A primeira e última vez que vi Allane de Souza Pedrotti Matos, 41, pedagoga assassinada por um colega de trabalho no Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet-RJ), foi em setembro de 2025, numa quarta-feira, no Clube Renascença no Rio de Janeiro. A ocasião era de comemoração para mim e para as novas e os novos concursados da Fiocruz. Após um dia de atividades de integração, resolvemos visitar um dos templos do samba na capital fluminense. Aquela mulher talentosa me chamou atenção numa roda com 17 músicos, todos homens. Ela cantava e tocava tamborim.
Em certo momento, duas senhoras começaram a dançar empolgadas, ao lado da cantora. Estavam em um dos tantos aniversários que eram comemorados no espaço. O meu havia sido no dia anterior. Olhei para as senhorinhas desejando um dia ser como elas. Abri um sorriso achando tudo aquilo bonito, quando percebi que Allane também parecia comungar daquele desejo. Nós nos olhamos, admiramos aquelas duas mulheres, sorrimos uma para a outra. E nunca mais a vi. Nunca mais a verei. Nunca mais ela poderá chegar àquela idade cantando numa roda de samba, porque foi vítima de feminicídio.

Allane era doutora em Letras — Estudos da Linguagem pela PUC-RJ e coordenadora da equipe pedagógica e acadêmica da Direção de Ensino do Cefet-RJ, no bairro do Maracanã. Deixou uma filha de 13 anos. Sua colega, Layse Costa Pinheiro, também assassinada, era psicóloga da instituição e pós-graduada em gestão de pessoas. Mortas por João Antônio Miranda Tello Gonçalves, de 47 anos, um servidor que na tarde de 28 de novembro entrou armado na sala da direção, tirou a vida das colegas com tiros na cabeça e depois se matou. As circunstâncias do crime ainda estão sendo investigadas.
“Os feminicídios são motivados por misoginia e por uma cultura patriarcal e machista ainda presente em nossa sociedade, que perpetua a ideia de superioridade e poder masculino sobre a vida das mulheres”, afirma à Radis Camila Bahia, pesquisadora do Departamento de Estudos sobre Violência e Saúde Jorge Careli (Claves/Ensp/Fiocruz).
A enfermeira, doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), lembra os dados do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado em 2025: 97% das vítimas de feminicídio no Brasil foram assassinadas por homens. Dentre os casos de estupro de vulnerável, mais de 87% das vítimas são do sexo feminino. Os dados também mostram que oito em cada dez mulheres foram mortas por um companheiro ou ex-companheiro. Ou seja, o perigo está próximo e costuma vir de pessoas em quem as mulheres costumam confiar.
Camila faz uma consideração importante: “Do total de homicídios de mulheres registrados pela saúde em 2023, 68,2% foram de mulheres negras”. Naquele mesmo ano, segundo o Atlas da Violência, foram contabilizados 2.662 homicídios de mulheres negras e 1.202 de mulheres não-negras.
A pesquisadora reforça que, muitas vezes, antes de morrerem, as mulheres vivenciam diferentes violências não-letais, como violência física, sexual, psicológica, patrimonial, política e digital (que inclui o compartilhamento sem consentimento de imagens íntimas, assédio online, entre outros). Dados da ONU mostram que uma em cada três mulheres já vivenciou alguma violência de gênero em sua vida.
Estados que mais mataram mulheres em 2024
São Paulo: 253 casos
Minas Gerais: 163 casos
Bahia: 111 casos
Taxa de feminicídios por 100 mil habitantes
Mato Grosso: 2,5
Mato Grosso do Sul: 2,4
Piauí: 2,3
Taxa brasileira é de 1,4 mortes por 100 mil mulheres
Em 2024, o Brasil registrou 1.492 casos de feminicídios, um recorde desde 2015, quando o crime foi tipificado por lei sancionada pela ex-presidente Dilma Rousseff, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Allane, segundo sua irmã Alline Pedrotti contou em entrevista à GloboNews (2/12), vivia assustada, temendo pela sua vida e da filha, desde início de 2024. Para Alline houve negligência do médico que fez o laudo autorizando o retorno de João ao trabalho e da diretoria da instituição de ensino que não levou a sério os relatos que Allane e outras mulheres fizeram, já que o agressor assediava as colegas sexual e moralmente. “Como ele entrou armado no Cefet? Ele carregava uma mochila cheia de balas. Ele poderia ter matado muito mais gente”, questiona. O agressor tinha arma, porque era colecionador, atirador desportivo e caçador (CAC).
