNA-SUS para entender como o ensino a distância pode ser uma ferramenta de fortalecimento da saúde pública.

“Mudou minha carreira”
Hoje, Itamar Carneiro, psicólogo, mestre e doutorando em Saúde Coletiva pelo Instituto René Rachou (Fiocruz Minas), diz que a UNA-SUS mudou sua carreira. Ele conheceu o portal em 2012, ainda na graduação, quando participou do Projeto Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde (VER-SUS) e começou a acessá-lo logo após se formar, em 2014, para buscar processos formativos que alinhavam o saber e a prática. “A minha formação em Psicologia tem um currículo muito direcionado ao atendimento clínico e individual, e os cursos da UNA-SUS me trouxeram um olhar crítico e territorial alinhado com as atuais necessidades da sociedade”, explica.
Desde então, o psicólogo já realizou cursos sobre Prevenção do Suicídio, Eventos Agudos em Saúde Mental, Dinâmica da Violência no Contexto Familiar, entre outros que deram suporte à sua atuação na atenção primária. Atualmente, Itamar trabalha na Policlínica Municipal de Alagoinhas, na Bahia, atendendo homens que estão em conflito com a lei por terem sido autores de violência contra mulheres, com foco na saúde integral dessas pessoas.
“Abriu um portal para fortalecer as minhas intervenções”, conta Itamar. Ele cita como os referenciais e os estudos de casos utilizados nas aulas se aproximam da realidade da prática do atendimento: “Eu penso que a UNA-SUS é o futuro da formação profissional dos técnicos da saúde no Brasil”, avalia.
A história de Itamar se soma a de mais de 2 milhões de usuários cadastrados na Plataforma Arouca da UNA-SUS. Dentre eles, a de Anália Ciríaco, natural de Cascavel, no Ceará. Agente Comunitária de Saúde (ACS) há 15 anos, sua trajetória na saúde começou de forma inesperada ao passar em uma seleção para o trabalho, apesar de sempre ter tido influência das tias que são técnicas de enfermagem.
O sanitarista Francisco Campos explica que levar as qualificações em saúde da família a todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) exigiria um investimento muito alto do Estado e anos de preparação até que formadores fossem capacitados e chegassem aos territórios. Nesse contexto, o portal da UNA-SUS surge como uma alternativa mais ágil e flexível para ampliar o acesso à formação.
“Os cursos da UNA-SUS foram verdadeiros divisores de água na minha carreira”, declara Anália. Quando se tornou ACS, tudo a que teve acesso foi um curso básico dado pela prefeitura. Já em campo, ela começou a perceber o quão complexo é trabalhar com a Estratégia Saúde da Família (ESF) e se sentia insegura durante as visitas. “Sempre senti falta de capacitações que me preparassem para lidar com os problemas da comunidade, e a plataforma supriu essa necessidade”, afirma.
Anália explica que a UNA-SUS supriu suas lacunas de conhecimento. Hoje, ela já finalizou 31 cursos e tem mais 13 em processo de conclusão. “Com cursos voltados à saúde da mulher, do homem, gestantes e crianças, encontrei um leque de opções que me auxilia até hoje durante as visitas domiciliares, aprimorando minha prática profissional e o atendimento aos usuários do SUS”, relata.
Sobre a modalidade de educação a distância, Anália diz que se adaptou muito bem por ter “disciplina”. “Vivemos em um mundo tecnológico e sem tempo”, afirma sobre como essa modalidade torna o conhecimento mais acessível e, ao mesmo tempo, garante acesso mais flexível para quem não pode parar de trabalhar.
“A tecnologia permite que comunidades distantes, como na Amazônia, tenham acesso a informações e cuidados de saúde essenciais. O ACS sempre foi a ‘ponte’ entre a comunidade e o serviço de saúde. Com a tecnologia, essa ponte se torna ainda mais ampla, conectando pessoas e potencializando o cuidado”, afirma Anália. Segundo ela, o que hoje é novidade, futuramente será rotina, tornando-se natural e cotidiano, desde que haja democratização do conhecimento.
Hoje, a UNA-SUS é a maior plataforma de educação a distância pública do mundo, segundo Francisco Campos. Ele cita as plataformas internacionais particulares que são as maiores atualmente, como: The Open University [A Universidade Aberta]; edX [educação online/aberta] de Harvard; edX do MIT [Instituto de Tecnologia de Massachusetts]; ou Coursera. “Mas pública é a maior que existe nesse momento”, declara, orgulhoso.