Allane desenvolveu depressão e tentou trabalhar mais de casa para evitar o contato com ele. João também não aceitava ter sido afastado do cargo por 120 dias por questões de saúde mental. O Instituto tentou realocá-lo em outros setores, mas ele não aceitou e nenhuma outra conduta preventiva foi realizada.
Brutalidade em São Paulo
Na manhã do dia 29 de novembro, menos de 24 horas após o duplo feminicídio no Rio de Janeiro, outro crime brutal voltou a chocar o país. Após um desentendimento com Douglas Alves da Silva, na saída de um bar na Zona Norte de São Paulo, a jovem Tainara Souza, de 31 anos, foi atropelada e cruelmente arrastada por mais de um quilômetro pela Marginal Tietê. Socorrida em estado gravíssimo, mas ainda com vida após tamanha brutalidade, Tainara precisou amputar as duas pernas e passou por várias outras cirurgias até vir a óbito 25 dias depois, na véspera de Natal. Douglas está preso desde o dia seguinte ao crime. Tainara deixa duas crianças órfãs de mãe: um menino de 12 anos e uma menina de 7.
Prevenção na atenção primária
Camila reforça a importância dos profissionais de saúde na prevenção do feminicídio: “São profissionais que estão em posição estratégica para identificar casos de violência doméstica, pois as mulheres são as principais usuárias de serviços de saúde e mesmo que elas não revelem que estão em situação de violência, tendem a acessar mais esses serviços”, explica.
No caso da atenção primária à saúde (APS), ela se torna mais estratégica para a identificação das violências, por ser porta de entrada do SUS e pela proximidade com o território. Por meio de ações de prevenção, como vacinação e exame preventivo do câncer de colo do útero, a equipe de saúde pode se aproximar das vítimas e intervir de alguma forma.
“Existe a notificação dos casos via ficha de notificação de violência interpessoal e autoprovocada, na qual devem ser registrados qualquer caso suspeito ou confirmado de violência contra a mulher, sendo essa notificação sigilosa e compulsória para todos os profissionais de saúde dos serviços públicos ou privados”, recomenda a enfermeira.
Esse registro de informação auxilia os gestores a compreenderem a magnitude da violência em nível local e a direcionar ações mais eficazes para o enfrentamento desse problema.
Outros casos de feminicídio no Brasil
(somente entre novembro e o começo de dezembro de 2025)
Em memória de:
Catarina Kasten | Yngrid Sousa de Jesus | Maria de Lourdes Freire Matos | Elida do Nascimento Silva | Allane de Souza Pedrotti Mattos | Layse Costa Pinheiro | Lais Oliveira Gomes Pereira | Marineusa dos Santos Leite | Amanda dos Santos Souza | Evelyn de Souza Saraiva | Maria Katiane Gomes da Silva | Rhianna Alves | Juliana da Silva Dias | Adina Taline Silva | Valdeci Ferreira da Silva | Andreza Silva Ferreira | Maria Graciele dos Santos | Gessica do Nascimento Reis | Priscila Carla Pimentel | Fabiana Cruz Amorim | Fernanda Nenuncio | Daniele Guedes Antunes | Angelica Alves Camargo | Ana Paula Goulart | Carolina Tucunduva | Jéssica Pereira Silva | Indianara Rodrigues da Silva | Maysa Rodrigues Fernandes | Ilda Alves de Paula | Magna Fernandes de Souza Teodoro | Milena de Silva Lima | Marilza Machado de Oliveira | Angela Nayhara Guimarães Gurgel | Ellen Fernandes Duarte Santos | Tainara Souza Santos
- Apuração realizada pela repórter Lara Souza (Radis)






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