O desafio da Atenção Básica
Francisco Campos era secretário de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, durante a gestão de José Gomes Temporão, na época da criação da UNA-SUS, instituída pelo decreto nº 7.385, de 8 de dezembro de 2010. Existiam 35 mil equipes da Estratégia Saúde na Família no país, segundo o sanitarista, sendo apenas 10% dos profissionais capacitados ou habilitados nessa especialidade.
“Nós não tínhamos tempo para fazer isso via residência médica”, relata. Francisco faz uma conta que indica que existiam pelo menos 30 mil médicos, 30 mil enfermeiros e cerca de 10 mil dentistas sem saber fazer saúde da família, um contingente de mais de 70 mil profissionais, fora os agentes comunitários. “Você não podia falar o seguinte: ‘Para tudo agora! Ninguém vem mais consultar, [porque] nós mandaremos todo mundo para a residência e daqui a dois anos os pacientes voltam’”, ressalta.
Nessa mesma época, as universidades ofertavam vagas de especialização para turmas de 30 a 60 pessoas. Francisco volta a fazer contas: nesse ritmo, seriam necessários 160 anos para capacitar somente os 30 mil médicos da atenção primária. “Daqui a 160 anos, provavelmente alguma dessas pessoas já teria morrido”, ironiza.
Ele relembra o papel que teve a entrada das universidades parceiras no projeto da UNA-SUS. “O nosso argumento, como Ministério da Saúde, era o seguinte: se não for em mil [vagas], eu não chego lá nos 30 mil”, relata Francisco. As dez primeiras universidades que entraram na plataforma precisaram tanto aderir à modalidade de educação a distância — em uma época em que poucas tinham essa estrutura ou tecnologia — quanto aumentar as vagas das especializações para números muito maiores, sem perder a qualidade do ensino ofertado.
Francisco brinca que, em 2010, muitos viram esse projeto com espanto. Hoje, são mais de 30 universidades parceiras e milhares de recursos publicados. Das mais de 11 milhões de matrículas nos cursos, metade dos alunos veio da atenção básica.

Rede UNA-SUS
A Rede Universidade Aberta do SUS reúne 35 instituições públicas de ensino superior conveniadas aos ministérios da Saúde e da Educação para ofertar educação à distância. Essa articulação amplia o compartilhamento de recursos educacionais (vídeos, textos, áudios e outros materiais) que podem ser reutilizados e adaptados pelas instituições. Assim, a Rede mantém um fluxo contínuo de produção e troca de conhecimento, atendendo diferentes contextos e públicos.
Ares
O Acervo de Recursos Educacionais em Saúde (Ares) é uma plataforma digital pública que reúne materiais produzidos pela Rede UNA-SUS para apoiar a formação de trabalhadores da saúde. Com conteúdo em diversos formatos (textos, vídeos e materiais multimídia), o acervo é colaborativo e permite livre uso e reutilização dos recursos. Todo o material é elaborado por instituições e especialistas da área e passa por validação do Ministério da Saúde.
Arouca
Com o nome em homenagem ao médico sanitarista Sergio Arouca (1941-2003), a Plataforma Arouca é o sistema que reúne o histórico educacional e profissional dos trabalhadores da saúde na UNA-SUS, funcionando como um cadastro único. Com o mesmo login, o usuário acessa todos os cursos disponíveis, verifica automaticamente requisitos de matrícula e encontra formações específicas para sua profissão, além de consultar certificados já obtidos. A plataforma organiza as ofertas por região, tema e interesse, facilitando a busca e o acompanhamento do percurso formativo. Para gestores, serve como ferramenta de planejamento, monitoramento e avaliação das ações educacionais.
UNA-SUS em números
- 11 milhões de matrículas
- 35 instituições de ensino superior
- Mais de 550 cursos
- 50% dos profissionais capacitados são da atenção básica
- Mais de 50 mil médicos capacitados
- 2 milhões de usuários cadastrados
- 24 mil recursos publicados no Ares
- Plataforma disponível em qualquer município brasileiro com cobertura de internet
Maior plataforma de educação à distância pública do mundo
Fonte: UNA-SUS



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